quarta-feira, 1 de julho de 2026

China acelera na ciência e mira liderança no espaço

A China acelera cada vez mais em ciência, com avanço em pesquisas, estação espacial própria e planos para a Lua, ampliando a disputa tecnológica com os Estados Unidos e consolidando uma estratégia que combina investimento público, inovação industrial e ambição geopolítica, relata reportagem da Deutsche Welle.

A ascensão chinesa já não se limita à economia ou à indústria. Ela aparece com força no espaço, nos laboratórios de ponta, nas universidades e em áreas estratégicas como inteligência artificial, tecnologia quântica, biotecnologia, energia de fusão, ciências da vida e exploração do chamado espaço profundo.

Um dos símbolos mais visíveis dessa nova fase está a cerca de 390 quilômetros da Terra. A comissária-chefe da polícia de Hong Kong, Lai Kai-ying, de 43 anos, integra a tripulação chinesa que orbita o planeta na estação espacial Tiangong, o “Palácio celestial”. Ao lado de dois colegas astronautas da República Popular da China, ela dá 16 voltas ao redor da Terra por dia em uma estrutura que funciona como laboratório de microgravidade para experimentos científicos.

A Tiangong está em operação há quase cinco anos e se tornou uma peça central da estratégia espacial chinesa. A estação simboliza não apenas capacidade técnica, mas também poder econômico e projeção internacional. Assim como ocorreu na corrida espacial das décadas de 1950 e 1960, a disputa atual carrega forte componente ideológico. A diferença é que, no século XXI, o principal competidor dos Estados Unidos não é mais a União Soviética, mas a China.

A tendência é que essa posição ganhe ainda mais peso nos próximos anos. Com a desativação prevista da Estação Espacial Internacional em 2032, Pequim poderá se tornar o único governo a manter uma estação orbital permanentemente ocupada.

O avanço espacial, porém, é apenas uma parte de um movimento mais amplo. O ranking mais recente do Nature Index, elaborado pela revista científica Nature, colocou a China no topo da produção científica mundial em 2025, à frente dos Estados Unidos e da Alemanha. O levantamento também apontou que nove das dez principais instituições de pesquisa do mundo são chinesas. A única exceção foi a Universidade Harvard, dos Estados Unidos, na terceira posição.

A Sociedade Max Planck, da Alemanha, referência internacional em pesquisa básica, aparece apenas na 13ª colocação. Para Christina Beck, porta-voz da instituição, a mudança é estrutural. “Hoje em dia, é quase irrelevante qual ranking de instituições científicas internacionais você queira consultar. Universidades e instituições de pesquisa na China são líderes em muitas áreas”, afirmou.

O levantamento mostra a força chinesa especialmente nas ciências naturais, como biologia, química e física, além de áreas aplicadas. As instituições dos Estados Unidos ainda mantêm vantagem em ciências da saúde e ciências sociais, mas a distância diminuiu no conjunto da produção científica global.

Especialistas apontam que a ascensão não ocorreu de forma repentina. Richard Heidler, diretor de Gestão da Informação da Fundação Alemã de Pesquisa, destacou que o crescimento vem sendo construído há pelo menos duas décadas. “No início dos anos 2000, houve sobretudo um aumento significativo no volume de publicações, enquanto, há cerca de dez anos, análises bibliométricas passaram a mostrar também um crescimento em indicadores de impacto, como a proporção e o número de publicações altamente citadas”, explicou.

Na prática, a China deixou de apenas publicar muito e passou a influenciar de forma crescente o debate científico internacional. A produção chinesa se tornou mais citada, mais visível e mais relevante em áreas consideradas essenciais para a economia do futuro.

Christina Beck atribui esse salto a uma política de Estado de longo prazo. “O fator decisivo foi o apoio financeiro sistemático e de longo prazo às instituições científicas e universidades na China, particularmente por meio da formação internacional de pesquisadores e investimentos substanciais em infraestruturas de pesquisa de grande escala”, disse.

Pequim trata a tecnologia como eixo central de sua estratégia de desenvolvimento. O 15º Plano Quinquenal, que orienta o crescimento econômico até 2030, prevê um aumento da eficiência do sistema de inovação e busca integrar de forma mais intensa a pesquisa científica à indústria. O conceito oficial usado pelo governo chinês para essa nova etapa é o de “novas forças produtivas”.

Entre as prioridades definidas no planejamento estão inteligência artificial, tecnologia quântica, energia de fusão controlável, ciências da vida, biotecnologia, pesquisa cerebral, prevenção de doenças graves, indústria farmacêutica, exploração de águas profundas e polares e investigação do espaço profundo.

No setor espacial, a competição com os Estados Unidos se concentra especialmente na Lua. A China pretende estar pronta para uma missão tripulada lunar até 2030. Já a Nasa trabalha para cumprir o cronograma do programa Artemis, previsto para 2028, mas enfrenta atrasos no módulo lunar e em novos trajes espaciais.

Pequim também planeja estabelecer uma presença permanente na superfície lunar e usar a Lua como plataforma para futuras expedições ao espaço profundo. A médio prazo, astronautas chineses poderão ser alocados de forma contínua em instalações lunares.

A China já obteve um feito inédito: coletou amostras de rochas do lado oculto da Lua por meio de um módulo lunar. Esse material deverá ser usado em pesquisas para a produção de estruturas semelhantes às rochas lunares, com potencial aplicação em futuras construções fora da Terra.

A expansão tecnológica chinesa, no entanto, vai além da ciência. Para analistas, ela também serve como instrumento de influência internacional. Daniel Voelsen, pesquisador do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, escreveu que “a tecnologia pode ser usada como uma ferramenta para criar esferas de influência transfronteiriças”.

Segundo ele, a disputa tecnológica também envolve domínio de mercados, vantagens econômicas e interesses militares. “O objetivo é exportar o máximo possível graças ao domínio do mercado internacional e explorar os efeitos econômicos de escala associadas, sem abrir mão de uma vantagem militar ou econômica decisiva. Para países como os EUA e a China, isso está associado ao desejo de também influenciar as políticas de outras nações por meio do domínio tecnológico”, afirmou.

Essa dimensão política tem impacto direto na cooperação científica. Nos Estados Unidos, a Nasa está proibida por lei federal, por meio da chamada Emenda Wolf de 2011, de cooperar diretamente com a agência espacial chinesa. A Agência Espacial Europeia também evita aprofundar parcerias com Pequim, em razão da aliança transatlântica, embora astronautas europeus já tenham realizado treinamentos conjuntos com taikonautas chineses e aprendido vocabulário em chinês.

Na Alemanha, o Ministério Federal da Pesquisa, Tecnologia e Espaço afirma que a cooperação com a China deve respeitar limites políticos e estratégicos. “Limites claros são estabelecidos em áreas sensíveis”, declarou o ministério. “Isso se aplica, por exemplo, a colaborações em temas que também podem servir a fins militares (uso duplo) ou a colaborações na área de inteligência artificial, que podem ser mal utilizadas para fins de vigilância e violações de direitos humanos.”

A percepção na Europa é que a China se tornou simultaneamente parceira, concorrente e rival sistêmica. Por isso, instituições científicas passaram a avaliar com mais cautela os riscos e benefícios de projetos conjuntos.

“Queremos manter a cooperação em áreas de pesquisa onde não haja problema de uso duplo”, afirmou Christina Beck. Um exemplo citado por ela é o radiotelescópio FAST, localizado na província de Guizhou, no sudoeste da China. Com 500 metros de diâmetro, o equipamento é considerado o maior radiotelescópio do mundo. “Essa colaboração nos dá acesso a uma infraestrutura única”, disse.

Ingrid Krüßmann, do Centro Sino-Alemão de Fomento à Pesquisa da Fundação Alemã de Pesquisa, defende posição semelhante. “A DFG está comprometida em criar a maior segurança jurídica possível para os pesquisadores na Alemanha, para que projetos de colaboração de excelência com parceiros chineses continuem, em princípio, sendo viáveis”, afirmou.

Ao mesmo tempo, a aproximação entre pesquisa civil e militar na China, somada ao endurecimento geopolítico e à situação política interna do país, impõe novos desafios às instituições estrangeiras. A Sociedade Max Planck afirma que pretende conduzir parcerias com instituições chinesas de forma “informada, responsável e estratégica”.

Enquanto isso, Pequim avança no uso da ciência e do espaço como instrumentos de política externa. Depois da presença de Lai Kai-ying na estação Tiangong, a China prepara a ida de um astronauta estrangeiro para uma missão de seis meses em sua estação espacial. Dois paquistaneses treinam para a missão Shenzhou 24, prevista para outubro.

O gesto tem forte significado diplomático. O Paquistão é um dos aliados mais próximos de Pequim, e a presença de seus astronautas na estação chinesa reforça a ideia de que a disputa por influência também ocorre fora da atmosfera terrestre. No vácuo do espaço, a formação de blocos políticos segue acompanhando a corrida tecnológica na Terra.

¨      Ben Norton denuncia campanha do Vale do Silício contra a China na corrida da inteligência artificial

O jornalista Ben Norton, editor-chefe do Geopolitical Economy Report, afirma que as maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão conduzindo uma ampla campanha política, econômica e midiática para preservar sua supremacia global na inteligência artificial e conter o avanço da China. Em vídeo publicado em seu canal, Norton sustenta que corporações do Vale do Silício atuam em estreita parceria com o governo norte-americano para promover uma nova Guerra Fria tecnológica.

Com base em reportagens publicadas por veículos como Wired, The Guardian, Axios e Politico, Norton argumenta que empresas como OpenAI, Palantir, Google, Microsoft, Oracle, Nvidia, Amazon Web Services e SpaceX estariam articulando campanhas de influência, pressionando por subsídios públicos, colaborando com projetos militares e utilizando a narrativa da segurança nacional para justificar políticas destinadas a preservar seus monopólios tecnológicos.

Influenciadores seriam pagos para disseminar propaganda

Segundo Norton, reportagem da revista Wired revelou que empresas do Vale do Silício estão financiando influenciadores digitais para divulgar mensagens favoráveis à indústria norte-americana de inteligência artificial e contrárias à China.

Ele afirma que grupos como o super PAC Leading the Future e a organização Build American AI oferecem pagamentos a criadores de conteúdo, inclusive influenciadores sem atuação política, para publicar vídeos reforçando a ideia de que a China representa uma ameaça aos Estados Unidos.

Norton reproduz literalmente um dos roteiros distribuídos aos influenciadores:

 "Acabei de saber que a China está tentando muito vencer os Estados Unidos em inteligência artificial. Se isso acontecer, pode significar que a China obtenha dados pessoais meus e dos meus filhos e tire empregos que deveriam estar aqui nos Estados Unidos na corrida da inovação em IA. Eu sou time EUA."

Segundo ele, influenciadores receberiam milhares de dólares por um único vídeo com esse conteúdo.

<><> Protestos contra data centers seriam tratados como ameaça nacional

Para Norton, a campanha vai além das redes sociais.

Ele cita reportagem do Axios segundo a qual grupos financiados pelas grandes empresas de tecnologia procuram associar manifestações populares contra data centers a uma suposta estratégia chinesa para enfraquecer os Estados Unidos.

Na avaliação do jornalista, cria-se uma narrativa segundo a qual qualquer crítica aos impactos ambientais da inteligência artificial ou à concentração econômica das big techs favoreceria Pequim.

"O argumento deles é simples: se você critica esses monopólios corporativos, então está ajudando a China."

<><>Caso envolvendo Elon Musk

Outro exemplo citado por Norton envolve a empresa xAI, de Elon Musk.

Segundo reportagem mencionada pelo jornalista, a empresa foi alvo de ação judicial apresentada pela NAACP, que acusa a instalação de dezenas de turbinas movidas a gás metano sem licença ambiental para abastecer um centro de dados localizado em uma comunidade pobre e majoritariamente negra do Mississippi.

Norton destaca que o Departamento de Justiça do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, interveio em defesa da empresa.

Segundo ele, o governo argumentou que os data centers utilizados para treinamento de inteligência artificial são estratégicos para a economia e para o Departamento de Defesa, razão pela qual ações ambientais não deveriam comprometer esses projetos.

Para Norton, isso demonstra que Washington estaria priorizando os interesses das gigantes da tecnologia em detrimento das populações mais vulneráveis.

<><> Uma nova Guerra Fria baseada na inteligência artificial

Ao longo da análise, Norton sustenta que Washington passou a enquadrar a disputa tecnológica com Pequim como uma verdadeira corrida armamentista.

Segundo ele, parlamentares norte-americanos e representantes do setor tecnológico descrevem a inteligência artificial como o equivalente contemporâneo da corrida nuclear travada durante a Guerra Fria.

Nesse contexto, afirma o jornalista, a principal preocupação do Vale do Silício é impedir que empresas chinesas ampliem sua presença internacional.

<><> Eric Schmidt critica modelos abertos da China

Norton cita declarações do ex-presidente-executivo do Google, Eric Schmidt, segundo as quais a China estaria promovendo uma ampla difusão global de tecnologias abertas de inteligência artificial.

Schmidt afirmou:

 "O que eu não gosto é que a China está muito focada na ampla difusão dessa tecnologia globalmente e tudo é código aberto, o que significa que ela não é controlada e certamente não é controlada por nós."

Para Norton, essa declaração evidencia que o objetivo das empresas norte-americanas é preservar o controle sobre as tecnologias mais avançadas do setor.

Ele também lembra que Schmidt exerceu forte influência sobre a política científica durante o governo de Joe Biden, demonstrando, segundo sua avaliação, que essa estratégia transcende diferenças partidárias entre democratas e republicanos.

<><> Peter Thiel: "a concorrência é para perdedores"

O jornalista também destaca a influência do investidor Peter Thiel, um dos principais financiadores de Donald Trump e mentor político do vice-presidente JD Vance.

Norton recorda um artigo publicado por Thiel em 2014 no Wall Street Journal, intitulado Competition is for Losers, e uma palestra ministrada na Universidade Stanford.

Na ocasião, Thiel declarou:

 "Se você está criando uma empresa, sempre deve buscar o monopólio e evitar a concorrência. A concorrência é para perdedores."

Segundo Norton, essa filosofia representa a lógica predominante entre os grandes investidores do Vale do Silício.

<><> OpenAI pede ajuda ao governo

Outro ponto destacado é a situação financeira da OpenAI.

Segundo Norton, embora a empresa tenha registrado perdas bilionárias, continua anunciando investimentos gigantescos e busca apoio financeiro do governo norte-americano.

Ele afirma que a OpenAI enviou carta ao Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca defendendo maiores subsídios públicos para enfrentar a concorrência chinesa.

Também cita declarações do diretor financeiro da empresa defendendo uma espécie de garantia federal para investimentos em inteligência artificial.

Segundo Norton, documentos obtidos pelo jornalista Ed Zitron indicariam prejuízo de aproximadamente US$ 5 bilhões em 2024, apesar de planos de investimentos muito superiores.

<><> Inteligência artificial e indústria militar

Norton dedica parte significativa da análise à crescente integração entre empresas de tecnologia e o Pentágono.

Segundo ele, o Departamento de Defesa anunciou contratos envolvendo OpenAI, Google, Microsoft, Nvidia, Oracle, Amazon Web Services, SpaceX e outras empresas para projetos militares classificados.

O objetivo declarado, segundo documento citado pelo jornalista, seria transformar as Forças Armadas dos Estados Unidos em uma força militar orientada por inteligência artificial.

Norton afirma que o Pentágono também solicitou US$ 54 bilhões para o desenvolvimento de armas autônomas.

Na avaliação do jornalista, isso demonstra que as grandes empresas de IA participam diretamente do complexo militar-industrial norte-americano.

<><> Palantir e o avanço da vigilância

Entre todas as empresas citadas, Norton dedica atenção especial à Palantir.

Segundo ele, a companhia vem recebendo contratos bilionários para integrar bancos de dados do governo norte-americano e desenvolver sistemas de vigilância em massa.

O jornalista também critica projetos de policiamento preditivo, que, segundo ele, podem permitir que algoritmos apontem indivíduos como potenciais criminosos antes mesmo da prática de qualquer delito.

Além disso, Norton cita trechos de documentos públicos da Palantir defendendo maior mobilização militar da sociedade norte-americana e o fortalecimento da capacidade bélica dos Estados Unidos.

<><> O conceito de "Surveillance Valley"

Para sustentar sua análise, Norton recorre ao livro Surveillance Valley, do jornalista Yasha Levine.

Segundo Levine, a internet nunca foi uma ferramenta neutra, mas nasceu profundamente integrada aos interesses militares e de inteligência dos Estados Unidos.

Norton lembra que o autor documenta a colaboração histórica de empresas como Google, Amazon e Facebook com o Pentágono, a CIA, a NSA e outras agências governamentais.

Na avaliação do editor do Geopolitical Economy Report, muitas dessas conclusões, antes tratadas como exageradas por parte da imprensa tradicional, passaram a ser corroboradas pelos próprios anúncios oficiais feitos pelo governo norte-americano e pelas empresas de tecnologia.

<><> A disputa tecnológica como eixo da geopolítica

Ao concluir sua análise, Ben Norton afirma que os Estados Unidos utilizam a China como principal justificativa para ampliar sistemas de vigilância, fortalecer o complexo militar-industrial e consolidar o poder das grandes empresas de tecnologia.

Segundo ele, a narrativa da competição estratégica serviria para legitimar políticas destinadas a preservar a liderança tecnológica norte-americana, restringir concorrentes estrangeiros e ampliar a influência das corporações do Vale do Silício sobre o Estado.

Para Norton, a atual disputa pela inteligência artificial representa não apenas uma competição econômica, mas uma reconfiguração da geopolítica mundial, marcada pela crescente convergência entre governo, indústria militar e gigantes da tecnologia dos Estados Unidos.

 

Fonte: Brasil 247

 

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