Inteligência
artificial na perspectiva socialista
A crise
estrutural capitalista é o núcleo dessa nova etapa decadente e perigosa,
designada como hiperimperialismo. O imperialismo, regente máximo da tentativa
de transformar o capitalismo na única forma de organização social em escala
global, avançou de forma inédita após a queda da União Soviética. A hegemonia
liberal quase tocou o mundo desde onde nasce o sol até onde se põe,
conquistando espaço mesmo nas experiências de socialismo real remanescentes.
A
convicção na vitória – ou no fim da história – permitiu ao império imprimir uma
mudança brutal na dinâmica da divisão internacional do trabalho desde 1990.
Gradualmente, os capitalistas estadunidenses e europeus deslocaram suas
fábricas – ou seja, as forças produtivas industriais – para a Ásia,
principalmente para a China, mas também para a Índia, a Malásia e a Tailândia.
Sua
convicção era que seu poderio militar, articulado ao controle da tecnologia e
dos mercados de capitais, garantiria um predomínio eterno. A dupla OMC e OTAN
construiu pilares como o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade
Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS), o avanço no leste europeu e a
capacidade extraordinária de sancionamento via sistema SWIFT.
Ao
mesmo tempo, intensificaram a espoliação dos bens comuns africanos e impuseram
o mesmo sistema extrativo à América Latina, após um breve período de
industrialização nesta região (ainda que sob o julgo de processos ditatoriais).
A burguesia rentista latino-americana não produziu resistência efetiva a esse
processo, desde o seu apoio total às privatizações na década de 1990 até sua
adesão à mega-investida imperialista iniciada em 2009, com os golpes e
desestabilizações dos governos progressistas que desenhavam alguma tímida
possibilidade de projeto nacional e de integração regional.
As
contradições estruturais se aprofundaram, em vez de serem superadas. O vórtex
de concentração capitalista e sua entrada definitiva na era da financeirização,
com presença crescente do capital fictício, levaram à grande crise de 2008. As
ferramentas utilizadas pelos EUA, principalmente sua política monetária
expansionista, deslocaram imensas quantidades de dinheiro dos títulos públicos
para o “capital de risco”, que procurou rendimentos mais altos por meio das
inovações do Vale do Silício. A exclusividade do controle do dólar manteve a
liquidez concentrada no país.
Nesse
período, estava justamente ocorrendo uma série de mudanças estruturais para a
nova era digital: a interação dos seres humanos com a internet passou da
navegação para o monitoramento, tornada possível pelo surgimento do iPhone e do
Android (2007 e 2008). O avanço do GPS e das redes de comunicação 3G/4G, o
advento do armazenamento em nuvem com a Amazon Web Services (AWS) e a
utilização da Unidade de Processamento Gráfico (GPU) em detrimento das Unidades
Centrais de Processamento (CPU) permitiram que a extração, o armazenamento e o
processamento de dados se consolidassem em escala monumental.
Empresas
como Airbnb, Uber e WhatsApp (2008, 2009 e 2009) operaram por anos com
prejuízos sistemáticos, mas passaram a acumular quantidades imensas de dados de
todas as esferas da vida. Todos esses fatores permitiram que a dataficação se
tornasse a resposta macroeconômica a um capital que não encontrava a mesma taxa
de lucro na indústria clássica.
Ao
mesmo tempo, a barbárie avançou a galope para as massas trabalhadoras e até
para os setores médios das sociedades ocidentais. A emergência do
hiperimperialismo levou o Ocidente à desestruturação de suas dimensões
econômicas, políticas, sociais e ambientais. O surgimento do espectro fascista
em diferentes realidades nos continentes europeu e americano é a forma de
desenvolvimento do capitalismo onde o projeto liberal fracassou por ser incapaz
de responder às necessidades básicas da população em geral, embora siga
permitindo o avanço de forma inédita em seu pólo econômico mais dinâmico
(frações específicas da burguesia).
Literalmente
do outro lado do mundo, a realidade foi quase oposta. O império e sua burguesia
ocidental acreditavam que era possível extrair uma quantidade absoluta ainda
maior de mais-valia tendo por base o bônus demográfico asiático e as condições
ainda precárias de vida da população. Seu caráter racista e ignorante sobre a
dinâmica oriental aliada à crença que o socialismo não mais existia em
experiências reais impediu o bloco hegemônico de imaginar outro horizonte que
não a subordinação inquestionável ao seu comando.
Entretanto,
o socialismo com características chinesas, apesar de suas inúmeras
contradições, conseguiu realizar o que cientificamente era plausível, mas nem
mesmo as esquerdas ocidentais previam: utilizar a capacidade planificadora do
socialismo para (i) organizar uma economia socialista de mercado com os padrões
contemporâneos de industrialização; (ii) estabelecer uma gradual e progressiva
melhora na vida de sua gigantesca população; (iii) revitalizar o próprio
Partido e (iv) estabelecer as bases para o salto de qualidade para uma nova era
tecnológica.
O
fracasso da epopeia ocidental moderna encontra, nessa segunda década do século
XXI, a emergência sólida de uma força criadora inédita, guiada pelo socialismo
chinês, apenas possível porque a “oficina do mundo” se deslocou para uma nação
governada sob o lema “servir ao povo”. Sem precisar recorrer aos números
impressionantes daquela sociedade, queremos nos debruçar especialmente sobre
uma mudança de qualidade determinante, sintetizada em 2023 pelo comitê central
do Partido Comunista da China: o desenvolvimento e o controle das Novas
Qualidades das Forças Produtivas (NQFP). Essa formulação responde à evolução da
contradição do país asiático, ao ter alcançado o objetivo de uma sociedade
moderadamente próspera, entre um desenvolvimento desequilibrado e a necessidade
de melhorar as condições de vida do povo.
Ao
longo da história, certas inovações – o fogo, a escrita, a máquina a vapor, a
eletricidade – alcançaram um nível de contradição com as relações sociais
estabelecidas capaz de impulsionar transformações qualitativas na organização
das sociedades. A formulação chinesa de Nova Qualidade das Forças Produtivas se
ancora na tradição marxista, propondo uma transformação qualitativa dos
objetivos de trabalho, das capacidades dos trabalhadores e trabalhadoras e das
relações de produção.
A
inteligência artificial, articulada a outras tecnologias digitais e biológicas,
situa-se nesse patamar: além de acelerar ou potencializar processos existentes,
transforma qualitativamente a forma como interagimos entre nós, com o trabalho
e com o metabolismo socioecológico. É esse o marco em que devemos situar essa
disputa e não reduzir a inteligência artificial a uma tecnologia a mais.
Há uma
reconfiguração da infraestrutura material da economia que coloca em disputa
quem controla os dados, fator de produção estratégico nesta nova revolução
tecnológica. O Comitê Central do Partido Comunista da China formalizou, em
abril de 2020, os dados como o quinto fator de produção, ao lado da terra, do
trabalho, do capital e da tecnologia. Dados não são naturais, mas produto das
interações sociais e dos seres humanos com a natureza, mediadas por aparatos e
sistemas algorítmicos.
A
formulação chinesa considera a singularidade deste fator de produção: dados
podem ser usados simultaneamente por múltiplos agentes, seu valor aumenta com a
escala, e possuem capacidade generativa: produzem novas realidades, novos
conhecimentos, novas possibilidades ainda não imaginadas.
Hoje
existe uma subordinação estrutural do Sul Global como fornecedor de minerais e
energia para alimentar os aparatos (de celulares a sensores, carros a
eletrodomésticos) que extraem os dados que serão processados em infraestruturas
fechadas, controladas majoritariamente pelas big tech dos Estados Unidos. A
elaboração chinesa propõe que os dados sejam tratados como bem público
estratégico, sob direção estatal e com uma gestão global inspirada no conceito
de Comunidade Global de Futuro Compartilhado. Em síntese, permite compreender
que defender nossos dados é defender nossos territórios, nossas formas de
produção e reprodução da vida e nosso projeto de sociedade.
A cada
revolução tecnológica, a dinâmica geopolítica do mundo se altera. A máquina a
vapor consolidou o império britânico; a eletricidade e o petróleo fundamentaram
a hegemonia estadunidense. Hoje, os dados e a inteligência artificial
constituem o epicentro de uma nova transição. A hipotética superioridade
histórica do socialismo reside na tentativa de impedir que o caráter
revolucionário do desenvolvimento das forças produtivas seja sequestrado pela
burguesia para fins puramente privados e, assim, perca sua capacidade de
inovação constante e de socialização dos benefícios oriundos.
Nas
transformações tecnológicas anteriores, as experiências construídas pela classe
trabalhadora, da Comuna de Paris à União Soviética, passando pelas revoluções
socialistas latino-americanas e africanas, desvelaram as incríveis capacidades
humanas, mas foram derrotadas pela capacidade destrutiva da burguesia e, mais
recentemente, do império e de seu complexo bélico-industrial.
É nessa
dinâmica da conjuntura internacional contemporânea que se localiza, portanto,
uma nova quadra da possibilidade socialista. Enquanto a unidade entre armas,
petróleo e dados-tecnologia sintetiza um pilar da tentativa de manutenção do
controle imperialista, o desenvolvimento de perspectivas emancipatórias passa
exatamente pela busca de controle da nova qualidade das forças produtivas.
No meio
do caminho dessa colisão de dois projetos históricos muito distintos, há
armadilhas na maneira como as agendas de luta das forças populares periféricas
são manipuladas com ares de radicalidade. Se bem é conhecido que esse salto
tecnológico demanda um aumento de consumo energético e da natureza, a forma de
colocar esse debate no sentido de um horizonte de justiça ambiental deve ter
uma perspectiva integral e estratégica. O debate liberal europeu de uma
transição verde e digital empacota todas as falsas soluções para a crise
climática enfrentadas pelos povos do Sul Global junto com uma digitalização
orientada pelas big techs, fechada e construtora do modo de vida do capital.
Dentro
disso, realmente não existe possibilidade de transformação, apenas a velha
conhecida inclusão de alguns critérios – como a localização dos dados e a
suposta privacidade individual – e algumas ações ‘sociais’ que reduzem
impactos, por exemplo, em alguns grupos de mulheres ou povos tradicionais, mas
tudo mantendo intacta a dinâmica da acumulação.
Portanto,
deslocar o eixo da análise, e colocá-lo no terreno da disputa pelo futuro da
humanidade, que não está previamente determinado, exige tanto que as forças
populares do Sul Global se posicionem em uma perspectiva de resistência, como
simultaneamente busquem superar o imobilismo imposto à periferia do
sistema-mundo. E não há como acompanhar, como comentaristas e espectadores, o
debate sobre a bolha da inteligência artificial nos Estados Unidos, como se o
problema fosse a inteligência artificial e não o domínio do capital financeiro
sobre a economia real.
Do que
podemos aprender da experiência chinesa no desenvolvimento das novas qualidades
das forças produtivas, o investimento público é orientadamente massivo na
indústria de desenvolvimento de hardware, centros de dados e na inovação para
produção de chips diante das sanções, ao mesmo tempo que se combina com a
transformação energética do país e ao impulso ao desenvolvimento das NQFP em
todas as cadeias de produção da indústria e da agricultura. A síntese é
alcançada pelo desenvolvimento integrado dessas inovações orientadas pelas
necessidades do povo.
Em
nossa latinoamerica, a experiência socialista que nos guia segue o mesmo
horizonte chinês, apesar do criminoso bloqueio que constrange as capacidades
objetivas do desenvolvimento tecnológico do povo cubano. Nos demais países,
porém, nós não temos o controle dos meios de produção, nem efetivamente do
Estado e somos alvo de uma nova ofensiva imperialista.
As
forças populares precisam enfrentar essa disjuntiva histórica
atualizando-construindo um projeto socialista para nossos tempos, que, na nossa
tradição, não será decalque nem cópia. O horizonte socialista para nós, na era
digital, deve, como sempre, expandir as fronteiras do possível. E incluir as
questões que emergem da vida do povo.
Com
esse salto tecnológico, qual é o futuro do trabalho numa perspectiva
emancipatória? Nosso debate não pode ficar restrito ao número de empregos
perdidos em uma ou outra categoria, ainda mais por se tratar de uma
generalização da precariedade às massas trabalhadoras. Há também que se colocar
qual é a produção que uma economia a serviço do povo realmente demanda, e como
as condições de vida não podem ser garantidas pela posição dos indivíduos no
mercado de trabalho.
Como a
nova qualidade das forças produtivas responderá às necessidades da reprodução?
Como desenvolver tecnologias que contribuam para a socialização e reorganização
dos cuidados sem que se imponham, por um lado, controle e vigilância das
pessoas idosas, e, por outro, mais trabalho e disponibilidade permanente das
mulheres para atender a um conjunto de pessoas monitoradas em todos os seus
sinais vitais?
Se bem
compreendemos que nossa sociedade passa por uma transição demográfica que
aprofunda a crise de reprodução social e sobrecarrega imensamente as mulheres,
como a inteligência artificial pode ser integrada às políticas de Estado para o
cuidado geradoras de igualdade, com o horizonte político de que a
sustentabilidade da vida esteja no centro da organização social? É fundamental
formular qual o nível de predição e o limite à prescrição, o grau de
personalização e universalização, e mesmo a infraestrutura material desse tipo
de tecnologia como parte dos projetos estratégicos e de soberania dos nossos
países.
Como a
histórica luta camponesa em nosso continente pode ser fortalecida, seja na
estruturação da reforma agrária popular, seja na construção da soberania
alimentar e na massificação da agroecologia, a partir do desenvolvimento
endógeno de sistemas tecnológicos digitais?
A
aliança entre as big techs imperialistas e as transnacionais do agronegócio e
da mineração já está em processo avançado de implementação de territórios
geridos por sistemas digitais, garantindo a extração de dados e o treinamento
constante de algoritmos que operam desde a movimentação de máquinas até a
integração dos vários elos das cadeias produtivas extrativas, passando pelo
mapeamento e sistematização de múltiplas dimensões socioecológicas do
território.
A luta
de denúncia e resistência a essa dinâmica deve estar articulada ao
desenvolvimento de sistemas tecnológicos digitais próprios das organizações
camponesas. A inteligência artificial é uma tecnologia decisiva para, por
exemplo, a socialização dos conhecimentos agroecológicos já sistematizados e é
uma aliada importante para outras formas de contínua sistematização.
Ter uma
inteligência artificial da Reforma Agraria e Agroecologia é sinal desse esforço
de construção de bases de conhecimentos ou interfaces mais amigáveis ao
campesinato, mas também de destruir o fetiche da tecnologia por meio do domínio
de todo o processo de desenvolvimento dessa tecnologia, ainda que parte
importante seja ainda inalcançável, como o treinamento inicial de um modelo de
linguagem em larga escala.
A
construção do entendimento de que estas possibilidades não são secundárias é o
passo decisivo que as organizações populares de nosso continente devem tomar
nesse momento. A velocidade com que essa transformação tecnológica está se
dando nos imprime essa urgência, pois ainda é possível disputarmos as bases
centrais da nova era. O entendimento teórico sobre a inteligência artificial e
as NQFP em geral deve estar articulado com as experimentações que nos apontem
justamente os gargalos que nos impedem de alcançar todo o potencial dessas
tecnologias para atender às necessidades populares.
Com
esse entendimento praxiológico, as nossas organizações terão condições de
enfrentar o avanço imperialista por meio das big techs nos territórios
camponeses e das massas trabalhadoras e, fundamentalmente, no Estado. Em alguma
medida, todos os governos latinoamericanos, em suas esferas nacionais,
provinciais ou mesmo municipais, estão discutindo, elaborando ou implementando
estratégias de inteligência artificial e/ou de soberania digital. E em todos
eles há infiltrações ou mesmo liderança declarada por agentes das big techs.
A
entrada das organizações populares nesse enfrentamento não pode ser mediada por
agentes externos que mantêm propositalmente o debate em termos tecnocráticos e
laterais. Tampouco pode se dar de forma fracionada, segmentada e desarticulada,
atendendo pautas específicas. É decisivo o desenvolvimento de um entendimento
comum da economia política dessa transformação tecnológica, que, por sua vez,
produza um programa unitário com agenda clara, articulando mobilizações,
desenvolvimento e teste de iniciativas próprias e pressão aos governos.
Devemos
ter consciência, por fim, de que, dada a beligerância crescente do império em
nosso continente, todo esse esforço não logrará resultados se nossa construção
autônoma estiver isolada da dinâmica geopolítica. Nesse momento histórico, essa
construção continental necessita estar localizada na articulação das
organizações populares do Sul Global, tendo a construção de processos de
cooperação estratégica com o que o socialismo chinês tem produzido, seja em
suas universidades, institutos de pesquisa, autarquias multilaterais, governos
e mesmo empresas.
A
construção efetiva de experiências nacionais populares, cooperando em nível
regional e do Sul Global, é a única possibilidade de superação das vantagens
que o império possui atualmente, fruto de sua histórica espoliação.
Fonte:
Por Luiz Zarref e Tica Moreno, em A Terra é Redonda

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