quinta-feira, 2 de julho de 2026

Parcerias externas, digitalização e divergências internas: os desdobramentos da cúpula do Mercosul

Cúpula no Paraguai destaca expansão de parcerias internacionais e modernização do Mercosul, enquanto diferenças políticas e econômicas limitam avanços internos.

Nesta terça-feira (30), a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul terminou em Assunção, no Paraguai, após uma agenda marcada por avanços técnicos, debates sobre maior integração regional entre países-membros e associados, redução de assimetrias e ampliação das parcerias externas do bloco. O encontro também marcou os 35 anos do Tratado de Assunção, acordo que deu origem ao Mercosul em 1991.

Anteriormente, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmaram que a falta de consenso entre os Estados-membros fez o bloco priorizar parcerias externas, a fim de diversificar as suas relações comerciais e ter maior inserção internacional.

Isso se refletiu na assinatura do acordo com a União Europeia e também nas negociações de acordos de livre comércio com os Emirados Árabes Unidos e países do continente asiático, entre eles China, Japão e Coreia do Sul.

À Sputnik Brasil, Larissa Silva, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI/UERJ), afirmou que as negociações anunciadas durante a cúpula reforçam a relevância do Mercosul no cenário internacional, em um contexto marcado por uma crise do multilateralismo e pelo aumento da desconfiança em instituições internacionais. "Não dá para tirar isso que está acontecendo com o Mercosul desse panorama muito maior do cenário internacional, que é essa crise do multilateralismo", afirmou.

Segundo a pesquisadora, o bloco vive um momento simultâneo de fortalecimento e fragilidade. Por um lado, avanços como as negociações com a União Europeia e o Japão demonstram que o Mercosul mantém capacidade de articulação externa. Por outro, divergências políticas, econômicas e comerciais entre os países-membros dificultam a construção de consensos e limitam novos avanços internos. "A gente tem essas divergências entre os países-membros em temas comerciais, políticos, e isso acaba dificultando a construção de consensos", explicou.

Apesar dos desafios, a internacionalista avalia que o momento atual não representa uma crise apenas do Mercosul, mas uma fase de fragilidade diante das mudanças no cenário global. Em outras palavras, o bloco continua relevante, mas precisa superar suas divisões internas para transformar os avanços externos em maior integração regional.

Silva ressalta que, das medidas anunciadas no evento, a incorporação do setor automotivo às discussões do Mercosul e os avanços na agenda digital estão entre os pontos de maior destaque. A integração do setor produtivo pode, ao seu ver, reduzir barreiras comerciais dentro do bloco, fortalecer cadeias regionais e gerar impactos econômicos, como aumento da circulação de produtos e criação de empregos.

Em destaque, a digitalização é uma das áreas com maior potencial de transformar o funcionamento do Mercosul. Para ela, iniciativas como o reconhecimento de identidades digitais e a modernização de processos comerciais podem reduzir burocracias, facilitar operações de empresas e melhorar a circulação de cidadãos entre os países-membros.

Ao dar exemplos, ela cita medidas como a emissão digital de certificados de origem, que pode contribuir para baratear processos de exportação e importação e fortalecer a integração econômica do bloco.

"Eu acho que a agenda digital é uma das mais interessantes, porque ela consegue reduzir burocracias, facilitar negociações, condução de negócios e tornar a integração regional muito mais funcional no dia a dia."

Em outros tópicos como o Pix e terras raras, a pesquisadora avalia que podem representar caminhos estratégicos para ampliar o papel do Mercosul além da agenda comercial tradicional.

A integração digital, especialmente por meio de sistemas de pagamentos regionais, pode reduzir custos, facilitar transações e modernizar a integração econômica entre os países-membros. "Se conseguissem utilizar o Pix, por exemplo, para pagamentos regionais, seria muito interessante porque abre espaço para reduzir custos, facilitar transações e modernizar a integração econômica desses países", afirmou.

A cooperação em minerais críticos — como terras raras — também foi apontada pela pesquisadora como uma área estratégica diante da disputa global por recursos essenciais ao desenvolvimento tecnológico e à transição energética. Ela pontua que uma atuação coordenada entre os países do Mercosul poderia fortalecer cadeias produtivas regionais, ampliar a autonomia do bloco e aumentar sua relevância no cenário internacional.

"A cooperação em minerais críticos é muito importante, ela não pode ser deixada de lado", explicou. Para a pesquisadora, o avanço nessa área pode transformar o papel do Mercosul, mas depende da capacidade de diálogo entre os governos e da construção de estratégias conjuntas entre os países-membros.

<><> Assimetria entre membros

Um dos pontos abordados também foi como reduzir a assimetria entre os países-membros do Mercosul. O atual presidente do bloco, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, argumentou que a condição geográfica do país exige tratamento diferenciado, julgando que o acordo de livre comércio firmado aprofunda essas diferenças.

"Sendo um país sem saída para o mar, isso nos impõe uma assimetria que deve ser corrigida como questão de justiça. O Mercosul tem que permitir que o Paraguai cresça", disse Peña.

A internacionalista destaca que as divergências entre os governos sobre temas como integração regional, política externa e comércio dificultam a construção de consensos — elemento central para o funcionamento do Mercosul. Segundo ela, enquanto alguns países defendem maior autonomia para negociar acordos bilaterais, outros defendem a preservação de uma atuação conjunta do bloco.

"Hoje a gente tem governos com visões muito distintas sobre a própria integração regional, sobre política externa e, consequentemente, sobre comércio, que são as bases do Mercosul", explicou, dizendo que essas diferenças acabam impactando a capacidade do bloco de avançar em novos acordos e mudanças estruturais.

"A gente não consegue falar em avanços, em mudanças, em grandes acordos do Mercosul quando não tem consenso", afirmou, destacando que os desafios econômicos e políticos estão entre os principais obstáculos para o fortalecimento da integração regional.

Embora o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem, no acrônimo em espanhol) possa ser um caminho para ajudar na redução das desigualdades dentro do bloco, esse não seria o único instrumento necessário ou, como avalia Silva, "sozinho não faz milagre". O fundo foi um dos pontos abordados pelos chefes de Estado durante a cúpula e recebeu um aporte brasileiro de US$ 100 milhões (cerca de R$ 517 milhões) para financiar projetos voltados à redução das assimetrias entre os países-membros.

Para a pesquisadora, o Focem tem um papel importante por financiar infraestrutura e contribuir para uma integração regional mais forte e coesa. No entanto, ela destaca que as diferenças dentro do Mercosul são estruturais e envolvem fatores que vão além da infraestrutura.

A internacionalista avalia que o fundo tem potencial para reduzir parte das desigualdades, mas defende a criação de outros mecanismos complementares para enfrentar diferenças históricas entre os países. "Ele tem potencial, mas a gente precisa também de outras ferramentas que consigam trabalhar essas questões estruturais", explicou.

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Assunção recebe cúpula histórica dos 35 anos do Mercosul com foco em comércio e soberania.

Na celebração dos 35 anos do Mercosul, os chefes de Estado do bloco se reúnem nesta terça-feira (30), em Assunção, capital do Paraguai, para a 68ª Cúpula de Chefes de Estado. O encontro marca a transferência da presidência pro tempore do Paraguai para o Uruguai e tem como principais temas a ampliação da integração regional, a abertura de novos mercados, a redução das assimetrias entre os países-membros e a segurança regional.

A cúpula também ocorreu em meio aos debates sobre as cotas tarifárias do acordo entre Mercosul e União Europeia e não contou com a presença do presidente argentino, Javier Milei.

Na abertura da reunião, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, destacou o significado histórico do encontro. "Hoje é dia de celebrar a amizade, a integração, em que celebramos os 35 anos do Mercosul. Sou um fanático da integração. Se há um país que sofreu pela ausência de instituições que promovessem a integração, provavelmente é o Paraguai, mas isso jamais desmotivou os paraguaios a seguir lutando nesse processo", afirmou.

Peña reconheceu os avanços obtidos pelo bloco, mas defendeu maior ambição: "Não há dúvida de que obtivemos avanços, mas há um sentimento de insatisfação, que é a vontade de fazer muito mais".

O presidente também elogiou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma força motora da integração regional e convidou os Estados associados — Equador, Chile, Peru, Colômbia, Guiana e Suriname — a se incorporar efetivamente ao Mercosul, a exemplo da recente adesão da Bolívia, ainda em processamento.

Ao abordar o cenário internacional, o presidente paraguaio ressaltou que "o mundo vive hoje um momento relevante para nós, principalmente no que diz respeito aos conflitos do mundo. Nós na América do Sul somos uma região de paz". Em seguida, voltou a defender mudanças no acordo com a União Europeia. "Assinamos o acordo com a União Europeia e percebemos que a união do Mercosul não era tão forte assim. O Paraguai mantém sua posição sobre as instruções do acordo. Não é um capricho, é uma questão de justiça."

Peña argumentou que a condição geográfica do país exige tratamento diferenciado, julgando que o acordo de livre comércio firmado aprofunda as assimetrias. "Sendo um país sem saída para o mar, isso nos impõe uma assimetria" que deve ser corrigida "como questão de justiça": "O Mercosul tem que permitir que o Paraguai cresça". Também negou que sua posição seja "inflexível", afirmando que "o forte e o fraco devem ser colocados em igualdade de condições".

Na área de integração física, defendeu que "nossos controles transfronteiriços têm de deixar de operar em separado". Também anunciou o início das negociações de um acordo de livre comércio com o Japão, "um passo histórico que fortalece nossa conexão com a Ásia".

Segundo ele, também seguem as negociações com os Emirados Árabes Unidos, houve avanços com o Canadá e ampliação dos acordos com a Índia. Acrescentou que o Uzbequistão, representado na cúpula, "vê o Paraguai como uma porta de entrada ao bloco comercial" e defendeu que "temos que focar os acordos que já avançamos".

Sobre a situação política regional, Peña comentou os protestos na Bolívia: "Afirmo nosso mais firme rechaço à tentativa de desestabilizar a Bolívia. Damos todo o apoio e respaldo ao presidente Rodrigo Paz". Também estendeu a mão aos venezuelanos afetados pelos terremotos no país: "Envio minha solidariedade aos irmãos da Venezuela e espero que o país volte a ser uma democracia plena".

<><> Lula defende acordo com China e destaca o Pix

Em seu discurso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou manifestando solidariedade às vítimas do terremoto na Venezuela. "Ontem falei com a presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, e quero pedir um minuto de silêncio para as vítimas do terremoto."

Ao analisar o contexto internacional, Lula afirmou que "hoje o mundo está profundamente transformado, com tensões geopolíticas; o protecionismo ressurge, a fragmentação da economia mundial impõe desafios severos". Para enfrentar esse cenário, defendeu a ampliação da integração econômica.

"Nessa cúpula daremos um passo além iniciando as tratativas com o Japão, e logo estaremos trabalhando para fazer o mesmo com a China". Também afirmou que "o projeto de integração deve estar acima das ideologias".

O presidente brasileiro defendeu o avanço da integração energética, com maior cooperação na área elétrica e de gás, e afirmou que "desenvolver cadeias de valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania". Também destacou a proposta apresentada pelo Paraguai para minerais estratégicos. "O mapa do caminho de minerais críticos proposto pelo Paraguai pode ser um ponto de partida para reforçar a autonomia dos nossos países."

Na área financeira, Lula afirmou que "o Pix é uma referência internacional e sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficie todos os cidadãos do Mercosul". Também destacou a cooperação com a Interpol para combater o crime organizado na Amazônia e anunciou que "o Brasil vai financiar a presença de delegados em Buenos Aires, onde está a sede regional" da organização.

Ao comentar o cenário político interno brasileiro, ressaltou os avanços econômicos do governo e afirmou: "Vou disputar essas eleições para assegurar que o Brasil permaneça um país democrático".

<><> Uruguai anuncia prioridades

O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, destacou a ajuda humanitária prestada à Venezuela e defendeu que "o mundo mudou muito rápido e a resposta deve ser mais diálogo e cooperação". Segundo ele, "queremos um Mercosul mais moderno e mais dinâmico, que gere resultados concretos para seus cidadãos".

Orsi afirmou que a prioridade uruguaia será avançar na implementação dos acordos comerciais recentemente firmados com a União Europeia e a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, na sigla em inglês). Também destacou que buscará ampliar as negociações com Japão, Canadá, Vietnã e Índia.

<><> Rodrigo Paz alerta sobre 'narcoterrorismo' e protestos

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, pediu solidariedade às vítimas dos bloqueios provocados pelos protestos sociais no país. Segundo ele, "todas as democracias estão ameaçadas, e devemos reagir de forma imediata". Afirmou ainda que "a Bolívia atravessa um momento complexo, impulsionada por radicais financiados por economias ilícitas e pelo crime organizado".

Paz declarou que o estado de exceção implementado por ele "serve para retornar à normalidade", defendeu que "o narcoterrorismo deve ter uma resposta" e afirmou que "há de se levar em conta a espécie de primavera árabe no nosso continente".

Além dos discursos, a integração regional avançou no plano institucional. Na véspera da cúpula, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, assinou três instrumentos durante a 68ª Reunião Ordinária do Conselho do Mercado Comum (CMC): o Acordo do Mercosul sobre o Reconhecimento Mútuo de Meios de Identificação e Autenticação Eletrônica; o Acordo Modificativo do Anexo I do Acordo sobre Documentos de Viagem e de Retorno dos Estados Partes do Mercosul e Estados Associados; e o Protocolo Bilateral sobre Regulamentação do Transporte de Cargas Menores entre Brasil e Paraguai.

O encontro também ressaltou os resultados alcançados pelo Mercosul desde sua criação, em Assunção, há 35 anos. Nesse período, o comércio entre os países do bloco cresceu 500%, enquanto as exportações para mercados fora do Mercosul aumentaram mais de 800%.

Outro tema de destaque foi o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem, no acrônimo em espanhol), após o anúncio de um aporte brasileiro de US$ 100 milhões (cerca de R$ 517 milhões) para reduzir as assimetrias entre os países-membros.

¨      Mercosul abre negociações para acordo com Japão e prepara diálogo com China, diz Lula

Na abertura da 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Assunção, que celebra os 35 anos do bloco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a ampliação da agenda comercial do grupo em meio às transformações da economia mundial e ao avanço do protecionismo.

"Nesta cúpula daremos um passo além, iniciando as tratativas com o Japão, e logo estaremos trabalhando para fazer o mesmo com a China", afirmou Lula nesta terça-feira (30).

O presidente Lula criticou o avanço do unilateralismo no mundo e disse que a fragmentação econômica ameaça comércio, investimentos e desenvolvimento sustentável. A resposta, segundo Lula, deve ser ampliar a presença internacional do Mercosul e fortalecer a integração sul‑americana.

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"O Mercosul permanece como principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada. O projeto de integração sul-americana deve estar acima de qualquer divergência ideológica", afirmou.

Ainda segundo Lula, a integração precisa se aprofundar em outras áreas, como a financeira, citando o Pix como uma "referência internacional e sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficie todos os cidadãos do Mercosul".

Ele destacou a evolução do comércio interno do bloco, que passou de US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 25,2 bilhões) em 1991 para US$ 50 bilhões (mais de R$ 280 bilhões) em 2025, além do crescimento de mais de 100% no intercâmbio com o mundo em relação a 2024, chegando a US$ 770 bilhões (aproximadamente R$ 4,3 trilhões).

Para além disso, o presidente defendeu o desenvolvimento das "cadeias de valor agregado", afirmando ser "uma questão de segurança nacional e soberania", e acrescentou: "o mapa do caminho de minerais críticos proposto pelo Paraguai pode ser um ponto de partida para reforçar a autonomia dos nossos países".

Por fim, Lula destacou a importância da hidrovia Paraguai‑Paraná, que movimenta quase 100 mil toneladas por ano, como eixo central da logística do Mercosul, reforçando o caráter do bloco como instrumento de proteção econômica e expansão comercial regional em um ambiente internacional mais competitivo.

A 68ª Cúpula do Mercosul em Assunção marca os 35 anos do tratado fundacional do bloco sul-americano, assinado nesta mesma capital.

Ao mesmo tempo, marca o início das negociações de um acordo de livre comércio com o Japão e ocorre em um momento de ampliação das parcerias comerciais internacionais do Mercosul, incluindo o acordo com a União Europeia (UE) e novas aproximações com mercados asiáticos, como Índia e Vietnã.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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