quarta-feira, 1 de julho de 2026

Roberto Junquilho: A barbárie, a utopia e o voto

O relógio do celular marcava 23:14 de sábado, 27 de junho de 2026, quando li a postagem de Wilson Coelho, o artista, ativista de esquerda dos bons, sobre a experiência que acabara de ter, a confirmar o clima de ódio que varre o País - também o mundo. Mascarado pelo show capitalista da Copa do Mundo, a barbárie reforça a raiva contra os pobres, impede o livre pensar, a soberania individual, a democracia, e estimula o fanatismo, de uma forma especial  o político e o religioso.  

Em seu relato, Wilson diz: “Vim embora para casa e resolvi tomar uma saideira no bar da esquina. Ajeitei uma cadeira, sem mesa, e escorei a cerveja e o copo num murinho ao meu lado. Tinha um coroa sentado à mesa logo adiante, bem próximo de mim. Eu perguntei se eu fumasse, lhe incomodaria, no que ele respondeu que não, mas o que o incomodava era minha bolsa. Eu estou com uma bolsa onde está escrito "Lula 2026". Logo em seguida, ele piscou um olho para uma mulher que estava à sua frente e levantou a camisa mostrando que estava com uma pistola automática, pelo que sei, uma dessas de 9 tiros. Ela pegou o celular e fotografou ele se expondo e olhando para mim com um olhar de prepotência e desafio. Eu fiquei sem saber o que fazer e apenas disse que só os medrosos andam armados. Achei que ele ia retrucar e fiquei na expectativa, mas ele não falou mais nada, terminou de tomar sua cerveja e foi embora olhando para mim como se eu fosse um extraterrestre. Fico triste em saber que é esse o ambiente que estamos vivendo”. 

Mais à frente, ele desabafa: “Saí da Casa Cultural 155 onde a maioria das muitas pessoas "felizes" que lá estavam não têm a mínima noção do que se passa no país. Artesanato e peças que acreditam "rebeldes" por terem frases feitas como se estivessem fora do mundo ou que um novo mundo fosse possível na medida em que pudessem se resolver numa ação catártica”.

O texto de Wilson não me faz entrar em nenhum processo de catarse, no sentido de purificação, de liberar emoções no modo individual, mas, de outro lado, reforça a certeza de que vivemos um clima de barbárie, decorrente da crise do capitalismo, que, para evitar a derrocada, destrói e degrada povos e nações. Um clima no qual se torna necessária a aglutinação de forças, de qualquer espécie, a fim de que o amor ao próximo possa fazer florescer sonhos e utopias como embriões de uma sociedade mais igualitária, solidária, inclusiva e acolhedora na qual o direito e a justiça se destinem a todos. 

Esse cenário, utópico, é cheio de impossibilidades, manifestadas na tirania da informação e no engodo do marketing, dominado pelo andar de cima, a provocarem catarses que vão de encontro à própria existência humana, hoje extremamente fragilizada. Isso ocorre pela proliferação do poder bélico entre as potências mundiais ou por meio da aparentemente simples exibição de uma arma de fogo em local público; por discursos mal formulados nas casas legislativas, em igrejas e por leis que preservam privilégios de uma elite hipócrita e massacram o povão. Desinformado, essa camada aplaude os tiranos, embalados pelos algoritmos das big techs dominadas pelo grande capital, moldando mentes malignas e comportamentos desumanos.  

Muitos são os que viveram a utopia, desde a antiguidade até hoje e outros que ainda a acalentam. Como não lembrar de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Maria Quitéria, dos assassinados no Araguaia e nos porões da ditadura de 64, os ativistas ainda na ativa na luta pela democracia, a solidariedade, a igualdade o acolhimento e o perdão; do povo cubano asfixiado pelo bloqueio criminoso dos Estados Unidos. O heróis são muitos, como os que enfrentam os patrões nas lutas sindicais, o Che, o congolês Patrice Lumumba, apagados numa história mal contada em narrativas escritas pelos poderosos. 

No Brasil, o bolsonarismo, nos Estados Unidos, o trumpismo, é exemplo dessa política, que, na esteira do nazifascismo, buscam e exercem o poder com base em seus próprios interesses, sem qualquer projeto de país envolvendo a coletividade. A sustentar essa pirâmide, o tornar-se rico – ou mais rico, é o objetivo principal. Um quadro que remete a uma pergunta: Por que votar em Flávio Bolsonaro, um político, como o pai, sem nenhum projeto como deputado federal ou senador, a não ser empregar e homenagear milicianos integrantes do chamado Escritório do Crime, no Rio de Janeiro?  Não há resposta aceitável.

Milton Santos, o grande pensador brasileiro, falecido em 2001, disse que “a política, por definição, é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Ela apenas se realiza quando existe a consideração de tudo e de todos”. (“Por uma nova globalização”, editora Record). 

A frase se encaixa no campo da utopia, horizonte buscado desde Platão, passando por Thomas More, entre vários outros, até Karl Marx, que, em O Capital, denuncia a desigualdade social movida pela injusta política capitalista dos meios de produção.  

E não para só por aí. Para os fanáticos religiosos ou os que se deixam enganar com jargões como “Deus, Pátria Família, que deriva do fascismo italiano de Benito Mussolini e do integralismo de Plínio Salgado, marca da política do ódio, no Brasil e em outros países, vale alguns escritos da Bíblia: Atos de 2 a 44, diz que  "Todos os que criaram estavam juntos e tinham tudo em comum”. Eles compartilhavam seus bens de forma radical. No versículo 45 diz que eles vendiam propriedades e repartiam o dinheiro de acordo com as necessidades de cada um”.  

Em seus discursos, Jesus ordenou cuidar dos marginalizados Suas ações desafiaram as estruturas de poder da época, promovendo a dignidade dos vulneráveis, a partilha de recursos. Uma de suas principais ações foi o combate à opressão, batendo de frente com os opressores, estabelecendo a justiça social.

A barbárie está colocada, mas, apesar do poder do capital nas esferas políticas, religiosas, cultural e social, não apagará os sonhos. A utopia é poderosa bastante para superar as barreiras. A estrada é longa, ainda tem muito que caminhar, com esperança de dias melhores, em permanente luta. O voto é a arma, é hora é de pensar nas eleições de outubro, na escolha dos candidatos. Os bolsonaro, traidores da Pátria, representam ameaça, do mesmo modo aqueles que os seguem, como o homem exibindo a arma no bar  ou o líder religioso a empunhar a Bíblia e colocar a barbárie acima de um  deus que dizem seguir, mas, no dia a dia, se colocam longe de Deus, pela exclusão, a violência, o ódio e outras formas de destruição, a morte!

¨      O “povo escolhido” no capitalismo e no socialismo. Por Jair de Souza

Em base de uma análise evolutiva da história, faz muito sentido considerar que as características do sistema capitalista tenham representado um significativo avanço positivo no desenvolvimento da capacidade produtiva da humanidade.

É inegável que, em comparação com o que predominava com anterioridade, o vigoroso aumento na capacidade de produzir bens e riquezas proporcionou condições de vida mais favoráveis para o conjunto das pessoas inseridas nas sociedades em que as relações de tipo capitalista iam prevalecendo.

Temos plena consciência do enorme desequilíbrio na apropriação do crescente volume de riquezas que passaram a ser geradas. É evidente que a distribuição dos ganhos continuava longe de ser feita com base em parâmetros equitativos de justiça social, visto que os proprietários dos meios de produção abocanhavam para si um percentual imensamente mais elevado do que o que sobrava para o restante da sociedade.

Mas, apesar disto, não há dúvidas que representou um avanço em comparação com o passado.

Contudo, se, num primeiro momento, aquelas novas características haviam sido capazes de elevar acentuadamente o nível de produção de bens, as contrapartidas negativas não tardaram muito em dar as caras.

Como estamos constatando, agora elas se tornaram uma enorme e aterradora ameaça que está colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade como tal. E as vítimas podem não ser apenas o gênero humano, senão que também  todas as outras formas de vida, ou seja, a natureza em sua totalidade tende a ser afetada.

Diferentemente da visão que prevalecia até pouco mais de um século, já comprendemos que o fato de cada capitalista poder livremente dar vazão máxima a seus ímpetos exploratórios e a sua cada vez mais crescente avidez por lucro está longe de ser benéfico e desejável. 

É que esta competição desenfreada para ver quem acumula mais lucro está prestes a provocar uma catástrofe de proporções inimagináveis. E, no ritmo acelerado com que tem avançado, o momento de sua eclosão não parece estar muito distante.

Qual deve ser nosso comportamento diante de tão tenebrosa perspectiva? No entender daqueles que são os donos do grande capital, deveríamos deixá-los continuar agindo da maneira que sempre fizeram.

Bastaria que eles pudessem continuar tocando seus negócios livremente, sem nenhuma intromissão, que, no final, o próprio mercado encontraria a saída apropriada. Em sua visão, o mercado é a verdadeira “força divina” capaz de solucionar qualquer problema. Portanto, devemos ter fé no Deus Mercado e deixar tudo por sua conta.

Mas, o tal Deus Mercado também tem seu “povo escolhido”. Trata-se de um povo que, por “direito divino”, merece receber privilégios e ser sempre considerado em primeiro lugar por todas as instâncias. O requisito indispensável integrar sua composição é ser dono de porções significativas de capital.

Ao entregar tudo nas mãos de seu deus protetor, nossos capitalistas confiam que encontrarão sua salvação e poderão gozar de sua merecida vida eterna, ou seja, locupletar-se com seus benditos lucros.

No entanto, aquilo que representa a salvação para os donos do capital significa a eternização da desgraça e do sofrimento para o restante da sociedade. Em vista disso, para os que não estão incluídos no reduzido e seleto grupo do “povo escolhido”, o caminho para alcançar a salvação aponta para uma direção muito diferente daquela que os “favoritos” do Deus Mercado preferem trilhar.

A única rota que pode nos levar a um mundo em que a elevação constante do nível de vida de todos não acarrete na destruição do meio ambiente em que estamos inseridos é aquela que tem por destino o socialismo.

Contrariamente à ideia que a propaganda ideológica dos capitalistas procura disseminar, o conceito de socialismo não implica de modo algum uma sociedade onde predomina o atraso. Na verdade, somente no socialismo é possível acreditar que o avanço permanente de nossas condições de vida não redunde na destruição da natureza.

Se no capitalismo a sociedade se estrutura em função da busca egoísta por lucro pessoal, no socialismo, o planejamento prioriza os interesses da coletividade como um todo. Assim, pode-se explorar os recursos naturais de modo coerente e racional, tendo em conta as necessidades da população e sua potencialidade.

No socialismo, o objetivo principal é garantir uma vida digna, justa e feliz para todos, e não apenas para uma minoria privilegiada.

Ao estudarmos a experiência em curso na República Popular da China, vemos que a meta da busca do socialismo não exige a eliminação completa das atividades empresariais privadas. O que de fato é uma condição indispensável é que as linhas diretrizes do funcionamento da economia não sejam traçadas pelos representantes da burguesia, e sim pela sociedade como um todo.

Para tal efeito, é de fundamental importância que as massas populares estejam organizadas em instituições em que predominem a democracia de caráter verdadeiramente popular.

Em síntese, se a grande burguesia constitui o “povo escolhido” no sistema capitalista, no socialismo, os privilegiados serão todos os que ali vivam e trabalhem. A séria crise do capitalismo neoliberal de nossos dias ajuda a reforçar minha convicção.

Independentemente de todas as dificuldades surgidas ao longo do tempo, o socialismo se mostra hoje mais necessário do que nunca.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: