sexta-feira, 3 de julho de 2026

Indústria: investir não é o mesmo que transformar

Retoma-se aqui uma pergunta simples – e profundamente incômoda – que atravessa toda a série: o que, afinal, um país é capaz de produzir?

Não em termos de volume, mas de variedade, sofisticação e densidade tecnológica. Alguns países produzem semicondutores, máquinas de precisão, equipamentos médicos e sistemas complexos. Outros produzem basicamente grãos, minério e petróleo. Entre esses dois mundos não há apenas uma diferença de renda. Há uma diferença de estrutura – e, em última instância, de poder.

Nas últimas décadas, o Brasil não deixou de crescer apenas porque investiu pouco. Deixou de avançar porque, ao longo do tempo, não conseguiu converter de forma consistente sua base de investimento em capacidade produtiva progressivamente mais complexa.

Essa constatação pode ser expressa de forma direta: o país operou, por décadas, sob um padrão de acumulação insuficiente para sustentar uma trajetória consistente de transformação estrutural.

<><> Quando investimento vira estrutura

A história econômica sugere que essa não é uma questão conjuntural, mas estrutural. Como discutido ao longo desta série, mudanças persistentes na trajetória de países estão associadas à reorganização de sua base produtiva ao longo do tempo.

No mundo contemporâneo, essa lógica voltou ao centro da disputa. Estados Unidos, União Europeia e China reorganizam suas bases produtivas com instrumentos explícitos de política industrial – subsídios, compras públicas, financiamento direcionado e metas tecnológicas . A ideia de neutralidade produtiva tornou-se, na prática, insustentável.

É nesse contexto que o caso brasileiro se torna mais nítido.

<><> Investir pouco é diferente de transformar pouco

Segundo dados do IBGE e do World Development Indicators, a taxa de investimento brasileira – medida pela Formação Bruta de Capital Fixo – oscilou entre 17% e 22% do PIB nas últimas quatro décadas, com quedas para cerca de 15% em momentos críticos. Mais do que o nível de investimento em si, o que importa é sua capacidade de alterar a estrutura produtiva ao longo do tempo.

Ao longo desse período, consolidou-se uma combinação conhecida: crescimento moderado, desindustrialização relativa e especialização crescente em produtos primários. A promessa de que abertura e estabilidade seriam suficientes para garantir convergência revelou-se incompleta. Como observa Gala, países que mudaram de posição no sistema internacional não prescindiram de coordenação estratégica e de investimento persistente.

O ponto central, portanto, não é apenas quanto se investe, mas como esse investimento se traduz – ou não – em diversificação produtiva e densidade tecnológica.

<><> Complexidade econômica e perda de posição relativa

Foi nesse contexto que emergiu um efeito cumulativo menos visível, porém mais profundo: a perda de complexidade econômica.

O Índice de Complexidade Econômica (ECI), desenvolvido por Hausmann e Hidalgo, mede a capacidade produtiva de um país a partir da diversidade e da sofisticação de sua produção. Economias complexas produzem bens que poucos países conseguem produzir. Economias pouco complexas produzem bens comuns, amplamente replicáveis.

O Brasil, que construiu uma base industrial diversificada no século XX, perdeu dinamismo nesse indicador. Enquanto a Coreia do Sul e a China avançaram rapidamente, o país permaneceu preso a uma trajetória de baixa transformação estrutural.

Esse resultado sintetiza uma dinâmica simples – e persistente – ao longo do tempo: um padrão de acumulação insuficiente tende a limitar a diversificação produtiva, reduzindo a complexidade e, por consequência, a capacidade de crescimento sustentado. Não se trata apenas de crescer pouco. Em termos mais precisos, trata-se de crescer sem convergir.

<><> Um país sofisticado em partes – e simples como sistema

O Brasil revela, nesse ponto, um paradoxo peculiar. Possui setores altamente sofisticados – como o agronegócio, a exploração em águas profundas e a indústria aeronáutica – mas permanece, como sistema, relativamente pouco complexo.

São ilhas de excelência em um sistema produtivo de baixa densidade.

O sucesso do agro não garante dinamismo sistêmico. Ao contrário, pode reforçar a especialização primária quando não há coordenação industrial capaz de ampliar encadeamentos produtivos.

Essa limitação torna-se ainda mais evidente quando se observa a relação entre complexidade produtiva e renda.

<><> Complexidade é poder

A implicação disso é direta. A complexidade econômica não é apenas um conceito analítico – é uma medida indireta de poder nacional.

Países complexos inovam mais, exportam bens de maior valor agregado e possuem maior autonomia tecnológica. Países pouco complexos dependem de ciclos de commodities e importam conhecimento.

No século XXI, isso se traduz em geopolítica.

A capacidade de produzir bens complexos tornou-se uma dimensão central da soberania econômica.

<><> O que está realmente em jogo

Se o objetivo for alterar a posição do Brasil no sistema internacional, a questão central não é apenas crescer.

É transformar sua estrutura produtiva, ampliando a capacidade de produzir bens e serviços de maior complexidade.

Isso exige elevar a taxa de investimento, reorientar sua composição e fortalecer encadeamentos produtivos. Exige também coordenação entre política monetária, fiscal, industrial e tecnológica – algo que a experiência internacional mostra ser condição necessária para transformações estruturais.

<><> O que sustenta esse resultado

Se a perda relativa de complexidade econômica revela o resultado, ela não explica, por si só, o mecanismo. Para isso, é preciso observar a arquitetura que, ao longo do tempo, passou a moldar a capacidade de investimento e coordenação do Estado brasileiro.

Três movimentos se consolidaram de forma simultânea nas últimas duas décadas: a manutenção de um patamar elevado de juros em proporção ao PIB, a compressão do investimento público e a crescente fragmentação do orçamento discricionário. Observa-se uma trajetória gradual ao longo dos anos 2000, aceleração na segunda metade da década de 2010 e inflexão institucional a partir de 2019, associada à ampliação do orçamento impositivo.

A leitura conjunta dessas três trajetórias revela um padrão consistente. Não se trata de flutuações conjunturais, mas de uma configuração institucional que, ao mesmo tempo, encarece o capital, limita o investimento público e dispersa a alocação de recursos.

À luz desse arranjo, há um dado que não deveria passar sem desconforto: em diversos momentos recentes, o país destinou ao pagamento de juros uma parcela do PIB superior àquela dedicada ao investimento público. Não se trata apenas de um desequilíbrio contábil, mas de um arranjo que, na prática, limita a capacidade de expansão da própria base produtiva.

O ponto de inflexão observado a partir do final da década de 2010 não inaugura esse processo, mas o consolida. A ampliação do orçamento impositivo e o crescimento das emendas parlamentares tornam mais rígida a estrutura orçamentária, reduzindo o espaço efetivo de decisão estratégica do Executivo.

O resultado é um Estado que preserva funções importantes, mas opera com capacidade limitada de coordenação de longo prazo – justamente a dimensão que a experiência internacional aponta como decisiva para processos de transformação produtiva.

É nesse ponto que a discussão sobre a complexidade econômica deixa de ser apenas descritiva e assume plenamente seu significado institucional e estratégico.

Nesse contexto mais amplo, o contraste histórico torna-se mais nítido. Em momentos decisivos, países que alteraram sua posição no sistema internacional o fizeram por meio de reorganizações deliberadas de sua base produtiva: a União Soviética, ao deslocar e reconfigurar sua indústria sob a pressão da guerra; os Estados Unidos, ao transformar o choque do Sputnik em mobilização tecnológica que culminaria no programa Apollo; e a China, ao sustentar por décadas um processo contínuo de acumulação e complexificação produtiva. Em todos esses casos, o elemento comum não foi apenas o volume de recursos mobilizados, mas também a capacidade de organizar, de forma persistente, um padrão de transformação produtiva. É à luz dessas experiências que a trajetória brasileira recente se torna mais legível.

<><> A conclusão que evitamos formular

No fim, a conclusão é simples – e incômoda.

O Brasil não ficou para trás por falta de recursos.

Nem por falta de oportunidades.

Ficou porque, ao longo de décadas, consolidou um arranjo no qual a capacidade de investir, coordenar e transformar sua estrutura produtiva se tornou progressivamente mais restrita.

O resultado não é apenas econômico. É geopolítico. O que está em jogo, em última instância, é a capacidade de convergência – não apenas de crescimento.

Países não ocupam posições na hierarquia internacional por direito.

Ocupam-nas pelo que são capazes de produzir – e pela trajetória de transformação produtiva que conseguem sustentar ao longo do tempo.

À luz das experiências históricas discutidas ao longo desta série, essa trajetória não aparece como inevitável, mas como resultado de escolhas – ou da ausência delas – quanto à organização da base produtiva.

O traço mais inquietante não é apenas o baixo crescimento, nem mesmo a perda de complexidade produtiva. É a naturalização desse arranjo – como se fosse inevitável que um país com a escala, os recursos e a base institucional do Brasil operasse permanentemente abaixo de seu potencial.

Não é.

E é precisamente essa normalização silenciosa – mais do que qualquer restrição objetiva – que esta série buscou tornar visível.

 

Fonte: Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

 

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