Lula
pode 'jogar parado' com prolongamento da crise entre Michelle e Flávio
Bolsonaro, diz cientista político
A
decisão de Michelle Bolsonaro de deixar o PL
Mulher não deve ser lida como um episódio isolado, mas como o
desfecho de uma crise que já vinha se arrastando dentro da família Bolsonaro e
que pode prejudicar não só a candidatura de Flávio, mas o bolsonarismo como um
todo, avalia o cientista político e professor da EAESP-FGV Marco Antonio
Carvalho Teixeira.
"Não
é a saída do PL Mulher apenas. A saída é o desfecho da crise. Michelle
Bolsonaro foi ignorada e escanteada pelos filhos [de Bolsonaro] desde o momento
em que Flávio foi ungido como candidato pelo próprio Jair Bolsonaro", diz
o professor.
"Acharam
que a Michelle ia ficar simplesmente quieta e dada como derrotada."
A crise
foi impulsionada por
uma disputa local, de alianças políticas no Ceará.
Flávio
disse que o pai apoia o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) no pleito para
governador. Michelle criticou a decisão durante evento de lançamento da
pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo no Estado, um
político bolsonarista com robusto discurso conservador.
Ela
disse, à época, que "fazer aliança com o homem que é contra o maior líder
da direita, isso não dá".
"Michelle
trouxe fortes falas do Ciro Gomes contra a família e contra Bolsonaro,
sobretudo. Essa crise acabou não sendo resolvida politicamente", diz o
cientista político.
No dia
seguinte aos comentários da ex-primeira-dama, os irmãos Flávio, Eduardo e
Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo
hoje candidato ao Palácio do Planalto.
Ele
lembra também que Michelle queria uma candidatura diferente ao Senado no Estado
— a da vereadora de Fortaleza e vice-presidente do PL Mulher, Priscila Costa,
que disputaria uma das duas vagas ao lado de Alcides Fernandes (PL), pai de
André Fernandes (PL), deputado federal mais votado no Ceará em 2022.
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Os ataques a Michelle vindos dos EUA
Para o
professor, o gatilho para Michelle elevar o tom foi uma ofensiva digital
coordenada contra ela, partindo do que ele chamou de "núcleo dos Estados
Unidos" do partido, em referência a vozes influentes no bolsonarismo que
vivem no país.
"Veio
a artilharia pesada do Oswaldo Eustáquio, do Allan dos Santos e, sobretudo, do
Paulo Figueiredo", afirma Teixeira.
O
empresário e jornalista Paulo Figueiredo publicou vídeo em que afirmou que
"mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres
solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido.
Mulheres solteiras, não."
O pior
desfecho, avalia, seria a saída da mulher de Bolsonaro do partido.
"Se
ela sair do PL, isso seria um estrago sem precedentes para a campanha do
Flávio. Por duas razões: primeiro, porque ela é praticamente dada como eleita
senadora pelo Distrito Federal. Segundo: ela é uma liderança importante, além
de ser madrasta dele. Para uma candidatura que fala de família, Deus, pátria,
aquela coisa toda, seria um tiro de artilharia muito pesado."
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Quem sai mais prejudicado?
Teixeira
avalia que tanto Michelle quanto Flávio perdem na crise, embora a
ex-primeira-dama tenha sido mais criticada nas redes sociais por sua postura em
relação ao enteado.
"Se
ela estiver fazendo cálculo político com isso, é um risco muito grande. O
estrago que isso está fazendo em termos de imagem, para ela e para o Flávio
Bolsonaro, é gigantesco", diz o professor.
Um
caminho sem o PL e o bolsonarismo também não parece ser a melhor escolha para
ela no momento, diz.
"Ela
sabe que, se sair do PL, não pode se filiar a outro partido pra ser candidata.
Ela estaria abrindo mão, de certa forma, da carreira política. Isso a
enfraqueceria muito. Passaria a depender completamente do marido, ou seja, de
como o marido a assumiria publicamente do ponto de vista do posicionamento
político, do lugar que ela ocupa na política."
A crise
chega num momento em que as pesquisas já não são favoráveis a Flávio.
Um
levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado na quarta-feira (1/7) mostra o
senador com 36,6% das intenções de voto no primeiro turno, queda em relação aos
39% registrados em abril, enquanto o presidente Lula aparece com 46,3%.
Num
cenário hipotético em que Michelle substitui Flávio na disputa, a distância
aumenta: Lula chegaria a 47,1%, contra 19,3% dela.
"Acredito
que [a crise] seja muito mais reflexo de conflitos políticos que
foram se acumulando e, sobretudo, dessa artilharia digital que jogou sobre ela
questões de segurança de toda ordem, não um cálculo político para tentar se
reposicionar ou valorizar."
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'Bolha está acostumada a não ver mulher como protagonista na política'
Teixeira
avalia que a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg pode ainda não ter captado o efeito
da crise no bolsonarismo.
Ainda
assim, indicou uma oscilação positiva na rejeição de Flávio Bolsonaro, de 45,4%
para 48,4%.
"A
rejeição subiu dentro da margem de erro. Não dá pra considerar isso como um
produto dessa crise. Mas nesse embate, a dificuldade que o Flávio tem em entrar
no eleitorado feminino pode se agudizar ainda mais."
Ele
lembra que Flávio enfrenta o problema de forma sistemática pelo histórico da
família de ofensas às mulheres, como na briga de Jair Bolsonaro com a deputada
federal Maria do Rosário.
"Não
vai restar a ele outra alternativa senão ter uma mulher vice."
O
desafio, avalia, é encontrar quem seria essa vice.
"Se
for uma bolsonarista radical, como a Bia Kicis (deputada federal pelo PL-DF) ou
a própria Julia Zanatta (deputada federal pelo PL-SC), como foi colocado, não
teria muito a somar. O ideal seria a Tereza Cristina (senadora pelo
Progressistas-MS), mas ela não quer ser vice, quer ir para o Senado. Teria de
ser alguém que, além de ser mulher, dialogasse ao menos com uma parcela desse
eleitorado que rejeita o bolsonarismo."
Teixeira
avalia que a crise fragmenta a própria base bolsonarista.
"Essa
briga divide a bolha. O grande tiro no pé da Michelle é que ela está dentro de
uma bolha que não vê o protagonismo da mulher como algo positivo", diz
Teixeira.
"A
fala do Paulo Figueiredo é bem sintomática disso. Dificilmente ela vai ter um
ganho polarizando esse debate dentro da própria bolha, Ela pode ter algum ganho
com o chamado eleitor independente, que oscila a depender da notícia. O Flávio
leva vantagem, porque essa bolha está assentada no patriarcado, em uma política
muito mais masculina e acostumada a não ver a mulher como protagonista na
política."
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'Se crise se prolongar, Lula ganha jogando parado'
Na
avaliação do professor, o principal beneficiário indireto da crise é o governo
Lula.
Segundo
ele, o episódio Michelle x Flávio tirou de cena o desgaste em torno do caso do
senador Jaques Wagner.
O
senador teria
recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio a medidas no
Congresso que ajudariam o Banco Master, como a chamada "Emenda
Master" — algo que ele nega.
"Tende
a reduzir o desgaste da pauta, que não seria pequeno. Seria retomar a questão
da corrupção para o PT, mesmo que o Lula não fosse diretamente envolvido."
Ele diz
que, se a crise se prolongar, Lula pode "jogar parado". "É
melhor ele não se meter nessa encrenca e deixar que a própria direita tenha
comportamento autofágico do que chamar holofotes pra ele".
Michelle
Bolsonaro, avalia, "acabou prestando um grande serviço para o Lula no
momento mais agudo da crise."
Fonte:
BBC News Brasil

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