quarta-feira, 1 de julho de 2026

A estratégia de Trump e o bolsonarismo: como a extrema direita global tenta minar as eleições no Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou nesta terça-feira (23) em seu perfil na rede social Truth Social um artigo da Newsmax que classifica as eleições brasileiras como a disputa “mais importante do hemisfério” e questiona a lisura do processo eleitoral no país, sem apresentar qualquer evidência.

O movimento ocorre em meio a um ciclo de declarações hostis de Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e é monitorado pelo governo brasileiro como parte de um risco de interferência externa no pleito presidencial de outubro.

<><> Trump e a deslegitimação das eleições brasileiras

O artigo compartilhado por Trump foi publicado pela Newsmax sob o título “Trump conquista oito vitórias em sete anos na América Latina” e usa como gancho a vitória do candidato de direita Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia.

Ao chegar ao Brasil, o texto muda de tom: descreve o país como o “próximo grande teste” para a influência de Trump na região e afirma que o processo eleitoral brasileiro “tem sido alvo de intenso debate sobre a integridade do sistema de votação nacional”, questionando se a disputa será “conduzida de maneira considerada livre e justa por todos os lados”. Nenhum dado, prova ou episódio concreto é apresentado para sustentar a afirmação.

A publicação vai além do diagnóstico e projeta consequências: “Caso o Brasil venha a se juntar à crescente lista de países que se movem para a direita, o mapa político da América Latina será drasticamente diferente do que era há apenas uma década”, escreveu o colunista John Gizzi no texto.

A sugestão é a de que uma virada à direita no Brasil completaria um redesenho regional que já teria alinhado outros países às políticas de Trump. Ao compartilhar o artigo no Truth Social, Trump reproduziu apenas o título, sem acrescentar comentários próprios, o que não diminui o peso do gesto: a amplificação, por um chefe de Estado em exercício, de um texto que semeia dúvidas sobre a integridade eleitoral de outro país soberano é, por si só, um ato político de interferência.

<><> O histórico de atritos e o monitoramento do governo Lula

O compartilhamento do artigo não surgiu do nada. Ele se insere em uma sequência de declarações de Trump que, em menos de duas semanas, escalaram o tom em relação ao Brasil e ao seu presidente. Em 17 de maio, Trump chamou o Brasil de “país politicamente difícil” e “um pouco perigoso politicamente”.

Dois dias depois, em 19 de maio, disse ao site Axios que considera Lula “muito volátil” e que “não poderia se importar menos” com o presidente brasileiro. “Realmente não penso nele. Não estou nem aí. Mas agora ele é um tipo de pessoa diferente. Ele é muito volátil”, declarou Trump ao Axios.

No governo brasileiro, a declaração foi interpretada como reação às críticas de Lula aos Estados Unidos em razão de um novo tarifaço anunciado por Washington. Auxiliares do presidente brasileiro avaliam que os dois líderes estão em uma fase em que se sobressaem as diferenças diante de acontecimentos geopolíticos, e que o descompasso, embora mitigado pela relação pessoal entre os dois, é estrutural.

O governo monitora, desde o ano passado, a possibilidade de intervenção americana no pleito presidencial de outubro. Essa avaliação havia arrefecido com o diálogo construído entre Lula e Trump nos meses anteriores, mas as declarações recentes e o compartilhamento do artigo reacenderam o alerta.

<><> A Newsmax e a narrativa da direita global

A Newsmax não é um veículo qualquer. Trata-se de uma plataforma de notícias conservadora abertamente alinhada ao governo Trump, conhecida nos Estados Unidos por ter sido um dos principais canais de amplificação das alegações de fraude eleitoral que Trump fez após sua derrota em 2020, narrativa que culminou no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

O artigo compartilhado por Trump nesta terça carrega a mesma gramática: apresenta o presidente americano como uma força histórica transformadora, chegando a compará-lo a Simón Bolívar, o libertador latino-americano cujas ideias “remodelaram a direção política de diversas nações das Américas”, segundo o texto. A peça é encerrada com uma adaptação direta do slogan de Trump: “Trump está realmente tornando as Américas grandes novamente.”

A construção narrativa do artigo é deliberada. Ao usar a vitória de Espriella na Colômbia como ponto de partida, a Newsmax monta uma sequência de “vitórias conservadoras” na América Latina para criar a impressão de um movimento inevitável, ao qual o Brasil seria o próximo a aderir, ou resistir.

O texto ainda aponta Venezuela, Cuba e Nicarágua como os “quatro grandes desafios” que restam ao “ressurgimento conservador” na região, colocando o Brasil na mesma lista que regimes autoritários. A escolha editorial não é inocente: equiparar um governo democraticamente eleito a ditaduras é uma tática de deslegitimação que o bolsonarismo já pratica domesticamente há anos.

<><> Implicações para a democracia brasileira

O artigo compartilhado por Trump ecoa, ponto a ponto, a narrativa que grupos bolsonaristas cultivam desde a derrota de Jair Bolsonaro em outubro de 2022: a de que o sistema eleitoral brasileiro não é confiável e de que o resultado das urnas pode ser contestado. A diferença agora é que essa narrativa ganha a amplificação de um presidente em exercício da maior potência do mundo, o que lhe confere uma dimensão internacional que vai além do debate interno.

Segundo o texto da Newsmax, “os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro estão se unindo em torno de seu filho, buscando destituir o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva”, com referência a Flávio Bolsonaro, de acordo com uma das fontes que apurou o conteúdo do artigo.

A menção é significativa porque não se trata apenas de cobertura política: o artigo enquadra a disputa eleitoral brasileira como uma batalha entre forças conservadoras legítimas e um governo de esquerda a ser “destituído”, linguagem que se alinha diretamente ao discurso de ruptura institucional.

A amplificação dessas dúvidas por Trump tem efeito concreto: fortalece o ecossistema de desinformação que já atua no Brasil, oferece legitimidade internacional a narrativas que a Justiça Eleitoral brasileira tem combatido e aumenta o risco de que a polarização em torno da integridade do pleito se aprofunde nos meses que antecedem outubro. O impacto não é apenas simbólico: a percepção pública sobre a legitimidade das eleições é um dos principais vetores de instabilidade democrática, como demonstrou a própria experiência americana em 2020 e 2021.

<><> Articulação transnacional da extrema direita

O gesto de Trump se insere em um padrão reconhecível de atuação da extrema direita global: usar a desconfiança no sistema eleitoral como arma política antes mesmo de o pleito acontecer, criando as condições para contestar resultados adversos.

Nos Estados Unidos, essa estratégia foi testada e aperfeiçoada entre 2020 e 2021, com consequências que incluíram a invasão do Congresso americano. No Brasil, o bolsonarismo importou o modelo com fidelidade notável, e o 8 de Janeiro de 2023 foi o resultado mais visível dessa transferência de táticas.

A narrativa de “ressurgimento conservador” construída pelo artigo da Newsmax e amplificada por Trump cumpre uma função específica nesse contexto: cria um senso de movimento histórico inevitável que serve tanto para mobilizar bases quanto para justificar, antecipadamente, a rejeição de resultados eleitorais que não correspondam às expectativas da direita.

Ao posicionar o Brasil como o “próximo grande teste”, o texto convida apoiadores de Bolsonaro a enxergarem outubro como uma batalha civilizatória com respaldo internacional, e não como uma eleição ordinária sujeita às regras do jogo democrático.

A conexão entre a rede de desinformação que orbita Trump e o ecossistema bolsonarista no Brasil representa um risco que vai além do simbólico. A importação de táticas de deslegitimação eleitoral, com o endosso de um chefe de Estado estrangeiro, coloca pressão sobre as instituições brasileiras, em especial sobre o Tribunal Superior Eleitoral, e exige que o governo e a sociedade civil estejam atentos ao que se articula fora das fronteiras do país com consequências diretas dentro delas.

•        Liana Cirne Lins: “Existe um risco real de intervenção dos EUA nas eleições brasileiras”

A professora de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vereadora do Recife, Liana Cirne Lins, alertou para o que considera ser um risco concreto de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. A declaração foi feita durante participação no programa Bom Dia 247, ao comentar o cenário político internacional e seus possíveis reflexos sobre a democracia brasileira.

Segundo a jurista, recentes manifestações do presidente norte-americano Donald Trump sobre o Brasil devem ser encaradas com preocupação. Ela citou declarações em que Trump classificou o Brasil como um país “perigoso” e se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva de forma crítica como sinais de uma postura que, em sua avaliação, desconsidera a soberania brasileira.

“Existe um risco real de intervenção dos EUA nas eleições brasileiras”, afirmou. “Isso não é teoria da conspiração. Existe um risco real de intervenção estadunidense porque a visão de Trump é a de que o resto do mundo é colônia. Ele não trata o Brasil como um país soberano.”

Para Liana, o contexto exige vigilância por parte das instituições democráticas e da sociedade. Ela argumenta que a influência de potências estrangeiras sobre processos políticos de outros países é um fenômeno historicamente documentado e que o Brasil não pode ignorar sinais que indiquem tentativas de ingerência externa.

A professora também destacou a atuação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Segundo ela, o parlamentar tem mantido uma agenda de articulações políticas junto a setores conservadores norte-americanos e realizado críticas frequentes às instituições brasileiras, o que reforça as preocupações sobre possíveis tentativas de influência externa.

“A gente não sabe se os Estados Unidos vão intervir nas nossas eleições, mas há indícios preocupantes de que existe essa intenção. Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos fazendo campanha contra o Brasil e contra a soberania brasileira de forma ininterrupta”, declarou.

Na avaliação de Liana, a defesa da autonomia nacional passa pela preservação da independência das instituições eleitorais e do sistema democrático brasileiro. Por isso, ela considera fundamental acompanhar atentamente os movimentos políticos internacionais que possam afetar o debate público e o ambiente eleitoral no país.

“Precisamos ficar muito atentos a esse cenário eleitoral”, enfatizou. “A soberania brasileira e a capacidade do povo de decidir seu próprio destino sem interferências externas precisam ser preservadas.”

As declarações da jurista ocorrem em meio ao aumento das tensões entre setores da direita brasileira e autoridades do Judiciário, tema que também tem repercutido nos Estados Unidos. Para Liana Cirne Lins, esse contexto reforça a necessidade de atenção permanente para garantir que as eleições brasileiras transcorram de forma livre, soberana e sem qualquer tipo de influência estrangeira.

 

Fonte: Fórum/Brasil 247

 

Nenhum comentário: