O
que sucesso da "amarelinha" falsificada diz sobre o Brasil
As
camisas falsificadas da seleção brasileira disputam o fortemente o mercado com
as originais. Os motivos que levam os consumidores a adquirir produtos
pirateados são principalmente econômicos, mas, no caso das camisas da seleção,
há também questões de consumo e cultura.
Com
preços que variam entre R$ 450 e R$ 750, o valor das camisas oficiais da
seleção brasileira equivalem a até 46% do salário-mínimo do país (R$ 1.621). Em
contraste, versões não oficiais, muitas vezes anunciadas como de "primeira
linha", são vendidas por entre R$ 80 e R$ 200, tornando-se uma alternativa
viável para grande parte da população.
A
comparação internacional ajuda a dimensionar o fenômeno. Na Alemanha, por
exemplo, uma camisa oficial da seleção alemã custa cerca de 150 euros.
Considerando um salário-mínimo mensal de aproximadamente 2.400 euros, o gasto
representa pouco mais de 6% da renda, uma proporção significativamente menor do
que a observada no Brasil.
Um
brasileiro que recebe um salário mínimo ganha R$ 54,04 por dia de trabalho.
Para comprar a "versão torcedor" da camisa oficial, que custa R$ 450,
ele precisará trabalhar cerca de nove dias. Já os alemães, que recebem em média
80 euros por dia, precisam de apenas dois dias para vestir a camisa da seleção
tetracampeã mundial.
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Consumo, cultura e pertencimento
Para
além do valor na etiqueta, o fenômeno também envolve questões de consumo e
cultura. A vontade de pertencer a um grupo – nesse caso, de torcedores – faz
com que a camisa, símbolo da seleção, se torne alvo de desejo independentemente
do preço.
"A
gente busca uma diferenciação, pelo consumo, de que é importante ter esses
produtos, mesmo sabendo que existem essas diferenças [entre originais e
não-originais]. É algo que faz parte da nossa cultura", avalia a
pesquisadora Ayla Pinheiro Gomes, doutoranda em Comunicação pela Universidade
Federal Fluminense (UFF).
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Quanto custa fazer uma camisa?
Um
levantamento divulgado pela emissora alemã SWR Marktcheck indica que uma camisa
vendida por até 150 euros pode ter custo de produção de apenas 11,30 euros. O
valor final inclui despesas com licenciamento, marketing, logística e
tributação.
"Não
existe uma estimativa [de custo de produção] para uma camisa de futebol ou uma
camisa esportiva no Brasil", diz Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da
Associação Comercial de São Paulo. "De uma forma geral, as camisas pagam
uma carga tributária de 35% no preço. Ou seja, um pouco mais de um terço do
preço é devido a impostos, o que, evidentemente, vai encarecendo o
produto."
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Prejuízo e fiscalização
A
pirataria é crime no Brasil e causa diversos prejuízos: aos donos da
propriedade intelectual, a quem produz, ao Estado, que deixa de arrecadar
impostos, e ao consumidor, que adquiriu um produto sem saber a origem dele.
O
comércio de produtos esportivos falsificados já ocupa 34% do mercado
brasileiro, de acordo com Renato Jardim, diretor-executivo da Ápice (Associação
pela Indústria e Comércio Esportivo). Estudos realizados pela associação
apontam que, só em 2025, foram vendidas 225 milhões de peças não-originais.
Em
audiência pública na Câmara dos Deputados, em abril, Jardim disse que os cofres
públicos deixaram de arrecadar R$ 7 bilhões em impostos em 2025 e que, apenas
no setor de produção, cerca de 60 mil empregos formais não se concretizaram.
O
volume de produtos não originais vendidos online e pelas ruas do país têm
crescido nos últimos anos, o que levanta questionamentos sobre a eficácia da
fiscalização dessas atividades.
Segundo
Wagner Carrasco, delegado-titular da delegacia antipirataria do Departamento
Estadual de Investigações Criminais de São Paulo, o trabalho da fiscalização
enfrenta entraves como o volume da demanda e a própria legislação.
"Nós
trabalhamos com a legislação que temos, com as possibilidades que temos e
fazemos o máximo que pudemos. E isso eu falo, não só a Polícia Civil do estado
de São Paulo, mas também outras polícias e outros órgãos, todos trabalham de
uma forma muito veemente para combater esse tipo de delito", diz Carrasco.
De
fevereiro a abril deste ano, a Receita Federal apreendeu 75 toneladas de
produtos esportivos. O valor estimado das quase 430 mil camisas de seleções
nacionais e times de futebol apreendidas é de R$ 14,5 milhões.
Em
nota, o órgão diz entender que "muitos consumidores consideram alto o
preço de camisas oficiais, mas combater falsificação não é defender preço alto;
é defender legalidade, consumidor, empregos formais, arrecadação e concorrência
justa".
Fonte:
DW Brasil

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