A
Copa da espetacularização da impunidade
Romário
está amarradão na Copa do Mundo. Contratado pela Cazé TV, fazendo conteúdo para
o seu próprio canal e – ainda mais importante – se acabando nas festas. Imagens
do senador dançando e se divertindo na noite estadunidense estão por aí. Ele
ri, ele requebra (dessas coisas que só fazem sentido depois da meia noite);
enfim, Romário is having the time of his life. Votou contra o fim da escala 6×1
e foi praticar sua escala de trabalho particular nos states.
Não
quero falar exatamente do senador aqui. Quero falar do que diríamos se no lugar
de Romário estivesse Soraya Thronicke. Ou uma deputada como Erika Hilton.
Imaginem a deputada fazendo o que faz Romário: não se licencia, aceita convite
de emissora para trabalhar na Copa, se manda para os Estados Unidos e pode ser
vista requebrando em múltiplas festas sem nenhum pudor. Peguemos Tabata Amaral.
Tirem Romário e coloquem Tabata. Ou Sâmia Bonfim.
O
Brasil teria vindo abaixo. As parlamentares provavelmente já estariam sendo
julgadas em algum conselho de ética e prestes a serem expulsas de suas funções,
estariam sendo xingadas por exibirem toda a sua liberdade, inclusive a mais
temida: a sexual.
Outro
dia vi Romário dando uma entrevista apenas para falar sobre quantas mulheres já
pegou nos diferentes lugares em que jogou. Curioso que ele tenha dito que pegou
mais mulheres justamente na época em que era casado. Passou. Todos riram. Nada
para julgar aqui. Romário é pica, como dizem os brothers de uma de suas
contratantes.
Temos
aí é o retrato melhor acabado da misoginia, essa estrutura de poder que oferece
aos homens liberdade e às mulheres sujeição.
O que
nos leva a Cabo Verde.
Fifa e
Cabo Verde fingem que não há nada demais em um jogador estar atuando mesmo
acusado de estupro. Imagens e depoimentos do crime supostamente cometido por
Ryan Mendes são provas bastante sólidas, mas não bastam para a Fifa. A Fifa
precisa de mais. A NFL não age assim. Qualquer acusação de crime sexual
embasada em provas é suficiente para afastar o atleta acusado. A liga defende
que o afastamento não implica em julgar o atleta culpado ou inocente, mas em
proteger a integridade e a confiança de sua própria imagem.
Enquanto
a Fifa espera por mais provas (quais outras provas seriam necessárias para
entidade compreender a gravidade do caso?), o negócio é ir compactuando com
coisas como a humilhação ao árbitro da Somália, impedido de entrar nos Estados
Unidos mesmo sem ter cometido crime algum.
Já o
marroquino Hakimi, que vai ser julgado por estupro na França assim que a Copa
acabar, entrou sem problema algum. Assim como o ganês Thomas Partey, que tem
sobre suas costas quatro acusações de estupro. Outro que entrou bonitão foi
Thiago Almada, da Argentina, que tem uma denúncia para chamar de sua. Assim
como o meio campista japonês Kaishu Sano, acusado por estupro e que fez um
acordo com a vítima antes de se desculpar publicamente. (Vamos lembrar que
Donald Trump é um homem condenado pelo crime de estupro e que, mesmo assim,
recebeu da Fifa uma honra por seus “esforços” pela paz). Outro que segue
trabalhando na Copa é o australiano Shaun Evans, o juiz flagrado orgulhosamente
um fazendo gesto nazi-fascista.
Não
temos um problema de impunidade. É mais do que isso. Vivemos o espetáculo da
impunidade; a ostentação da imunidade, da desobrigação, da isenção.
A Copa
do Mundo sobrevive porque o futebol é imenso e resiste. A Fifa está sendo
convocada a mudar de atitude. Cúmpice do fascismo trumpista, a entidade precisa
ouvir as críticas e se ajustar. O barulho que vem das ruas deveria ser
suficiente para ela compreender o que precisa ser feito.
Fonte:
Por Milly Lacombe, no UOL

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