Luís
Delcides: América Latina - tempos de “Deus, pátria e porrada”
A
América Latina acaba de dar um passo perigoso. As vitórias de Keiko Fujimori,
no Peru e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, não são meras alternâncias
de poder — são a consolidação de uma onda conservadora que traveste
autoritarismo de promessa de ordem e disfarça intolerância de fé. E o pior:
fazem isso com a bênção das igrejas e o aplauso dos quartéis.
Espriella
não esconde suas intenções. Prometeu aos militares colombianos restaurar a
honra “roubada” pelo governo de esquerda — como se a honra das Forças Armadas
residisse na repressão, e não na proteção da cidadania. Grupos evangélicos, num
delírio teológico-político, comparam-no a Ciro, o Grande, o “ungido” de Deus
que libertou os judeus do cativeiro. A mensagem é clara: Espriella se vê como
um salvador enviado por Deus para livrar a Colômbia do “mal” progressista. E,
como todo salvador, ele não admite questionamentos.
Esse
discurso não é apenas populista — é uma arma. Fala-se em “guerra
espiritual” contra a política, mas o que se faz, na prática, é guerra contra o
dissenso. A extrema-direita, com sua retórica rasteira e emocional, explora o
medo e a ignorância das camadas mais humildes: promete o fim do comunismo,
denuncia inimigos ocultos, exalta a meritocracia. Coisas simples, diretas, que
não exigem leitura nem reflexão. Apenas adesão.
O
resultado é uma democracia esvaziada, onde o adversário político deixa de ser
um oponente legítimo para se tornar um inimigo a ser aniquilado. A
promessa de “mão firme” contra a insegurança e a restauração da “honra” militar
são o prelúdio de um modelo que já conhecemos bem: o da militarização da vida
pública, da violência estatal como política de governo e da supressão de
direitos em nome da “ordem”.
E não
nos enganemos: essa ordem tem nome e sobrenome. É a ordem do capital, da
exploração mineral desenfreada, do alinhamento subserviente aos Estados Unidos
e do retrocesso ambiental. É a ordem que transforma a Amazônia em zona de
saque e os povos indígenas em obstáculos a serem removidos.
Importar
o modelo de segurança de El Salvador — com suas megaprisões e mão de ferro —
para a Colômbia é uma receita para o desastre. Um país com a complexidade
histórica e social da Colômbia não pode ser tratado como um campo de batalha. A
violência não se resolve com mais violência. A desigualdade não se resolve com
discurso de ordem. E a pobreza não se resolve com promessas vazias de
meritocracia.
É
profundamente preocupante ter Fujimori e Espriella no comando de dois
países estratégicos para a região. Ambos carregam o peso de um passado
autoritário — um, herdado do pai que dissolveu o Congresso e governou com mãos
de ferro; outro, construído sobre uma retórica militarista que flerta com o
caudilhismo. Juntos, representam um retrocesso civilizatório.
A
resposta da sociedade civil e dos movimentos sociais será decisiva. Se calarem,
a democracia será devorada pelo próprio discurso que diz defender. Se
resistirem, ainda haverá esperança.
O
futuro da América Latina não será decidido nos palácios presidenciais, mas nas
ruas, nas comunidades, nas igrejas que optarem pela fé que acolhe, e não pela
que condena; nas instituições que resistirem à cooptação; e na consciência de
um povo que se recusa a trocar liberdade por promessas de ordem.
Porque
ordem sem justiça é tirania. E fé sem humanidade é fanatismo.
¨
O decálogo da extrema-direita (e os alertas para a
eleição no Brasil). Por Marcia Carmo
Com as
eleições dos novos presidentes da Colômbia, Abelardo de la Espriella, e do
Peru, Keiko Fujimori, o mapa da América do Sul ficou ainda mais inclinado para
a extrema-direita. O Brasil, com o presidente Lula, e o Uruguai, com Yamandú
Orsi, são as exceções num território que já teve, no início deste século, a
predominância da esquerda e da centro-esquerda. Abelardo, o ‘tigre’, e Keiko,
como gostam de ser chamados, unem-se agora a uma onda que já conta com Javier
Milei na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador,
Santiago Peña, no Paraguai, e Rodrigo Paz, na Bolívia. Milei diz que é a ‘onda
azul’. Numa foto ao lado do senador Flávio Bolsonaro, nesta segunda-feira, aqui
em Buenos Aires, Milei escreveu em suas redes sociais que a ‘onda azul’ está
chegando no Brasil.
<><>
Mercosul, sem Milei e com Lula
O
presidente boliviano se define como sendo de centro-direita, mas sua primeira
viagem internacional após ter sido eleito foi aos Estados Unidos e não ao
Brasil, rompendo uma tradição que era mantida por seus antecessores do
Movimento ao Socialismo (MAS), Evo Morales e Luis Arce. Peña, do Paraguai, por
sua vez, já fez elogios públicos ao presidente do Brasil durante uma reunião do
Mercosul, em janeiro deste ano. Mas mantém diálogo frequente com Milei – com
quem o presidente Lula não conversa. Nesta terça-feira, os presidentes do
Mercosul participam da reunião semestral do bloco, em Assunção, no Paraguai,
quando a presidência, que é rotativa, será passada para o Uruguai. Milei
cancelou sua participação um dia antes, na segunda-feira, logo após encontro
com o senador Flávio Bolsonaro em Buenos Aires. Milei argumentou questões
internas porque dará posse, nesta terça-feira, ao novo chefe de Gabinete da
Presidência. Lula confirmou presença. Os dois não se falam. Na reunião
anterior, o presidente Lula não esteve e assim pode evitar ver o presidente da
Argentina.
>>>
A cartilha da extrema-direita:
Neste
cenário, é possível traçar pontos em comum da extrema-direita, como as
estratégias discursivas para atrair o eleitor.
A
seguir dez pontos que formam, hoje, a cartilha da extrema-direita e motivos
para prestar atenção em relação à eleição presidencial deste ano no Brasil.
>>>
Redes Sociais e três desafios na campanha brasileira: Elas passaram a ser
ferramenta decisiva nas eleições. Na Argentina e na Colômbia, Milei e Abelardo
aplicaram estratégias intensas para atrair o voto, principalmente, dos mais
jovens e dos indecisos. As mensagens curtas, e às vezes agressivas, chamaram atenção
e, muitas vezes, foram viral. Neste ambiente as fake news também encontraram
terreno fértil, desafiando as regras democráticas. Na Colômbia, o senador e
filósofo de esquerda Iván Cepeda foi alertado sobre a importância do maior uso
das redes sociais. Quando ele concordou com a ideia, faltavam poucos dias para
o segundo turno. Seu opositor já dominava esse novo universo. Cepeda aceitou a
vitória de Abelardo, mas acusou as fake News, a intromissão de Trump na
campanha e o uso de Inteligência Artificial (IA). Sem dúvida, três desafios
também na campanha brasileira.
>>>
Simpatia militar e continência: O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de
la Espriella, bate continência em quase todos os seus atos. A sua imagem nos
cartazes da campanha teve o mesmo gesto. Apesar de ele ser um advogado
criminalista e empresário milionário, sem trajetória militar, ao copiar a regra
dos fardados, o colombiano (que venceu a eleição por menos de 1%) buscou
mostrar sua simpatia pelas Forças Armadas e sinalizar que pretende impor a
linha ‘mão de ferro’ na segurança pública. Milei, por sua vez, colocou um
militar no cargo de ministro da Defesa, rompendo uma tradição de um civil à
frente da pasta em tempos democráticos.
>>>
Segurança pública e ‘bombas’: As medidas do presidente de El
Salvador, Nayib Bukele, têm inspirado os nomes da extrema-direita que prometem
mão de ferro em suas políticas de segurança. A presidente eleita do Peru, Keiko
Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, promete a maior participação
das Forças Armadas no âmbito da segurança pública, incluindo a presença do
Exército nos presídios. Ela também promete iniciativas que evitem processos na
Justiça contra abusos de policiais e de militares, como informaram as agências
internacionais de notícias. O colombiano Abelardo de la Espriella também
promete linha dura contra o crime e chegou a dizer que lançaria ‘bombas’ em
acampamentos de traficantes de drogas.
Por sua
vez, Noboa, do Equador, já conta com a presença de militares em suas ações em
parceria com os Estados Unidos. O Equador é o país com maior índice de
homicídios por 100 mil habitantes na América Latina. Mas a militarização não
tem mostrado efeitos positivos nas estatísticas e na vida dos equatorianos.
Outro presidente adepto da maior participação direta das Forças Armadas no
cotidiano das pessoas é Kast, do Chile, que declarou admiração pelo ditador e
general do Exército Augusto Pinochet. A segurança pública e seus métodos também
fazem parte da preocupação dos brasileiros.
>>>
Religião e guru espiritual: Milei viajou 4 vezes a Israel desde que tomou
posse há dois anos e meio. Ele foi ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, onde
chorou copiosamente. A fé de Milei é associada ao judaísmo, apesar de ele não
ter se convertido e se declarar católico. Sua crença incluiu a decisão de ter
nomeado seu guru espiritual, o rabino Shimon Axel Wahnish, como o embaixador da
Argentina em Israel. Milei já fez várias referências sobre sua fé em seus
discursos. Já o presidente do Chile, José Antonio Kast, frequenta missas da
Igreja católica quase diariamente e instaurou a realização de 4 missas por
semana na capela do Palácio presidencial La Moneda. A associação entre religião
e política nunca esteve tão forte desde o retorno da democracia no Chile, em
1990.
>>>
Evangélicos? Ao
contrário, da bancada evangélica no Brasil e da importância do ‘voto
evangélico’ no ritmo da política brasileira, essa presença não é notória nos
países onde a extrema-direita foi eleita recentemente. As igrejas pentecostais
tiveram crescimento nos últimos tempos nos países da América Latina, mas não
como no Brasil, onde encontraram terreno fértil.
>>>
Imigração e bolsonarista: O presidente do Chile construiu valas para
tentar impedir a chegada de migrantes dos países vizinhos – Peru, Bolívia e
Venezuela. Milei, da Argentina, passou a exigir maior controle migratório e
ampliou as exigências para os que requisitem a residência permanente no país.
Mas concedeu asilo político a apoiadores de Bolsonaro que fugiram do Brasil
após terem sido condenados pela intentona golpista de 8 de janeiro de 2023. No
Peru, durante sua campanha à presidência, Keiko Fujimori, prometeu a expulsão
de migrantes, seguindo como Kast, do Chile, por exemplo, as linhas de expulsão
impostas por Trump nos Estados Unidos.
>>>
Contra homoafetivos: No Fórum Econômico de Davos em 2025, Milei
atacou a comunidade LGBTI+ e, como era esperado, recebeu fortes críticas na
Argentina e em outros países. Ele também eliminou o ministério da Mulher e
políticas em defesa das mulheres. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella,
insinuou críticas contra políticos gays e indicou que casais do mesmo sexo não
poderiam adotar crianças. Diante das críticas, ele disse, na reta final da
campanha, que não é homofóbico e que respeitaria a constituição do país.
Percebeu que o pensamento retrógrado lhe tiraria votos.
>>>
Estado mínimo: O
colombiano Abelardo se inspirou no pacote de arrocho de Milei, prometendo
dolarizar a economia (o que Milei acabou não fazendo) e usar a ‘motosserra’
para cortar cerca de 40% do Estado e com 700 mil demissões. O Estado mínimo
também é pilar do chileno Kast e da peruana Keiko Fujimori – ‘doa a quem doer’
na região, a América Latina, que é a mais desigual do planeta.
>>>
Admiração por Trump e ‘MAGA’: Milei já esteve 16 vezes nos Estados
Unidos desde que tomou posse há dois anos e meio. Sua admiração por Trump
parece ser até maior do que sua admiração pelo primeiro-ministro de Israel,
Benjamin Netanyahu. Nesta semana, Milei comunicou, através de suas redes
sociais, a troca do chefe de Gabinete da Presidência e terminou a mensagem com
a marca de Trump: MAGA (no caso dele para dizer: ‘Make Argentina Great Again –
Faça a Argentina grande novamente’). Além de Milei, Abelardo, o ‘tigre’, da
Colômbia, Keiko, do Peru, e Noboa, do Equador, e Peña, do Paraguai, são
admiradores de Trump e querem continuar intensificando essa relação bilateral.
Em quase todos os países da América do Sul, a China é o principal parceiro
comercial. Algumas das exceções, por exemplo, são a Argentina que tem o Brasil
como principal sócio comercial e a Colômbia que tem os EUA como principal
parceiro histórico.
>>>
A ‘reinvenção’ da política: Os políticos da extrema-direita eleitos
recentemente na América Latina chegam com pouca ou nenhuma experiência na
política partidária (a peruana Keiko é exceção). O colombiano Abelardo de la
Espriella, advogado de 47 anos, jamais exerceu um cargo legislativo ou no
Executivo e, como Milei, economista que ficou conhecido através de programas de
TV e redes sociais, quer reinventar a forma de se fazer política.
>>>
Partidos nanicos: O partido de Abelardo, Defensores da Pátria, tem apenas
três parlamentares no Congresso Nacional. Ele espera ter o apoio da direita
tradicional para poder aprovar seus projetos e governar. Mas ele já disse que
os decretos serão seus aliados. A formação e a sobrevivência dos partidos são
outro desafio nestes tempos democráticos.
¨
Da motosserra de Milei ao TikTok de Keiko: como a América
Latina virou laboratório eleitoral digital
Quando Donald Trump afirmou que o
Brasil pode se tornar um “laboratório na América Latina”, nas próximas
eleições, a reação imediata oscilou entre o escândalo e a desqualificação. Para
alguns, tratava-se de mais uma declaração provocativa, típica de sua retórica;
para outros, de uma ameaça direta à soberania eleitoral brasileira. Ambas as
leituras, embora compreensíveis, permanecem na superfície do problema.
O que
está em jogo não é apenas o conteúdo da fala, mas o que ela revela sobre a
transformação contemporânea das disputas políticas.
“laboratório
eleitoral” não emerge no vazio. Ela só faz sentido em um contexto em que as
eleições deixaram de ser processos estritamente nacionais para se tornarem
eventos atravessados por dinâmicas transnacionais, mediados por plataformas
digitais e orientados por estratégias de captura da atenção.
A atual
fase do capitalismo, o Meio
Técnico-Científico-Informacional, consolidada a partir da segunda metade do
século XX, transformou a ciência, a tecnologia e as telecomunicações nas
principais engrenagens do espaço mundial.
Nesse
cenário, os dispositivos digitais e seus algoritmos assumiram o papel de
mediadores centrais da dinâmica social, superando a condição de canais neutros.
Essas
plataformas reconfiguram o repertório informativo coletivo ao ditar o que ganha
relevância. Consequentemente, as heranças históricas e culturais perdem espaço
na centralidade do debate público, que passa a ser governado pelas métricas de
engajamento.
Essa
transformação está ligada ao que se consolidou chamar de economia da atenção,
em que o recurso mais escasso deixou de ser a informação e passou a ser o
próprio foco do usuário. A disputa pela atenção prioriza informações imediatas
e simplificadas em detrimento da profundidade analítica.
Para
disputar esse recurso cada vez mais valioso, as plataformas das Big Techs ajustam seus
algoritmos para privilegiar conteúdos que provocam reações intensas, como
indignação, medo ou raiva. A política, ao ser tragada por essa dinâmica,
submete-se à “impaciência algorítmica”, fenômeno que leva o indivíduo a
desenvolver intolerância ao tempo de espera da vida real em razão dos estímulos
gerados pelo uso constante de tecnologias que reduzem a profundidade analítica.
Dessa
forma, o debate público torna-se esvaziado, o tempo da ponderação passa a ser
substituído pela urgência da reação, e os discursos moderados tornam-se
obsoletos diante de narrativas curtas, polarizadas e desenhadas para o
confronto.
Dentro
desse ecossistema de experimentação contínua, em que o eleitor deixa de ser um
ator político para se tornar um dado moldável em tempo real, as democracias da
América Latina enfrentam seus desafios mais dramáticos. Financiadas pelos
modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia (Big Techs), as
plataformas deixaram de ser meras vitrines de conteúdo e assumiram a gestão da
vontade popular.
Ao
alimentar a impaciência algorítmica e a intolerância ao esforço cognitivo, essa
dinâmica substitui a ponderação pelo confronto e premia soluções simplistas
para problemas complexos, operando, em última análise, como o motor invisível
por trás da ascensão de forças políticas de extrema-direita no território
latino-americano.
É nesse
ponto que a fala de Trump deixa de ser anedótica e passa a ser sintomática. Ao
nomear o Brasil como possível espaço de teste, ele não inaugura uma prática,
mas explicita uma racionalidade já em curso.
A
política contemporânea, especialmente em democracias de grande escala e alta
conectividade, tornou-se inseparável daquilo que se pode chamar de economia da
atenção: um regime no qual visibilidade, engajamento e velocidade substituem
progressivamente a mediação institucional e o tempo deliberativo.
Essa
transformação ganha contornos ainda mais nítidos quando observada em
articulação com atores políticos internos. A sugestão de Flávio Bolsonaro de
construir uma “equipe de transição” com os Estados Unidos, caso vença as
eleições, não deve ser lida apenas como um gesto de alinhamento ideológico. Ela
indica algo mais profundo: a estrutura e a naturalização da ideia de que o
processo político brasileiro pode ser influenciado, orientado ou até
parcialmente conduzido a partir de fora.
Quando
Trump sugere o Brasil como laboratório e Flávio Bolsonaro propõe uma transição
com Washington, não estamos diante de falas isoladas, mas de um mesmo horizonte
político no qual a soberania eleitoral se dilui em redes de influência
transnacional.
O
Brasil, nesse cenário, destaca-se por sua dimensão continental, sua
centralidade no Sul Global e, sobretudo, por sua intensa penetração de
plataformas digitais, o que o transforma em terreno privilegiado para a
experimentação dessas novas disputas.
Continua
após o anúncio
Essa
tendência reflete um movimento mais amplo que já reconfigura quase todo o
cenário latino-americano, no qual a eficácia eleitoral passa a depender menos
da densidade programática e mais da capacidade de adaptação à lógica da
atenção.
Na
Argentina, Javier Milei decodificou
essa lógica ao utilizar a imagem de uma motosserra para sintetizar, de forma
altamente compartilhável, o corte de gastos públicos. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a
construção de megapresídios em espetáculo digital contínuo, convertendo
políticas complexas de segurança em conteúdo de consumo rápido. Fenômeno
semelhante ocorreu na Colômbia com o triunfo de Abelardo de la Espriella.
Ao
performar sob a marca de “El Tigre”, ele transformou sua campanha em pura
pirotecnia virtual, demonstrando que promessas de “mão de ferro” ganham tração
inédita quando moldadas para satisfazer a pressa do eleitorado.
Já no
Peru, Keiko Fujimori recorreu ao
TikTok para tentar suavizar sua imagem perante a juventude por meio da lógica
da instantaneidade.
É nesse
ambiente de democracias frágeis que a América Latina se transforma em um
verdadeiro tabuleiro geopolítico.
De um
lado, os Estados Unidos usam suas gigantescas plataformas digitais para criar
fluxos que atravessam fronteiras e estruturas locais, ditando diretamente as
informações que consumimos e debatemos. Do outro, a China se consolida como a
principal parceira econômica da região, tendo o Brasil como peça-chave desse
tabuleiro.
Pequim
vem expandindo sua presença por meio da “Rota da Seda Digital”, investindo
pesadamente em infraestrutura e criando uma dependência tecnológica silenciosa
nos países vizinhos. Assim, a América Latina torna-se palco de um duplo embate:
a influência informacional estadunidense e o domínio estrutural chinês.
Em
suma, essa nova arquitetura do poder digital redefine os conflitos globais.
Como se observa, a intervenção de líderes como Donald Trump, apoiado pelas Big
Techs, já não ocorre de forma clássica, nos moldes bélicos do século XX, com
tiros ou canhões. Em vez disso, opera-se uma mutação estrutural, marcando a
transição de uma geopolítica dos territórios para uma geopolítica dos fluxos,
na qual o verdadeiro campo de batalha reside no controle da informação, da
atenção e da influência digital.
Se
Trump apenas disse em voz alta, é porque algo já estava sendo dito de outras
formas. Compreender essa dinâmica exige ir além da indignação episódica e
enfrentar uma questão mais incômoda: até que ponto as democracias
contemporâneas ainda controlam seus próprios processos eleitorais e até que
ponto já operam como ambientes de teste em uma disputa política que se tornou,
definitivamente, global?
Fonte:
Brasil 247/Diálogos do Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário