Gustavo
Tapioca: A disputa pelo comando da direita para enfrentar Lula
A Atlas
Intel confirma Lula na liderança enquanto a crise entre Michelle e Flávio
Bolsonaro revela que a principal disputa da direita brasileira já não é apenas
contra o presidente, mas pelo comando do campo conservador para tentar vencer
Lula em 2026.
A nova
pesquisa Atlas Intel divulgada nesta quarta-feira (1º) confirma uma tendência
que vinha se consolidando nas últimas semanas. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva mantém vantagem consistente sobre o senador Flávio Bolsonaro tanto no
primeiro quanto no segundo turno da disputa presidencial de 2026.
O
levantamento, realizado entre 26 e 30 de junho, mostra Lula com 46,3% das
intenções de voto no primeiro turno, contra 36,6% do pré-candidato do PL. No
segundo turno, a vantagem permanece: 48,8% contra 42,3%.
A
divulgação da pesquisa coincide com o momento em que o principal partido da
direita brasileira vive sua mais profunda crise desde a inelegibilidade de Jair
Bolsonaro. Não se trata de uma coincidência qualquer.
Enquanto
Lula aparece consolidando sua posição nas pesquisas, o Partido Liberal
atravessa uma disputa que deixou de ser mais um conflito envolvendo a família
Bolsonaro, para transformar-se numa questão estratégica para toda a direita e
extrema-direita.
A
reunião convocada por Valdemar Costa Neto para conter o confronto entre
Michelle Bolsonaro e Flávio terminou produzindo exatamente o efeito contrário
ao esperado. Em vez da fotografia da reconciliação, o país assistiu ao anúncio
da saída de Michelle da presidência nacional do PL Mulher.
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Muito além de uma crise familiar
Michelle
tornou públicas críticas duríssimas a Flávio, acusando-o de desrespeitá-la
durante discussões sobre alianças estaduais e a organização dos palanques do
PL, especialmente no Ceará. O senador pediu desculpas, mas o gesto não foi
suficiente para conter a escalada da crise.
Nos
dias seguintes, perfis bolsonaristas ligados aos dois grupos passaram a trocar
ataques públicos, aprofundando uma divisão que já vinha sendo percebida nos
bastidores do partido. Foi nesse contexto que o presidente do PL Valdemar Costa
Neto decidiu entrar pessoalmente em cena.
Sua
missão passou a ser impedir que a disputa contaminasse a pré-campanha
presidencial. Valdemar compreendeu rapidamente que a crise já ultrapassava os
limites de uma divergência pessoal. Ela ameaçava atingir a própria estratégia
eleitoral do partido.
Para
ele, Michelle continuava sendo considerada indispensável para enfrentar Lula.
Sua presença na campanha é vista como fundamental para mobilizar mulheres,
lideranças religiosas e parte expressiva do eleitorado conservador. A frase
atribuída a Valdemar resume essa percepção: “Se perdermos a Michelle, a eleição
vai ficar muito difícil para nós.”
Poucas
declarações traduzem tão claramente o dilema enfrentado hoje pelo PL. O partido
apresenta Flávio como candidato escolhido por Jair Bolsonaro. Mas admite que a
campanha dificilmente alcançará seu potencial máximo sem Michelle.
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A reunião que terminou sem pacificação
A
expectativa inicial era de uma grande reunião destinada a selar a paz entre
Michelle e Flávio. Valdemar optou por conversar separadamente com a
ex-primeira-dama. Não houve encontro conjunto. Não houve fotografia da
reconciliação. Não houve sequer confirmação posterior de uma reunião
equivalente com Flávio.
Ao final do encontro, Michelle divulgou nota
oficial comunicando sua decisão de deixar a presidência nacional do PL Mulher
para dedicar-se “integralmente” aos cuidados de Jair Bolsonaro e da filha.
Pouco
depois, Valdemar divulgou sua própria nota. Ao contrário de Michelle, evitou
mencionar nomes. Falou em diálogo. Falou em pluralidade. Falou em princípios.
Transformou uma crise política concreta numa declaração institucional sobre
convivência partidária.
Michelle
escreveu uma despedida em primeira pessoa. Valdemar tentou preservar a imagem
do partido. As duas notas, lidas em conjunto, mostram que cada um enfrentava um
problema diferente.
Michelle
procurava explicar sua decisão. Valdemar tentava impedir que o episódio fosse
interpretado como uma derrota política do PL.
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A perda de um instrumento de poder
A saída
de Michelle do comando do PL Mulher tem consequências que vão muito além de uma
mudança administrativa. Durante os últimos anos, ela transformou a ala feminina
do partido numa estrutura nacional de mobilização política.
Percorreu
os estados, fortaleceu diretórios, participou da formação de lideranças e
passou a influenciar diretamente a montagem das chapas para 2026. É ali que se
concentrava boa parte de sua força institucional.
Ao
deixar essa posição, Michelle perde formalmente o principal instrumento
partidário que possuía para interferir na composição das candidaturas estaduais
e na distribuição do fundo eleitoral destinado às mulheres.
A
reação do próprio Valdemar demonstra que ela continua sendo considerada um dos
maiores ativos eleitorais do partido. Mas significa que a disputa interna
deixou de ser apenas simbólica.
Ela
passou a produzir consequências concretas na organização do maior partido da
direita conservadora e da extrema-direita. Essa talvez tenha sido a principal
derrota da tentativa de pacificação.
Valdemar
entrou na reunião tentando apagar um incêndio. Saiu administrando a primeira
baixa institucional da sucessão do bolsonarismo.
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A hipótese que mudou o tabuleiro
A saída
de Michelle do comando do PL Mulher produziu um efeito imediato em Brasília.
Quase simultaneamente ao anúncio, começaram a circular, com intensidade
crescente, especulações sobre um novo arranjo para a sucessão presidencial
dentro do campo conservador.
Até
então, o debate concentrava-se na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro,
respaldada por Jair Bolsonaro e por Valdemar Costa Neto. Mas o agravamento da
crise abriu espaço para outra hipótese.
Nos
bastidores do Congresso, em colunas políticas e em programas de análise, passou
a ganhar força a possibilidade de uma composição envolvendo Ronaldo Caiado e
Michelle Bolsonaro.
A
simples circulação dessa hipótese revela que Michelle deixou de ser vista
apenas como liderança do PL. Passou a ser considerada um ativo eleitoral de
todo o campo conservador. Da direita e da extrema-direita. A lógica é evidente.
Caiado representa uma direita tradicional, institucional e conservadora.
Michelle
preserva forte influência junto ao eleitorado bolsonarista, especialmente entre
mulheres, evangélicos e segmentos populares que continuam identificando nela a
continuidade política de Jair Bolsonaro.
Uma
eventual aproximação entre ambos teria como objetivo reunir dois eleitorados
que hoje caminham separados. É exatamente essa possibilidade que começa a
despertar interesse em dirigentes de outros partidos, sobretudo no PSD de
Gilberto Kassab.
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O movimento de Kassab
Não foi
por acaso que, praticamente no mesmo período em que o PL mergulhava em sua
crise interna, surgiram notícias sobre novas articulações envolvendo Kassab e
Caiado.
Durante
alguns dias discutiu-se a possibilidade de uma chapa formada pelos dois. Agora,
a própria crise do PL leva parte da direita a imaginar outra engenharia
eleitoral.
Se
Michelle vier a assumir um papel mais amplo poderá tornar-se um elemento de
convergência entre o bolsonarismo e setores da direita tradicional que, há
anos, procuram uma alternativa competitiva contra Lula. Nada disso está
decidido.
Mas o
simples fato de essa hipótese ter deixado os bastidores mais discretos e
passado a integrar o debate público revela uma mudança importante no tabuleiro
político. Até aqui, discutia-se quem seria o candidato do bolsonarismo. Hoje
começa a discutir-se como reorganizar todo o campo conservador envolvendo
direita tradicional e extrema-direita bolsonarista.
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Muito além do Partido Liberal
Talvez
seja esse o maior ensinamento político da crise. Ela já não pertence apenas ao
PL. Também não pertence apenas à família Bolsonaro. Interessa a praticamente
todos os partidos do campo conservador. Interessa a todos os setores da direita
que procuram construir uma candidatura capaz de enfrentar Lula.
É
justamente por isso que a reunião convocada por Valdemar Costa Neto assumiu
proporções muito maiores do que um simples encontro partidário. Ela transformou
um novo capítulo da permanente divergência da família Bolsonaro numa discussão
nacional sobre liderança política. A pergunta deixou de ser apenas quem será
candidato. A pergunta passou a ser quem comandará o pós-Bolsonaro.
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Será desta vez?
Talvez
a principal notícia do dia não seja apenas a vantagem de Lula na pesquisa Atlas
Intel, nem mesmo a saída de Michelle Bolsonaro do comando do PL Mulher.
Enquanto
a pesquisa mostra Lula consolidando sua liderança, a direita brasileira passa a
enfrentar uma disputa que pode ser ainda mais decisiva para seu futuro: definir
quem herdará o capital político construído por Jair Bolsonaro ao longo da
última década.
A crise
no PL indica que essa sucessão já começou. E ela ocorre justamente quando
diferentes setores da direita tradicional e da extrema direita bolsonarista
voltam a discutir uma estratégia comum para enfrentar Lula nas urnas.
A
eleição presidencial de 2026 poderá marcar uma tentativa de unificar esse campo
político em torno de um projeto capaz de derrotar o presidente. Desde a
primeira eleição de Lula ao Palácio do Planalto, em 2002, esse tem sido o
grande objetivo das forças conservadoras. Vencer Lula nas urnas.
Resta
saber se, desta vez, elas conseguirão chegar à disputa unidas — ou se a batalha
pelo espólio de Bolsonaro continuará sendo o principal obstáculo no caminho da
própria direita. Fica a pergunta:
Será
desta vez?
• Soberania não se negocia. Por Paulo
Cannabrava Filho
Há
momentos em que a defesa da soberania nacional ultrapassa as fronteiras
ideológicas. Foi o que ocorreu com o editorial do O Estado de S. Paulo,
tradicional jornal de orientação conservadora. Ao comentar a carta enviada pelo
candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ao secretário de Estado dos Estados Unidos,
Marco Rubio, o jornal fez uma crítica contundente ao conteúdo do documento e às
implicações que ele teria para a independência do Brasil.
Segundo
a correspondência divulgada pela imprensa, Flávio Bolsonaro pediu ao governo
dos Estados Unidos que desistisse da aplicação de tarifas sobre produtos
brasileiros e afirmou que, caso seja eleito presidente, colocará sua equipe de
transição à disposição das autoridades estadunidenses para discutir um amplo
acordo de comércio e investimentos.
Para o
Estado de S. Paulo, trata-se de um gesto inaceitável. O editorial considera um
acinte admitir que um governo estrangeiro possa participar, ainda que
indiretamente, dos trabalhos de uma equipe de transição presidencial.
A
transição é um dos momentos mais sensíveis da vida institucional de um país.
Nela circulam informações estratégicas e confidenciais sobre defesa, economia,
relações exteriores, inteligência, infraestrutura e planejamento governamental.
Não há a menor hipótese de que um governo estrangeiro participe desse processo
sem que isso represente grave violação da soberania nacional.
O
próprio jornal afirma que uma atitude dessa natureza rebaixa o Brasil à
condição de colônia. É uma crítica significativa justamente porque parte de um
veículo que historicamente defende posições liberais e conservadoras. Quando um
jornal com esse perfil considera que a soberania nacional foi aviltada, o
episódio deixa de ser uma simples divergência partidária e passa a envolver um
princípio permanente do Estado brasileiro.
Independentemente
das preferências eleitorais de cada cidadão, a defesa da soberania não pode ser
relativizada. Governos passam; o Estado brasileiro permanece. Relações
diplomáticas e comerciais devem existir com todas as nações, inclusive com os
Estados Unidos, mas sempre em bases de respeito mútuo e igualdade entre países
soberanos. Nenhuma potência estrangeira pode participar da definição dos rumos
de um governo brasileiro antes mesmo da realização das eleições.
Se,
antes mesmo de receber o voto popular, um candidato manifesta disposição para
compartilhar o processo de transição com um governo estrangeiro, é natural que
surjam dúvidas sobre o grau de autonomia que teria no exercício da Presidência.
Um presidente da República deve governar em nome do povo brasileiro e dos
interesses nacionais, jamais sob qualquer forma de tutela externa. A
independência nacional não é um detalhe da política; é um dos fundamentos da
República.
A
eleição de outubro, portanto, não será uma mera disputa entre candidatos ou
partidos. O que estará em jogo é a própria soberania nacional e a capacidade de
o Brasil decidir seu destino sem a tutela de potências estrangeiras.
Continua
após o anúncio
Não
basta reeleger o presidente Lula. Será igualmente necessário eleger uma nova
maioria no Congresso Nacional, comprometida com os interesses do país, com a
defesa da soberania, do desenvolvimento e da democracia. Sem uma mudança na
correlação de forças do Legislativo, qualquer projeto nacional continuará
submetido aos bloqueios de uma maioria que, em momentos decisivos, tem colocado
interesses alheios acima dos interesses do povo brasileiro.
Fonte:
Brasil 247/Diálogos do Sul Global

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