Além
do futebol: como o verde e amarelo se tornou ‘símbolo flutuante’ da política
brasileira
A
camisa amarela da Seleção Brasileira, reconhecida e mundialmente respeitada no
futebol, atravessa um momento de redefinição de seu papel no imaginário
brasileiro. O que há algum tempo era o manto inquestionável da unidade
nacional, vestida das periferias aos centros urbanos, tornou-se, na última
década, o epicentro de uma disputa de narrativas sobre o que significa o
principal símbolo representativo do Brasil no esporte mais popular do país.
Para
entender esse fenômeno, é preciso mergulhar nas camadas históricas que o
professor e historiador Flávio de Campos decodifica com precisão. Segundo ele,
o nascimento da “amarelinha” não foi um ato de glória, mas uma resposta a um
trauma profundo: a derrota de 1950 para o Uruguai, no Maracanã.
De
acordo com o historiador, a substituição do uniforme branco pelo amarelo,
consolidado em 1954 e vitorioso em 1958, funcionou como um amuleto, um
mecanismo de superstição para exorcizar o fantasma do “Maracanaço”.
No
entanto, a história das cores nacionais antecede o futebol. Conforme Flávio de
Campos, o verde e amarelo já ocupavam o centro do debate sobre a identidade do
país na década de 1920. O historiador aponta que, no centenário da
Independência, os modernistas protagonizaram uma disputa ideológica entre o
Movimento Pau-Brasil e o Movimento Verde-Amarelismo.
Segundo
o professor, este último não era uma simples celebração folclórica, mas um
projeto de direita e conservador que visava pautar a identidade brasileira a
partir de uma ótica autoritária. Mas o surgimento da camisa verde e amarela,
somado às conquistas da seleção do Pelé, apresentou o Brasil ao mundo como um
país multicultural, com negros e brancos apresentando um futebol de excelência.
Essa
carga histórica em cima da camisa amarelinha, que Flávio classifica como um
“símbolo flutuante”, um operador cultural potente que pode ser capturado por
diferentes ideologias, foi explorada durante a ditadura militar. O regime,
segundo o historiador, “surfou” na euforia do tricampeonato de 1970, colando
slogans ufanistas à imagem da seleção.
Para o
professor, a apropriação foi eficaz porque misturou o sucesso esportivo, que
encantava o mundo, à propaganda estatal que encobria o racismo estrutural e as
desigualdades sociais, promovendo uma “ilusão de inclusão” por meio da imagem
de um Brasil multicultural e vitorioso.
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A camisa em resistência
Apesar
desse histórico, o símbolo nunca foi estático. Flávio de Campos destaca que, em
1984, durante a campanha das “Diretas Já”, o amarelo foi resgatado pelas forças
populares e de esquerda como uma cor de esperança e oposição à ditadura.
Essa
pluralidade de sentidos reflete o que pensam torcedores como Vanessa Santos,
professora de educação física de 42 anos. Em visita ao Museu do Futebol, em São
Paulo, ela rejeita a exclusividade política da camisa. “Não acredito que a
nossa bandeira seja a representação, por meio da nossa camisa, de um viés
político. O que importa é o amor ao nosso Brasil”, afirma Vanessa.
Para a
professora da rede de educação de Santana de Parnaíba, na região metropolitana
de São Paulo, a apropriação por grupos políticos causa uma divisão da qual ela
discorda, defendendo que a vestimenta “pertence ao conjunto da nação”.
O
servidor público Fred Nachef, 66 anos, compartilha desse sentimento de que o
símbolo deve ser retomado. Ao visitar o museu com a filha, o morador de
Salvador lamenta o que considera o “sequestro” do manto. “Eu não concordo que a
camisa seja usada como símbolo político, não importa de que lado seja. A camisa
é para todos vestirem, torcerem pelo país”, pontua.
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O sequestro da direita
A
disputa pela camisa amarela ganhou contornos mais agudos a partir de 2013.
Segundo Flávio de Campos, as Jornadas de Junho daquele ano representaram um
ponto de inflexão na política brasileira. O professor explica que “a reação
contra a lógica dos megaeventos esportivos e a influência do grande capital na
organização das cidades abriu espaço para que grupos conservadores se
apropriassem do verde e amarelo em uma chave conservadora”.
Segundo
o historiador, o uso do símbolo se intensificou em 2014, quando a campanha de
Aécio Neves convocou seus eleitores a comparecerem às urnas, no segundo turno,
trajando a camisa da Seleção. O efeito foi imediato e visualmente poderoso,
consolidando a peça como um uniforme da oposição ao governo Dilma, prática que
se estendeu pelos acampamentos golpistas na Avenida Paulista e, posteriormente,
na apropriação quase total feita pelo bolsonarismo em 2018.
Apesar
desse histórico, Flávio de Campos é enfático ao negar a ideia de que a esquerda
deveria abandonar o símbolo. Para o professor, a “amarelinha” continua sendo um
patrimônio da sociedade brasileira e, como um “símbolo flutuante”, deve ser
disputada constantemente.
O
historiador acredita que ceder o uniforme à extrema-direita é um erro tático,
uma vez que o futebol e suas cores possuem uma força simbólica maior do que
qualquer corrente política específica.
O
professor defende que é essencial que figuras políticas do campo democrático
apareçam com a camisa em momentos como a Copa do Mundo. Segundo ele, apenas por
meio dessa retomada e de um enfrentamento sério, por vezes usando o humor e a
ridicularização contra o fanatismo, é que se conseguirá diminuir resistências
em setores da população que ainda estão em disputa, garantindo que o símbolo
retorne ao seu propósito original de representar o conjunto dos brasileiros.
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Exposição no Museu do Futebol
O Museu
do Futebol, ao lançar a exposição “Amarelinha”, busca exatamente situar o
torcedor nesse turbilhão de significados. Segundo o jornalista e curador
Marcelo Duarte, o objetivo da mostra é trazer a história para o centro da mesa,
tratando a camisa como um patrimônio que, apesar dos conflitos, permanece vivo.
Para
Duarte, a exposição não se resume a um arquivo estático. O curador defende que,
ao exibir as diferentes facetas da camisa — desde os ídolos do passado até
jogadores que ainda são esperanças do hexa —, o museu oferece ao visitante o
instrumental necessário para compreender as complexidades da camisa verde e
amarela.
Em um
momento de acirramentos políticos intensos, Duarte traz uma perspectiva
otimista e inovadora sobre o debate. Na visão do curador, a discussão sobre a
politização da camisa amarela pode estar atingindo um patamar de exaustão,
permitindo, enfim, que o torcedor a enxergue novamente como um objeto de
esporte e memória.
Duarte
vai além e acredita, no entanto, que o horizonte dos debates mudou. O
jornalista avalia que o foco atual já não é apenas a disputa pela camisa
amarela, mas a possibilidade de novas discussões no futebol, como o possível
uso da camisa vermelha pelos goleiros da Seleção.
A
exposição “Amarelinha” está no Museu do Futebol, localizado no Estádio do
Pacaembu, em São Paulo, até o dia 7 de setembro. O espaço convida o público a
uma imersão que vai muito além das quatro linhas. Segundo o curador, “a mostra
é um organismo vivo, acompanhando o tempo presente”.
Em uma
aposta confiante na seleção brasileira, a equipe responsável pela exposição fez
uma promessa aos visitantes: caso o Brasil conquiste o hexacampeonato, a
exposição será atualizada, encerrando o ciclo com a inclusão de pelo menos uma
camisa do time do campeão do mundo entre as peças históricas expostas.
Para
quem deseja visitar, o Museu do Futebol funciona de terça a domingo, das 9h às
18h, com a bilheteria permitindo a entrada até as 17h. Os ingressos custam R$
24,00 (inteira) e R$ 12,00 (meia-entrada), sendo que crianças de até 7 anos não
pagam.
Às
terças-feiras, a entrada é gratuita para todos os públicos. O museu oferece uma
estrutura acessível e é uma oportunidade para refletir sobre como o esporte se
entrelaça com a identidade social do país. É recomendável que os visitantes
consultem o site oficial do Museu do Futebol para checar possíveis alterações
de horários em dias de jogos ou eventos especiais no Pacaembu.
• Futebol: uma prática que nasceu na
escola. Por Raphael Fagundes
Há
muitas histórias sobre as origens do futebol. Segundo uma lenda, entre 2000 e
1500 a. C., na China Antiga, guerreiros chutavam o crânio de um inimigo
procurando fazê-lo ultrapassar duas estacas de bambu fincadas no chão. Sabe-se,
também, que na América Central se jogava o tlachtli. O ritual exigia que o
capitão do time perdedor fosse sacrificado. Na Grécia Antiga se jogava
epyskiros, com uma bola recheada de ar e areia. E para aperfeiçoar os soldados
romanos na sua capacidade atlética, era jogado o harpastrum. Já na Itália do
século XVI, jogava-se o cálcio, que segundo o historiador Hilário Franco Jr.,
“um contemporâneo estimou em 40 mil o número de espectadores. Leonardo da
Vinci, parece, fazia parte desses torcedores, enquanto Nicolau Maquiavel, dos jogadores”.
Mas o
futebol moderno começou, de fato, nas escolas de elite da Inglaterra. Eric
Dunning afirma que no início dessa prática esportiva havia o “culto dos jogos
nas escolas públicas”. Esse culto valorizava o espírito amador, o divertimento,
e possuía a finalidade pedagógica de preparar os futuros dirigentes da nação.
Um caminho para se promover distinção, não por critérios acadêmicos – não muito
úteis para os filhos das elites -, mas por critérios desportivos.
O
futebol profissional, que atraía multidões e despertava o imaginário da classe
trabalhadora ao alimentar o sonho do estrelato, era relegado a um plano
secundário nos primeiros estágios de consolidação dessa modalidade esportiva.
Para preservar a supremacia do amadorismo, evitava-se a participação em
determinadas competições, de modo que as equipes da elite não corressem o risco
de serem derrotadas por clubes profissionais.
Como
observa Dunning, havia, contudo, algumas exceções, como o Corinthians, “uma
equipe amadora, formada nos finais do século XIX, e recrutada nas escolas
públicas e nas Universidades de Oxford e de Cambridge, que conseguiu manter-se,
durante algum tempo, em competição com os profissionais”. Para o autor, essas
equipes representavam a “exceção sintomática” à tendência geral de
exclusividade da elite das escolas públicas, constituindo-se deliberadamente
como uma resposta ao sucesso crescente das equipes profissionais e como um meio
de celebrar e preservar o valorizado ideal amador”.
As
primeiras regras do futebol começaram nas escolas públicas entre 1845 e 1862.
Mas cabe lembrar que se tratava de uma prática excludente e tinha como padrão
“disputas finais contra antagonistas considerados à altura em termos sociais”.
Eric Hobsbawm mostra “que nos Estados Unidos as universidades de elite (a “Ivy
League”) definiam-se, pelo menos no nordeste dominante, pela seleção de
faculdades que preferiam disputar campeonatos de futebol, naquele país um
esporte basicamente universitário à origem”.
Alguns
atribuem ao Duque de Wellington, ainda na primeira metade do século XIX, a
seguinte frase: “A Batalha de Waterloo foi vencida nos campos de futebol de
Eton”. De acordo com o historiador Gilberto Agostino, “Wellington sabia que
jogar futebol em Eton, ou em qualquer outra escola inglesa da primeira metade
do século XIX, era antes de tudo uma prova de arrojo e rudeza tipicamente
masculina, quase que um rito de passagem”.
O
futebol chega às escolas brasileiras nos finais do século XIX. Alguns acreditam
que em 1881 foi criado, em Petrópolis, o Foot Rink Clube, através de “uma
iniciativa de alunos do Colégio Paixão”. Na Revista Brasileira, o dr. Márcio
Nery escrevia o artigo A educação das crianças no ponto de vista médico, que
sugeria o futebol como prática escolar. Enquanto José Veríssimo dizia que se
fosse inserido nas escolas brasileiras “jogos estrangeiros como o cricket, o
football, o lawntennis, a Cross, etc..”.
“Aparecendo
como os salvadores do vigor nacional, os esportes passavam, então, a contar com
entusiástico apoio de higienistas e educadores interessados no desenvolvimento
físico da nação”, explica o professor Leonardo Affonso de Miranda Pereira
acerca dos primeiros passos do futebol nos trópicos.
Sendo
assim, o futebol, nessa primeira fase, era “praticado em escolas e vizinhanças,
sem a presença ainda do componente mercantil”.
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O futebol sai da escola…
Mas
“com a profissionalização”, destaca Eric Hobsbawm, “a maior parte das figuras
filantrópicas e moralizadoras da elite nacional afastou-se, deixando a
administração dos clubes nas mãos de negociantes e outros dignitários locais,
que sustentaram uma curiosa caricatura das relações entre classes do
capitalismo industrial, como empregadores de uma força de trabalho
predominantemente operária, atraída para a indústria pelos altos salários, pela
oportunidade de ganhos extras antes da aposentadoria (partidas beneficentes),
mas, acima de tudo, pela oportunidade de prestígio”.
Fátima
Antunes afirma que a difusão do futebol “em meio operário levou empresários a
incentivarem a organização de clubes no interior das fábricas não apenas como
forma de diversão e lazer: essas agremiações, ao participarem de campeonatos
oficiais, divulgavam o nome das empresas e seus produtos”, como aconteceu com a
fábrica Bangu no Rio de Janeiro e com a Renner no Rio Grande do Sul.
Sendo
fruto da sociedade capitalista, o futebol vai seguindo o ritmo de
desenvolvimento de tal modo de produção. Acabou sendo apropriado pelos governos
autoritários no período entre guerras e meados da década 1970, com o objetivo
de forjar unidade e mobilizar as massas.
Em
1934, Getúlio Vargas colocava Luiz Aranha, irmão do ministro da Fazenda,
Oswaldo Aranha, como presidente da Confederação Brasileira do Desporto (CBD).
Simpático ao governo de Mussolini, dizia que o selecionado na copa da Itália
deveria mostrar-se “orgulhoso de sua própria raça”.
“Segundo
uma história muito citada”, explica o historiador Gilberto Agostino, “um pouco
antes do início do jogo [final da Copa de 38] um telegrama chegara à
concentração italiana enviado pelo próprio Mussolini. Sua mensagem tornou-se
bem conhecida: Vencer ou Morrer”. Em 1968, Costa e Silva recebe uma comissão da
Confederação Brasileira de Desportos, e manda um recado para a Copa que
ocorreria em dois anos: “Temos que ganhar a Copa de qualquer forma”. “O Brasil
não pode perder a Copa de 70. Temos de ganhá-la através da disciplina, de muito
treinamento, hierarquia e patriotismo”.
Mais
tarde, com o aumento do consumo proporcionado pelo Estado de Bem Estar social,
o futebol vai se transformando em um verdadeiro espetáculo. João Havelange,
como presidente da FIFA, consagrou o futebol como uma vitrine para as marcas.
Os valores – mais integrados ao neoliberalismo consolidado nos finais dos anos
1970 – disseminados pelo futebol passam a estar vinculados “cada vez mais ao
individualismo, narcisismo, consumo de itens descartáveis e culto aos ídolos”.
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O futebol retorna à escola
No
período de Copa as escolas se enfeitam em todo país. O título de uma reportagem
do O Globo estampa: Se não dá para competir com a Copa… Escolas transformam
febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos. Valores
fundamentais no capitalismo tardio, como gestão de finanças e orçamentos,
inteligência emocional etc. são trabalhados para formar o empreendedor de si.
A
espetacularização do esporte tem como objetivo formar consumidores prontos a
comprar os produtos apresentados pelos seus agentes: os ídolos. Além disso,
atualmente, as diversas atividades atreladas à Copa e ao mundo do futebol nas
escolas, no fim das contas, servem para produzir imagens que serão postadas nas
redes sociais das escolas e das prefeituras, úteis tanto para fomentar o
trabalho docente alienado quanto para as campanhas eleitorais. O objetivo não é
conscientizar o oprimido da sua condição, até porque, na sociedade espetacular,
“a alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado
da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele
contempla menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes
da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio
desejo”.
De sua
origem na escola adentra as fábricas para, em seguida, ser apropriado pelos
governos autoritários e, finalmente, integrado à sociedade neoliberal do
espetáculo, o futebol retorna à escola, com a mesma função das outras
mercadorias produzidas pela indústria cultural: a formação de um consumidor
disciplinado que acredita estar realizando os seus desejos, mas, na verdade,
está vivendo um mundo programado por outros que tem o intuito de manter a
lógica que promove a exclusão e a desigualdade social.
É
preciso sim trazer para a escola os elementos que a sociedade consome, porém,
não para fortalecer a lógica espetacular do consumo. É preciso refletir sobre a
função que esses objetos desempenham no cotidiano, fornecendo aos alunos
ferramentas adequadas para irem além das ilusões que o espetáculo promove. Essa
é a função da escola cidadã emancipadora.
Fonte:
Opera Mundi/Le Monde

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