Um
povo, dois países, uma mesma ameaça
Nas
cabeceiras do rio Amônia, no Acre, na fronteira entre o Peru e o Brasil, a
floresta ainda parece intacta quando observada do alto. Mas no interior da
Terra Indígena (TI) Kampa do rio Amônia, a paisagem já começou a mudar.
Estradas de extração de madeira e consórcios industriais avançam do lado
peruano e cercam comunidades localizadas entre os rios Amônia, Shahuaya, Tamaya
e Yurúa (nome dado ao rio Juruá em território peruano). A principal via desse
avanço é a Trocha UC-105, uma rodovia precária na região de Ucayali que conecta
as localidades de Nueva Italia e Puerto Breu. As máquinas já chegaram a menos
de 10 quilômetros de distância da aldeia Apiwtxa. O impacto dessa malha
rodoviária, mapeado pela Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), já
alcança 23.829 quilômetros quadrados de subbacias hidrográficas nas cabeceiras,
um território maior que o Estado de Sergipe.
Sentado
na varanda da sede da Associação Ashaninka do rio Amônia (Apiwtxa), o
presidente da organização, Wewito Piyãko, aponta o mapa com a precisão de quem
conhece cada curva do rio Amônia. Ashaninka é a autodenominação do povo e pode
ser traduzida como “meus parentes”, “minha gente”. O dedo mira as cabeceiras em
território peruano. O que o preocupa não é apenas a floresta que pode
desaparecer, mas a vida que deixará de existir para as próximas gerações.
“Se
eles conseguirem explorar madeira, petróleo e minério ali, acabou para nós
aqui. Acabou o rio. E aí a gente vai tirar água de onde?”, questiona Wewito. As
águas que abastecem as comunidades nascem exatamente onde a pressão já é maior.
E as aldeias não possuem sistema de tratamento, dependendo dos rios para beber,
cozinhar e viver. O que acontece nas cabeceiras peruanas desce pelos mesmos
rios que chegam às casas dos Ashaninka no Acre.
“Eu já
vi rio onde as pessoas não comem mais peixe por causa da mineração”, afirma
Wewito. A lembrança reforça um sentimento que mistura indignação e tristeza.
Para ele, a ameaça não está apenas nas máquinas ou nos projetos que avançam
sobre a floresta, mas na dificuldade de fazer com que o restante da sociedade
compreenda o que está em jogo. Em maio, a reportagem da Amazônia Real visitou a
TI Kampa do rio Amônia. Encontrou um povo que resiste a diversas ameaças.
A
situação se repete em Alto Tamaya Saweto, conhecido internacionalmente após o
assassinato de indígenas, como o líder Ashaninka do lado peruano e ativista
Edwin Chota. Essas lideranças denunciavam o avanço da extração ilegal de
madeira. Além de pressionar territórios já reconhecidos, as concessões também
afetam propostas de regularização fundiária indígena. Áreas reivindicadas por
comunidades como Antami, Puerto Dos e San Miguel de Tsitsire aparecem
sobrepostas às concessões florestais, dificultando o reconhecimento oficial
dessas terras.
“Essa
estrada já existe. Ela não parou aqui. Ela já continuou”, avança na explicação
Wewito, que resume o que os mapas confirmam. As máquinas voltaram a avançar
pela floresta e se aproximaram das comunidades indígenas. Mas encontraram
resistência organizada.
“A
comunidade prendeu as máquinas (Sawawo) aqui. Não deixou eles cruzarem o rio”,
explica Wewito. A empresa conseguiu apoio das autoridades peruanas para
recuperar os equipamentos, contudo o projeto ainda não foi abandonado. “Como
essa comunidade não deixou passarem novamente por aqui, estão vindo por outros
lugares”, alerta a liderança indígena.
<><>
O complexo lado peruano
Para
compreender a Amazônia peruana, é preciso entender que a floresta é tratada
pelo modelo econômico do país como almoxarifado para exportação. Em 2023, o
Congresso peruano aprovou a Ley 31.973, apelidada de “Ley Antiforestal”, que
anistiou e regularizou de forma retroativa terras desmatadas ilegalmente para
monoculturas de dendê e cacau. A medida retirou o poder de veto do Ministério
do Ambiente, abrindo espaço para a derrubada de mata sem licenciamento e
ameaçando locais de importância cultural e espiritual dos Ashaninka. Ariarite e
Encantada, por exemplo, são espaços que funcionam como cemitérios e locais de
memória ancestral situados no traçado das retroescavadeiras.
Mas,
além dos impactos ambientais, a expansão das concessões ameaça também locais
considerados espiritualmente sagrados. Mapeamentos de ocupação histórica
identificam ainda áreas como Ishico, Collpa Grande, Wakanki, Kopitxarentsi,
Piedra e Comunidad de Japó como pontos de importância cultural e espiritual.
Muitos estão situados no traçado projetado das estradas ou dentro dos limites
das concessões industriais.
Ariarite
se localiza nas proximidades das áreas de moradia de famílias Ashaninka em
Aricemi, Paulo e Pedrillo, ao longo do rio Amônia e da Quebrada Shahuaya. Já
Encantada está situada entre as Quebradas Shahuaya e Tuturotango, em uma área
ocupada por famílias indígenas. Para o povo, esses lugares não são apenas
patrimônio histórico: são cemitérios, locais de memória ancestral e espaços de
rituais ativos. A destruição desses espaços não fica só no mapa. Ela já chegou
às relações entre vizinhos e parentes.
María
Elena Sawawo, liderança da comunidade de mesmo nome no Peru, esteve presente
nas primeiras horas do principal bloqueio às madeireiras. O que ela mais
lamenta não é o dano à floresta, mas o que a estrada fez nas relações entre as
pessoas. “A estrada nos fez brigar entre comunidades, entre famílias. Criou
atritos”, diz à Amazônia Real.
“Dizem
que a estrada é para o desenvolvimento, mas não enxergamos isso. Se fosse
realmente desenvolvimento, não estaríamos vivendo conflitos com nossas próprias
famílias e com nossos próprios vizinhos.”
Segundo
ela, a comunidade nunca chegou a ser comunicada sobre a chegada da rodovia. E
quando ela foi questionar os responsáveis, a resposta foi que acreditavam que
tudo estava coordenado com a comunidade. “Eu disse a eles: vocês nunca
conversaram conosco para saber de que forma poderíamos ser afetados.”
Ela é
testemunha das mudanças que chegaram à floresta. Com tristeza, viu áreas
reflorestadas pela comunidade serem destruídas pela abertura de caminhos e
atividades associadas às concessões. “A água ficou parada. Já não era mais
normal.”
María
Elena afirma ainda que cursos d’água foram alterados. Alguns rios foram
represados e tiveram seu fluxo modificado. Além disso, agrotóxicos, óleo e
demais atividades de exploração poluem o rio. Embora a natureza tenha
regenerado parte dessas áreas ao longo dos anos, ela acredita que os danos
continuam presentes.”A água parada nos contamina e faz mal para nós”, denuncia.
Hoje, a
liderança corre risco de morte, mas não pela água que bebe. Ela vive sob
constantes ameaças. “Chegaram a atirar para o alto quando passávamos e também
agrediram os integrantes dos comitês de vigilância. Se tivéssemos respondido
com violência, não sei onde isso teria terminado.”
<><>
A coca e o crime organizado
Há uma
pressão que as lideranças falam com cuidado, mas não omitem: o avanço do
narcotráfico sobre territórios onde o povo Ashaninka cultiva coca por razões
espirituais e medicinais. No lado peruano da fronteira, o risco já se
concretizou. Organizações criminosas ligadas ao tráfico de cocaína passaram a
pressionar comunidades Ashaninka peruanas para que cedessem parte de seus
territórios à produção ilegal.
Em pelo
menos um caso documentado, uma comunidade cedeu e hoje vive sob ameaça e
controle de grupos do crime organizado. No Brasil, a Opirj relata que
organizações criminosas já tentaram entrar em terra indígena para se associar
ao cultivo de coca. A resposta tem sido o diálogo e a vigilância territorial, a
mesma estratégia que permitiu ao povo resistir às madeireiras.
Na
cultura Ashaninka, a coca é mascada com “ishico” (ou “ishiko”). É um pó branco
extraído a partir da queima e trituração de pedras calcárias especiais. Esse pó
alcalino ajuda a extrair e ativar as propriedades medicinais e os nutrientes da
folha na boca, além de suavizar o sabor amargo.
“A
gente fica pensando muito, porque depois de nós, vêm as próximas gerações. A
gente cuida agora, mas não sabe se eles vão conseguir dar continuidade”,
reflete Iara Luiza Piyãko. A jovem tem 22 anos e nasceu na TI Kampa do rio
Amônia. Aos 14, começou a atuar na comunicação indígena, registrando reuniões,
denúncias e expedições de monitoramento territorial. Em uma dessas coberturas,
esteve em um posto de vigilância no lado peruano após a invasão de madeireiros
que destruíram equipamentos de monitoramento das comunidades. É uma lembrança
dolorida.
Iara
Luiza e seu povo vivem acuados pelo crime e pela pressão empresarial que os
cercam, mas não têm para onde fugir. “A floresta é o nosso mercado e das
gerações futuras. A gente está cuidando agora e espera que eles possam
continuar cuidando depois de nós.” Assim tem sido há gerações.
<><>
A resistência dos Ashaninka
Até o
fim da década de 1980, os Ashaninka viviam dispersos ao longo do rio Amônia,
fragilizados pela forte exploração de patrões seringalistas e madeireiros. Sob
a liderança do cacique e líder histórico Antonio Piyãko, a comunidade percebeu
que a dispersão facilitava as invasões e o roubo de suas terras. Naquele
período, lideranças indígenas denunciaram a exploração florestal e pressionaram
autoridades a intervir. As denúncias surtiram efeito e os trabalhos foram
interrompidos. Sem manutenção, os trechos abertos voltaram a ser tomados pela
vegetação.
Em
1991, eles tomaram uma decisão: concentrar as famílias em um único local
estratégico para fortalecer a resistência. Nascia a Aldeia Apiwtxa, cujo nome
na língua nativa significa “união” ou “juntos”. Pouco depois, em 1993, foi
formalizada a Associação Apiwtxa, a primeira organização jurídica do povo
Ashaninka do Acre, transformando a aldeia no centro político e administrativo
de suas decisões. A área era um conjunto de fazendas da região, “apenas pasto”.
Com a retomada do povo, a missão foi reconstruir o que foi destruído.
A
liderança também reforça o sentimento de vigilância permanente diante das
estradas e das máquinas, que não cessavam. A resistência coletiva foi
fundamental. “Não tinha muita escolha, era ficar e lutar para defender o que
era nosso, então a gente resolveu ficar junto, organizar o povo e não deixar
mais entrar desse jeito”, afirma o cacique.
Antônio
narra sua trajetória a partir da formação do seu povo e da construção da vida
coletiva na Terra Indígena, destacando a importância de sua união com a
companheira, que também foi liderança ativa na luta em defesa do território.
“Ela dizia o que eu tinha de fazer, eu ia lá e fazia”.
<><>
Memória e legado
Francisca
Piyãko, também conhecida como dona Pití, chegou ao rio Amônia aos 19 anos.
Nascida em uma família de seringueiros do Alto Juruá, apaixonou-se por Antônio
Piyãko, um Ashaninka vindo do Peru. O casal formou um um casamento interétnico
incomum para a época. “Quando me casei com o Antônio, a vida era muito boa.
Passei uns quatro anos bem, sem ouvir falar nada, mas depois começaram a chegar
os madeireiros.”
A
intensificação da exploração madeireira na década de 1980 trouxe invasões
mecanizadas e cortes em grande escala. Entre 1981 e 1987, madeireiros abriram
cerca de 80 quilômetros de estrada e ramais na mata. As consequências culturais
foram profundas: a frequência de rituais com piyarentsi (caiçuma) e (ayahuasca)
diminuiu; alguns Ashaninka deixaram de usar a kushma [vestimenta tradicinal], e
a língua nativa passou a ser discriminada.
Diante
disso, o casal liderou a resistência. “A gente começou a lutar mesmo pela
terra. Era reunião, era conversa, era todo dia pensando como defender o
território, porque a gente sabia que se não se organizasse, ia perder tudo o
que era nosso”, diz Antônio, hoje com 79 anos. Em alguns momentos, a tensão
chegou ao limite: “A gente tocou fogo em madeira que ficou aí, porque era muita
coisa acumulada, muita destruição mesmo.” A dupla também presenciou
helicópteros trazendo invasores, até dizerem “chega, não vai tirar mais”, e os
madeireiros decidiram ir embora.
Foi
Francisca quem decidiu denunciar as invasões. Para não ser identificada pela
própria letra, que os madeireiros conheciam, pediu ajuda ao filho de 13 anos:
“Mandei o meu filho Francisco escrever tudo. Ele passou a limpo para o juiz não
reconhecer a minha letra.”
A
denúncia chegou à Funai, fiscais e policiais foram mobilizados, e os
madeireiros deixaram a região, mas o preço foi o medo. “Eu tinha muito medo de
ser morta. Eu era branca, né? Tinha medo de acontecer alguma coisa comigo por
estar nessa luta”.
Ela
lembra que quem a ajudou nesse período foi Antônio Luiz Macedo, indigenista da
Funai com uma longa e reconhecida trajetória de apoio aos indígenas no Acre.
Mais conhecido como Txai Macedo, faleceu em janeiro deste ano, aos 73 anos.
O
menino que ajudou a escrever a denúncia se tornou uma das principais lideranças
Ashaninka no Brasil. Francisco Piyãko hoje representa seu povo em negociações
nacionais e internacionais, com uma sólida atuação como líder de seu povo. Dona
Pití faz questão de lembrar onde tudo começou: “Um pouquinho que ele aprendeu
foi comigo. Eu ensinei o ABC.”
A nova
geração Piyãko se dividiu em frentes complementares de luta. Francisco atua na
articulação política do Alto Juruá. Wewito preside a Associação Apiwtxa e
lidera a gestão territorial. Isaac foi o primeiro indígena eleito prefeito de
um município acreano, à frente de Marechal Thaumaturgo entre 2017 e 2022. Benki
tornou-se referência internacional em restauração florestal, à frente do
Instituto Yorenka Tasorentsi. Moisés dedica-se à medicina indígena e à
espiritualidade. Dora e Alexandrina representam o protagonismo das mulheres na
nova geração de lideranças.
A
ameaça mudou de nome: antes eram os madeireiros, agora são as concessões
industriais, a estrada que liga o Peru ao Acre e o avanço do crime organizado.
Mas Dona Pití, agora aos 78 anos, pode dizer que sente algo que não
experimentou durante os anos de conflito. “Eu sinto uma paz no meu coração.
Eles são o que eu ensinei.”
Na
memória de Francisco Piyãko, a força de sua mãe sempre esteve no enfrentamento
do medo. “Ela dizia que nós éramos gente, que não precisávamos fugir.
Precisávamos ficar e lutar para que respeitassem o nosso povo”, lembra. E,
assim, nasceram e cresceram as lideranças: aprendendo que defender o território
era também lutar pela própria vida. Ainda adolescentes, passaram a participar
das reuniões, das articulações e da resistência ao lado da mãe. “A gente
cresceu fazendo luta. Não foi uma escolha, foi a nossa forma de existir.”
<><>
Uma comissão transfronteiriça
Os
Ashaninka não esperam que os governos resolvam o que eles mesmos já estão
monitorando. Em 2021, o povo foi fortalecido com a criação da Comissão
Transfronteiriça, um espaço criado para monitorar as ameaças que cercam a
região, compartilhar informações e construir estratégias conjuntas de proteção
territorial. A iniciativa reúne lideranças do Brasil e do Peru em torno de um
princípio que define a identidade do povo: fronteiras políticas não existem
para quem sempre viveu dos mesmos rios.
No
mesmo período, uma grande expedição reuniu cerca de 200 indígenas em 30
embarcações para percorrer as cabeceiras dos rios ameaçados. A expedição serviu
para constatar o avanço das concessões e organizar a resistência do lado
peruano, onde a pressão chegou primeiro.
A
distância entre os territórios na fronteira é de apenas 5 quilômetros. A
Comissão Transfronteiriça combina dados técnicos de satélite com conhecimento
territorial dos próprios indígenas, produzindo os mapas mais precisos que
existem sobre a pressão na região. “É um trabalho que nós temos que fazer o
quanto antes, enquanto o rio ainda está vivo”, diz Wewito.
<><>
O que acontece no Peru não fica no Peru
As
preocupações das lideranças encontram eco nas pesquisas da Universidade Federal
do Acre (Ufac). A pesquisadora Ludmila Brandão explica que os rios do Acre
fazem parte de um sistema transfronteiriço alimentado por cursos d’água que
nascem no Peru e na Bolívia. “A maioria dos nossos rios nasce em território
vizinho. O que acontece nas cabeceiras peruanas não fica no Peru”, alerta.
Apesar da gravidade, o monitoramento oficial da Agência Nacional das Águas
(ANA) é precário, analisando apenas 5 dos 30 parâmetros recomendados (turbidez,
oxigênio, pH, temperatura e condutividade).
Essa
lacuna científica preocupa quem depende do rio para manter a própria
identidade. É das margens do Amônia que os Ashaninka retiram o barro
“Pitsithare” para tingir a kushma, a vestimenta tradicional. Usá-lo exige
permissão pois ele é um espiríto.
“Se
esse rio se contaminar, a tinta para a tecelagem não vai mais poder ser
extraída”, explica Dora Ashaninka. “Se pegamos um barro doente, nós adoecemos
juntos. Nossa conexão com a floresta, a terra e a água é um mundo só; sem esse
mundo, a gente não vive.”
<><
O Estado que não chegou
A
fragilidade da proteção territorial no lado brasileiro tem algumas origens,
dentre elas a institucional. A Coordenação Regional da Funai no Juruá,
responsável pelo atendimento de 28 Terras Indígenas no Acre, opera sem servidor
lotado em Marechal Thaumaturgo, o município onde está localizada a TI Kampa do
Rio Amônia. Em sentença proferida em 12 de junho de 2026, o juiz federal Filipe
de Oliveira Lins reconheceu que a Funai enfrenta um problema estrutural de
funcionamento e determinou que a União e a autarquia elaborem, em até 180 dias,
um Plano de Reestruturação Institucional. A decisão é resultado de uma ação
civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), que apontou um
cenário de precariedade administrativa e operacional.
Durante
o processo, alguns serviços essenciais foram regularizados, como internet móvel
via antenas da Starlink, limpeza, combustível, motoristas terceirizados. Mas a
Justiça entendeu que o problema central permanece: a insuficiência de
servidores e de estrutura para garantir a atuação da Funai. A sentença é mais
severa no caso de Marechal Thaumaturgo. Ela destaca a necessidade de dotar a
unidade local de servidores e de estrutura física adequada para garantir
atendimento permanente. Hoje, a Unidade Técnica Local (UTL) não tem nem uma
coisa, nem outra.
O
ICMBio, embora responsável pela gestão do Parque Nacional da Serra do Divisor e
da Reserva Extrativista Alto Juruá, que faz divisa com a TI Kampa do Rio
Amônia, afirmou à reportagem que ainda não possui dados consolidados sobre as
pressões denunciadas pelos Ashaninka. O órgão informou que as evidências mais
consistentes vêm sendo produzidas pelos próprios indígenas, por meio da
Associação Apiwtxa, Opirj e também pela Funai.
<><>
Contra a destruição
As
áreas protegidas brasileiras, o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva
Extrativista Alto Juruá têm ajudado a
conter o avanço do desmatamento formando um “escudo verde”, mas as comunidades
alertam que sua preservação não ocorre sem a conservação das cabeceiras
localizadas no Peru. E isso tem sido ensinado aos jovens Ashaninka.
Nas
escolas, a matemática é aprendida na língua ashaninka, embora nas paredes é
possível ver o alfabeto também em português. O conhecimento em construções e na
agricultura é pensado a partir dos 6 anos, e as lideranças repassam aos jovens
a instrumentação bilíngue (espanhol e português) como ferramenta para ler um
mundo complexo, porém sem esquecer quem são. Os Ashaninka pertencem à família
lingüística Aruak (ou Arawak).
<><>
O santuário que Dom Phillips viu
A
vanguarda dos Ashaninka na gestão de seu território já havia despertado a
atenção do jornalista britânico Dom Phillips, assassinado na divisa da Terra
Indígena Vale do Javari (Amazonas) em 2022. Semanas antes de ser assassinado
numa emboscada junto com o indigenista Bruno Pereira , Dom visitou a aldeia
Apiwtxa para documentar o que considerava um dos modelos mais bem-sucedidos de
conservação ambiental e soberania indígena do planeta.
A
experiência veio a compor os capítulos do seu livro póstumo, Como Salvar a
Amazônia, no qual aponta o reflorestamento e a vigilância indígena como as
barreiras mais eficazes contra o colapso da floresta. Anos após a partida de
Dom, o avanço implacável das estradas madeireiras a menos de 10 quilômetros da
aldeia prova que o santuário que ele tentou mostrar ao mundo segue sob cerco
máximo.
Numa
noite de céu aberto sobre o rio Amônia, a Amazônia Real presencia os Ashaninka
sentados em meia lua para compartilhar a ayahuasca (kamarãpe). Preparada por
anciãos e jovens , o cipó “hararpe” é cozido com a folha da “horowa” e apurado
por cerca de seis horas. Esse momento representa o encerramento de um ciclo que
começa no roçado e termina na noite
conectando homem, natureza e território. O que durante o dia defendem com
mapas, denúncias e expedições, à noite confirmam com o ritual: este lugar é
deles, e eles são este lugar.
Wewito
Piyãko resume a ameaça da forma mais simples possível. “As pessoas ficam
pensando que está longe. Mas não está. Chegou no nosso limite, chegou aqui. O
rio que sai daqui vai morrer no mar.” E o que acontece com ele no caminho, nas
cabeceiras peruanas cercadas por concessões, nas aldeias sem Funai, nas
fronteiras onde o crime tenta entrar, é uma decisão que, no momento, o Estado
brasileiro ainda não fez.
<><>
O que diz a Funai
Em
nota, a Funai reconheceu que a abertura de estradas e o avanço de
empreendimentos perto da fronteira “podem aumentar riscos” de invasões,
extração ilegal de recursos naturais e tráfico de drogas, mas afirmou que
mantém articulação com outros órgãos de segurança e fiscalização. Sobre a TI
Kampa do rio Amônia, disse não ter sido “oficialmente acionada” sobre denúncios
de garimpo ilegal.
A
Fundação afirmou que atua de forma permanente na proteção territorial dos povos
indígenas do Vale do Juruá através da Coordenação Regional do Juruá, criada em
2012. Sobre a decisão judicial, disse estar fortalecendo sua força de trabalho
com a adesão ao Concurso Público Nacional Unificado de 2024 — mais de 750
vagas, atualmente na terceira convocação — e a contratação de 155 temporários
para a Frente de Proteção Etnoambiental Envira.
Por
fim, informou que participa, com o Ministério dos Povos Indígenas e o
Itamaraty, das tratativas para um Memorando de Entendimento Brasil-Peru sobre
proteção de povos indígenas na fronteira, “em fase final de formalização”, mas
não informou uma data para essa assinatura.
Fonte:
Por Hellen Lirtêz, em Amazônia Real

Nenhum comentário:
Postar um comentário