quarta-feira, 1 de julho de 2026

Além do futebol: como o verde e amarelo se tornou ‘símbolo flutuante’ da política brasileira

A camisa amarela da Seleção Brasileira, reconhecida e mundialmente respeitada no futebol, atravessa um momento de redefinição de seu papel no imaginário brasileiro. O que há algum tempo era o manto inquestionável da unidade nacional, vestida das periferias aos centros urbanos, tornou-se, na última década, o epicentro de uma disputa de narrativas sobre o que significa o principal símbolo representativo do Brasil no esporte mais popular do país.

Para entender esse fenômeno, é preciso mergulhar nas camadas históricas que o professor e historiador Flávio de Campos decodifica com precisão. Segundo ele, o nascimento da “amarelinha” não foi um ato de glória, mas uma resposta a um trauma profundo: a derrota de 1950 para o Uruguai, no Maracanã.

De acordo com o historiador, a substituição do uniforme branco pelo amarelo, consolidado em 1954 e vitorioso em 1958, funcionou como um amuleto, um mecanismo de superstição para exorcizar o fantasma do “Maracanaço”.

No entanto, a história das cores nacionais antecede o futebol. Conforme Flávio de Campos, o verde e amarelo já ocupavam o centro do debate sobre a identidade do país na década de 1920. O historiador aponta que, no centenário da Independência, os modernistas protagonizaram uma disputa ideológica entre o Movimento Pau-Brasil e o Movimento Verde-Amarelismo.

Segundo o professor, este último não era uma simples celebração folclórica, mas um projeto de direita e conservador que visava pautar a identidade brasileira a partir de uma ótica autoritária. Mas o surgimento da camisa verde e amarela, somado às conquistas da seleção do Pelé, apresentou o Brasil ao mundo como um país multicultural, com negros e brancos apresentando um futebol de excelência.

Essa carga histórica em cima da camisa amarelinha, que Flávio classifica como um “símbolo flutuante”, um operador cultural potente que pode ser capturado por diferentes ideologias, foi explorada durante a ditadura militar. O regime, segundo o historiador, “surfou” na euforia do tricampeonato de 1970, colando slogans ufanistas à imagem da seleção.

Para o professor, a apropriação foi eficaz porque misturou o sucesso esportivo, que encantava o mundo, à propaganda estatal que encobria o racismo estrutural e as desigualdades sociais, promovendo uma “ilusão de inclusão” por meio da imagem de um Brasil multicultural e vitorioso.

<><> A camisa em resistência

Apesar desse histórico, o símbolo nunca foi estático. Flávio de Campos destaca que, em 1984, durante a campanha das “Diretas Já”, o amarelo foi resgatado pelas forças populares e de esquerda como uma cor de esperança e oposição à ditadura.

Essa pluralidade de sentidos reflete o que pensam torcedores como Vanessa Santos, professora de educação física de 42 anos. Em visita ao Museu do Futebol, em São Paulo, ela rejeita a exclusividade política da camisa. “Não acredito que a nossa bandeira seja a representação, por meio da nossa camisa, de um viés político. O que importa é o amor ao nosso Brasil”, afirma Vanessa.

Para a professora da rede de educação de Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo, a apropriação por grupos políticos causa uma divisão da qual ela discorda, defendendo que a vestimenta “pertence ao conjunto da nação”.

O servidor público Fred Nachef, 66 anos, compartilha desse sentimento de que o símbolo deve ser retomado. Ao visitar o museu com a filha, o morador de Salvador lamenta o que considera o “sequestro” do manto. “Eu não concordo que a camisa seja usada como símbolo político, não importa de que lado seja. A camisa é para todos vestirem, torcerem pelo país”, pontua.

<><> O sequestro da direita

A disputa pela camisa amarela ganhou contornos mais agudos a partir de 2013. Segundo Flávio de Campos, as Jornadas de Junho daquele ano representaram um ponto de inflexão na política brasileira. O professor explica que “a reação contra a lógica dos megaeventos esportivos e a influência do grande capital na organização das cidades abriu espaço para que grupos conservadores se apropriassem do verde e amarelo em uma chave conservadora”.

Segundo o historiador, o uso do símbolo se intensificou em 2014, quando a campanha de Aécio Neves convocou seus eleitores a comparecerem às urnas, no segundo turno, trajando a camisa da Seleção. O efeito foi imediato e visualmente poderoso, consolidando a peça como um uniforme da oposição ao governo Dilma, prática que se estendeu pelos acampamentos golpistas na Avenida Paulista e, posteriormente, na apropriação quase total feita pelo bolsonarismo em 2018.

Apesar desse histórico, Flávio de Campos é enfático ao negar a ideia de que a esquerda deveria abandonar o símbolo. Para o professor, a “amarelinha” continua sendo um patrimônio da sociedade brasileira e, como um “símbolo flutuante”, deve ser disputada constantemente.

O historiador acredita que ceder o uniforme à extrema-direita é um erro tático, uma vez que o futebol e suas cores possuem uma força simbólica maior do que qualquer corrente política específica.

O professor defende que é essencial que figuras políticas do campo democrático apareçam com a camisa em momentos como a Copa do Mundo. Segundo ele, apenas por meio dessa retomada e de um enfrentamento sério, por vezes usando o humor e a ridicularização contra o fanatismo, é que se conseguirá diminuir resistências em setores da população que ainda estão em disputa, garantindo que o símbolo retorne ao seu propósito original de representar o conjunto dos brasileiros.

<><> Exposição no Museu do Futebol

O Museu do Futebol, ao lançar a exposição “Amarelinha”, busca exatamente situar o torcedor nesse turbilhão de significados. Segundo o jornalista e curador Marcelo Duarte, o objetivo da mostra é trazer a história para o centro da mesa, tratando a camisa como um patrimônio que, apesar dos conflitos, permanece vivo.

Para Duarte, a exposição não se resume a um arquivo estático. O curador defende que, ao exibir as diferentes facetas da camisa — desde os ídolos do passado até jogadores que ainda são esperanças do hexa —, o museu oferece ao visitante o instrumental necessário para compreender as complexidades da camisa verde e amarela.

Em um momento de acirramentos políticos intensos, Duarte traz uma perspectiva otimista e inovadora sobre o debate. Na visão do curador, a discussão sobre a politização da camisa amarela pode estar atingindo um patamar de exaustão, permitindo, enfim, que o torcedor a enxergue novamente como um objeto de esporte e memória.

Duarte vai além e acredita, no entanto, que o horizonte dos debates mudou. O jornalista avalia que o foco atual já não é apenas a disputa pela camisa amarela, mas a possibilidade de novas discussões no futebol, como o possível uso da camisa vermelha pelos goleiros da Seleção.

A exposição “Amarelinha” está no Museu do Futebol, localizado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, até o dia 7 de setembro. O espaço convida o público a uma imersão que vai muito além das quatro linhas. Segundo o curador, “a mostra é um organismo vivo, acompanhando o tempo presente”.

Em uma aposta confiante na seleção brasileira, a equipe responsável pela exposição fez uma promessa aos visitantes: caso o Brasil conquiste o hexacampeonato, a exposição será atualizada, encerrando o ciclo com a inclusão de pelo menos uma camisa do time do campeão do mundo entre as peças históricas expostas.

Para quem deseja visitar, o Museu do Futebol funciona de terça a domingo, das 9h às 18h, com a bilheteria permitindo a entrada até as 17h. Os ingressos custam R$ 24,00 (inteira) e R$ 12,00 (meia-entrada), sendo que crianças de até 7 anos não pagam.

Às terças-feiras, a entrada é gratuita para todos os públicos. O museu oferece uma estrutura acessível e é uma oportunidade para refletir sobre como o esporte se entrelaça com a identidade social do país. É recomendável que os visitantes consultem o site oficial do Museu do Futebol para checar possíveis alterações de horários em dias de jogos ou eventos especiais no Pacaembu.

•        Futebol: uma prática que nasceu na escola. Por Raphael Fagundes

Há muitas histórias sobre as origens do futebol. Segundo uma lenda, entre 2000 e 1500 a. C., na China Antiga, guerreiros chutavam o crânio de um inimigo procurando fazê-lo ultrapassar duas estacas de bambu fincadas no chão. Sabe-se, também, que na América Central se jogava o tlachtli. O ritual exigia que o capitão do time perdedor fosse sacrificado. Na Grécia Antiga se jogava epyskiros, com uma bola recheada de ar e areia. E para aperfeiçoar os soldados romanos na sua capacidade atlética, era jogado o harpastrum. Já na Itália do século XVI, jogava-se o cálcio, que segundo o historiador Hilário Franco Jr., “um contemporâneo estimou em 40 mil o número de espectadores. Leonardo da Vinci, parece, fazia parte desses torcedores, enquanto Nicolau Maquiavel, dos jogadores”.

Mas o futebol moderno começou, de fato, nas escolas de elite da Inglaterra. Eric Dunning afirma que no início dessa prática esportiva havia o “culto dos jogos nas escolas públicas”. Esse culto valorizava o espírito amador, o divertimento, e possuía a finalidade pedagógica de preparar os futuros dirigentes da nação. Um caminho para se promover distinção, não por critérios acadêmicos – não muito úteis para os filhos das elites -, mas por critérios desportivos.

O futebol profissional, que atraía multidões e despertava o imaginário da classe trabalhadora ao alimentar o sonho do estrelato, era relegado a um plano secundário nos primeiros estágios de consolidação dessa modalidade esportiva. Para preservar a supremacia do amadorismo, evitava-se a participação em determinadas competições, de modo que as equipes da elite não corressem o risco de serem derrotadas por clubes profissionais.

Como observa Dunning, havia, contudo, algumas exceções, como o Corinthians, “uma equipe amadora, formada nos finais do século XIX, e recrutada nas escolas públicas e nas Universidades de Oxford e de Cambridge, que conseguiu manter-se, durante algum tempo, em competição com os profissionais”. Para o autor, essas equipes representavam a “exceção sintomática” à tendência geral de exclusividade da elite das escolas públicas, constituindo-se deliberadamente como uma resposta ao sucesso crescente das equipes profissionais e como um meio de celebrar e preservar o valorizado ideal amador”.

As primeiras regras do futebol começaram nas escolas públicas entre 1845 e 1862. Mas cabe lembrar que se tratava de uma prática excludente e tinha como padrão “disputas finais contra antagonistas considerados à altura em termos sociais”. Eric Hobsbawm mostra “que nos Estados Unidos as universidades de elite (a “Ivy League”) definiam-se, pelo menos no nordeste dominante, pela seleção de faculdades que preferiam disputar campeonatos de futebol, naquele país um esporte basicamente universitário à origem”.

Alguns atribuem ao Duque de Wellington, ainda na primeira metade do século XIX, a seguinte frase: “A Batalha de Waterloo foi vencida nos campos de futebol de Eton”. De acordo com o historiador Gilberto Agostino, “Wellington sabia que jogar futebol em Eton, ou em qualquer outra escola inglesa da primeira metade do século XIX, era antes de tudo uma prova de arrojo e rudeza tipicamente masculina, quase que um rito de passagem”.

O futebol chega às escolas brasileiras nos finais do século XIX. Alguns acreditam que em 1881 foi criado, em Petrópolis, o Foot Rink Clube, através de “uma iniciativa de alunos do Colégio Paixão”. Na Revista Brasileira, o dr. Márcio Nery escrevia o artigo A educação das crianças no ponto de vista médico, que sugeria o futebol como prática escolar. Enquanto José Veríssimo dizia que se fosse inserido nas escolas brasileiras “jogos estrangeiros como o cricket, o football, o lawntennis, a Cross, etc..”.

“Aparecendo como os salvadores do vigor nacional, os esportes passavam, então, a contar com entusiástico apoio de higienistas e educadores interessados no desenvolvimento físico da nação”, explica o professor Leonardo Affonso de Miranda Pereira acerca dos primeiros passos do futebol nos trópicos.

Sendo assim, o futebol, nessa primeira fase, era “praticado em escolas e vizinhanças, sem a presença ainda do componente mercantil”.

<><> O futebol sai da escola…

Mas “com a profissionalização”, destaca Eric Hobsbawm, “a maior parte das figuras filantrópicas e moralizadoras da elite nacional afastou-se, deixando a administração dos clubes nas mãos de negociantes e outros dignitários locais, que sustentaram uma curiosa caricatura das relações entre classes do capitalismo industrial, como empregadores de uma força de trabalho predominantemente operária, atraída para a indústria pelos altos salários, pela oportunidade de ganhos extras antes da aposentadoria (partidas beneficentes), mas, acima de tudo, pela oportunidade de prestígio”.

Fátima Antunes afirma que a difusão do futebol “em meio operário levou empresários a incentivarem a organização de clubes no interior das fábricas não apenas como forma de diversão e lazer: essas agremiações, ao participarem de campeonatos oficiais, divulgavam o nome das empresas e seus produtos”, como aconteceu com a fábrica Bangu no Rio de Janeiro e com a Renner no Rio Grande do Sul.

Sendo fruto da sociedade capitalista, o futebol vai seguindo o ritmo de desenvolvimento de tal modo de produção. Acabou sendo apropriado pelos governos autoritários no período entre guerras e meados da década 1970, com o objetivo de forjar unidade e mobilizar as massas.

Em 1934, Getúlio Vargas colocava Luiz Aranha, irmão do ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, como presidente da Confederação Brasileira do Desporto (CBD). Simpático ao governo de Mussolini, dizia que o selecionado na copa da Itália deveria mostrar-se “orgulhoso de sua própria raça”.

“Segundo uma história muito citada”, explica o historiador Gilberto Agostino, “um pouco antes do início do jogo [final da Copa de 38] um telegrama chegara à concentração italiana enviado pelo próprio Mussolini. Sua mensagem tornou-se bem conhecida: Vencer ou Morrer”. Em 1968, Costa e Silva recebe uma comissão da Confederação Brasileira de Desportos, e manda um recado para a Copa que ocorreria em dois anos: “Temos que ganhar a Copa de qualquer forma”. “O Brasil não pode perder a Copa de 70. Temos de ganhá-la através da disciplina, de muito treinamento, hierarquia e patriotismo”.

Mais tarde, com o aumento do consumo proporcionado pelo Estado de Bem Estar social, o futebol vai se transformando em um verdadeiro espetáculo. João Havelange, como presidente da FIFA, consagrou o futebol como uma vitrine para as marcas. Os valores – mais integrados ao neoliberalismo consolidado nos finais dos anos 1970 – disseminados pelo futebol passam a estar vinculados “cada vez mais ao individualismo, narcisismo, consumo de itens descartáveis e culto aos ídolos”.

<><> O futebol retorna à escola

No período de Copa as escolas se enfeitam em todo país. O título de uma reportagem do O Globo estampa: Se não dá para competir com a Copa… Escolas transformam febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos. Valores fundamentais no capitalismo tardio, como gestão de finanças e orçamentos, inteligência emocional etc. são trabalhados para formar o empreendedor de si.

A espetacularização do esporte tem como objetivo formar consumidores prontos a comprar os produtos apresentados pelos seus agentes: os ídolos. Além disso, atualmente, as diversas atividades atreladas à Copa e ao mundo do futebol nas escolas, no fim das contas, servem para produzir imagens que serão postadas nas redes sociais das escolas e das prefeituras, úteis tanto para fomentar o trabalho docente alienado quanto para as campanhas eleitorais. O objetivo não é conscientizar o oprimido da sua condição, até porque, na sociedade espetacular, “a alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo”.

De sua origem na escola adentra as fábricas para, em seguida, ser apropriado pelos governos autoritários e, finalmente, integrado à sociedade neoliberal do espetáculo, o futebol retorna à escola, com a mesma função das outras mercadorias produzidas pela indústria cultural: a formação de um consumidor disciplinado que acredita estar realizando os seus desejos, mas, na verdade, está vivendo um mundo programado por outros que tem o intuito de manter a lógica que promove a exclusão e a desigualdade social.

É preciso sim trazer para a escola os elementos que a sociedade consome, porém, não para fortalecer a lógica espetacular do consumo. É preciso refletir sobre a função que esses objetos desempenham no cotidiano, fornecendo aos alunos ferramentas adequadas para irem além das ilusões que o espetáculo promove. Essa é a função da escola cidadã emancipadora.

 

Fonte: Opera Mundi/Le Monde

 

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