Roberto
Junquilho: A barbárie, a utopia e o voto
O
relógio do celular marcava 23:14 de sábado, 27 de junho de 2026, quando li a
postagem de Wilson Coelho, o artista, ativista de esquerda dos bons, sobre a
experiência que acabara de ter, a confirmar o clima de ódio que varre o País -
também o mundo. Mascarado pelo show capitalista da Copa do Mundo, a barbárie
reforça a raiva contra os pobres, impede o livre pensar, a soberania
individual, a democracia, e estimula o fanatismo, de uma forma especial o
político e o religioso.
Em seu
relato, Wilson diz: “Vim embora para casa e resolvi tomar uma saideira no bar
da esquina. Ajeitei uma cadeira, sem mesa, e escorei a cerveja e o copo num
murinho ao meu lado. Tinha um coroa sentado à mesa logo adiante, bem próximo de
mim. Eu perguntei se eu fumasse, lhe incomodaria, no que ele respondeu que não,
mas o que o incomodava era minha bolsa. Eu estou com uma bolsa onde está
escrito "Lula 2026". Logo em seguida, ele piscou um olho para uma
mulher que estava à sua frente e levantou a camisa mostrando que estava com uma
pistola automática, pelo que sei, uma dessas de 9 tiros. Ela pegou o celular e
fotografou ele se expondo e olhando para mim com um olhar de prepotência e
desafio. Eu fiquei sem saber o que fazer e apenas disse que só os medrosos
andam armados. Achei que ele ia retrucar e fiquei na expectativa, mas ele não
falou mais nada, terminou de tomar sua cerveja e foi embora olhando para mim
como se eu fosse um extraterrestre. Fico triste em saber que é esse o ambiente
que estamos vivendo”.
Mais à
frente, ele desabafa: “Saí da Casa Cultural 155 onde a maioria das muitas
pessoas "felizes" que lá estavam não têm a mínima noção do que se
passa no país. Artesanato e peças que acreditam "rebeldes" por terem
frases feitas como se estivessem fora do mundo ou que um novo mundo fosse
possível na medida em que pudessem se resolver numa ação catártica”.
O texto
de Wilson não me faz entrar em nenhum processo de catarse, no sentido de
purificação, de liberar emoções no modo individual, mas, de outro lado, reforça
a certeza de que vivemos um clima de barbárie, decorrente da crise do
capitalismo, que, para evitar a derrocada, destrói e degrada povos e nações. Um
clima no qual se torna necessária a aglutinação de forças, de qualquer espécie,
a fim de que o amor ao próximo possa fazer florescer sonhos e utopias como
embriões de uma sociedade mais igualitária, solidária, inclusiva e acolhedora
na qual o direito e a justiça se destinem a todos.
Esse
cenário, utópico, é cheio de impossibilidades, manifestadas na tirania da
informação e no engodo do marketing, dominado pelo andar de cima, a provocarem
catarses que vão de encontro à própria existência humana, hoje extremamente
fragilizada. Isso ocorre pela proliferação do poder bélico entre as potências
mundiais ou por meio da aparentemente simples exibição de uma arma de fogo em
local público; por discursos mal formulados nas casas legislativas, em igrejas
e por leis que preservam privilégios de uma elite hipócrita e massacram o
povão. Desinformado, essa camada aplaude os tiranos, embalados pelos algoritmos
das big techs dominadas pelo grande capital, moldando mentes malignas e
comportamentos desumanos.
Muitos
são os que viveram a utopia, desde a antiguidade até hoje e outros que ainda a
acalentam. Como não lembrar de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Maria Quitéria,
dos assassinados no Araguaia e nos porões da ditadura de 64, os ativistas ainda
na ativa na luta pela democracia, a solidariedade, a igualdade o acolhimento e
o perdão; do povo cubano asfixiado pelo bloqueio criminoso dos Estados Unidos.
O heróis são muitos, como os que enfrentam os patrões nas lutas sindicais, o
Che, o congolês Patrice Lumumba, apagados numa história mal contada em
narrativas escritas pelos poderosos.
No
Brasil, o bolsonarismo, nos Estados Unidos, o trumpismo, é exemplo dessa
política, que, na esteira do nazifascismo, buscam e exercem o poder com base em
seus próprios interesses, sem qualquer projeto de país envolvendo a
coletividade. A sustentar essa pirâmide, o tornar-se rico – ou mais rico, é o
objetivo principal. Um quadro que remete a uma pergunta: Por que votar em
Flávio Bolsonaro, um político, como o pai, sem nenhum projeto como deputado
federal ou senador, a não ser empregar e homenagear milicianos integrantes do
chamado Escritório do Crime, no Rio de Janeiro? Não há resposta
aceitável.
Milton
Santos, o grande pensador brasileiro, falecido em 2001, disse que “a política,
por definição, é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Ela apenas se
realiza quando existe a consideração de tudo e de todos”. (“Por uma nova
globalização”, editora Record).
A frase
se encaixa no campo da utopia, horizonte buscado desde Platão, passando por
Thomas More, entre vários outros, até Karl Marx, que, em O Capital, denuncia a
desigualdade social movida pela injusta política capitalista dos meios de
produção.
E não
para só por aí. Para os fanáticos religiosos ou os que se deixam enganar com
jargões como “Deus, Pátria Família, que deriva do fascismo italiano de Benito
Mussolini e do integralismo de Plínio Salgado, marca da política do ódio, no
Brasil e em outros países, vale alguns escritos da Bíblia: Atos de 2 a 44, diz
que "Todos os que criaram estavam juntos e tinham tudo em comum”.
Eles compartilhavam seus bens de forma radical. No versículo 45 diz que eles
vendiam propriedades e repartiam o dinheiro de acordo com as necessidades de
cada um”.
Em seus
discursos, Jesus ordenou cuidar dos marginalizados Suas ações desafiaram as
estruturas de poder da época, promovendo a dignidade dos vulneráveis, a
partilha de recursos. Uma de suas principais ações foi o combate à opressão,
batendo de frente com os opressores, estabelecendo a justiça social.
A
barbárie está colocada, mas, apesar do poder do capital nas esferas políticas,
religiosas, cultural e social, não apagará os sonhos. A utopia é poderosa
bastante para superar as barreiras. A estrada é longa, ainda tem muito que
caminhar, com esperança de dias melhores, em permanente luta. O voto é a arma,
é hora é de pensar nas eleições de outubro, na escolha dos candidatos. Os
bolsonaro, traidores da Pátria, representam ameaça, do mesmo modo aqueles que
os seguem, como o homem exibindo a arma no bar ou o líder religioso a
empunhar a Bíblia e colocar a barbárie acima de um deus que dizem seguir,
mas, no dia a dia, se colocam longe de Deus, pela exclusão, a violência, o ódio
e outras formas de destruição, a morte!
¨
O “povo escolhido” no capitalismo e no socialismo. Por
Jair de Souza
Em base
de uma análise evolutiva da história, faz muito sentido considerar que as
características do sistema capitalista tenham representado um significativo
avanço positivo no desenvolvimento da capacidade produtiva da humanidade.
É
inegável que, em comparação com o que predominava com anterioridade, o vigoroso
aumento na capacidade de produzir bens e riquezas proporcionou condições de
vida mais favoráveis para o conjunto das pessoas inseridas nas sociedades em
que as relações de tipo capitalista iam prevalecendo.
Temos
plena consciência do enorme desequilíbrio na apropriação do crescente volume de
riquezas que passaram a ser geradas. É evidente que a distribuição dos ganhos
continuava longe de ser feita com base em parâmetros equitativos de justiça
social, visto que os proprietários dos meios de produção abocanhavam para si um
percentual imensamente mais elevado do que o que sobrava para o restante da
sociedade.
Mas,
apesar disto, não há dúvidas que representou um avanço em comparação com o
passado.
Contudo,
se, num primeiro momento, aquelas novas características haviam sido capazes de
elevar acentuadamente o nível de produção de bens, as contrapartidas negativas
não tardaram muito em dar as caras.
Como
estamos constatando, agora elas se tornaram uma enorme e aterradora ameaça que
está colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade como tal. E as
vítimas podem não ser apenas o gênero humano, senão que também todas as
outras formas de vida, ou seja, a natureza em sua totalidade tende a ser
afetada.
Diferentemente
da visão que prevalecia até pouco mais de um século, já comprendemos que o fato
de cada capitalista poder livremente dar vazão máxima a seus ímpetos
exploratórios e a sua cada vez mais crescente avidez por lucro está longe de
ser benéfico e desejável.
É que
esta competição desenfreada para ver quem acumula mais lucro está prestes a
provocar uma catástrofe de proporções inimagináveis. E, no ritmo acelerado com
que tem avançado, o momento de sua eclosão não parece estar muito distante.
Qual
deve ser nosso comportamento diante de tão tenebrosa perspectiva? No entender
daqueles que são os donos do grande capital, deveríamos deixá-los continuar
agindo da maneira que sempre fizeram.
Bastaria
que eles pudessem continuar tocando seus negócios livremente, sem nenhuma
intromissão, que, no final, o próprio mercado encontraria a saída apropriada.
Em sua visão, o mercado é a verdadeira “força divina” capaz de solucionar
qualquer problema. Portanto, devemos ter fé no Deus Mercado e deixar tudo por
sua conta.
Mas, o
tal Deus Mercado também tem seu “povo escolhido”. Trata-se de um povo que, por
“direito divino”, merece receber privilégios e ser sempre considerado em
primeiro lugar por todas as instâncias. O requisito indispensável integrar sua
composição é ser dono de porções significativas de capital.
Ao
entregar tudo nas mãos de seu deus protetor, nossos capitalistas confiam que
encontrarão sua salvação e poderão gozar de sua merecida vida eterna, ou seja,
locupletar-se com seus benditos lucros.
No
entanto, aquilo que representa a salvação para os donos do capital significa a
eternização da desgraça e do sofrimento para o restante da sociedade. Em vista
disso, para os que não estão incluídos no reduzido e seleto grupo do “povo
escolhido”, o caminho para alcançar a salvação aponta para uma direção muito
diferente daquela que os “favoritos” do Deus Mercado preferem trilhar.
A única
rota que pode nos levar a um mundo em que a elevação constante do nível de vida
de todos não acarrete na destruição do meio ambiente em que estamos inseridos é
aquela que tem por destino o socialismo.
Contrariamente
à ideia que a propaganda ideológica dos capitalistas procura disseminar, o
conceito de socialismo não implica de modo algum uma sociedade onde predomina o
atraso. Na verdade, somente no socialismo é possível acreditar que o avanço
permanente de nossas condições de vida não redunde na destruição da natureza.
Se no
capitalismo a sociedade se estrutura em função da busca egoísta por lucro
pessoal, no socialismo, o planejamento prioriza os interesses da coletividade
como um todo. Assim, pode-se explorar os recursos naturais de modo coerente e
racional, tendo em conta as necessidades da população e sua potencialidade.
No
socialismo, o objetivo principal é garantir uma vida digna, justa e feliz para
todos, e não apenas para uma minoria privilegiada.
Ao
estudarmos a experiência em curso na República Popular da China, vemos que a
meta da busca do socialismo não exige a eliminação completa das atividades
empresariais privadas. O que de fato é uma condição indispensável é que as
linhas diretrizes do funcionamento da economia não sejam traçadas pelos
representantes da burguesia, e sim pela sociedade como um todo.
Para
tal efeito, é de fundamental importância que as massas populares estejam
organizadas em instituições em que predominem a democracia de caráter
verdadeiramente popular.
Em
síntese, se a grande burguesia constitui o “povo escolhido” no sistema
capitalista, no socialismo, os privilegiados serão todos os que ali vivam e
trabalhem. A séria crise do capitalismo neoliberal de nossos dias ajuda a
reforçar minha convicção.
Independentemente
de todas as dificuldades surgidas ao longo do tempo, o socialismo se mostra
hoje mais necessário do que nunca.
Fonte:
Brasil 247

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