Emiliano
José: Cuba – a nova política econômica
Vladímir
Lênin se viu diante de dilema semelhante em 1921, face às enormes dificuldades
da Revolução Russa, e não teve dúvidas em lançar mão da Nova Política Econômica
(NEP), a significar a reintrodução de práticas capitalistas.
Cuba,
agora, dá tal passo, de modo muito mais ampliado, abrindo a economia à presença
capitalista, sem abrir mão da direção dos rumos do país, provavelmente
recolhendo lições da vitoriosa experiência chinesa, autodenominada socialismo
de mercado.
Costumo
dizer: a história não tem linha reta. São as curvas, às vezes abruptas, os
reais desafios. Finda uma curva, pode aparecer uma encruzilhada. E as
lideranças têm o dever, sobretudo, de encarar as curvas e resolver a direção a
tomar quando defronta com uma encruzilhada. E não pode demorar muito porque à
frente pode estar um abismo.
A
atitude de Vladímir Lênin, ao decidir-se pela NEP, fazia frente à dura
conjuntura de 1917 até aquele ano, especialmente aos resultados da Guerra Civil
desencadeada pela contrarrevolução no final de 1918. Uma encruzilhada.
A
Revolução russa se vira na contingência de aplicar a política chamada de
“comunismo de guerra”, assim denominada de modo inapropriado, pois o país não
vivia sob o comunismo. Nessa fase, desenvolveu-se controle rigoroso da economia
pelo Estado soviético. Guerra é guerra, não pode haver vacilação.
Após a
Guerra Civil, vencida pela Revolução, a União Soviética estava devastada.
Lênin, ousado e corajoso, decide-se então pela NEP. Só ele tinha autoridade
para uma decisão como aquela. Imaginava-se ser possível, ao liberar a presença
do capital na área agrícola e urbana, promover o desenvolvimento mais acelerado
das forças produtivas e garantir alguma acumulação de capital visando a
industrialização. Fazia frente assim ao cerco promovido pelas potências
capitalistas, dispostas a derrotar a inédita experiência socialista.
A NEP
garantia liberdade de comércio interno, autorização para o funcionamento de
empresas particulares e permissão de investimentos estrangeiros para a
reconstrução do país. Os resultados não demoraram a surgir: a produção agrícola
ganha dinamismo, o sistema viário volta a funcionar com regularidade e as
pequenas indústrias começam a lançar produtos no mercado. O país começava a
escapar da devastação ocasionada pela guerra contrarrevolucionária. A
resistência àquela ofensiva reacionária, o esforço de guerra, custaram caro, e
agora, com a nova política, a URSS voltava a respirar.
Muito
se terá a dizer sobre a seqüência daquela política econômica e dos problemas
vividos pela Revolução russa. Há a doença de Vladímir Lênin, e logo depois a
assunção de Joseph Stálin, com todas as conseqüências. A lembrança da NEP veio
a propósito da decisão cubana de abrir vigorosamente a economia à presença
capitalista.
Poderíamos,
ainda, para nos ancorarmos de passagem na história das grandes revoluções
socialistas, lembrar a experiência chinesa. No final dos anos 1970, lideranças
revolucionárias decidem-se pelo socialismo de mercado, com planejamento
centralizado, mão firme do Estado socialista, e abertura ao capital privado,
inclusive ao capital internacional. Uma frase ficou famosa, a definir a nova
filosofia chinesa: não importa a cor do gato, importa que cace ratos.
Valer-se
de mecanismos capitalistas para o desenvolvimento das forças produtivas, sem
que a Revolução abrisse mão do controle político da gigantesca nação, controle
executado pelo Partido Comunista Chinês. Uma experiência absolutamente
bem-sucedida, nem é preciso avançar na argumentação.
O
desespero dos EUA evidencia o quanto a China avançou, e o quanto fez acelerar a
decadência do império antes tido como imbatível econômica e militarmente. O
desenvolvimento das forças produtivas do país, nesses quase 50 anos, é
estonteante, e com tal desenvolvimento foi possível assegurar boas condições a
1 bilhão e meio de pessoas. Tudo isso é dito, de passagem, para chegarmos a
Cuba.
Para os
EUA, o maior furacão sobre o Caribe foi a Revolução Cubana. Como é que a
pequena Ilha, paraíso da máfia, encostada ao império, consegue derrotar o
ditador Batista e logo, logo implantar um regime socialista? Uma ousadia sem
limite.
Tentaram,
em Escambray e em Playa Girón, derrotar a Revolução, e foram fragorosamente
derrotados. Centenas de atentados contra Fidel Castro fracassaram. Desde lá,
cruel, perverso bloqueio norte-americano, com a esperança de derrotar os
surpreendentes guerrilheiros oriundos de Sierra Maestra.
Até o
início dos anos 1990, a revolução socialista contou com a ajuda decisiva da
URSS. Finda a experiência soviética, a crise se abateu fortemente sobre Cuba:
grave escassez de recursos energéticos em decorrência da perda de praticamente
todo o petróleo oriundo da ex-URSS, e uma depressão econômica muito séria,
atingindo profundamente a vida do povo.
O
governo revolucionário definiu essa fase, a durar até meados dos anos 1990,
como “Período Especial em Tempos de Paz”. Uma quadra de imensa dificuldade, com
impacto decisivo nas condições de existência da população. Só o raro
patriotismo do povo tem garantido a sobrevivência da Revolução cubana.
Costumo
dizer: o milagre da persistência do socialismo em Cuba é decorrente da
natureza, do caráter do povo, obstinado na atitude de defesa da pátria,
irredutível na sustentação da soberania. As dificuldades foram enfrentadas, não
diria superadas, ou só superadas parcialmente. Afinal, havia o bloqueio
econômico severo promovido pelos EUA, a causar impactos contínuos sobre a
economia e a vida do povo cubano, nunca é demais insistir.
Lembro-me
de um encontro em Havana, ano de 2018, com o notável revolucionário Jorge
Lezcano, amigo e companheiro de Fidel Castro. Ele me dizia: nada em Cuba pode
ser feito sem considerar o bloqueio norte-americano, cuja aposta desde sempre
foi levar o povo ao desespero e à revolta contra a Revolução.
Até
agora, aposta perdida em decorrência do patriotismo da população. Jorge Lezcano
insistia: iludia-se quem quisesse ignorar os impactos daquele bloqueio,
persistente desde os primeiros dias da Revolução.
Os EUA,
nessa quadra sob Donald Trump, dobraram a aposta. Dentre as tantas agressões, a
incluir seqüestro de Nicolás Maduro, holocausto em Gaza, guerra contra o Irã,
Trump resolve apertar o cerco contra Cuba, impedindo a chegada de qualquer gota
de petróleo à Ilha, aumentando as restrições a quaisquer empresas que queiram
fazer negócios com o país, ampliando em muito as dificuldades da pequena nação.
Dentre
as tantas medidas, o absurdo de considerar Raúl Castro, aos 94 anos, como
culpado por homicídio e conspiração em razão de Cuba ter abatido dois aviões,
dirigidos por anticastristas, em 1996, como se não fossem os EUA o agressor
permanente da pequena Ilha.
O fato:
o país vive hoje sob o mais grave cerco promovido pelos EUA. “Cuba enfrenta um
bloqueio cruel e uma perseguição financeira real e diária que encarece cada
gota de combustível, cada medicamento, cada alimento, cada peça e cada
tecnologia de que o país precisa”, disse o presidente Miguel Díaz-Canel no
Parlamento cubano por ocasião do anúncio da nova política econômica.
Há
intensa movimentação de povos do mundo em solidariedade à Ilha, mas ainda são
limitadas as iniciativas de Estados nacionais, ainda pouco dispostos a comprar
briga direta com o império. A diplomacia só raramente se move pela
solidariedade.
O
bloqueio criminoso à chegada de qualquer gota de petróleo é muito grave para a
existência da vida cotidiana de Cuba, envolvendo coisas triviais e fundamentais
como alimentação, medicamentos, funcionamento de hospitais, atendimento a
pacientes, e Cuba tem sido um exemplo na área de Saúde para todo o mundo.
Governo
cubano, Miguel Díaz-Canel à frente, tem se mantido firme diante das ameaças de
Donald Trump e do bloqueio, mantendo vivo o espírito patriótico da Revolução e
do povo cubano, recusando-se a qualquer tipo de rendição. Sabe, no entanto, que
o tempo urge.
Exigia-se
algum passo decisivo para o enfrentamento da crise. E, diria, resolveu fazer
uma espécie de NEP, talvez na verdade uma guinada com características chinesas,
e abrir-se de modo resoluto ao investimento capitalista. Há algum tempo
ensaiava aberturas para os pequenos negócios, realizava tais aberturas, mas
nada semelhante ao proposto nos últimos dias.
Esse
amplo programa de reformas foi aprovado pelo Parlamento cubano por unanimidade
na quinta-feira, 18 de junho. Mais de 400 deputados da Assembleia Nacional
aprovaram 176 propostas, as mais ousadas do ponto de vista econômico desde
1959, uma guinada verdadeiramente inesperada.
As
principais reformas incluem a transformação de empresas estatais em sociedades
anônimas ou empresas de capital aberto, autorização de funcionamento de
empresas privadas com mais de 100 empregados, permissão para participação de
capital estrangeiro no setor privado e a possibilidade de pessoas físicas
abrirem contas em moeda estrangeira.
A
agricultura, o turismo, o setor bancário e o mercado de câmbio serão abertos ao
investimento privado, tanto nacional quanto estrangeiro. Cubanos terão
permissão para possuir mais de um negócio privado e deter participação em
outras empresas. E serão permitidas negociações salariais dentro das empresas.
Miguel
Díaz-Canel assegurou após a votação serem “transformações que visam corrigir o
rumo, mas sempre em defesa do socialismo”. Cuba não está adotando a nova
política em conseqüência da “pressão dos ianques”, conforme Díaz-Canel.
“Estamos fazendo isso como um ato soberano”.
É
verdadeira a atitude de Cuba – trata-se de um ato soberano. Uma nova política,
a representar, de um lado, um passo de resistência, de outro, uma virada
destinada a sacudir a economia do país, como feito pela China a partir do final
dos anos 1970, sem abrir mão do destino socialista, tal e qual pretende a Ilha
com a nova política.
Não
seria inadequado dizer que tal decisão decorre de uma conjuntura mundial
complexa, com avanços da extrema-direita, e com a presença agressiva e violenta
dos EUA. Os países mantêm soberania sabendo mover-se face às conjunturas
adversas, ou então, se rendendo a elas. Cuba sempre preferiu caminhar de cabeça
erguida, nunca se render, fossem quais fossem as dificuldades.
Isso,
no entanto, essa nova política, não é um “abre-te, Sésamo”. Não há milagres. Os
EUA continuam agressivos, embora cabisbaixos depois da evidente derrota diante
do Irã. O desastre diante do Irã, no entanto, pode significar, também, um
último alento a reforçar a Doutrina Monroe, a pretender a América Latina como
quintal, como Donald Trump vem alardeando, quem sabe o último quintal.
E os
últimos resultados eleitorais, em Colômbia e Peru, com predomínio da
extrema-direita, dão alento às pretensões imperiais. Além disso, se o bloqueio
persiste com a intensidade atual, os investimentos capitalistas não se
atreverão a chegar a Ilha. O cenário não é de céu azul.
Vou e
volto. Nessa conjuntura, não há simplificação possível. Podem acontecer
movimentações do incipiente capital cubano, norte-americano, europeu, asiático
a pretender investir em Cuba e assim pressionar Donald Trump, cuja situação não
é tão fácil assim, especialmente com vistas às próximas eleições legislativas,
ele vivendo um desgaste interno de grande monta.
Donald
Trump quer dar a impressão de poder tudo, como um César, mas trata-se de uma
óbvia ilusão. O céu não é azul também para o império. Além de tudo, qualquer
agressão militar à ilha significa atitude provocativa à China e à Rússia, em
cuja órbita, de um jeito ou de outro, Cuba se encontra. Depois do Irã, tudo
ficou mais difícil para o império, insisto, em óbvia decadência, sem, no
entanto, ser um tigre de papel.
Cuba
mexeu uma pedra. Além de ser uma pedra a lidar com a vida interna da Ilha,
representa também um óbvio recado ao resto do mundo, a mostrar, de um lado,
firmeza de princípios, e de outro, flexibilidade, jogo de cintura. Cuba soube,
agora, decidir-se rapidamente face à encruzilhada. Uma espécie de xeque-mate
para Donald Trump. E ao mesmo tempo, enorme desafio para a Ilha na execução da
nova política.
O mundo
mudou, e Cuba compreendeu isso. Há quem diga ser tarde, e esse raciocínio
provém de quem torce pelo sucesso da nova política. Tardiamente ou não,
movimento necessário. Há a doença infantil do esquerdismo, a lembrar Vladímir
Lênin, a pretender radicalização socialista, como se isso fosse possível em
conjuntura tão obviamente defensiva para a Ilha.
O
socialismo no mundo caminha em consonância com essa nova visão, especialmente
no mundo asiático, buscando investimentos capitalistas para o desenvolvimento
das forças produtivas, e isso tem a ver com Karl Marx, sempre sem abrir mão do
controle político por parte do Estado.
Esse
modelo enfrenta a crítica de liberais embevecidos, a acreditar em modelos
ideais de democracia, como se existissem, de um lado, e de esquerdistas
sustentados em dogmas do passado, como se fosse possível a afirmação do
socialismo tal e qual aquele dos primeiros dias da Revolução Bolchevique, ela
próprio levada a recuar, como já demonstrado, e fazendo-o por decisão do
próprio Vladímir Lênin.
Está
certíssimo o presidente Miguel Díaz-Canel, ao se pronunciar no Parlamento por
ocasião do anúncio e decisão da nova política. A realidade impunha mudanças,
urgentes e necessárias. Quando a vida do povo se torna tão difícil, como
acontece agora em Cuba, “o primeiro dever do Partido Comunista e do governo
revolucionário não é explicar melhor a crise, mas mudar o que precisa ser
mudado para superá-la”.
Recupera
lições antigas, extraídas do velho Marx. Necessário, ele dirá, liberar as
forças produtivas, ter mais produção em vez de mais restrição. O controle por
parte do Estado sem oferta “apenas desloca as operações para o mercado
informal”. Será duro, talvez até com ele próprio, porque presidente, e dirá:
“não há soberania com um prato vazio”. Com isso, fala ao povo cubano, imerso
numa situação duríssima, a fome a rondar.
Garantiu:
nessa quadra, “a comida do povo cubano será tratada como o que é: uma situação
de segurança nacional”. Dá outro recado: as terras ociosas terão que ser
eliminadas. Devem passar a produzir. Inaceitável venham a permanecer sem
fornecer alimentos à população.
A
primeira prioridade, quando foi elaborada a nova política, antes de qualquer
outra, são as pessoas “que não podem esperar que a economia melhore”. Porque,
dirá o presidente cubano, “há pessoas que não entendem prazos”, talvez um
recado aos burocratas. Necessário, dirá, “resolver, desbloquear, apoiar e
garantir que as decisões se transformem em melhorias reais”.
Não
esconde os problemas. Diz, e é óbvio, conhecer o país. Sabe onde estão os
obstáculos, “onde a corrupção se esconde, onde há muita lentidão e onde faltam
vergonha e dignidade”. Manifesta uma convicção: nada será impossível se
“encararmos o desafio como uma oportunidade e a história como inspiração”. Não
se esquece do papel dos principais líderes da Revolução. Defende Fidel Castro e
Raúl Castro.
Finaliza
dizendo: “A melhor homenagem que podemos prestar ao admirável trabalho de
nossos dois líderes históricos é defendê-lo e preservar sua essência de justiça
social”.
Todos
nós, amantes da Revolução, e de modo muito especial da Revolução Cubana, somos
solidários à Ilha, ao bravo povo daquele pequeno e heróico país, a nos fornecer
exemplos de firmeza de princípios, do que seja soberania e internacionalismo.
Talvez
Cuba seja a nação mais solidária com os povos do mundo ao longo de toda a
história da humanidade, protagonista de uma prodigiosa e improvável revolução,
a resistir bravamente até hoje. Por tudo isso, nós comunistas, socialistas,
democratas estamos ao lado de Cuba, âncora de nossos melhores sonhos.
¨
Washington pode escalar pressão sobre Havana após Copa do
Mundo e fracasso no Irã, diz analista
Os EUA
podem intensificar sua pressão sobre Cuba já em julho, após a final da Copa do
Mundo da FIFA de 2026, declarou à Sputnik Raúl Romero, analista político
mexicano.
Romero
salientou que esse momento pode estar relacionado ao aniversário das
manifestações contra o governo de 2021 em Cuba, já que Washington busca
aumentar a pressão sobre a ilha.
"Acredito
que, após os resultados no Irã, Cuba voltará a ser alvo dos Estados
Unidos. A resolução da situação em torno do Irã criará novas oportunidades para
uma intervenção mais direta. A pressão se intensificará em julho",
ressaltou.
Conforme
acrescentou o analista, em breve, será o aniversário dos protestos de 11 de
julho, e este é um momento-chave para inflamar uma revolta interna.
Os EUA
podem adiar qualquer escalada da política externa até depois do término da Copa
do Mundo, em 19 de julho, concluiu.
Nos
últimos meses, os Estados Unidos intensificaram a pressão política e
econômica sobre Cuba. Em janeiro, um movimento importante ocorreu quando o
presidente estadunidense, Donald Trump, assinou uma ordem
impondo tarifas às nações que enviam petróleo para Cuba e declarando emergência
nacional devido a supostos riscos à segurança cubanos.
As
consequências foram graves: a escassez de combustível afetou a rede
elétrica, as redes de transporte, as cadeias de abastecimento de alimentos, os
hospitais e as escolas da ilha.
Fonte:
A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário