MAIS
DIPLOMAS, MENOS FUTURO: Por que a geração dos 30 anos não alcançou o padrão de
vida dos pais?
A ideia
de que cada geração viveria melhor que a anterior, e de que o estudo seria o
instrumento dessa passagem, não descreve uma regularidade natural da economia.
Corresponde a uma expectativa socialmente construída, formada em condições
históricas determinadas e sustentada por arranjos de trabalho, salário e
proteção que tornaram plausível, para parte da população brasileira, projetar
autonomia adulta a partir do diploma. Tomar essa expectativa como objeto, e não
como pressuposto, permite comparar dois grupos concretos. De um lado,
integrantes da geração X que chegaram aos 30 anos entre 1997 e 1999. De outro,
millennials que atingiram a mesma idade entre 2022 e 2024. O que está em jogo
não é um juízo moral sobre esforço individual, mas a investigação das condições
materiais que organizam a entrada na vida adulta e decidem se a escolaridade se
converte, ou não, em renda, moradia e estabilidade.
A
economia analisada como instituição socialmente organizada oferece o primeiro
fio dessa investigação. A obra clássica de Karl Polanyi sobre a sociedade de
mercado mostra que a economia de mercado só se realiza plenamente quando
trabalho, terra e dinheiro são incorporados ao mecanismo mercantil, o que
subordina a própria substância social às exigências do mercado. O trabalho,
tratado como mercadoria, corresponde na verdade à vida das pessoas, e, por
isso, a sua mercantilização exige contrapesos institucionais capazes de conter
os efeitos destrutivos do mercado. Quando os mecanismos de proteção que
ancoravam o trabalho se afrouxam, a relação entre esforço educacional e
segurança material deixa de ser estável. O ponto interessa de modo direto ao
caso brasileiro. A escolarização ampliada dos millennials ocorreu num mercado
de trabalho que multiplicou formas de contratação e transferiu risco ao
trabalhador. A promessa de mobilidade pressupunha proteção, e é a erosão dessa
proteção que ajuda a explicar por que o diploma passou a render menos.
O
segundo fio vem da sociologia da reprodução. A análise de Pierre Bourdieu sobre
a distinção social indica que a posse de diplomas perde valor relativo à medida
que se generaliza, num processo em que a expansão do acesso à educação convive
com a desvalorização dos títulos. A escolaridade que antes distinguia passa a
ser condição mínima de entrada, sem garantir a posição que prometia. Aplicada
ao Brasil, a observação desfaz a leitura ingênua segundo a qual mais anos de
estudo produziriam, por si, mobilidade. A geração mais escolarizada disputa
postos num mercado que incorporou a escolaridade como exigência básica e
deslocou para outros recursos, herança, redes e capital econômico de origem, a
diferenciação efetiva. O resultado é uma escolaridade ampla em quantidade e
deprimida em retorno.
A
sociologia econômica acrescenta que os resultados no mercado de trabalho não
derivam apenas de atributos individuais de qualificação. A formulação de Mark
Granovetter sobre o enraizamento da ação econômica sustenta que o acesso a
oportunidades depende de redes e posições sociais que distribuem informação e
confiança de modo desigual, de sorte que quem parte de posições subalternas
encontra menos pontes para empregos protegidos e mais bem remunerados. No caso
brasileiro, a pesquisa de Nadya Araujo Guimarães sobre desemprego e mercados de
trabalho evidencia que o ingresso e a permanência no emprego se organizam por
segmentações que reservam estabilidade a alguns e rotatividade a muitos. A
mesma escolaridade gera, assim, retornos distintos conforme a posição social de
origem, o que recoloca a desigualdade no centro da explicação.
A
formação histórica brasileira deu a essa segmentação contornos particulares.
Maria Sylvia de Carvalho Franco identificou uma formação social peculiar de
homens livres e expropriados, que não estavam submetidos ao trabalho forçado
nem integrados como proletariado moderno. Nessa ordem, a posição social se
reproduzia por mecanismos de dominação pessoal que definiam de antemão os alvos
de ascensão e bloqueavam o caminho de quem vivia do próprio trabalho. Virgínia
Fontes mostrou que a produção social de trabalhadores livres, isto é,
expropriados, é condição e resultado da expansão das relações capitalistas,
qualquer que seja a forma jurídica assumida pela atividade laboral. A autora
associa, ademais, a expropriação de direitos, a mercantilização de bens antes
garantidos e o uso da força de trabalho sem contrato a formas contemporâneas de
superexploração. Marcelo Badaró Mattos reconstituiu a trajetória dos
trabalhadores e de suas organizações e mostrou que conquistas sociais
resultaram de conflito, e não de concessão automática do crescimento. Lidas em
conjunto, essas contribuições afastam a tese de uma escada social que subiria
sozinha com a escolaridade e indicam uma estrutura que reitera desigualdade
enquanto incorpora parcelas da população ao consumo.
Gênero
e raça atravessam essa estrutura e não funcionam como acréscimos posteriores.
Helena Hirata e Danièle Kergoat (2007) demonstram que a divisão sexual do
trabalho organiza de modo persistente quem ocupa as funções menos remuneradas e
mais precárias, hierarquia que se atualiza mesmo quando cresce a escolaridade
das mulheres. A discussão proposta por Nancy Fraser e Axel Honneth sobre
redistribuição e reconhecimento oferece um modo de articular essas dimensões
sem reduzir a desigualdade racial e de gênero a um efeito secundário da renda.
A partir desse quadro, a comparação entre as duas gerações deixa de ser
exercício estatístico isolado e exige leitura simultânea de classe, raça e
gênero. É com esse instrumental que os dados da seção seguinte podem ser interpretados
sem se transformarem em descrição de médias.
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Renda, moradia e direitos diante da vida adulta adiada
Os
resultados do estudo conduzido por Daniel Duque, Michael França e Fillipi
Nascimento, do Insper, divulgados por Castro e Fernandes em O Globo, fornecem a
base empírica para examinar esse processo. A análise compara integrantes da
geração X nascidos entre 1967 e 1969 com millennials nascidos entre 1992 e
1994, observados todos aos 30 anos, e conclui que a geração mais nova chegou a
essa idade com renda superior à da anterior, porém com avanço insuficiente para
alterar posições. Em nenhuma faixa de renda o crescimento anual dos
millennials, em relação à geração X, ultrapassou 2%, patamar que os autores
associam à baixa mobilidade social do país. O dado central não é a ausência de
ganho, e sim a sua insuficiência para converter escolaridade em mudança de status.
A
distribuição desses ganhos por faixa de renda revela um avanço limitado no seu
alcance. Os ganhos concentraram-se na base da pirâmide, com crescimento próximo
de 2% ao ano entre os 25% mais pobres e cerca de 1,3% ao ano entre os 5% mais
pobres, enquanto no topo o movimento foi quase nulo, inferior a 0,5% ao ano
entre os 25% mais ricos e próximo de zero entre os 10% mais ricos. Os próprios
autores indicam que a mobilidade efetiva exigiria crescimento da ordem de 3% ao
ano, com variação entre 2% e 4%, e avanço das camadas inferiores em ritmo ao
menos duas vezes superior ao dos estratos mais altos da geração anterior. As
crises de 2015 e 2016 e a pandemia comprimiram rendimentos e ajudam a explicar
por que mesmo os grupos com maior avanço não mudaram de posição.
O
paradoxo se enuncia com clareza quando se cruzam escolaridade e retorno. A
geração que mais estudou na história do país obteve, na faixa etária analisada,
ganhos de renda que não acompanham o esforço educacional acumulado. A
desvalorização relativa dos diplomas, discutida na primeira seção, opera num
mercado que generalizou a exigência de escolaridade sem ampliar na mesma
proporção os postos capazes de remunerá-la. O diploma deixou de ser instrumento
de distinção e tornou-se condição de elegibilidade, deslocando a competição
para credenciais adicionais, idiomas, pós-graduações e estágios pouco ou nada
remunerados, que dependem de tempo e dinheiro disponíveis sobretudo a quem já
parte de melhor posição. A escolaridade ampliada, nesse arranjo, redistribui credenciais
sem redistribuir oportunidades.
A
moradia expõe outra face do mesmo processo, e nela aparece uma inversão
significativa. Entre a geração X, a probabilidade de constituir domicílio fora
da casa dos pais crescia com a renda, de cerca de 30% entre os mais pobres a
mais de 80% entre os mais ricos, de modo que a autonomia residencial funcionava
como marca de ascensão. Entre os millennials, o padrão se inverte, com a saída
do domicílio familiar mais forte nos estratos de menor renda e a permanência
prolongada na casa dos pais difundindo-se inclusive entre setores de renda mais
alta.
A
reportagem associa parte da maior saída entre os mais pobres a programas
habitacionais, sem que isso configure ascensão, enquanto a permanência no topo
sinaliza que constituir domicílio próprio se tornou mais custoso e mais adiado.
O
acesso a bens duráveis cresceu no mesmo período, mas não deve ser lido como
prova de mobilidade. Entre famílias de renda intermediária, o acesso a itens
como geladeira, fogão e máquina de lavar subiu de pouco mais de 30% para cerca
de 75%, movimento que reflete a queda relativa de preços desses produtos, a
produção em escala e a expansão do crédito, e não a reorganização das posições
sociais. Possuir eletrodomésticos tornou-se comum sem que a renda, a moradia ou
a estabilidade acompanhassem o mesmo ritmo. As desigualdades raciais e de
gênero tornam ainda mais nítida essa dissociação, pois o estudo registra que
homens brancos da geração X, aos 30 anos, dispunham de renda superior à de
todos os demais grupos identitários entre os millennials, o que significa que
mulheres e pessoas negras da geração mais nova e mais escolarizada não
alcançaram, na média, o patamar ocupado três décadas antes pelo grupo
socialmente favorecido.
O
ordenamento constitucional tratou como direitos justamente aquilo que os dados
mostram comprometido. A Constituição de 1988 inscreveu entre os direitos
sociais a educação, o trabalho e a moradia, no art. 6º, fixou como objetivo da
República reduzir as desigualdades sociais e erradicar a pobreza, no art. 3º,
III, e organizou a ordem econômica sobre a valorização do trabalho humano, a
função social da propriedade, a redução das desigualdades e a busca do pleno
emprego, no art. 170, caput e incisos III, VII e VIII. O direito ao trabalho
digno encontra base no art. 1º, IV, e no art. 7º, e a educação, no art. 205,
enquanto o Estatuto da Juventude reconheceu a condição juvenil como objeto de
políticas próprias. Confrontados com os números, esses dispositivos funcionam
menos como descrição da realidade e mais como medida da distância entre a
promessa normativa e as condições materiais de quem chega aos 30 anos sem
moradia autônoma, sem retorno proporcional à escolaridade e diante de uma
igualdade material que a hierarquia de raça e gênero contradiz. A defasagem não
é retórica, e sim social.
Desigualdade,
trabalho e futuro social
O
conjunto dos dados desautoriza a leitura que atribui à geração mais nova
acomodação ou falta de esforço. A frustração que a acompanha tem origem
estrutural, e não psicológica. Uma geração foi formada para esperar que o
estudo abrisse caminho de autonomia e chegou à vida adulta num arranjo que
reorganizou as condições de entrada, encarecendo a moradia, fragmentando o
trabalho e diluindo as proteções que tornavam previsível a passagem para a vida
independente. O descompasso entre o que foi prometido e o que se realizou não
mede um defeito de caráter coletivo. Mede a transformação das bases materiais
sobre as quais a vida adulta se constrói.
No
centro dessa transformação está o mundo do trabalho. A renda que não cresce o
suficiente expressa um mercado que multiplicou vínculos instáveis, transferiu
ao trabalhador riscos antes partilhados e fez da rotatividade a norma para
grande parte da população. Quando o emprego protegido se torna exceção e a
remuneração estagna, a escolaridade adicional não encontra onde se converter em
ganho material proporcional. O trabalho deixou de funcionar como ponte segura
entre o esforço educacional e a estabilidade e passou a operar como filtro que
reserva as posições melhores a quem já dispõe de recursos anteriores. A
insuficiência de renda, longe de ser acidente conjuntural, é efeito de uma
forma de organizar o trabalho que distribui de modo desigual segurança e remuneração.
A
moradia condensa esse adiamento de maneira especialmente nítida. Sair da casa
dos pais, constituir domicílio próprio e projetar alguma permanência deixaram
de ser etapas previsíveis e passaram a depender de uma combinação de renda,
crédito e preço que escapa ao controle de quem trabalha. A inversão observada,
com a autonomia residencial deslocando-se de marca de ascensão para resultado
da necessidade entre os mais pobres e adiamento entre os mais ricos, mostra que
o acesso ao espaço próprio se desorganizou como horizonte comum. Permanecer
mais tempo na casa de origem não é escolha geracional por conforto. É
consequência de um custo de vida adulta que cresceu mais rápido do que a
capacidade de financiá-lo pelo próprio trabalho.
O
acesso ampliado a bens duráveis não corrige esse quadro e pode encobri-lo.
Possuir geladeira, fogão ou máquina de lavar tornou-se comum porque esses itens
ficaram relativamente mais baratos e o crédito se expandiu, não porque as
posições sociais se reorganizaram em favor de quem trabalha. Confundir consumo
de bens com mobilidade social leva a subestimar o problema, porque um domicílio
pode acumular eletrodomésticos e seguir sem renda estável, sem moradia própria
e sem proteção diante do desemprego ou da doença. A ausência de uma rede sólida
de proteção material é o elo que falta para transformar escolaridade em
autonomia. Sem ela, o diploma rende credencial, e não segurança.
A
desigualdade que estrutura esse processo não é neutra quanto a raça e gênero. O
fato de o grupo socialmente favorecido de uma geração anterior ainda superar,
em renda, os demais grupos da geração seguinte e mais escolarizada revela uma
hierarquia que o tempo não desfez. Mulheres e pessoas negras carregam, sobre a
estagnação geral, um peso adicional que antecede o mercado de trabalho e se
reproduz dentro dele. Reconhecer isso impede que a frustração geracional seja
tratada como experiência homogênea. Há quem chegue aos 30 anos com escolaridade
acumulada e ainda ocupe o lugar que a estrutura reservou de antemão, e há quem
encontre menos obstáculos por partir de uma posição que a própria desigualdade
preservou.
O que
os números brasileiros descrevem guarda relação com um movimento mais amplo, em
que gerações mais escolarizadas, em diferentes países, enfrentam crescimento
lento, encarecimento da vida adulta e proteção social em recuo, mas é no caso
brasileiro que esse movimento encontra uma estrutura que reiterou desigualdade
enquanto incorporava parcelas da população ao consumo. O resultado é uma
escolaridade que cresceu sem a correspondente expansão das condições materiais
de autonomia. Encarar o problema exige tratá-lo onde ele se produz, na
organização do trabalho que estagna a renda, no custo da moradia que adia a
independência, na proteção social insuficiente que não converte estudo em
segurança e na reprodução das hierarquias de raça e gênero que distribuem de
modo desigual os poucos ganhos disponíveis. A frustração de quem estudou mais e
alcançou menos não pede consolo nem exortação ao esforço. Pede o reconhecimento
de que a passagem para a vida adulta foi reorganizada contra a maioria, e de
que devolver sentido à promessa de mobilidade depende de decisões sobre
trabalho, renda, moradia e proteção, e não da resignação de uma geração diante
daquilo que não escolheu.
Fonte:
Por Erik Chiconelli Gomes, em Le Monde

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