Fernando
Horta: Das estranhas coincidências que assolam a América Latina
Houve
um tempo em que a América Latina inteira pareceu adoecer da mesma febre ao
mesmo tempo. Brasil em 1964. Bolívia em 1971. Uruguai e Chile em 1973.
Argentina em 1976. Some-se a isso o Paraguai de Stroessner, que vinha de antes
e atravessaria tudo, a longa série de golpes peruanos, os regimes
centro-americanos sustentados a ferro. Entre meados dos anos 1960 e meados dos
1970, um continente que ia da fronteira mexicana à Patagônia caiu, peça por
peça, sob botas militares. Na época, explicaram-nos que era reação. Reação
popular e institucional à ameaça comunista, dizia-se, como se cada país
tivesse, por conta própria e por puro instinto de sobrevivência, chegado à
mesma conclusão e tomado a mesma providência no mesmo intervalo de poucos anos.
Uma coincidência, portanto. Uma notável, simétrica, conveniente coincidência.
Demorou,
mas a história desmontou a coincidência. Com a abertura de arquivos, o trabalho
de comissões da verdade e décadas de pesquisa documental, o que era apresentado
como espasmo defensivo de sociedades amedrontadas revelou-se outra coisa: um
programa. Havia um esforço coordenado — hoje chamaríamos de regime change,
termo que então sequer existia — pelo qual o governo dos Estados Unidos
financiou desestabilização onde lhe convinha. Dinheiro para protestos. Dinheiro
para agitadores. Dinheiro e cobertura para golpes. Pressão sobre instituições,
compra e captura de meios de comunicação, mobilização de setores da Igreja
católica como aríete ideológico, listas de pessoas a serem eliminadas,
treinamento de torturadores, articulação de polícias políticas que mais tarde
se coordenariam na Operação Condor. Os golpes militares na América Latina não
foram coincidência. As ditaduras não foram coincidência. Foram produzidas, e há
papel timbrado provando.
Vale
recuperar, a título de método, um episódio anterior e geograficamente distante,
porque ele ilumina o que veio depois. No Vietnã do Sul, no começo da Guerra
Fria, os Estados Unidos não se contentaram em escolher o lado anticomunista —
fabricaram-lhe a vitória. No referendo de 1955 que destituiu o imperador Bao
Dai e entronizou Ngo Dinh Diem, a contagem oficial deu a Diem números
fisicamente impossíveis: em Saigon, mais votos do que eleitores registrados,
com totais que ultrapassavam em centenas de milhares o eleitorado existente.
Cédulas falsificadas, urnas infladas, um resultado coreografado de fora para
dentro. O ponto não é a fraude em si, que foi grosseira; é a doutrina que ela
inaugura. Quando a urna não entrega o resultado desejado, fabrica-se o resultado
e chama-se aquilo de democracia. A democracia vira embalagem; o conteúdo é
decidido alhures.
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O ensaio venezuelano
Tenho
escrito, ao longo dos últimos meses, sobre a Venezuela — e não apenas sobre os
bloqueios e sanções que já a sufocavam há anos, corroendo salários a poucos
dólares mensais e empurrando milhões para o exílio econômico. O que me
interessava descrever era algo mais novo, uma engenharia de intervenção
eleitoral que parecia menos um improviso e mais um protótipo. O roteiro, tal
como o reconstruí, tem etapas reconhecíveis. Primeiro, a descredibilização
sistemática do sistema eleitoral do país-alvo, repetida à exaustão muito antes
de qualquer voto ser depositado, para que a derrota da oposição já chegue
pré-explicada como fraude. Segundo, o financiamento de uma oposição apresentada
como legítima — suas ações ilegais escondidas, seus quadros pintados como puros
defensores da democracia. Terceiro, no dia da eleição, a perturbação técnica:
um ataque cibernético que altere ou apenas atrase a totalização, porque o
atraso já basta para injetar incerteza onde deveria haver número. E, por fim, o
não reconhecimento do resultado, agora “justificado” pela incerteza fabricada
nas etapas anteriores, forçando a troca de regime.
Na
Venezuela o plano não fechou — não por virtude do desenho, mas por dois
acidentes. Maduro agiu com dureza direta, e a oposição era frágil, sem o lastro
popular que a propaganda lhe atribuía. Ainda assim, vimos as engrenagens
girando. “Especialistas” em estatística foram contratados para produzir
relatórios que, quando se olhava de perto, não encontravam sustentação nos
fatos que diziam analisar. E, do dia para a noite, a oposição materializou um
“repositório” de atas que supostamente provaria a fraude do governo — um acervo
montado às pressas que, examinado, vinha ele próprio recheado de adulterações:
atas inconsistentes, assinaturas que não fechavam, mesas e pessoas que não
batiam. A prova da fraude alheia estava, ela mesma, fraudada. O detalhe não é menor.
Numa disputa em que o resultado se decide pela credibilidade dos registros,
fabricar registros é a própria arma.
E, como
se sabe, o episódio venezuelano não terminou na urna. Terminou em janeiro de
2026 com bombardeios sobre Caracas e a extração de Maduro do país, levado por
agentes da DEA a uma cela em Nova York. Diante do tribunal, ele resumiu o que
ocorrera numa frase: disse que fora sequestrado e que seguia sendo o
presidente. Sequestrado é a palavra exata para o gesto — o ponto extremo a que
o império recorre quando as etapas anteriores não bastam para fazer valer seus
interesses.
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Peru e Colômbia, à luz do que já vimos
Olhemos
agora para duas eleições recentíssimas com esse aprendizado na mão.
Há uma
diferença de tom que precisa ser registrada antes de tudo. Nos anos 1960 e
1970, a ingerência era envergonhada, negada, escondida atrás de eufemismos.
Hoje não há mais pudor. Perguntado sobre o Brasil depois do G7, Trump declarou,
com a franqueza de quem não teme registro, que jogam pesado por aqui — “mas
ninguém joga mais pesado do que os Estados Unidos”. Disse que o Brasil ficou
“perigoso politicamente”. A ameaça é dita em voz alta, em entrevista, sem
rodeios. O que antes exigia arquivos secretos para ser provado agora é
anunciado em coletiva.
A
Colômbia é o caso que mais se aproxima do roteiro. Iván Cepeda, do Pacto
Histórico, chegou favorito e terminou derrotado no segundo turno por margem
mínima: 49,66% contra 48,70% para Abelardo de la Espriella. E quem é o
vencedor? Um advogado-empresário outsider que se apresenta como “El Tigre”,
sócio de escritório com sede em Miami, portador de tripla nacionalidade — entre
elas a norte-americana — e apoiado publicamente por Trump e por figuras do
Partido Republicano. O fiel da balança foi o voto do exterior, e em especial o
dos Estados Unidos, onde residia o maior contingente de colombianos habilitados
e onde De la Espriella varreu com 72% no primeiro turno. Uma eleição decidida
no detalhe, com o detalhe vindo de fora. O presidente Petro questionou o processo,
apontando atas subindo ao sistema sem a assinatura dos jurados; a Registraduría
sustentou a lisura. Mas a forma do desfecho — esquerda à frente, derrota
apertada, voto externo decisivo, vencedor com cidadania e padrinho
estadunidenses — desenha um contorno familiar.
O Peru
completa o quadro por um caminho distinto. Lá o esgotamento institucional já
vinha de antes e independe de qualquer ciclo externo: oito presidentes em dez
anos, vacância virada rotina, um país onde derrubar o ocupante do Palácio se
tornou hábito parlamentar. Mas a eleição de 2026 trouxe os mesmos sintomas que
aprendemos a reconhecer. O segundo turno foi decidido no fio da navalha — pouco
mais de duas décimas de ponto separando os finalistas. A apuração, lenta e
atravessada de denúncias, levou horas a mais do que o previsto para cruzar
limiares triviais; mesas abriram com horas de atraso, algumas só votaram no dia
seguinte, num episódio sem precedentes; o chefe da autoridade eleitoral
renunciou sob acusação de fraude que ninguém comprovou com documento. E, de
novo, o voto do exterior pesando num resultado que de outro modo seria
indistinguível de um empate. Acrescente-se que tanto o Peru quanto a Colômbia
operam sistemas eleitorais menos robustos que o brasileiro e, sobretudo,
dependentes de tecnologia e de empresas estrangeiras para transportar os
pacotes de informação eleitoral de um ponto a outro da contagem. Não digo que
houve fraude nessas duas eleições. Digo que a arquitetura está montada para
que, se houvesse, seria difícil prová-la — e que isso, por si só, deveria nos
deixar atentos.
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A soberania que se decide na urna
Tenho
insistido, em outros textos, que a soberania tecnológica deixou de ser um tema
de especialistas para se tornar a questão material de que dependem todas as
demais. Na seara eleitoral, ela é simplesmente decisiva. Um sistema de votação
não é só a urna onde se aperta o botão; é toda a cadeia que carrega o resultado
dali até a totalização nacional — os pacotes de dados, os trechos de
transmissão, os servidores, o software que conta e o software que transporta.
Quando qualquer elo dessa cadeia roda sobre tecnologia controlada por empresas
estrangeiras, a contagem deixa de ser inteiramente nacional. E aqui está o
ponto que deveria tirar o sono de quem governa: numa eleição decidida por
décimos, não é preciso adulterar uma nação inteira de votos. Meia dúzia de
seções. Meia dúzia de pacotes de informação modificados ou atrasados na
transmissão. Isso basta para roubar uma eleição inteira sem que quase ninguém
perceba, porque o crime se esconde exatamente na margem onde o resultado já era
apertado.
Sei
como isso soa. Soa a paranoia, a teoria da conspiração. Mas convém lembrar quem
mais ouviu esses mesmos adjetivos. Foram exatamente as palavras usadas, nos
anos 1960 e 1970, contra quem apontava a mão norte-americana por trás dos
golpes — e que estavam certos, como os arquivos depois mostraram. Foram as
palavras com que se desqualificou, na própria ONU, quem denunciou a fraude nas
eleições asiáticas do início da Guerra Fria — fraude que era real.
“Conspiração” tem sido, com notável frequência, o nome que se dá à verdade
antes de ela ter documentos. Os documentos costumam chegar; chegam tarde,
quando o estrago já se consumou e os responsáveis já morreram em suas camas.
Por
isso desconfio que guardamos surpresas para um futuro próximo. Esta nova onda
de vitórias “apertadas” da extrema direita pela América Latina — sempre no
detalhe, sempre no voto de fora, sempre com o vencedor sorrindo para o norte —
talvez venha a ser lida, daqui a alguns anos, com a mesma clareza retrospectiva
com que hoje lemos 1964 ou 1973. Embaladas, agora, por uma submissão digital
que o continente sequer percebe que aceitou. A coincidência, afinal, raramente
se repete tantas vezes seguidas no mesmo sentido. Quando isso acontece, costuma
ser porque nunca foi coincidência.
¨
América Latina frente ao surgimento de uma nova extrema
direita. Por Emir Sader
Em que
medida o surgimento de um novo bloco de extrema direita afeta a América Latina?
Nada
pode ficar isento da influência de um fenômeno tão brutal como esse, mesmo
levando em conta suas fragilidades, já expostas em um artigo anterior,
especialmente a manutenção do seu neoliberalismo e sua incapacidade para
substituir as questões sociais, em um continente tão desigual, pelo tema da
segurança pública e suas propostas suicidas de ainda mais violência.
Como se
apresenta a situação latino-americana diante desse novo fenômeno?
O que
há de avanços importantes – os governos do Brasil, do México e do Uruguai –
segue sem se ver afetado pela nova extrema direita. É um polo sólido, com duas
lideranças – a de Claudia e a de Lula – muito consistentes e coerentes.
Os
avanços antineoliberais nesses países avançam e constroem um polo alternativo,
que consolida um eixo anti-norte-americano sólido no continente, que segue
sendo o eixo das alternativas antineoliberais no mundo. Até porque aqui a
direita tradicional sofreu grandes derrotas no Brasil, na Argentina e no
Uruguai, além de estar muito debilitada em países como a Argentina e o Equador,
e se enfraqueceu muito.
Não
cabem, então, as previsões de que o surgimento da nova extrema direita coloque
o continente numa situação de isolamento. Os governos do México e do Brasil,
dois dos três mais importantes da região, são suficientes para demonstrar que o
continente segue seu caminho de consolidar uma perspectiva de superação do
neoliberalismo nesta primeira metade do século XXI.
Este
novo bloco se soma à postura igualmente suicida dos Estados Unidos sob o
governo de Donald Trump, que tenta evitar sua provável derrota eleitoral de
outubro, o que ameaça torná-lo um “pato manco” em toda a segunda metade do seu
mandato. Como efeito, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos voltaram a
se degradar, com ataques mútuos entre Lula e Trump.
O
continente não deixa de ser a única região no mundo com governos
antineoliberais, mesmo se esse bloco se enfraquece com as vitórias da extrema
direita no Peru e na Colômbia. A isso se somam os governos, mesmo se bastante
enfraquecidos, do Equador e da Argentina.
O
cenário latino-americano, assim, apresenta dois blocos frontalmente
diferenciados e confrontados. Resta saber quanto tempo podem ainda conviver
esses dois blocos tão diferenciados entre si. O apoio norte-americano não é
suficiente para prolongar o novo bloco de extrema direita, embora lhe dê
difusão propagandística.
O marco
geral de fortalecimento e expansão dos Brics, ao lado do isolamento e declínio
da hegemonia norte-americana, favorece a consolidação e o prolongamento do
bloco progressista e coloca novos limites ao novo bloco de extrema direita.
Milhares
de mortos, milhões precisando de ajuda: os números que mostram a dimensão da
tragédia após terremotos na Venezuela
¨ Lula acerta medidas
para ampliar investimentos com Chile e cooperação energética na Bolívia
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta terça-feira (30) com o
homólogo do Chile, José Antonio Kast, durante a Cúpula de Chefes de Estado do
Mercosul, realizada em Luque, no Paraguai.
No
encontro, os dois líderes concordaram em ampliar a cooperação econômica e
incentivar a aproximação entre empresários dos dois países.
"Assumimos
o compromisso de trabalhar conjuntamente para ampliar a relação entre os
empresários chilenos e brasileiros, aumentando os investimentos entre
nossos países", disse Lula nas redes sociais, destacando que a reunião
ocorreu a pedido de Kast.
Os
presidentes também acertaram uma visita ao Chile dos ministros
brasileiros de Portos e Aeroportos e de Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços. Além disso, decidiram promover encontros
entre empresários brasileiros e chilenos para fortalecer parcerias,
especialmente nos setores de aeronáutica, ciência, defesa e educação.
Durante
a reunião, Lula e Kast discutiram ainda os impactos econômicos do conflito no Oriente
Médio.
O presidente brasileiro apresentou as medidas adotadas pelo governo para
reduzir os efeitos da crise sobre os preços dos combustíveis e dos
alimentos.
Lula
também informou que convidou o presidente chileno para realizar uma visita
oficial ao Brasil antes do fim deste ano.
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Cooperação com a Bolívia
Também
em meio à cúpula do Mercosul, Lula teve um encontro com o presidente da
Bolívia, Rodrigo Paz. Segundo o presidente brasileiro, a conversa abordou temas
como diálogo social, cooperação humanitária e a ampliação da
parceria na área de gás natural.
"Ele
me relatou a importância da manifestação pública feita pelo Brasil em defesa da
democracia e pelo entendimento entre as partes sem violência", declarou.
Os dois
presidentes decidiram acelerar as negociações para firmar acordos entre a Petrobras e a
estatal boliviana YPFB na área de exploração de gás natural. De acordo com
Lula, a chefe da Petrobras, Magda Chambriard, deverá receber ainda nesta semana
uma delegação ministerial da Bolívia para dar continuidade às
tratativas.
¨
Bolívia recorrerá ao FMI após desvalorização da moeda,
afirma ministro da Economia
O
governo da Bolívia recorrerá a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional
(FMI) para reforçar a economia do país, afirmou nesta segunda-feira (29) o
ministro da Economia, José Gabriel Espinoza. A medida acontece após a
desvalorização do boliviano e os impactos provocados por 54 dias de conflitos
sociais que afetaram a atividade econômica.
"Quando
chegamos ao governo, precisávamos de um plano de reativação da economia. Depois
desses 53 dias de tentativa de golpe de Estado e de ataques à economia das
famílias, ficou claro que precisamos de ainda mais recursos. Qualquer
fonte de financiamento será bem-vinda, entre elas a do FMI", declarou o
ministro.
Segundo
informações divulgadas pela imprensa boliviana, ainda sem confirmação oficial,
o governo negocia um empréstimo de US$ 5 bilhões (R$ 25,9
bilhões) junto ao organismo internacional.
Desde
que assumiu a presidência, em 8 de novembro de 2025, Rodrigo Paz já
contratou cerca
de US$ 8 bilhões (R$ 41,5 bilhões) em financiamentos externos,
incluindo US$ 3,1 bilhões (R$ 16 bilhões) junto ao Banco de Desenvolvimento da
América Latina e do Caribe (CAF) e US$ 4,5 bilhões (R$ 23,3 bilhões) com
o Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID).
O
anúncio ocorre no mesmo dia em que entrou em vigor o novo regime cambial
flexível do país,
que fixou a cotação em 9,73 bolivianos por dólar, encerrando mais de 15
anos de câmbio fixo em 6,96 bolivianos por dólar. Porém, o ministro negou
que a medida seja uma exigência do FMI.
"Nada
do que fazemos é imposição ou sugestão de organismos estrangeiros. É o que
precisa ser feito para dar certeza à economia", afirmou.
Desde o
início do mandato, o governo de Rodrigo
Paz implementou uma
série de mudanças econômicas, entre elas a eliminação dos subsídios aos
combustíveis, o aumento de 20% do salário mínimo, a autorização para que
bancos realizem a devolução parcial de depósitos em dólares e a desvalorização
da moeda nacional.
Fonte: Outras
Palavras/Brasil 247/Sputnik Brasil

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