Acordo
com Grupo João Santos, devedor bilionário, viabiliza terra para 5,8 mil
famílias na PB e MA
O
governo federal firmou nesta sexta-feira (26) um acordo com o Grupo João Santos
que permite o pagamento de dívidas tributárias com terras que serão destinadas
para a reforma agrária. A medida beneficiará 5.792 famílias com a criação de
dois assentamentos no estado da Paraíba e 31 no estado do Maranhão, totalizando
33 assentamentos e 72.505,69 hectares, área equivalente a mais de 100 mil
campos de futebol.
O
acordo faz parte da recuperação judicial do conglomerado nordestino de mais de
75 anos de existência, que chegou a ser a segunda maior indústria de cimento e
atuava também com celulose, cana-de-açúcar, entre outros. Após o pedido de
recuperação, a empresa fez um acordo para diminuir a dívida R$ 11 bilhões com a
União, passando para R$ 4 bilhões.
Como
contrapartida, foi feito um plano de pagamento da dívida com mais de 20 mil
trabalhadores, por meio da venda ou alienação de bens como imóveis, fábricas,
usinas e jazidas minerais. A desapropriação das terras para a reforma agrária
está nesse grupo. São 28 imóveis, avaliados em cerca de R$ 242 milhões, segundo
o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
“É a
concretização da prateleira de terras de grandes devedores. Um grupo econômico,
que tinha uma grande dívida com a União, está fazendo o pagamento desta dívida
com terras, terras suficientes para criar 33 assentamentos e assentar famílias
de agricultores e agricultoras que querem produzir alimentos”, explica a
ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda
Machiaveli.
O
acordo foi possível graças ao Programa Terra da Gente, que traz o instrumento
da adjudicação de terras de grandes devedores para destinar áreas a famílias
com perfil para a reforma agrária. São famílias que estão dentro do CadÚnico,
em situação de pobreza e que têm vocação para o trabalho na agricultura.
Segundo o governo, o programa prevê a estruturação de novos projetos de
assentamento com planejamento, responsabilidade técnica e compromisso com o
desenvolvimento rural.
Em
2025, a Fazenda Nacional realizou os primeiros acordos envolvendo a adjudicação
de propriedades rurais como parte do pagamento de débitos com a União. As
primeiras entregas envolveram a cooperativa Coagro, em que o acordo previu a
destinação da Fazenda Santa Luzia, em Campos dos Goytacazes (RJ), pondo fim a
uma dívida de 2012 de R$ 208 milhões e beneficiando cerca de 100 famílias de
agricultores.
Outro
acordo realizado no mesmo ano com o Grupo Cruang quitou um passivo fiscal de R$
600 milhões e garantiu terra para 530 famílias. Em maio deste ano, 70 famílias
rurais que viviam no engenho Cachoeira, em Pombos (PE), garantiram a
permanência no local que ocupavam com a recuperação de R$ 7,5 milhões aos
cofres públicos.
“É uma
estratégia do governo do presidente Lula […] É inclusão produtiva, acesso à
terra, justiça fiscal e social e inovação, avançando na política nacional da
reforma agrária”, complementa a ministra.
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Oito anos de espera
Na
Paraíba, as terras são as antigas fazendas Mamoaba, de 3.756 hectares (ha) e
Garapu, com 2.794 ha, que se tornarão os projetos de assentamentos (PAs)
Arcanjo Belarmino, para 500 famílias, em Ponta de Pedras, e Orlando Bernardino,
para 470, em Alhandra. Essas famílias estão há oito anos acampadas na área,
produzindo inhame, macaxeira e frutíferas, entre elas, o abacaxi, forte na
região.
O nome
de um dos assentamentos é homenagem ao dirigente do MST, José Bernardo da
Silva, conhecido como Orlando, executado à queima-roupa em dezembro de 2018,
aos 46 anos.
“Essa
questão das áreas dos grandes devedores, para nós, aqui da Paraíba, tem um
papel muito importante, porque nós vamos ter condições de assentar quase mil
famílias. Do ponto de vista da reforma agrária, é uma questão muito boa. São
quase mil famílias assentadas, que vão produzir alimentos, gerar emprego nos
municípios, além de resolver um conflito de oito anos”, disse Paulo Sérgio
Alves da Silva, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST). Ele afirma que há, pelo menos, duas outras usinas, que podem
ser adquiridas nesse mesmo instrumento de acordo sobre dívidas no Estado.
Em
Pernambuco, há outras áreas do grupo que podem ser beneficiadas. Durante o
Abril Vermelho de 2025, cerca de 800 famílias do MST ocuparam as terras da
Usina Santa Teresa, em Goiana, antiga usina do Grupo João Santos. Na época da
ocupação, Jaime Amorim, da direção nacional do MST, afirmou que a intenção é
transformar a terra em uma área voltada para a produção sustentável de
alimentos.
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Investigados pela Polícia Federal
O Grupo
João Santos foi fundado pelo pernambucano de Serra Talhada João Santos, que
abriu a fábrica de Cimento Nassau em 1951, para se tornar, ao longo dos anos,
um conglomerado que chegou a faturar R$ 3 bilhões ao ano e foi a segunda maior
produtora de cimento do Brasil, além de disputar a liderança das grandes
empreiteiras no Nordeste com a Odebrecht (hoje Novonor) e a Queiroz Galvão.
O
cimento foi apenas um dos ramos. O próprio João Santos não começou nas
pedreiras, mas atuou antes em usinas de cana-de-açúcar, afinal, sua família já
era do ramo. Seu tio-avô, o Barão de Pajeú, que foi prefeito de Serra Talhada,
era também um grande fazendeiro. Além do cimento e da cana, o Grupo Santos se
expandiu para celulose, agropecuária, imobiliária, táxi aéreo e comunicação,
com TVs e rádios afiliadas da Rede Bandeirantes no Espírito Santo e Pernambuco.
João
Santos morreu, em 2009, aos 101 anos. Seu falecimento gerou uma briga entre
herdeiros, que culminou com má gestão, endividamentos e calotes. Em 2021, os
herdeiros do conglomerado foram alvo da Operação Background, da Polícia
Federal, que investiga o desvio de cerca de R$ 10 bilhões em valores atuais.
Dois anos depois, o grupo entrava em recuperação judicial.
• PF indicia presidente da ANM e 16
empresários por esquema de mineração ilegal na Serra do Curral; grupo mirava
lucro de R$ 2,3 bi
A
Polícia Federal indiciou 17 pessoas suspeitas de integrar um esquema de
mineração ilegal na Serra do Curral, em Belo Horizonte. Entre os indiciados,
está o presidente da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa.
O
inquérito da Operação Parcours, ao qual o g1 teve acesso, concluiu que
empresários, servidores públicos, consultores e geólogos fraudaram planos de
recuperação ambiental para manter a exploração de minério de ferro na Mina
Granja Corumi. Segundo a investigação, o grupo mirava um potencial de
faturamento de até R$ 2,3 bilhões com a atividade.
De
acordo com a PF, os investigados utilizaram instrumentos criados para recuperar
a área degradada, como o Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD) e o
Plano de Fechamento de Mina (PFM), para esconder a extração comercial de
minério. Enquanto os órgãos de fiscalização acreditavam que a mina passava por
recuperação ambiental, o grupo continuava explorando a área, afirma a polícia.
O
relatório aponta que a atividade provocou danos ambientais na Serra do Curral,
área protegida por tombamento. Entre os impactos citados estão a destruição da
nascente do Córrego Taquaril, a abertura de cavas fora dos limites autorizados,
a falta de recuperação da vegetação e possíveis danos ao lençol freático.
O
inquérito foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que vai analisar se
apresenta denúncia à Justiça.
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Como funcionava o esquema
Segundo
a investigação, a organização utilizava documentos oficiais de recuperação
ambiental para justificar intervenções que, na prática, tinham como objetivo a
extração de minério de ferro.
A PF
afirma que geólogos e engenheiros produziam relatórios e classificações
técnicas para ocultar a lavra ilegal, enquanto servidores da Agência Nacional
de Mineração (ANM) e integrantes de órgãos ambientais teriam favorecido a
mineradora por meio da aprovação de pareceres e da omissão em processos de
fiscalização.
O
inquérito também aponta que consultores atuavam como intermediário entre a
empresa e agentes públicos, facilitando o acesso a informações privilegiadas e
a aprovação de documentos técnicos.
Outra
empresa citada na investigação é a Fleurs Global Mineração, apontada pela PF
como responsável pelo beneficiamento e pelo escoamento do minério extraído
ilegalmente da Mina Granja Corumi.
Ao
todo, 17 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal. Eles foram indiciados
por crimes como organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de
dinheiro, falsidade ideológica, crimes ambientais e usurpação de bens da União.
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Relembre o caso
A
Operação Parcours foi deflagrada pela Polícia Federal, com apoio da
Controladoria-Geral da União (CGU) e do Ministério Público Federal (MPF), em
março de 2025. Na ocasião, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em
Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, além do bloqueio de bens, do afastamento
de servidores da Agência Nacional de Mineração e da suspensão das atividades da
mineradora.
Segundo
a investigação, o grupo atuava desde 2014 e causou prejuízo estimado em R$ 832
milhões à União, além de danos ambientais na Serra do Curral.
Em
abril de 2025, o g1 mostrou que a Polícia Federal havia concluído que a Empabra
usou o Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD), aprovado em 2008 para
recuperar a antiga mina, como fachada para ampliar a exploração mineral.
Perícias
da PF e auditorias da Controladoria-Geral da União apontaram que, em vez de
apenas retirar rejeitos acumulados no local, a empresa abriu grandes cavas para
extrair minério diretamente do solo. A investigação também concluiu que houve
destruição da nascente do Córrego Taquaril, avanço da mineração para áreas não
autorizadas e possível impacto sobre o lençol freático.
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O que dizem os citados
Em nota
enviada anteriormente ao g1, a Empabra afirmou que sempre atuou dentro da
legalidade e que todas as atividades realizadas na Mina Corumi foram
autorizadas pelos órgãos competentes. A empresa também disse que a retirada do
material depositado no interior da mina foi uma medida necessária para garantir
a segurança ambiental da área e reafirmou o compromisso com o fechamento
definitivo da mina e a recuperação ambiental do local.
A
Agência Nacional de Mineração informou, anteriormente, que colabora com as
autoridades e cumpriu todas as determinações judiciais.
O g1
entrou em contato com a Empabra e com Agência Nacional de Mineração, mas, até o
momento da publicação desta reportagem, não obteve retorno.
Fonte:
Brasil de Fato/g1

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