Abrir
uma bet ilegal custa menos de R$ 1 mil no Brasil
Montar
um cassino online ilegal no Brasil pode custar menos do que uma conta de luz. A
Agência Pública encontrou o código necessário para rodar uma plataforma sendo
oferecido até de graça, em grupos de pirataria no WhatsApp e Telegram. Também
identificamos exemplos de programas que fazem o apostador perder quase sempre e
maneiras de esconder pagamentos fraudulentos.
Essas
características – e a facilidade de acesso a elas – tornaram as bets ilegais
uma indústria criminosa que já abocanha quase metade das apostas online do
país, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), e que as autoridades têm
enfrentado dificuldades para combater.
O
designer paulista Bruno*, de 33 anos, viveu os bastidores desse mundo. Em 2024,
ele recebeu uma proposta de se tornar sócio de uma plataforma de apostas
online. Parecia tentador: ele só teve que desembolsar R$ 100 para comprar um
domínio (o endereço do site). Depois, criou um logotipo, customizou as cores da
página e fez a campanha de divulgação. Por 200 dólares, distribuiu anúncios do
cassino online em sites de conteúdo adulto.
As
apostas começaram a entrar e logo a plataforma já se pagava sozinha. “Nas
primeiras semanas, já tinha dado papo de R$ 10 mil”, afirma.
Os
outros custos para colocar a plataforma no ar foram pagos por um dos sócios de
Bruno, que tinha mais recursos e depois foi reembolsado com os primeiros
faturamentos. Foram R$ 40 mil pelo sistema – o código que roda a plataforma de
apostas. Depois tiveram que comprar outro, por R$ 25 mil, quando o primeiro
apresentou problemas. O sistema já vinha com o cassino configurado em
português, pronto para ser jogado.
O lucro
poderia ser maior caso os donos decidissem manipular os resultados das apostas
– uma prática comum entre as bets ilegais, em que a engrenagem é distorcida
para os jogadores perderem mais do que ganham. O designer, que falou com a
Pública sob condição de anonimato, diz que eles mantiveram a integridade do
sistema.
A
operação durou três meses. Bruno decidiu deixar o negócio por medo de ser pego
cometendo um crime, já que a bet não era regularizada. Também sentiu pressão
dos colegas para aplicar golpes nos jogadores, o que diz não compactuar. Depois
disso, a página foi fechada e ele diz não saber se os sócios seguiram no ramo.
Mas,
diante de tudo o que viu, o designer afirma que o processo para abrir e operar
uma bet ilegal no Brasil é bem mais fácil, rápido e barato do que ele
imaginava. “Sobre o custo, acho grátis. Diante do retorno potencial, é muuuuito
barato”, disse, alongando a sílaba para enfatizar.
<><>
Investimento baixo, lucro garantido
A
Pública encontrou opções ainda mais baratas para colocar uma bet ilegal no ar.
Localizamos ofertas de venda de scripts – que costuma ser o maior custo
operacional de uma casa de apostas online – por valores muito baixos como R$
9,90. Ainda há casos de modelos oferecidos até de graça em grupos de pirataria
no WhatsApp e Telegram.
Felix
Elmada, que atua no mercado de iGaming há 12 anos, fez uma estimativa de quanto
custa para montar uma bet ilegal: menos de R$ 1 mil, ao todo. Ele tem
conhecimento do mercado porque, após anos em grandes empresas de apostas, hoje
se dedica à BetFiscal.
Segundo
ele, o script sai por cerca de R$ 300. Uma API de jogos, que é o sistema que
permite ao operador interagir com jogos de uma plataforma externa (e que pode
permitir a manipulação de resultados), custa entre R$ 300 e R$ 350. Um domínio
de internet, em torno de R$ 100. A hospedagem em um servidor privado virtual, o
chamado VPS, cerca de R$ 120 por mês. A integração com o meio de pagamento
geralmente é gratuita, porque o fornecedor desconta uma taxa por transação, ou
seja, só cobra quando o dinheiro entra.
A
título de comparação, plataformas de apostas regularizadas costumam ser muito
mais caras. As mais bem conceituadas geralmente desenvolvem os próprios
sistemas operacionais e têm gastos altos com licenciamento e outorga para
operar segundo a lei de cada país. Há ainda as empresas que compram os seus
sistemas a partir de modelos já prontos, que custam entre 25 mil e 50 mil
dólares, segundo cotações feitas pela Pública. As fornecedoras geralmente ficam
sediadas em países como Malta, Curaçao e Suíça, mas adaptam seus produtos aos
pedidos dos clientes, incluindo brasileiros. Ou seja, de qualquer maneira, o
custo dessas empresas é bem maior.
Estes
valores, porém, são relacionados apenas aos custos operacionais – à estrutura
digital necessária para que a plataforma funcione. Mas as bets ilegais ainda
têm outras facilidades em relação às regularizadas: não pagam impostos, não são
auditadas ou responsabilizadas judicialmente e, muitas vezes, sequer pagam os
prêmios oferecidos. Tudo isso torna esse tipo de crime atrativo e difícil de
fiscalizar.
A
manipulação dos resultados é outra característica desses negócios ilegais.
Plataformas licenciadas são obrigadas por lei a manter uma taxa de retorno ao
apostador, o chamado RTP – do inglês Return to Player – em um percentual
pré-definido, auditável e transparente. Já os operadores ilegais usam APIs para
clonar e falsificar jogos, a fim de controlar quanto dinheiro vai ser
distribuído em prêmios. Essas APIs também são facilmente acessadas em fóruns
online – até de graça, de acordo com Elmada. Isso significa que os jogos são
viciados.
Além
disso, as plataformas irregulares geralmente utilizam intermediadores de
pagamento para receber as apostas dos usuários. Essas empresas não são
credenciadas ao Banco Central (BC). O limbo jurídico em que elas operam
dificulta o rastreio dos recursos.
Um
levantamento da BetFiscal, que monitora plataformas de apostas irregulares e
envia denúncias aos órgãos competentes, com 358 plataformas irregulares mostrou
que haviam 13 intermediadoras de pagamento que se revezavam entre elas. A que
mais apareceu, a Cartwave Hub, em 88 casos, tem diversas reclamações no site
ReclameAqui de usuários relatando problemas com apostas, como prêmios que não
são pagos.
A
empresa nega irregularidades e afirma que não possui controle ou
responsabilidade sobre as práticas de seus clientes. “Nossa função limita-se a
garantir a eficiência e a segurança do fluxo de pagamentos, mantendo
neutralidade em relação às atividades de negócio de cada contratante”, disse,
em nota. “Ressaltamos, entretanto, que possuímos rigorosos protocolos de
compliance e medidas de monitoramento contínuo”, continua. Também diz que as
soluções são disponibilizadas para operadores licenciados pela SPA e sob as
diretrizes do BC.
Com
tantas facilidades para operar às margens da lei, os grupos que operam bets
ilegais enchem os bolsos com as apostas dos usuários, quase não têm custos,
dificilmente são importunados pela fiscalização e não têm nenhuma obrigação
legal de operar com honestidade. É caminho aberto para lavagem de dinheiro,
fraude e outros ilícitos.
Essa
economia é repassada ao apostador, com odds – um índice que define quanto o
apostador recebe caso acerte uma aposta – mais atrativas, promoções agressivas,
facilidade de cadastro e formas de pagamento. Mais clientes são seduzidos. E,
assim, forma-se um ciclo vicioso que desafia as medidas de combate do poder
público.
<><>
Como as plataformas ilegais chegam aos apostadores
As
estratégias dessa indústria criminosa para parecer atrativa aos usuários ficam
claras em uma investigação do Ceará. Em março de 2025, um grupo de
influenciadores e pessoas ligadas a eles, que costumavam divulgar marcas de
roupa e cosméticos nas redes sociais, foram presos em uma operação contra
plataformas clandestinas de apostas. Os influenciadores, que somavam milhares
de seguidores no Instagram, eram contratados para fazer publicações sobre jogos
como o Fortune Tiger (o popular tigrinho), mesmo sabendo se tratar de sites
ilegais.
Segundo
a investigação da Polícia Civil cearense, a qual a Pública teve acesso, os
acusados usavam artifícios para fingir que os apostadores teriam vantagens.
Diálogos entre Victória Haparecida de Oliveira e Milena Peixoto, duas das
influenciadoras investigadas, por exemplo, revelam a promessa de sorteios de
pix para seguidores que acessassem as plataformas pelos links divulgados. Os
sorteios, porém, não eram realizados ou eram postados comprovantes falsos de
depósito.
Alguns
réus também criavam grupos de WhatsApp com “dicas” para ganhar dinheiro no
jogo, com uma lista de horários em que o “tigrinho soltava a carta”, como se o
jogo fosse programado para distribuir lucros em determinados momentos do dia –
o que não é verdade.
O
principal recurso era o uso de contas “demo”, cedidas pelos donos dos sites
ilegais. Os acusados divulgavam filmagens da própria tela do celular em que
“ganhavam” milhares de reais com o jogo do tigrinho. No entanto, as contas eram
pré-programadas para apresentar ganhos que não correspondiam à realidade. Essas
versões “demo” não são acessíveis ao público.
Ao
contrário do que os influenciadores induziam seus seguidores a acreditar, jogos
como o do tigrinho, mesmo em sua versão regulamentada, são feitos para perder
dinheiro no longo prazo. Os sites autorizados pela Secretaria de Prêmios e
Apostas (SPA) só têm obrigação de devolver 85% do valor das apostas convertidos
em prêmios. Nos sites irregulares, não há nenhum controle.
O
inquérito do Ceará cita apostadores que ganharam dinheiro e não conseguiram
sacar, além de vários usuários que perderam milhares de reais com os jogos – e
que chegaram a ser ridicularizados por uma das influenciadoras. Em um áudio
enviado no Instagram e obtido pela investigação, a influenciadora Victória
Oliveira conta que uma seguidora, que havia perdido R$ 3 mil, entrou em contato
para pedir conselho sobre como parar de jogar. “Ah, meu Deus, como diabo essa
menina conseguiu meu número? Ela fez um escândalo. Se eu soubesse que era
isso…”, diz.
Os
sites eram hospedados no exterior e novos links eram lançados em média a cada
três dias – tática comum às bets ilegais, com o objetivo de evitar a derrubada
das plataformas, escapar de reclamações de apostadores e dar a falsa sensação
de que o “site novo” pagaria melhor.
No
auge, alguns dos influenciadores ganhavam até R$ 15 mil por semana por
plataforma divulgada. De acordo com o processo, Victória Oliveira conseguiu
quase três mil depositantes em um site.
Considerando que o depósito mínimo é de R$ 20, o faturamento pode ter chegado a
quase R$ 60 mil apenas nesta plataforma. Um dos denunciados chegou a dizer que
divulgou mais de 100 plataformas em apenas nove meses – dando uma escala
milionária ao esquema.
Para
ocultar a origem ilícita, os depósitos eram feitos por meio de intermediadoras
de pagamento. Com o dinheiro, os influenciadores ostentavam luxo nas redes
sociais. Eram recorrentes as publicações sobre viagens – uma delas, para Dubai,
bancada pelo dono de uma das plataformas, de acordo com o processo –, compras
de imóveis e carros de até R$ 500 mil.
Os 13
envolvidos foram denunciados por organização criminosa, estelionato, crime
contra a economia popular, exploração de jogo de azar, entre outros. Sete réus
foram acusados de lavagem de dinheiro. Parte deles encontra-se atualmente em
prisão domiciliar, enquanto outros estão em liberdade condicional, sendo
monitorados por tornozeleira eletrônica. Eles foram proibidos de acessar contas
no Instagram e no WhatsApp, porém os
perfis continuam ativos, e tiveram bloqueio de bens. A denúncia, aceita pela
Justiça cearense em maio do ano passado, ainda não foi julgada.
A
Pública contatou a defesa das duas influenciadoras citadas na reportagem. Os
advogados de Victória Oliveira disseram que não vão se manifestar. Já os de
Milena Peixoto não responderam ao contato.
<><>
Por que é tão difícil impedir?
No
último dia 19 de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um
decreto que prevê que as instituições financeiras terão que bloquear dinheiro
de bets ilegais. O governo federal já bloqueou milhares de sites não
autorizados. Ainda assim, é fácil constatar que plataformas ilegais continuam
operando com facilidade no Brasil.
Em
grupos de Facebook, há dezenas de posts divulgando sites irregulares – com
links de indicação, que remuneram quem angariou o apostador. No Telegram, além
da propaganda de plataformas ilegais, ainda há instruções sobre como virar um
“parceiro” – para cada R$ 10 depositados por um indicado, o agente recebe R$ 15
na plataforma.
E o
usuário pode nem perceber se está usando uma plataforma regulamentada ou não. A
diferença visual é mínima – as ilegais costumam copiar os nomes, cores e até os
jogos para simular credibilidade. Por exemplo, além do “Fortune Tiger” há
outros parecidos, como o “The Little Tiger Game”. Uma pesquisa do Instituto
Locomotiva do início de 2025 mostrou que 78% das pessoas que apostam online têm
dificuldades para saber se a plataforma em que jogam é legalizada.
“O meio
digital não exige uma estrutura física, não exige funcionários ou imóveis, de
forma que é muito fácil você se fazer passar por uma instituição legalizada”,
afirma o advogado Pierpaolo Bottini, professor de direito penal da Universidade
de São Paulo (USP) e especialista em crimes financeiros.
Bottini
explica que as plataformas irregulares não seguem regras de proteção ao
consumidor e nem oferecem qualquer garantia de retorno financeiro. “É possível
a existência de fraudes, ou mesmo da não devolução de recursos. É o mundo do
crime.”
O que
acontece é que, até o momento, a capacidade de reação dos órgãos responsáveis
por combater as plataformas ilegais tem ficado aquém da velocidade em que estas
operam e de seu poderio econômico. Essa é a principal conclusão de uma
auditoria do TCU, que veio a público em 19 de maio. O órgão avalia que falta
coordenação institucional entre os diferentes entes e que a capacidade da SPA
de identificar e interditar operadores irregulares “apresenta deficiências
estruturais que comprometem substantivamente a efetividade do sistema de
fiscalização”.
Para
José Francisco Manssur, ex-assessor especial da Secretaria-Executiva do
Ministério da Fazenda e um dos arquitetos da lei que regulamentou as bets no
Brasil, a chave está nos meios de pagamento. “O Banco Central tem que ficar no
dia a dia dizendo: ‘olha, se você fizer uma operação para uma empresa ilegal, a
gente vai tirar a autorização. Você não vai poder fazer nenhum tipo de
operação, nem para a bet nem para nada’”, aponta. Ele também sugere que se
proíba publicidade e contratos com casas ilegais no Brasil.
Dias
depois da reportagem entrevistar o ex-assessor especial e da auditoria do TCU
vir a público, o Banco Central anunciou que passaria a rastrear apostadores que
façam depósitos em bets ilegais e as empresas que intermediam esses pagamentos.
O monitoramento depende de adaptações das instituições financeiras, que têm até
1º de dezembro para implementar a medida.
O
governo federal reconhece o problema, mas enfrenta dificuldades frente à
dinâmica das plataformas clandestinas. Em parceria com a SPA, a Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel) já retirou do ar 44 mil sites de apostas
ilegais. Mas o problema é que, assim que uma bet é tirada do ar, seus
operadores podem retomá-la imediatamente com outro domínio, tornando a missão
interminável.
A
Anatel informou em nota que, para remover novos domínios ilegais, precisa ser
acionada pela SPA. O órgão, porém, reconhece a dificuldade de zerar o número de
plataformas clandestinas. “O ambiente digital apresenta dinâmica elevada, com
possibilidade de criação frequente de novos domínios e mecanismos tecnológicos
para contornar restrições de acesso. Nesse contexto, a Anatel atua para dar
cumprimento, com a maior agilidade possível, às determinações de bloqueio de
sites e plataformas de apostas ilegais emitidas pela autoridade competente.”
Em
entrevista à Pública, a titular da Secretaria de Prêmios e Apostas, Daniele
Cardoso, aponta que o vácuo regulatório entre a liberação das bets pelo Governo
Temer e a regulamentação pelo governo Lula facilitou a proliferação de bets
clandestinas. Ela defende, porém, que o órgão tem canalizado esforços para
fazer frente ao desafio, citando a agenda regulatória, parcerias com outros
órgãos e um avanço no bloqueio de sites ilegais – que ela reconhece não ser,
sozinha, uma medida suficiente.
Em
relação à auditoria do TCU, Cardoso ressalta a importância das recomendações do
órgão, mas afirma que o processo em questão aborda fatos de 2024 e 2025, e que
a SPA “avançou bastante nessa frente nesses últimos meses”.
Quanto
ao dado de que 40% do mercado estaria nas mãos de operadores ilegais, citado na
auditoria, a secretaria da SPA apresenta uma informação confrontante: segundo a
H2 Gambling Capital, 72% das apostas brasileiras estariam com plataformas
legalizadas.
“Para
nós, é um dado bastante importante, animador, considerando que estamos falando
de um ano e cinco meses de mercado regulado. Embora a gente persiga uma meta
ousada de 100%, quando olhamos para outras jurisdições, nenhuma [chegou nesse
nível]”, afirma.
A
discussão legal versus ilegal, no entanto, não é o único problema quando se
fala em apostas online. Reflexo disso é o anúncio de restrições para apostas
por beneficiários do Bolsa Família e do BPC, além dos optantes do programa de
renegociação de dívidas Desenrola, anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, em uma tentativa de frear o crescente endividamento das famílias. No
entanto, essas medidas também têm obstáculos: elas valem apenas para as bets
legalizadas e a responsabilidade por impedir as apostas é das próprias empresas
– e não há nenhuma punição em caso de descumprimento.
Para
Bottini, o marco legal precisa avançar em pelo menos duas frentes. A primeira é
o aprimoramento das regras para empresas de intermediação de pagamento, que
operam em um limbo jurídico e por isso conseguem mascarar transações ilegais. A
outra é melhorar a comunicação entre os órgãos de controle, como o Ministério
da Fazenda, Banco Central e Receita Federal, que cuidam cada um de uma parte do
problema, mas ainda não falam entre si de forma sistemática.
Fonte:
Por Amanda Audi e Rafael Oliveira, da Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário