Richard
Wolff: China mostra que o capitalismo privado não é o único caminho para o
desenvolvimento
O
economista marxista Richard Wolff afirmou que a ascensão econômica da China
representa “o mais profundo desafio ao império americano” e oferece lições
fundamentais para países que buscam superar a pobreza histórica e a dependência
externa. A análise foi feita no programa Economic Update, publicado
no YouTube, em episódio dedicado às “lições do desenvolvimento econômico da
China”.
Segundo
Wolff, a trajetória chinesa, que levou o país “das profundezas da pobreza a uma
economia de superpotência global”, não pode ser compreendida apenas por
estatísticas de crescimento. Para ele, um dado simbólico mostra a dimensão da
transformação: a maior acionista da Mercedes-Benz é a BAIC, uma empresa estatal
chinesa. Somada à participação da Geely, também chinesa, a presença de capitais
chineses chega a cerca de 20% da montadora alemã.
“Isso
é importante porque é uma medida de até onde chegou a economia chinesa”, disse
Wolff.
<><>
China venceu a corrida dos carros elétricos, diz Wolff
O
economista afirmou que a disputa global pelo futuro dos automóveis elétricos já
tem um vencedor: a China. Segundo ele, empresas como a BYD conseguiram produzir
veículos de alta qualidade e baixo preço, enquanto os Estados Unidos recorrem a
tarifas para proteger sua indústria.
“Proteção
é o que você faz quando não consegue competir. Quando não consegue descobrir
como vencê-los, você os exclui”, afirmou.
Wolff
lembrou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, impôs em seu
primeiro mandato uma tarifa de cerca de 27% contra veículos chineses,
posteriormente elevada por Joe Biden para 100%. Para ele, essa política revela
fragilidade, não força.
“Isso
não é um avanço para os Estados Unidos”, disse. “É sinal de um sistema em
declínio, de uma economia em declínio.”
<><>
O século de humilhação e a revolução chinesa
Wolff
recuperou o contexto histórico da China entre 1850 e 1950, período conhecido no
país como o “século de humilhação”. Ele citou a pressão colonial europeia, a
pobreza extrema, a crise do ópio, a derrota na Rebelião dos Boxers, a presença
britânica em Hong Kong e a invasão japonesa, iniciada em 1931.
Segundo
ele, a superação desse quadro exigiu um movimento de massas capaz de unir
trabalhadores urbanos e camponeses. Foi esse o papel desempenhado pelo Partido
Comunista Chinês sob a liderança de Mao Tsé-Tung.
“O
Partido Comunista da China entendeu que precisava reunir uma nova classe
trabalhadora nas áreas urbanas, pequena, com um vasto mar de camponeses”,
afirmou.
Após a
vitória comunista na guerra civil, em 1949, a China passou décadas
reconstruindo um país devastado pela guerra, pela pobreza e pelo isolamento
internacional. Wolff lembrou que os Estados Unidos se recusaram por anos a
reconhecer a República Popular da China e mantiveram uma política de
hostilidade, inclusive por meio do apoio a Taiwan.
<><>
O modelo híbrido chinês
Para
Wolff, a grande virada veio a partir dos anos 1970, quando a China adotou uma
estratégia diferente tanto do modelo soviético quanto do capitalismo ocidental.
Em vez de estatizar quase toda a economia, como fez a União Soviética, ou
deixar o desenvolvimento nas mãos do lucro privado, como nos países
capitalistas centrais, a China construiu um sistema híbrido.
“Metade
da economia seria formada por empresas capitalistas privadas. A outra metade
seria propriedade e operação do governo”, explicou.
Nesse
modelo, segundo Wolff, o Estado regula e tributa tanto o setor privado quanto o
setor público, enquanto o Partido Comunista define os objetivos estratégicos. O
objetivo central era sair da pobreza, tornar o país forte o suficiente para
enfrentar a hostilidade ocidental e transformar a China em ator decisivo da
economia mundial.
“A
China é um meio-termo. A China é um híbrido dirigido por comunistas que têm um
objetivo. E, nesse objetivo, o capitalismo privado desempenha um papel
subordinado”, disse.
<><>
Crescimento chinês superou o Ocidente
Wolff
afirmou que, nas últimas décadas, a China cresceu muito mais rapidamente do que
os Estados Unidos. Segundo ele, enquanto o PIB chinês avançou, em média, entre
5% e 9% ao ano nos últimos 35 anos, a economia norte-americana cresceu entre 2%
e 3%.
“A
história do crescimento está encerrada. A competição acabou”, declarou.
Para o
economista, a consequência desse processo é o enfraquecimento da hegemonia dos
Estados Unidos. Ele citou a presença chinesa em setores estratégicos como
veículos elétricos, painéis solares e grandes empresas industriais globais.
“O
domínio do império americano também acabou”, afirmou.
<><>
A principal lição da China
Wolff
rejeitou a ideia de que o colapso soviético tenha representado uma vitória
definitiva do capitalismo. Para ele, a experiência chinesa mostra que o
desenvolvimento pode ocorrer por outro caminho, com forte direção estatal,
planejamento estratégico e subordinação do capital privado a metas nacionais.
“A
noção de que o vencedor foi o capitalismo é um grande erro”, disse.
O
economista ressaltou que não está fazendo uma defesa acrítica da China, que,
segundo ele, tem seus próprios problemas e contradições. Mas afirmou que, para
países interessados em escapar da pobreza secular e da posição periférica na
economia mundial, a China oferece a experiência mais bem-sucedida do nosso
tempo.
“Se sua
prioridade é escapar da pobreza de séculos, então a China é o caminho mais
rápido conhecido para alcançar esse objetivo”, afirmou.
Para
Wolff, a lição central é clara: “Deixar tudo ao lucro privado não funciona.”
<><>
O próximo passo: os trabalhadores no comando
No fim
da análise, Wolff afirmou que a história chinesa ainda está em movimento. Para
ele, o próximo passo da experiência socialista chinesa seria ampliar o papel
direto dos trabalhadores na gestão da economia.
“Será
a classe trabalhadora da China de hoje, altamente desenvolvida, que lutará
novamente”, disse. “Para quê? Para dar o próximo passo.”
Segundo
o economista, esse passo seria colocar os trabalhadores “no comando, na
fábrica, no escritório, na loja, diretamente”. Para Wolff, esse seria o novo
formato do antigo sonho comunista nas condições da China de 2026.
“O
sonho dos comunistas lá atrás, em 1927, tem sua nova forma na China de 2026.
Essa talvez seja a lição mais importante de todas do desenvolvimento chinês”,
concluiu.
¨
Clara Mattei vê na China uma alternativa ao capitalismo
ocidental
A
economista Clara Mattei, professora da Universidade de Tulsa e fundadora do
Forum for Real Economic Emancipation, afirmou que a China representa hoje uma
das experiências mais relevantes de construção de uma alternativa ao
capitalismo ocidental. A declaração foi feita em entrevista ao programa Roughly
Chinese, no YouTube, apresentado por Yun Pong.
Autora
do livro Escape from Capitalism, Mattei defendeu que o sistema
chinês mostra a necessidade de uma força política capaz de disciplinar o
capital privado, em contraste com o modelo predominante no Ocidente, onde
governos, segundo ela, se subordinam aos interesses dos investidores.
<><>
Austeridade como ferramenta de dominação
Para
Clara Mattei, a austeridade não é um instrumento neutro de equilíbrio fiscal,
mas uma ferramenta política usada para preservar o capitalismo. Segundo ela, a
austeridade “não funciona para equilibrar o orçamento”, mas funciona para
proteger os dois pilares do sistema: o trabalho assalariado e o comando privado
sobre os investimentos.
“A
austeridade é a principal ferramenta à disposição dos governos capitalistas
para proteger o próprio capitalismo”, afirmou.
Ela
explicou que o desmonte de serviços sociais, a elevação dos juros, a
privatização e a desregulamentação do trabalho servem para transferir recursos
da maioria trabalhadora para uma minoria que vive de juros, dividendos e renda.
“A
austeridade constantemente desloca recursos dos muitos trabalhadores para os
poucos que vivem não de salários, mas de juros, dividendos e aluguéis”, disse.
<><>
“Não há capitalismo humano”
Na
entrevista, Mattei rejeitou a ideia de que seria possível reformar o
capitalismo por dentro. Para ela, mesmo a chamada “era de ouro” do capitalismo
no pós-guerra esteve baseada em militarismo, exploração do Sul Global e
repressão à autonomia dos trabalhadores.
“Não
há capitalismo humano. Isso é, no fim das contas, o que quero dizer. O
capitalismo humano é um mito”, afirmou.
A
professora sustentou que o crescimento econômico dos Estados Unidos no
pós-guerra esteve ligado à guerra da Coreia, à guerra do Vietnã e ao estímulo
estatal ao complexo militar-industrial. Para ela, quando o Estado investe em
recursos sociais, cria-se uma ameaça ao próprio sistema, porque trabalhadores
menos dependentes do mercado poderiam se organizar politicamente.
<><>
China e o controle do capital
Ao
falar sobre a China, Mattei afirmou ter ficado “chocada” ao perceber a
diferença entre a realidade chinesa e a imagem difundida no Ocidente. Segundo
ela, manter os cidadãos ocidentais ignorantes sobre a experiência chinesa é
parte da estratégia de preservação do capitalismo liberal.
“A
alternativa chinesa é uma alternativa”, disse. “A única maneira pela qual o
capitalismo ocidental vai sobreviver é nos manter convencidos de que ainda
estamos no melhor modelo possível e de que não há possibilidade de sair dele.”
Para
Mattei, o ponto central da experiência chinesa é a existência de controles
sobre o capital. “A única maneira de disciplinar o capital é impor controles de
capital”, afirmou.
Ela
também destacou que a China conseguiu operar dentro de uma economia global
capitalista sem se submeter completamente à lógica da acumulação privada. “O
que foi realmente impressionante foi ver que a sociedade é organizada segundo
uma lógica que não é a lógica do capital privado”, declarou.
<><>
O papel do Partido Comunista Chinês
Mattei
também defendeu que as categorias políticas usadas no Ocidente não servem para
compreender a realidade chinesa. Segundo ela, o Partido Comunista Chinês tem
uma relação orgânica com a sociedade e exerce uma disciplina interna que não
encontra paralelo nos partidos ocidentais.
“A
organização do Partido Comunista Chinês não tem nada a ver com a estrutura
partidária que já experimentamos na história dos partidos na Europa ou nos
Estados Unidos”, afirmou.
Para a
economista, no Ocidente, partidos funcionam muitas vezes como instrumentos de
carreira e trampolim para ganhos privados. Na China, segundo sua análise, a
lógica é diferente.
“Se
você é membro do Partido Comunista Chinês, está ali para a vida toda. É mais
democrático dizer: estou comprometido e serei responsabilizado se estragar
alguma coisa”, afirmou.
Ela
também citou o combate à corrupção e o controle sobre grandes empresários como
exemplos de uma capacidade política inexistente nas democracias liberais
ocidentais.
<><>
Tecnologia para a população, não para bilionários
Outro
ponto destacado por Mattei foi o uso da tecnologia na China. Segundo ela,
diferentemente do Ocidente, onde a inovação tecnológica frequentemente serve
para enriquecer poucos magnatas, na China os avanços tecnológicos são
orientados para melhorar a vida da população.
“A
tecnologia na China é, de fato, para todos. O objetivo do avanço tecnológico
não é enriquecer três magnatas, mas melhorar a vida das pessoas, inclusive no
campo”, afirmou.
Ela
citou os sistemas de transporte chineses como exemplo de infraestrutura
orientada ao bem-estar coletivo, comparando-os à decadência dos serviços
públicos em países como a Itália, onde a privatização teria reduzido o
transporte de um direito a um serviço precário.
<><>
Sul Global e soberania
Na
parte final da entrevista, Mattei afirmou que países do Sul Global podem
aprender com a experiência chinesa de construção de soberania diante das
pressões do imperialismo e das instituições financeiras internacionais.
Ela
criticou a dependência de países periféricos em relação ao FMI, ao Banco
Mundial e ao capital financeiro internacional. Segundo ela, o Sul Global está
preso em uma “armadilha da austeridade”, na qual quanto mais austeridade adota,
mais dependente se torna dos interesses do capital financeiro estrangeiro.
Mattei
também mencionou o Brasil ao falar do MST, que, segundo ela, desenvolve
experiências baseadas em assembleias, produção coletiva e parcerias com
universidades e instituições chinesas para aprimorar tecnologias de
distribuição de alimentos.
“Claramente
há uma solidariedade que também é material, e isso é muito importante”, disse.
“A China é um país que pode fornecer esses recursos materiais que
definitivamente um país como os Estados Unidos não vai oferecer, porque tem um
projeto muito diferente em mente em relação à vida do povo brasileiro.”
<><>
Crítica a Trump e ao militarismo dos EUA
Ao
comentar a política econômica dos Estados Unidos, Mattei mencionou cortes
sociais associados ao governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados
Unidos, e afirmou que eles revelam a lógica de transferência de recursos dos
trabalhadores para o complexo militar e os grandes investidores.
Ela
citou cortes em programas como Medicaid e auxílio-alimentação, ao mesmo tempo
em que haveria aumento de gastos militares e tecnológicos.
“Trump
não é a maçã podre. Ele é apenas a aceleração de uma tendência”, afirmou.
<><>
Conhecimento e emancipação
Para
Mattei, uma alternativa ao capitalismo começa também pela disputa do
conhecimento. Ela criticou a economia neoclássica ensinada nas universidades
ocidentais, que, em sua avaliação, oculta a exploração e apresenta o mercado
como algo natural e inevitável.
“A
economia neoclássica serve para esconder exatamente o que estamos dizendo.
Serve para convencer você de que a chamada economia de mercado, nunca chamada
de capitalismo, está melhorando a vida das pessoas”, disse.
A
professora defendeu a retomada de formas coletivas de educação política,
assembleias populares e experiências de democracia econômica. Segundo ela,
trabalhadores precisam recuperar a capacidade de produzir conhecimento e
organizar alternativas concretas à dependência do mercado.
“Produção
de conhecimento e ação precisam caminhar juntas”, afirmou.
<><>
Uma alternativa em construção
Ao
longo da entrevista, Clara Mattei deixou claro que não propõe copiar
mecanicamente o modelo chinês para o Ocidente. Para ela, cada país precisa
construir suas próprias instituições pós-capitalistas a partir de suas
condições históricas, sociais e culturais.
Ainda
assim, a professora sustentou que a China oferece uma inspiração decisiva em um
momento de crise do neoliberalismo, crescimento da desigualdade, destruição
ambiental e expansão do militarismo.
“Não se
pode simplesmente importar e exportar modelos. Eles precisam crescer
organicamente a partir do que as pessoas querem no território. Mas a inspiração
é um elemento-chave”, concluiu.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário