De
Palio a Porsche elétrico: a 'ascensão social acentuada' de sancionado por
governo Trump por suposto elo com o PCC
O
governo de Donald Trump anunciou nesta quarta-feira (1/7) sanções contra dois
brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa "por seus
vínculos com a maior organização criminosa da América Latina, o Primeiro
Comando da Capital (PCC)".
Os
brasileiros são: Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes
Henrique de Oliveira.
Todas
as empresas sancionadas pelos EUA são pertencentes a Victor Shimada: Victory
Trading Intermediacão De Negocios Cobrancas E Tecnologia Ltda; Pixwave Solucoes
De Pagamentos Ltda; Wave Construcoes Inteligentes Ltda; Avenidas Flutuantes
Unipessoal Lda (de Portugal).
O
Departamento do Tesouro americano afirmou em nota que Shimada atuava "como
elo central" entre operadores do PCC na Flórida e traficantes
internacionais de drogas. E que ele teria lavado mais de US$ 30 milhões em
recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando
criptomoedas para remeter valores ao Brasil em nome do PCC.
Segundo
a nota, a rede de lavagem de dinheiro do PCC alvo da ação operava
principalmente na Flórida e em São Paulo.
Já
Stella é apontada como "parente próxima e associada" de Shimada pelo
governo americano. Em seu nome, consta apenas uma empresa: a GP8 Pay.
O
promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, que
investiga o PCC há décadas, afirmou à BBC News Brasil desconhecer essa suposta
relação dos sancionados com a facção criminosa.
"Desconheço
que esse casal ou essas empresas tenham envolvimento com o PCC, mas não tenho
conhecimento das investigações que o FBI e o DOJ [Departamento de Justiça dos
EUA] fizeram a partir de alvos ligados ao PCC em Miami. Aqui ele respondeu por
outros crimes, inclusive pelo caso da Vai de Bet e do Augusto do Corinthians.
Mas não consta que Victor ou a a Stella sejam ligados ao PCC."
Gakiya
se refere à investigação aberta em 2024 pelo Ministério Público e Polícia Civil
de São Paulo para apurar suspeitas de irregularidades no contrato de patrocínio
entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet.
As
investigações levaram a denúncia oferecida à Justiça no ano passado contra
Augusto Melo, ex-presidente do Corinthians, expulso do quadro associativo do
clube por suposta tentativa de golpe com o patrocínio da VaideBet ao time.
Melo
sempre negou as acusações.
Na
época, Victor Shimada foi incluído na denúncia e chegou a ser detido
provisoriamente por lavagem de dinheiro e furto qualificado. Segundo o MPSP,
ele teria lavado R$ 35 milhões por meio de diversas contas em forma de
criptomoeda.
No
inquérito policial, os investigadores apontam com destaque a rotina de voos de
Shimada, que comprava bilhetes para diferentes destinos no mesmo dia do voo. Um
deles, de 2 de setembro de 2024, mostrava que Shimada saiu de Guarulhos (SP),
com escala na República Dominicana e destino ao Aeroporto Internacional Felipe
Ángeles, no México.
"Não
foram encontradas informações adicionais sobre seu destino final, mas é
possível que Victor tenha seguido para os Estados Unidos, já que comprou seu
bilhete por meio de uma agência em Orlando", diz o inquérito.
Além
disso, os investigadores destacam que, durante a apuração, foi constatado que
Shimada possuía dois veículos, um Audi Q8 e um Porsche Taycan, valendo R$ 465 e
R$ 593 milhões, respectivamente. E que, em 2017, ele era dono de "dois
veículos de baixo valor de mercado": um Fiat Palio e um Ford Del Rey,
"indicando uma ascensão social acentuada entre os anos de 2017 e
2020".
O
Tesouro americano afirma que uma das empresas de Shimada, a Victory Trading
Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., "foi utilizada
para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de
fraude publicitária."
Já
Stella, segundo o Tesouro, teria trabalhado como secretária de Shimada, e
atuado como intermediária na coleta "de grandes quantias em dinheiro vivo,
prestando serviços logísticos fundamentais para as operações de lavagem de
dinheiro conduzidas pela rede."
A
fintech de Stella, a GP8 Pay, havia sido apontada pelos policiais brasileiros
como sendo 98% de propriedade de Shimada.
Stella
não aparece nas investigações brasileiras, que também não fazem relação com o
PCC.
Shimada
foi condenado pela Justiça Federal a cinco anos de reclusão no regime
semi-aberto por lavagem de dinheiro e furto qualificado mediante fraude
eletrônica.
A BBC
News Brasil entrou em contato com a defesa de Shimada mencionada no processo,
mas o escritório afirmou que, "por motivo de foro íntimo", os
advogados deixaram de representá-lo. A BBC ainda não conseguiu contato com os
novos advogados. Não foi encontrado o contato de Stella Stefanie.
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O que acontece com os sancionados pelo governo Trump?
As
sanções bloqueiam todos os bens e interesses em bens das pessoas e empresas que
estejam nos Estados Unidos ou sob posse ou controle de cidadãos ou empresas
americanas.
Além
disso, quaisquer entidades pertencentes, direta ou indiretamente, em 50% ou
mais, individualmente ou em conjunto, a uma ou mais pessoas bloqueadas também
ficam sujeitas a bloqueio.
As
regulamentações americanas geralmente proíbem qualquer transação realizada por
cidadãos ou empresas dos EUA — ou dentro do território americano — que envolva
bens ou interesses pertencentes a pessoas sancionadas.
O
Tesouro americano afirma que violações às sanções dos Estados Unidos podem
resultar em penalidades civis ou criminais para pessoas físicas e jurídicas,
tanto americanas quanto estrangeiras.
Pessoas
nos Estados Unidos ou no exterior que forneçam informações sobre violações de
sanções ao programa de denúncias da Rede de Combate a Crimes Financeiros
(FinCEN, na sigla em inglês) podem ser elegíveis a recompensas financeiras caso
as informações resultem em ações de fiscalização bem-sucedidas com multas
superiores a US$ 1 milhão.
No fim
de maio, os Estados Unidos passaram a classificar o PCC e o Comando Vermelho
(CV) como organizações terroristas, medida que, para alguns analistas, pode
trazer consequências para empresas de diversos segmentos.
Pouco
depois, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla
em inglês) afirmou que prendeu o brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell
Aquilla e o apontou como comandante tanto do Primeiro Comando da Capital (PCC)
quanto do Comando Vermelho (CV).
No
entanto, investigadores da Polícia Federal (PF) que atuam no combate ao crime
organizado disseram à BBC News Brasil, em caráter reservado, que a indicação de
que Dell Aquila teria exercido cargos de liderança no PCC e no CV é considerada
inusitada.
Fonte:
BBC News Brasil

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