Quanto
tempo uma pessoa pode sobreviver sob os escombros após um terremoto?
Oito
dias atrás, no dia 24 de junho, dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5
atingiram a Venezuela com apenas um minuto de diferença. O segundo foi o mais
forte a atingir o país desde 1900.
Pelo
menos 250 edifícios sofreram graves danos, e muitos deles desabaram. Equipes
internacionais de resgate chegaram à Venezuela para ajudar nas buscas por
sobreviventes presos sob uma enorme quantidade de escombros.
Mas
quanto tempo uma pessoa pode sobreviver presa sob escombros?
A
resposta depende de vários fatores, explicaram especialistas à BBC. A posição
em que a vítima ficou presa após o desabamento, o acesso a ar e água, o clima,
as condições meteorológicas e o estado físico da pessoa influenciam diretamente
o tempo de sobrevivência.
A
maioria dos resgates ocorre nas primeiras 24 horas após um desastre. Ainda
assim, há casos de pessoas retiradas com vida dos escombros muitos dias depois
— como uma criança de 3 anos resgatada na terça-feira (30/6).
As
Nações Unidas costumam encerrar as operações de busca e resgate entre cinco e
sete dias após uma catástrofe. A decisão geralmente é tomada quando nenhuma
pessoa é encontrada com vida por um ou dois dias consecutivos após o desastre.
Então,
quais são os fatores que podem manter as vítimas com vida até a chegada do
resgate?
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Estado de consciência e preparação
Embora
não seja fácil prever quando ocorrerá um terremoto ou o desabamento repentino
de um edifício, a posição em que a pessoa fica depois que isso acontece é
fundamental para aumentar as chances de sobrevivência, segundo especialistas.
Estar
em um local mais protegido pode reduzir o risco de ferimentos causados pelos
escombros e aumentar as chances de acesso ao ar.
"Conseguir
adotar a posição de 'abaixar-se, proteger-se e segurar-se' pode criar um espaço
de sobrevivência, uma bolsa de ar", afirma Murat Harun Ongoren,
coordenador da Akut (Associação Turca de Busca e Resgate), a maior organização
de busca e resgate da sociedade civil da Turquia — país que convive com
milhares de terremotos de diferentes magnitudes a cada ano.
A
orientação de "abaixar-se, proteger-se e segurar-se" consiste em
ajoelhar ou se agachar no chão, se abrigar debaixo de uma mesa ou outro móvel
resistente e ficar nessa posição até que os tremores parem.
"A
educação, o treinamento e a conscientização sobre as medidas de emergência,
antes que um desastre como um terremoto aconteça, são fundamentais, mas muitas
vezes são negligenciados", afirma Ongoren.
"Isso
pode determinar suas chances de sobreviver sob os escombros."
A
médica Jetri Regmi, técnica do Programa de Emergências em Saúde da Organização
Mundial da Saúde (OMS), também destaca a importância da preparação.
"Abrigar-se
em um local seguro, como sob uma mesa ou escrivaninha resistente, aumenta as
chances de sobrevivência. Não há garantias, porque cada emergência é diferente,
mas o sucesso das operações iniciais de busca e resgate depende da capacidade
de preparação das comunidades locais", diz.
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Acesso ao ar e à água
O
acesso a ar e água é fundamental para manter uma pessoa viva quando ela fica
presa sob os escombros de um edifício.
No
entanto, as chances de sobrevivência também dependem da gravidade dos
ferimentos: uma grande perda de sangue, por exemplo, reduz significativamente a
probabilidade de sobreviver por mais de 24 horas.
Por
isso, se a vítima não sofreu lesões graves e consegue respirar graças à
existência de um bolsão de ar, o próximo fator decisivo é manter-se hidratada,
segundo especialistas.
De
acordo com o professor Richard Edward Moon, especialista em medicina intensiva
da Universidade Duke, nos Estados Unidos, "a falta de água e de oxigênio é
um dos principais desafios para a sobrevivência".
"Todo
adulto perde até 1,2 litro de água por dia", explica.
"Essa
perda ocorre por meio da urina, da respiração, do vapor de água e do suor.
Quando uma pessoa perde oito litros ou mais, seu estado se torna crítico."
Algumas
estimativas indicam que um ser humano pode sobreviver entre três e sete dias
sem água.
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Grau de lesões
Se uma
pessoa sofreu um traumatismo craniano ou outras lesões graves e está presa em
um lugar com pouco espaço para respirar, as chances de sobrevivência até o dia
seguinte a um desastre são reduzidas.
A
capacidade de avaliar a gravidade das lesões é crucial, segundo a médica Regmi.
"É
possível que pessoas com lesões na coluna, na cabeça ou no tórax não sobrevivam
até serem transferidas para centros de trauma", afirma.
A perda
de sangue, fraturas ou lacerações em órgãos aumentam o risco de mortalidade.
O
atendimento médico após o resgate também é igualmente importante, segundo
Regmi.
"Mesmo
pessoas que foram retiradas dos escombros podem morrer em decorrência da
síndrome do esmagamento. Isso ocorre com frequência em desastres, como
terremotos, e afeta pessoas que ficaram presas sob estruturas desabadas ou em
movimento."
A
síndrome do esmagamento ocorre quando os músculos são danificados pela pressão
dos escombros e liberam toxinas, segundo a técnica da OMS. Uma vez que os
escombros são removidos, essas toxinas se espalham pelo corpo, podendo causar
graves consequências à saúde.
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Clima e condições meteorológicas
O clima
da região também determina quanto tempo as vítimas conseguem sobreviver.
Segundo
o professor Moon, as condições de inverno na Turquia, onde ocorreram dois
terremotos devastadores em fevereiro de 2023, agravaram significativamente a
situação.
"Um
adulto, no geral, consegue suportar temperaturas de até 21°C sem que o corpo
perca sua capacidade de reter calor. Mas, quando faz mais frio, a situação
muda", afirma.
Nesse
ponto, a temperatura corporal passa a se aproximar da temperatura ambiente.
"A
velocidade com que a hipotermia se desenvolve depende de quão isolada a pessoa
está ou do tipo de abrigo disponível. No entanto, em última análise, muitas das
vítimas em situação mais vulnerável acabam desenvolvendo hipotermia nessas
circunstâncias", explica o especialista em cuidados intensivos.
No
verão, por outro lado, se o espaço em que a vítima está presa estiver muito
quente, ela pode perder água rapidamente, o que reduz suas chances de
sobrevivência.
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Força mental
Segundo
especialistas, um fator frequentemente subestimado é o bem-estar mental e o
autocontrole.
Manter
a força mental e concentrar os pensamentos na sobrevivência também pode ser
crucial para permanecer vivo, alertam.
"O
medo é nossa reação natural, mas não devemos entrar em pânico. Precisamos ser
mentalmente fortes para conseguir sobreviver", diz o especialista em
resgates Ongoren.
Isso
exige determinação.
"É
importante tentar evitar a sensação de medo e assumir o controle de si mesmo.
'Tudo bem, agora estou aqui, preciso encontrar uma maneira de me manter vivo'
deveria ser a motivação. Isso fará com que você grite menos e se mova menos.
Será necessário economizar energia controlando os sentidos e o pânico."
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Histórias impressionantes de sobrevivência
Em
1995, após um terremoto na Coreia do Sul, um homem foi resgatado dos escombros
depois de 10 dias. Segundo relatos, ele sobreviveu bebendo água da chuva e
chegou a comer uma caixa de papelão. Para manter a mente ativa, se distraía com
um brinquedo infantil.
Em maio
de 2013, uma mulher foi retirada dos escombros de uma fábrica em Bangladesh, 17
dias depois do desabamento.
"Ouvi
as vozes das equipes de resgate durante vários dias. Continuei batendo nos
escombros com paus e barras de metal para chamar a atenção. Ninguém me
ouviu", disse após ser resgatada.
"Comi
alimentos secos durante 15 dias. Nos dois últimos dias, não ingeri nada além de
água."
No
Haiti, após o terremoto de janeiro de 2010 — que deixou mais de 220 mil mortos
— um homem sobreviveu por 12 dias sob os escombros de uma loja que havia sido
saqueada. Mais tarde, outro homem foi encontrado vivo após permanecer 27 dias
entre os destroços do terremoto.
Em
outubro de 2005, dois meses após o terremoto que atingiu a Caxemira, no
Paquistão, uma mulher de 40 anos chamada Naqsha Bibi foi resgatada de sua
cozinha.
Ela foi
encontrada com rigidez muscular e tão fraca que mal conseguia falar. Em
entrevista à BBC em 2005, sua prima disse: "No início pensamos que ela
estava morta, mas ela abriu os olhos quando a retirávamos dos escombros."
Fonte:
BBC News

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