Indústria:
investir não é o mesmo que transformar
Retoma-se
aqui uma pergunta simples – e profundamente incômoda – que atravessa toda a
série: o que, afinal, um país é capaz de produzir?
Não em
termos de volume, mas de variedade, sofisticação e densidade tecnológica.
Alguns países produzem semicondutores, máquinas de precisão, equipamentos
médicos e sistemas complexos. Outros produzem basicamente grãos, minério e
petróleo. Entre esses dois mundos não há apenas uma diferença de renda. Há uma
diferença de estrutura – e, em última instância, de poder.
Nas
últimas décadas, o Brasil não deixou de crescer apenas porque investiu pouco.
Deixou de avançar porque, ao longo do tempo, não conseguiu converter de forma
consistente sua base de investimento em capacidade produtiva progressivamente
mais complexa.
Essa
constatação pode ser expressa de forma direta: o país operou, por décadas, sob
um padrão de acumulação insuficiente para sustentar uma trajetória consistente
de transformação estrutural.
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Quando investimento vira estrutura
A
história econômica sugere que essa não é uma questão conjuntural, mas
estrutural. Como discutido ao longo desta série, mudanças persistentes na
trajetória de países estão associadas à reorganização de sua base produtiva ao
longo do tempo.
No
mundo contemporâneo, essa lógica voltou ao centro da disputa. Estados Unidos,
União Europeia e China reorganizam suas bases produtivas com instrumentos
explícitos de política industrial – subsídios, compras públicas, financiamento
direcionado e metas tecnológicas . A ideia de neutralidade produtiva tornou-se,
na prática, insustentável.
É nesse
contexto que o caso brasileiro se torna mais nítido.
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Investir pouco é diferente de transformar pouco
Segundo
dados do IBGE e do World Development Indicators, a taxa de investimento
brasileira – medida pela Formação Bruta de Capital Fixo – oscilou entre 17% e
22% do PIB nas últimas quatro décadas, com quedas para cerca de 15% em momentos
críticos. Mais do que o nível de investimento em si, o que importa é sua
capacidade de alterar a estrutura produtiva ao longo do tempo.
Ao
longo desse período, consolidou-se uma combinação conhecida: crescimento
moderado, desindustrialização relativa e especialização crescente em produtos
primários. A promessa de que abertura e estabilidade seriam suficientes para
garantir convergência revelou-se incompleta. Como observa Gala, países que
mudaram de posição no sistema internacional não prescindiram de coordenação
estratégica e de investimento persistente.
O ponto
central, portanto, não é apenas quanto se investe, mas como esse investimento
se traduz – ou não – em diversificação produtiva e densidade tecnológica.
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Complexidade econômica e perda de posição relativa
Foi
nesse contexto que emergiu um efeito cumulativo menos visível, porém mais
profundo: a perda de complexidade econômica.
O
Índice de Complexidade Econômica (ECI), desenvolvido por Hausmann e Hidalgo,
mede a capacidade produtiva de um país a partir da diversidade e da
sofisticação de sua produção. Economias complexas produzem bens que poucos
países conseguem produzir. Economias pouco complexas produzem bens comuns,
amplamente replicáveis.
O
Brasil, que construiu uma base industrial diversificada no século XX, perdeu
dinamismo nesse indicador. Enquanto a Coreia do Sul e a China avançaram
rapidamente, o país permaneceu preso a uma trajetória de baixa transformação
estrutural.
Esse
resultado sintetiza uma dinâmica simples – e persistente – ao longo do tempo:
um padrão de acumulação insuficiente tende a limitar a diversificação
produtiva, reduzindo a complexidade e, por consequência, a capacidade de
crescimento sustentado. Não se trata apenas de crescer pouco. Em termos mais
precisos, trata-se de crescer sem convergir.
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Um país sofisticado em partes – e simples como sistema
O
Brasil revela, nesse ponto, um paradoxo peculiar. Possui setores altamente
sofisticados – como o agronegócio, a exploração em águas profundas e a
indústria aeronáutica – mas permanece, como sistema, relativamente pouco
complexo.
São
ilhas de excelência em um sistema produtivo de baixa densidade.
O
sucesso do agro não garante dinamismo sistêmico. Ao contrário, pode reforçar a
especialização primária quando não há coordenação industrial capaz de ampliar
encadeamentos produtivos.
Essa
limitação torna-se ainda mais evidente quando se observa a relação entre
complexidade produtiva e renda.
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Complexidade é poder
A
implicação disso é direta. A complexidade econômica não é apenas um conceito
analítico – é uma medida indireta de poder nacional.
Países
complexos inovam mais, exportam bens de maior valor agregado e possuem maior
autonomia tecnológica. Países pouco complexos dependem de ciclos de commodities
e importam conhecimento.
No
século XXI, isso se traduz em geopolítica.
A
capacidade de produzir bens complexos tornou-se uma dimensão central da
soberania econômica.
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O que está realmente em jogo
Se o
objetivo for alterar a posição do Brasil no sistema internacional, a questão
central não é apenas crescer.
É
transformar sua estrutura produtiva, ampliando a capacidade de produzir bens e
serviços de maior complexidade.
Isso
exige elevar a taxa de investimento, reorientar sua composição e fortalecer
encadeamentos produtivos. Exige também coordenação entre política monetária,
fiscal, industrial e tecnológica – algo que a experiência internacional mostra
ser condição necessária para transformações estruturais.
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O que sustenta esse resultado
Se a
perda relativa de complexidade econômica revela o resultado, ela não explica,
por si só, o mecanismo. Para isso, é preciso observar a arquitetura que, ao
longo do tempo, passou a moldar a capacidade de investimento e coordenação do
Estado brasileiro.
Três
movimentos se consolidaram de forma simultânea nas últimas duas décadas: a
manutenção de um patamar elevado de juros em proporção ao PIB, a compressão do
investimento público e a crescente fragmentação do orçamento discricionário.
Observa-se uma trajetória gradual ao longo dos anos 2000, aceleração na segunda
metade da década de 2010 e inflexão institucional a partir de 2019, associada à
ampliação do orçamento impositivo.
A
leitura conjunta dessas três trajetórias revela um padrão consistente. Não se
trata de flutuações conjunturais, mas de uma configuração institucional que, ao
mesmo tempo, encarece o capital, limita o investimento público e dispersa a
alocação de recursos.
À luz
desse arranjo, há um dado que não deveria passar sem desconforto: em diversos
momentos recentes, o país destinou ao pagamento de juros uma parcela do PIB
superior àquela dedicada ao investimento público. Não se trata apenas de um
desequilíbrio contábil, mas de um arranjo que, na prática, limita a capacidade
de expansão da própria base produtiva.
O ponto
de inflexão observado a partir do final da década de 2010 não inaugura esse
processo, mas o consolida. A ampliação do orçamento impositivo e o crescimento
das emendas parlamentares tornam mais rígida a estrutura orçamentária,
reduzindo o espaço efetivo de decisão estratégica do Executivo.
O
resultado é um Estado que preserva funções importantes, mas opera com
capacidade limitada de coordenação de longo prazo – justamente a dimensão que a
experiência internacional aponta como decisiva para processos de transformação
produtiva.
É nesse
ponto que a discussão sobre a complexidade econômica deixa de ser apenas
descritiva e assume plenamente seu significado institucional e estratégico.
Nesse
contexto mais amplo, o contraste histórico torna-se mais nítido. Em momentos
decisivos, países que alteraram sua posição no sistema internacional o fizeram
por meio de reorganizações deliberadas de sua base produtiva: a União
Soviética, ao deslocar e reconfigurar sua indústria sob a pressão da guerra; os
Estados Unidos, ao transformar o choque do Sputnik em mobilização tecnológica
que culminaria no programa Apollo; e a China, ao sustentar por décadas um
processo contínuo de acumulação e complexificação produtiva. Em todos esses
casos, o elemento comum não foi apenas o volume de recursos mobilizados, mas
também a capacidade de organizar, de forma persistente, um padrão de
transformação produtiva. É à luz dessas experiências que a trajetória
brasileira recente se torna mais legível.
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A conclusão que evitamos formular
No fim,
a conclusão é simples – e incômoda.
O
Brasil não ficou para trás por falta de recursos.
Nem por
falta de oportunidades.
Ficou
porque, ao longo de décadas, consolidou um arranjo no qual a capacidade de
investir, coordenar e transformar sua estrutura produtiva se tornou
progressivamente mais restrita.
O
resultado não é apenas econômico. É geopolítico. O que está em jogo, em última
instância, é a capacidade de convergência – não apenas de crescimento.
Países
não ocupam posições na hierarquia internacional por direito.
Ocupam-nas
pelo que são capazes de produzir – e pela trajetória de transformação produtiva
que conseguem sustentar ao longo do tempo.
À luz
das experiências históricas discutidas ao longo desta série, essa trajetória
não aparece como inevitável, mas como resultado de escolhas – ou da ausência
delas – quanto à organização da base produtiva.
O traço
mais inquietante não é apenas o baixo crescimento, nem mesmo a perda de
complexidade produtiva. É a naturalização desse arranjo – como se fosse
inevitável que um país com a escala, os recursos e a base institucional do
Brasil operasse permanentemente abaixo de seu potencial.
Não é.
E é
precisamente essa normalização silenciosa – mais do que qualquer restrição
objetiva – que esta série buscou tornar visível.
Fonte:
Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

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