Quando
a seleção brasileira era formada por filhos de imigrantes e operários
O caso
mais evidente é o da França, em que 20 dos 26 jogadores são filhos de
imigrantes. Entre eles está o atacante Kylian Mbappé, cujo pai nasceu em
Camarões e a mãe é de origem argelina.
Alemanha,
Inglaterra e Holanda seguem a mesma tendência, com equipes que refletem
sociedades profundamente moldadas por fluxos migratórios das últimas décadas.
Mas
houve um tempo em que a seleção brasileira também viveu um fenômeno semelhante
e era formada em grande parte por filhos de imigrantes.
Na
primeira metade do século 20, enquanto o Brasil atraía grandes levas de
estrangeiros, sobrenomes italianos, alemães, ingleses e espanhóis – como
Lorenzato, Mutzenbecher, Neville e Ojeda – se tornaram comuns na equipe
nacional.
Vários
desses atletas chegaram à seleção após se destacar em clubes fundados ou
frequentados por imigrantes, muitos dos quais existem até hoje e tiveram papel
central na difusão do futebol pelo país. Pertencem ao grupo Palmeiras,
Corinthians, Vasco, Cruzeiro e Bangu, entre outros.
Quando
o Brasil conquistou seu primeiro título, o Campeonato Sul-Americano de 1919, ao
menos cinco titulares eram filhos de imigrantes.
Um
deles era o atacante Friedenreich, filho de um alemão. Outro, Neco, tinha pai
português. Três jogadores, Marcellino, Barbuy e Bianco, eram filhos de
italianos.
Os
cinco se projetaram no futebol de São Paulo, onde, em 1920, estrangeiros eram
35% da população da cidade, segundo o IBGE.
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Origem do futebol no Brasil
O
próprio responsável pela introdução do futebol no Brasil vinha de uma família
de imigrantes, o paulistano Charles Miller.
Filho
de um escocês, Miller conheceu o esporte ao estudar na Inglaterra e o trouxe ao
Brasil em 1895.
Outro
brasileiro-britânico, Oscar Cox, ajudou a difundir o futebol no Rio de Janeiro
ao participar da fundação do Fluminense, em 1902. Em poucas décadas, famílias
ricas cariocas abraçaram o esporte, encampado por agremiações que tinham outras
modalidades como carro-chefe – caso do Flamengo e do Botafogo, inicialmente
focados no remo.
Paralelamente,
o esporte também se popularizava entre as classes baixas brasileiras,
engrossadas pelos milhões de europeus, árabes e japoneses que migraram ao país
entre os séculos 19 e 20.
A
pujança da atividade cafeeira transformou São Paulo em um importante polo
industrial e destino de imigrantes. Surgem nessa época vários clubes de futebol
que agregavam estrangeiros – caso do Germânia, fundado pela comunidade alemã,
do Esporte Clube Sírio, da colônia árabe, e da Portuguesa de Desportos.
Outros
times amadores, formados principalmente por operários, disputavam torneios nas
várzeas dos rios Tietê, Tamanduateí e Aricanduva - origem da expressão
"futebol de várzea".
Vários
desses grupos agregavam italianos - comunidade estrangeira mais numerosa na São
Paulo de então - e forneceram jogadores para dois clubes fundados na época, o
Corinthians e o Palmeiras.
No Rio,
operários fundaram o Bangu, e imigrantes portugueses criaram o Vasco.
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Fundação do Palmeiras
"Aquele
italiano que estava marginalizado em uma sociedade paulistana dominada por
aristocratas cafeicultores, a partir do futebol, passa a ter uma identidade e a
ganhar um pertencimento", diz à BBC News Brasil o historiador Fernando
Galuppo, autor de sete livros sobre o Palmeiras, nascido como Palestra Itália.
Ele
conta que a criação do clube, em 1914, buscava agrupar imigrantes de todas as
partes da Itália. Até então, famílias italianas em São Paulo se reuniam em
associações de sua província de origem. Fazia poucas décadas que a Itália havia
sido unificada, e muitos migrantes que trocaram o país pelo Brasil não falavam
italiano, e sim línguas regionais.
Os
fundadores do Palestra publicaram anúncios em jornais para atrair futebolistas
da colônia. Entre os que atenderam ao chamado havia atletas nascidos na Itália
e muitos filhos de italianos – caso, segundo Galuppo, de Heitor (Ettore)
Marcellino, Amilcar Barbuy e Bianco Spartaco Gambini, os três presentes na
seleção brasileira vencedora do Sul-Americano de 1919.
Antes
de passar ao Palestra, Gambini e Barbuy jogaram no clube que viria a ser o
principal adversário do time, o Corinthians.
Em
dissertação de mestrado apresentada na USP em 2014, o historiador Marco Aurélio
Duque Lourenço aborda a hipótese de que a rivalidade entre os dois clubes tenha
nascido com a transferência dos jogadores e rixas dentro da comunidade
italiana.
Lourenço
lembra que a palavra rival vem do latim "rivalis", aquele que habita
a mesma margem do rio – e que os dois clubes sempre treinaram na margem
esquerda do Tietê (décadas depois, o terceiro grande clube paulistano, o São
Paulo, também montou um centro de treinamento no mesmo lado do rio).
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De operários para operários
Autor
de O Futebol Explica o Brasil, o jornalista Marcos Guterman diz que o
Corinthians foi fundado quatro anos antes do Palestra para atrair imigrantes de
todas as nacionalidades e brasileiros pobres.
"Era
um clube de operários para operários: a ideia era que a torcida fizesse o time,
e não o contrário."
Vinha
do Corinthians o quarto filho de estrangeiros da seleção de 1919 – Manuel
Nunes, o Neco.
Antonio
Roque Citadini, conselheiro vitalício do clube e autor de uma biografia sobre o
jogador, diz à BBC News Brasil que Neco era filho de um português que vivia no
Bom Retiro, bairro paulistano de imigrantes.
O
quinto filho de estrangeiro, Arthur Friedenreich, iniciou a carreira no
Germânia e foi o grande destaque da campanha vitoriosa.
Com pai
alemão e mãe brasileira negra, o atleta simbolizava ao mesmo tempo a projeção
de descendentes de estrangeiros e de negros num esporte inicialmente dominado
pela elite branca nacional.
Fernando
Galuppo diz que, nos primórdios do futebol em São Paulo, famílias ricas
"faziam campanha contra a inserção de elementos populares no jogo".
Várias delas frequentavam o Club Athletico Paulistano, na época o principal
rival do Palestra Itália.
Quando
os dois clubes se enfrentavam, colunistas do jornal O Estado de S. Paulo que
também eram sócios do Paulistano "se referiam aos jogadores do Palestra
com todo tipo de impropério e ofensa", segundo o historiador.
"Era
um verdadeiro choque de classes: o time do operário italiano chão de fábrica
contra o dos aristocratas e barões do café."
Na
época, imigrantes pobres italianos eram discriminados em São Paulo e tratados
por termos pejorativos, como carcamanos e italianinhos.
Por
outro lado, Galuppo afirma que os jogadores ítalo-brasileiros jamais foram
contestados na seleção brasileira. "A perseguição acontecia muito mais no
plano doméstico do que no nacional."
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Racismo no futebol
Para
Marcos Guterman, jogadores negros da seleção sofriam mais questionamentos que
os filhos de imigrantes naqueles anos.
Em O
Negro no Futebol Brasileiro, clássico da literatura esportiva nacional, lançado
em 1964, o jornalista Mário Filho diz que Barbosa, Juvenal e Bigode – três
atletas negros – levaram injustamente a culpa pela derrota do Brasil na final
da Copa de 1950, postura que, para ele, indicava o racismo entre a população.
"Quando
o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo",
escreveu Mário Filho.
Guterman
diz que, na época, circulava o discurso de que "havia negros demais na
seleção". "Tanto que, na Copa de 1954, quase não havia negros no
time." O Brasil caiu nas quartas de final.
A
redenção ocorreu em 1958, com a conquista do primeiro Mundial sob a liderança
de Pelé. Desde então, negros se tornaram presença permanente na seleção.
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Perseguição na 2ª Guerra
Ainda
que, segundo os pesquisadores entrevistados, a xenofobia no Brasil contra
atletas filhos de imigrantes não fosse tão forte quanto na Europa atual,
jogadores e clubes brasileiros ligados ao Japão, à Alemanha e à Itália sofreram
grandes pressões durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando o governo
Getúlio Vargas rompeu laços com as três nações.
O clube
Germânia, que lançara Friedenreich, foi forçado a mudar de nome, virando
Pinheiros.
O
Palestra se tornou Palmeiras, tirou as cores da bandeira da Itália do escudo e
afastou todos os dirigentes italianos. O clube chegou a pedir salvo-condutos
para que sócios pudessem acompanhar jogos do time em outras cidades.
Galuppo
afirma que a repressão à identidade italiana talvez esteja na origem de um
hábito presente até hoje entre palmeirenses. "É a única torcida que,
enquanto toca o hino nacional, canta uma paródia em cima do hino."
Em Belo
Horizonte, outro clube criado por italianos e que também se chamava Palestra
Itália foi rebatizado como Cruzeiro.
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Cornetar e terminar em pizza
Sob a
forte agenda nacionalista do governo Vargas, palavras estrangeiras associadas
ao futebol foram abrasileiradas. Mesmo assim, Galuppo diz que termos criados
por ítalo-brasileiros que frequentavam estádios sobrevivem até hoje no
vocabulário nacional, caso do verbo cornetar (criticar, reclamar) e da
expressão "terminar em pizza".
"A
expressão surgiu no Palestra, onde jantares com pizza apaziguavam os sócios
após debates acalorados", afirma.
Galuppo
diz que a 2ª Guerra acelerou o abrasileiramento do Palmeiras e de outros clubes
de estrangeiros. Nas décadas seguintes, conforme a imigração para o Brasil
arrefeceu, a presença de filhos de imigrantes na seleção se diluiu.
Com o
fim do conflito mundial, ele afirma que clubes ítalo-brasileiros deixaram de
ser oficialmente perseguidos, mas que a crise só foi realmente superada em
1965, quando o Palmeiras representou o Brasil numa partida contra o Uruguai, no
Mineirão. Os atletas palmeirenses venceram o jogo por 3 a 0.
A paz
estava selada.
Fonte:
BBC News Brasil

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