quarta-feira, 1 de julho de 2026

A esperteza de Ancelotti que salvou Brasil de ser humilhado pelo Japão

No intervalo do jogo em Houston, os jogadores do Brasil deixaram o gramado sabendo bem qual era o clima em seu país natal.

Eles estavam a 45 minutos de mais uma eliminação precoce em Copas do Mundo — a mais rápida desde 1966 — e de uma humilhação nacional.

O Japão parecia ter o Brasil sob controle após ter aberto o placar.

Para uma equipe que não virava um jogo de mata-mata de Copa do Mundo desde 2002, tudo parecia se encaminhar para o pior desfecho possível. Uma zebra começava a despontar como possibilidade bastante concreta.

Mas não se deve duvidar de Carlo Ancelotti. O técnico do Brasil é um vencedor em série — com um recorde de cinco títulos da Liga dos Campeões como treinador e troféus em todas as cinco principais ligas da Europa.

Qualquer que seja o torneio que se pense, ele ganhou. Pelo menos em nível de clubes.

Mas este é o seu primeiro trabalho em seleções, e o italiano é o primeiro treinador estrangeiro do Brasil em uma Copa do Mundo, então é de se imaginar que até ele estaria um pouco preocupado após os primeiros 45 minutos.

"Não. Na verdade, não. Eu estava confiante na nossa equipe", disse ele.

Imperturbável até o fim, Ancelotti comandou a primeira vitória de virada do Brasil em um jogo eliminatório de Copa do Mundo desde o jogo contra a Inglaterra nas quartas de final de 2002.

A crise foi evitada e o Brasil está classificado para as oitavas de final contra Costa do Marfim ou Noruega.

Mas não há dúvida de que foi preciso o técnico de 67 anos manter a calma para conduzir o Brasil até a próxima fase.

<><> 'Esnobe tradicionalista'

Ancelotti teve um início forte na carreira como treinador de seleções, vencendo nove de seus primeiros 15 jogos à frente do Brasil.

Mas, embora ele possa não ter sentido, a pressão era inegável quando caminhava de volta ao vestiário para dar sua conversa no intervalo.

"Foi [um susto para o Brasil]", disse o especialista em futebol sul-americano Tim Vickery à BBC.

"Gostaria de destacar para vocês o tamanho da humilhação que essa equipe do Brasil estava enfrentando no intervalo. O Brasil, por motivos óbvios, é um esnobe tradicionalista. A ideia de ser eliminado, não nas quartas de final, mas na primeira rodada das eliminatórias, contra uma equipe da Ásia [é inconcebível para os brasileiros]."

"Mesmo que fosse injusto [pensar isso] — de todas as equipes que o Brasil poderia enfrentar como líder de grupo, o Japão era a mais perigosa para eles — os jogadores estavam diante de uma humilhação histórica."

Embora vários jogadores do Brasil tenham tido dificuldades contra o Japão no primeiro tempo, a única substituição que Ancelotti fez no intervalo foi forçada, com Endrick substituindo o lesionado Lucas Paquetá.

"Às vezes, a maior habilidade de Ancelotti é não fazer nada", disse Vickery. "Um oásis de calma em meio a todo o caos ao seu redor — e deu resultado mais uma vez."

Ancelotti reconheceu que o Brasil "teve alguns problemas" contra um Japão bem organizado, mas confiou que seus jogadores conseguiriam sair da situação.

"O time jogou. Não foi um time perdido como no primeiro tempo contra o Marrocos", disse.

<><> Objetividade, intensidade e bola na área

A formação permaneceu em grande parte a mesma, mas era um Brasil diferente no segundo tempo.

Havia propósito e intensidade no jogo que faltaram na primeira etapa, além de alguns ajustes táticos, principalmente uma disposição maior para colocar a bola na área.

O Brasil fez 12 cruzamentos no primeiro tempo, mas geralmente tentou furar a sólida defesa japonesa com as trocas de passes curtas e elaboradas típicas da seleção.

No segundo tempo, isso foi deixado de lado, e a equipe fez 28 cruzamentos para a área. Mesmo considerando seis minutos de acréscimos, isso dá menos de dois minutos por cruzamento.

Com jogadores chegando pelo lado não coberto pelos defensores no segundo pau, o Japão teve dificuldades para lidar com a situação e não foi surpresa que o gol de empate de Casemiro tenha saído dessa estratégia simples, mas eficaz.

"As mudanças no intervalo feitas por Carlo Ancelotti fizeram a diferença", disse o ex-lateral da Inglaterra Stephen Warnock à BBC. "O Japão não conseguiu lidar com as bolas na área."

Há um romantismo na ideia do Brasil como uma equipe cheia de talento ofensivo, jogando um futebol leve, e Ancelotti não é um treinador que queira acabar com isso — mas também sabe que, às vezes, vencer exige uma abordagem diferente.

"O único resultado aceitável é a vitória. Um estilo de jogo é suficiente? Nunca podemos nos contentar com o que estamos fazendo", disse.

"Foi um passo à frente? Este foi o jogo mais completo que fizemos. Tivemos mais dificuldades no primeiro tempo porque o Japão veio forte. No segundo, superamos isso."

"Acredito que isso seja uma evolução, com certeza. Tivemos dificuldade para encontrar espaço no início, mas conseguimos resolver esse problema muito bem."

<><> 'Salvando a pátria'

No fim das contas, embora as mudanças de Ancelotti tenham feito diferença, foi um erro do Japão e a calma de Bruno Guimarães e Gabriel Martinelli que garantiram a vitória do Brasil, com um gol aos 95 minutos para manter vivo o sonho do hexa.

"Dissemos antes da Copa do Mundo que o futebol tem seus momentos", afirmou Ancelotti. "Não existe 'não cometer erros', porque ninguém é perfeito, mas você precisa superá-los e seguir em frente. Foi o que a equipe fez."

O Brasil teve que trabalhar duro, mas superar essas situações só deve torná-lo mais forte — vencer de forma tão dramática certamente dará impulso ao time.

Talvez o sentimento predominante ao apito final, porém, tenha sido o alívio.

"Salvando a pátria" foi a avaliação do ex-meia brasileiro Lucas Leiva, enquanto Vickery disse que a equipe "escalou o Everest da maneira mais difícil".

Ancelotti, no entanto, nunca esteve preocupado. Ele sabe como vencer e esse foi apenas um dos muitos obstáculos que sua equipe terá de superar.

"Eles estão no caminho certo sob o comando de Ancelotti", acrescentou Chris Sutton, ex-atacante inglês. "O esperto Carlo conseguiu de novo. É isso que ele faz."

•        Matemático 'guru das Copas' errou: Brasil elimina Japão e contraria 'previsão'

O economista Joachim Klement não contava com Gabriel Martinelli.

O alemão, que iniciou a Copa como "guru" por ter acertado os campeões das três edições passadas, havia previsto que o Brasil enfrentaria o Japão no primeiro jogo do mata-mata - e apostava em vitória dos japoneses.

Quando o Japão abriu o placar, parecia que o alemão acertaria mais uma vez. Mas Casemiro e Gabriel Martinelli resolveram intervir, acabando com a "maldição" da previsão.

Após o resultado, Klement foi alvo até de Neymar Jr., que passou o jogo no banco de reservas. "Sr. Joachim Klement... favor tentar na próxima copa", disse o jogador no X (antigo Twitter).

Mas o erro no jogo do Brasil não apaga o histórico de acertos realmente notável de Klement em outras previsões.

O economista alemão criou um complexo modelo de previsão que mantém 100% de acerto nas suas previsões do campeão mundial, desde a Copa disputada no Brasil, em 2014.

Se a profecia estatística de Klement se confirmar pela quarta vez, a Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio, no próximo dia 19 de julho.

Além dos campeões, o modelo do economista alemão mapeia todas as fases do torneio e suas 48 seleções.

Segundo o modelo, a Holanda enfrentará a Espanha nas semifinais. E, na outra semifinal, enfrentam-se Inglaterra e Portugal — que terá eliminado a Argentina nas quartas de final.

O economista prevê que Portugal vencerá mais uma vez os ingleses, como ocorreu nas quartas de final da Copa de 2006, na Alemanha. A previsão só não detalha se a decisão ocorrerá novamente nos pênaltis.

Klement é um "pessimista" confesso, que morou por 10 anos no Reino Unido. Para ele, a pesquisa nunca pretendeu evitar a tristeza de ninguém, nem ganhar dinheiro em apostas.

Na verdade, ele esperava revelar o absurdo de tentar prever os resultados.

"Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", explica Klement.

"Agora, isso passou a ser uma demonstração de como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru."

Sua primeira previsão se tornou realidade em 2014, quando o seu país, a Alemanha, venceu a Copa do Mundo realizada no Brasil.

Klement imaginou que, refazendo a simulação novamente em 2018, ele poderia demonstrar que aquilo foi uma casualidade. Mas ele acertou novamente sua previsão com a França em 2018 — e, depois, com a Argentina, em 2022.

"Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas, agora, acham que este modelo é invencível e que, é claro, eu certamente irei acertar mais uma vez", ele conta.

É verdade que existem fatores "sistêmicos" conhecidos que determinam, em parte, o sucesso de cada país na Copa do Mundo. Eles incluem a população nacional, a riqueza, o clima e o ranking mundial da Fifa.

Mas a popularidade das previsões quadrienais de Klement cresce a cada acerto. E ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela, pois estes fatores contam apenas uma parte da história.

"Os outros 50% são de sorte", segundo ele.

"Cada jogo — especialmente quando você tem equipes de alta qualidade, com técnicas e habilidade muito similares, jogando entre si — realmente depende da forma naquele dia, de uma decisão da arbitragem, de um pouco de sorte entre aquela bola que bate na trave ou entra no gol."

"Este tipo de coisa é completamente imprevisível", explica Klement.

Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, o modelo de previsão oferece a Klement uma ótima diversão em relação ao seu trabalho diário.

"Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que me faz sentir bem", ele conta. "E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo de ruim que está acontecendo no mundo."

Mas, a cada vez que o economista acerta uma previsão, cresce o peso da expectativa.

•        Freiras viralizam comemorando virada do Brasil

As irmãs do Mosteiro Santa Maria dos Anjos, em Dourados (MS), terminaram a noite de segunda-feira (29/6) com chá de erva-cidreira. Isso depois da tensão da classificação do Brasil para as oitavas de final da Copa do Mundo.

Religiosas da Ordem de Santa Clara, elas viralizaram nas redes sociais com um vídeo em que aparecem reunidas diante da televisão, comemorando o gol da virada da Seleção sobre o Japão.

No vídeo, com bandeiras do Brasil, elas gritam, pulam, se abraçam — como qualquer torcedor.

"Foi muita emoção", conta a Madre Maria Rafaela da Rainha Imaculada, de 40 anos, e que vive no mosteiro há 24.

Na rotina religiosa, elas não costumam assistir a futebol com frequência, apenas aos jogos da Copa do Mundo.

"Como todo brasileiro, carregamos a herança de nossas famílias. Antes de entrarmos no mosteiro, assistimos aos jogos em nossas famílias, então, para nós, é natural assistir."

As 21 irmãs do mosteiro tentam conciliar os horários de oração com os jogos. Até agora, três dos quatro jogos do Brasil no Mundial caíram em datas especiais do calendário católico: os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro.

"Pedimos em todos os jogos a intercessão deles e de São Padre Pio, pois o técnico da seleção brasileira é devoto de Padre Pio", conta a Madre Rafaela.

Em um perfil no Instagram, elas compartilham um pouco da vida religiosa, mas com descontração.

"Partilhamos na internet um pouco da nossa vida para que as pessoas possam também sentir a alegria, a plenitude que é a vida contemplativa."

Nem todo mundo entende, ela conta.

"Há alguns poucos, bem poucos comentários negativos, talvez de pessoas que não entendem que quem segue Jesus, segue por inteiro, integralmente", diz. "A pessoa — toda e cada vez que nos aproximamos d'Ele — mais humanos nos tornamos, mais felizes, mais pacíficos, mais virtuosos, e assim transmitimos esses valores e todo esse amor para o mundo."

"As pessoas às vezes pensam que quem segue a Jesus é oprimido, triste, desanimado. Nós somos jovens cheias de vitalidade, com a mesma alegria com que torcemos, rezamos e trabalhamos, porque Jesus é a nossa alegria."

No próximo domingo (5/7), quando o Brasil disputa as oitavas de final, elas devem se reunir novamente para assistir à partida.

"Continuamos unidos na fé e torcendo para que os jogadores sintam que estamos com eles", diz. "Somos uma grande família de brasileiros e brasileiras que podem, através do futebol, trazer um pouco de alegria e de paz para o mundo."

 

Fonte: BBC Sport

 

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