Bets:
um problema de saúde pública
O
mercado das apostas esportivas online (Bets) deixou de ser apenas um novo
segmento da economia digital para se transformar em um dos maiores negócios do
país. Em 2024, o setor movimentou cerca de R$ 36,9 bilhões, mas o ritmo de
expansão impressiona ainda mais: segundo dados do Banco Central e da Secretaria
de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, os brasileiros já destinam entre
R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês às plataformas de apostas. Em um ano,
isso representa algo entre R$ 240 bilhões e R$ 360 bilhões, cifras que
rivalizam com setores inteiros da economia nacional.
A
concentração desse mercado é igualmente reveladora. A Betano, hoje a maior
operadora do país, fatura cerca de US$ 1,4 bilhão e registra mais de 12 milhões
de acessos mensais. A britânica Bet365 supera 15 milhões de visitas por mês,
demonstrando o enorme alcance dessas plataformas.
Para
conquistar novos apostadores, o setor investe pesadamente em publicidade.
Somente em rádio e televisão foram destinados R$ 1,44 bilhão, concentrados
principalmente em três empresas: BetMGM, Betano e BetNacional. O lucro líquido
das operadoras varia entre 4% e 10% sobre o volume apostado, resultado obtido
graças a uma atividade baseada em milhões de pequenas perdas individuais.
Hoje
existem 187 bets autorizadas, regulamentadas e fiscalizadas pela Secretaria de
Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Paralelamente, porém, sobrevivem
mais de 2 mil plataformas ilegais. Embora milhares já tenham sido bloqueadas
pelas autoridades, estima-se que o mercado clandestino ainda represente entre
40% e 51% de toda a atividade, movimentando até R$ 50 bilhões e provocando
perdas econômicas e sociais estimadas em R$ 38,8 bilhões por ano.
O
problema, entretanto, vai muito além da arrecadação de impostos ou da
fiscalização. As apostas online passaram a integrar o cotidiano de milhões de
brasileiros por meio de uma publicidade agressiva, da associação permanente ao
futebol e da promessa ilusória de ganhos fáceis.
Para
uma parcela crescente da população, especialmente entre jovens e pessoas de
baixa renda, o jogo deixa de ser entretenimento para se transformar em
compulsão, levando ao endividamento, à desestruturação familiar, ao
comprometimento da saúde mental e, em muitos casos, à perda da capacidade de
trabalho.
É por
isso que as bets já devem ser tratadas como um problema de saúde pública. O
jogador compulsivo desenvolve uma dependência comparável à de outros
transtornos aditivos, exigindo atendimento especializado, acompanhamento
psicológico e políticas permanentes de prevenção. Não basta regulamentar o
mercado: é indispensável proteger a população da expansão desenfreada de uma
atividade que lucra justamente com a repetição das apostas e com a esperança de
ganhos fáceis.
O
próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já afirmou que, se dependesse
dele, fecharia todas as bets. A declaração revela a gravidade do problema, mas
também os limites impostos pela correlação de forças existente no Congresso
Nacional. A regulamentação aprovada foi resultado das condições políticas
possíveis, não necessariamente da solução considerada ideal pelo governo.
Se a
sociedade brasileira considera que as apostas online se transformaram em uma
ameaça à saúde pública, à renda das famílias e ao futuro de milhões de jovens,
a resposta não será encontrada apenas na fiscalização ou na tributação. Será
preciso construir uma maioria política comprometida com o interesse público. Em
ano eleitoral, essa discussão ganha ainda mais importância.
Se
queremos enfrentar de fato a epidemia das bets, será necessário mudar a
correlação de forças no Congresso Nacional nas eleições de outubro. Só assim
será possível aprovar medidas mais rigorosas para proteger a população de um
negócio extremamente lucrativo para poucos e profundamente nocivo para o
conjunto da sociedade.
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário