quarta-feira, 1 de julho de 2026

Richard Wolff: China mostra que o capitalismo privado não é o único caminho para o desenvolvimento

O economista marxista Richard Wolff afirmou que a ascensão econômica da China representa “o mais profundo desafio ao império americano” e oferece lições fundamentais para países que buscam superar a pobreza histórica e a dependência externa. A análise foi feita no programa Economic Update, publicado no YouTube, em episódio dedicado às “lições do desenvolvimento econômico da China”.

Segundo Wolff, a trajetória chinesa, que levou o país “das profundezas da pobreza a uma economia de superpotência global”, não pode ser compreendida apenas por estatísticas de crescimento. Para ele, um dado simbólico mostra a dimensão da transformação: a maior acionista da Mercedes-Benz é a BAIC, uma empresa estatal chinesa. Somada à participação da Geely, também chinesa, a presença de capitais chineses chega a cerca de 20% da montadora alemã.

“Isso é importante porque é uma medida de até onde chegou a economia chinesa”, disse Wolff.

<><> China venceu a corrida dos carros elétricos, diz Wolff

O economista afirmou que a disputa global pelo futuro dos automóveis elétricos já tem um vencedor: a China. Segundo ele, empresas como a BYD conseguiram produzir veículos de alta qualidade e baixo preço, enquanto os Estados Unidos recorrem a tarifas para proteger sua indústria.

“Proteção é o que você faz quando não consegue competir. Quando não consegue descobrir como vencê-los, você os exclui”, afirmou.

Wolff lembrou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, impôs em seu primeiro mandato uma tarifa de cerca de 27% contra veículos chineses, posteriormente elevada por Joe Biden para 100%. Para ele, essa política revela fragilidade, não força.

“Isso não é um avanço para os Estados Unidos”, disse. “É sinal de um sistema em declínio, de uma economia em declínio.”

<><> O século de humilhação e a revolução chinesa

Wolff recuperou o contexto histórico da China entre 1850 e 1950, período conhecido no país como o “século de humilhação”. Ele citou a pressão colonial europeia, a pobreza extrema, a crise do ópio, a derrota na Rebelião dos Boxers, a presença britânica em Hong Kong e a invasão japonesa, iniciada em 1931.

Segundo ele, a superação desse quadro exigiu um movimento de massas capaz de unir trabalhadores urbanos e camponeses. Foi esse o papel desempenhado pelo Partido Comunista Chinês sob a liderança de Mao Tsé-Tung.

“O Partido Comunista da China entendeu que precisava reunir uma nova classe trabalhadora nas áreas urbanas, pequena, com um vasto mar de camponeses”, afirmou.

Após a vitória comunista na guerra civil, em 1949, a China passou décadas reconstruindo um país devastado pela guerra, pela pobreza e pelo isolamento internacional. Wolff lembrou que os Estados Unidos se recusaram por anos a reconhecer a República Popular da China e mantiveram uma política de hostilidade, inclusive por meio do apoio a Taiwan.

<><> O modelo híbrido chinês

Para Wolff, a grande virada veio a partir dos anos 1970, quando a China adotou uma estratégia diferente tanto do modelo soviético quanto do capitalismo ocidental. Em vez de estatizar quase toda a economia, como fez a União Soviética, ou deixar o desenvolvimento nas mãos do lucro privado, como nos países capitalistas centrais, a China construiu um sistema híbrido.

“Metade da economia seria formada por empresas capitalistas privadas. A outra metade seria propriedade e operação do governo”, explicou.

Nesse modelo, segundo Wolff, o Estado regula e tributa tanto o setor privado quanto o setor público, enquanto o Partido Comunista define os objetivos estratégicos. O objetivo central era sair da pobreza, tornar o país forte o suficiente para enfrentar a hostilidade ocidental e transformar a China em ator decisivo da economia mundial.

“A China é um meio-termo. A China é um híbrido dirigido por comunistas que têm um objetivo. E, nesse objetivo, o capitalismo privado desempenha um papel subordinado”, disse.

<><> Crescimento chinês superou o Ocidente

Wolff afirmou que, nas últimas décadas, a China cresceu muito mais rapidamente do que os Estados Unidos. Segundo ele, enquanto o PIB chinês avançou, em média, entre 5% e 9% ao ano nos últimos 35 anos, a economia norte-americana cresceu entre 2% e 3%.

“A história do crescimento está encerrada. A competição acabou”, declarou.

Para o economista, a consequência desse processo é o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos. Ele citou a presença chinesa em setores estratégicos como veículos elétricos, painéis solares e grandes empresas industriais globais.

“O domínio do império americano também acabou”, afirmou.

<><> A principal lição da China

Wolff rejeitou a ideia de que o colapso soviético tenha representado uma vitória definitiva do capitalismo. Para ele, a experiência chinesa mostra que o desenvolvimento pode ocorrer por outro caminho, com forte direção estatal, planejamento estratégico e subordinação do capital privado a metas nacionais.

“A noção de que o vencedor foi o capitalismo é um grande erro”, disse.

O economista ressaltou que não está fazendo uma defesa acrítica da China, que, segundo ele, tem seus próprios problemas e contradições. Mas afirmou que, para países interessados em escapar da pobreza secular e da posição periférica na economia mundial, a China oferece a experiência mais bem-sucedida do nosso tempo.

“Se sua prioridade é escapar da pobreza de séculos, então a China é o caminho mais rápido conhecido para alcançar esse objetivo”, afirmou.

Para Wolff, a lição central é clara: “Deixar tudo ao lucro privado não funciona.”

<><> O próximo passo: os trabalhadores no comando

No fim da análise, Wolff afirmou que a história chinesa ainda está em movimento. Para ele, o próximo passo da experiência socialista chinesa seria ampliar o papel direto dos trabalhadores na gestão da economia.

“Será a classe trabalhadora da China de hoje, altamente desenvolvida, que lutará novamente”, disse. “Para quê? Para dar o próximo passo.”

Segundo o economista, esse passo seria colocar os trabalhadores “no comando, na fábrica, no escritório, na loja, diretamente”. Para Wolff, esse seria o novo formato do antigo sonho comunista nas condições da China de 2026.

“O sonho dos comunistas lá atrás, em 1927, tem sua nova forma na China de 2026. Essa talvez seja a lição mais importante de todas do desenvolvimento chinês”, concluiu.

¨      Clara Mattei vê na China uma alternativa ao capitalismo ocidental

A economista Clara Mattei, professora da Universidade de Tulsa e fundadora do Forum for Real Economic Emancipation, afirmou que a China representa hoje uma das experiências mais relevantes de construção de uma alternativa ao capitalismo ocidental. A declaração foi feita em entrevista ao programa Roughly Chinese, no YouTube, apresentado por Yun Pong.

Autora do livro Escape from Capitalism, Mattei defendeu que o sistema chinês mostra a necessidade de uma força política capaz de disciplinar o capital privado, em contraste com o modelo predominante no Ocidente, onde governos, segundo ela, se subordinam aos interesses dos investidores.

<><> Austeridade como ferramenta de dominação

Para Clara Mattei, a austeridade não é um instrumento neutro de equilíbrio fiscal, mas uma ferramenta política usada para preservar o capitalismo. Segundo ela, a austeridade “não funciona para equilibrar o orçamento”, mas funciona para proteger os dois pilares do sistema: o trabalho assalariado e o comando privado sobre os investimentos.

“A austeridade é a principal ferramenta à disposição dos governos capitalistas para proteger o próprio capitalismo”, afirmou.

Ela explicou que o desmonte de serviços sociais, a elevação dos juros, a privatização e a desregulamentação do trabalho servem para transferir recursos da maioria trabalhadora para uma minoria que vive de juros, dividendos e renda.

“A austeridade constantemente desloca recursos dos muitos trabalhadores para os poucos que vivem não de salários, mas de juros, dividendos e aluguéis”, disse.

<><> “Não há capitalismo humano”

Na entrevista, Mattei rejeitou a ideia de que seria possível reformar o capitalismo por dentro. Para ela, mesmo a chamada “era de ouro” do capitalismo no pós-guerra esteve baseada em militarismo, exploração do Sul Global e repressão à autonomia dos trabalhadores.

“Não há capitalismo humano. Isso é, no fim das contas, o que quero dizer. O capitalismo humano é um mito”, afirmou.

A professora sustentou que o crescimento econômico dos Estados Unidos no pós-guerra esteve ligado à guerra da Coreia, à guerra do Vietnã e ao estímulo estatal ao complexo militar-industrial. Para ela, quando o Estado investe em recursos sociais, cria-se uma ameaça ao próprio sistema, porque trabalhadores menos dependentes do mercado poderiam se organizar politicamente.

<><> China e o controle do capital

Ao falar sobre a China, Mattei afirmou ter ficado “chocada” ao perceber a diferença entre a realidade chinesa e a imagem difundida no Ocidente. Segundo ela, manter os cidadãos ocidentais ignorantes sobre a experiência chinesa é parte da estratégia de preservação do capitalismo liberal.

“A alternativa chinesa é uma alternativa”, disse. “A única maneira pela qual o capitalismo ocidental vai sobreviver é nos manter convencidos de que ainda estamos no melhor modelo possível e de que não há possibilidade de sair dele.”

Para Mattei, o ponto central da experiência chinesa é a existência de controles sobre o capital. “A única maneira de disciplinar o capital é impor controles de capital”, afirmou.

Ela também destacou que a China conseguiu operar dentro de uma economia global capitalista sem se submeter completamente à lógica da acumulação privada. “O que foi realmente impressionante foi ver que a sociedade é organizada segundo uma lógica que não é a lógica do capital privado”, declarou.

<><> O papel do Partido Comunista Chinês

Mattei também defendeu que as categorias políticas usadas no Ocidente não servem para compreender a realidade chinesa. Segundo ela, o Partido Comunista Chinês tem uma relação orgânica com a sociedade e exerce uma disciplina interna que não encontra paralelo nos partidos ocidentais.

“A organização do Partido Comunista Chinês não tem nada a ver com a estrutura partidária que já experimentamos na história dos partidos na Europa ou nos Estados Unidos”, afirmou.

Para a economista, no Ocidente, partidos funcionam muitas vezes como instrumentos de carreira e trampolim para ganhos privados. Na China, segundo sua análise, a lógica é diferente.

“Se você é membro do Partido Comunista Chinês, está ali para a vida toda. É mais democrático dizer: estou comprometido e serei responsabilizado se estragar alguma coisa”, afirmou.

Ela também citou o combate à corrupção e o controle sobre grandes empresários como exemplos de uma capacidade política inexistente nas democracias liberais ocidentais.

<><> Tecnologia para a população, não para bilionários

Outro ponto destacado por Mattei foi o uso da tecnologia na China. Segundo ela, diferentemente do Ocidente, onde a inovação tecnológica frequentemente serve para enriquecer poucos magnatas, na China os avanços tecnológicos são orientados para melhorar a vida da população.

“A tecnologia na China é, de fato, para todos. O objetivo do avanço tecnológico não é enriquecer três magnatas, mas melhorar a vida das pessoas, inclusive no campo”, afirmou.

Ela citou os sistemas de transporte chineses como exemplo de infraestrutura orientada ao bem-estar coletivo, comparando-os à decadência dos serviços públicos em países como a Itália, onde a privatização teria reduzido o transporte de um direito a um serviço precário.

<><> Sul Global e soberania

Na parte final da entrevista, Mattei afirmou que países do Sul Global podem aprender com a experiência chinesa de construção de soberania diante das pressões do imperialismo e das instituições financeiras internacionais.

Ela criticou a dependência de países periféricos em relação ao FMI, ao Banco Mundial e ao capital financeiro internacional. Segundo ela, o Sul Global está preso em uma “armadilha da austeridade”, na qual quanto mais austeridade adota, mais dependente se torna dos interesses do capital financeiro estrangeiro.

Mattei também mencionou o Brasil ao falar do MST, que, segundo ela, desenvolve experiências baseadas em assembleias, produção coletiva e parcerias com universidades e instituições chinesas para aprimorar tecnologias de distribuição de alimentos.

“Claramente há uma solidariedade que também é material, e isso é muito importante”, disse. “A China é um país que pode fornecer esses recursos materiais que definitivamente um país como os Estados Unidos não vai oferecer, porque tem um projeto muito diferente em mente em relação à vida do povo brasileiro.”

<><> Crítica a Trump e ao militarismo dos EUA

Ao comentar a política econômica dos Estados Unidos, Mattei mencionou cortes sociais associados ao governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e afirmou que eles revelam a lógica de transferência de recursos dos trabalhadores para o complexo militar e os grandes investidores.

Ela citou cortes em programas como Medicaid e auxílio-alimentação, ao mesmo tempo em que haveria aumento de gastos militares e tecnológicos.

“Trump não é a maçã podre. Ele é apenas a aceleração de uma tendência”, afirmou.

<><> Conhecimento e emancipação

Para Mattei, uma alternativa ao capitalismo começa também pela disputa do conhecimento. Ela criticou a economia neoclássica ensinada nas universidades ocidentais, que, em sua avaliação, oculta a exploração e apresenta o mercado como algo natural e inevitável.

“A economia neoclássica serve para esconder exatamente o que estamos dizendo. Serve para convencer você de que a chamada economia de mercado, nunca chamada de capitalismo, está melhorando a vida das pessoas”, disse.

A professora defendeu a retomada de formas coletivas de educação política, assembleias populares e experiências de democracia econômica. Segundo ela, trabalhadores precisam recuperar a capacidade de produzir conhecimento e organizar alternativas concretas à dependência do mercado.

“Produção de conhecimento e ação precisam caminhar juntas”, afirmou.

<><> Uma alternativa em construção

Ao longo da entrevista, Clara Mattei deixou claro que não propõe copiar mecanicamente o modelo chinês para o Ocidente. Para ela, cada país precisa construir suas próprias instituições pós-capitalistas a partir de suas condições históricas, sociais e culturais.

Ainda assim, a professora sustentou que a China oferece uma inspiração decisiva em um momento de crise do neoliberalismo, crescimento da desigualdade, destruição ambiental e expansão do militarismo.

“Não se pode simplesmente importar e exportar modelos. Eles precisam crescer organicamente a partir do que as pessoas querem no território. Mas a inspiração é um elemento-chave”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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