O
que Flávio prometeu a Trump caso seja eleito sobre Pix, Mercosul e redes
sociais
O
senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto,
apresentou ao governo dos Estados Unidos, nesta quinta-feira (2/7), uma
manifestação tentando convencer a gestão do presidente
Donald Trump a aguardar as eleições brasileiras de outubro
antes de decidir se impõe novas tarifas
contra produtos importados do Brasil. Na carta, ele pede que a
possível punição seja suspensa por ao menos 180 dias.
No
documento, ele argumenta que um novo tarifaço acabaria fortalecendo a campanha
à reeleição do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), que tem classificado as retaliações americanas
como ataques à soberania nacional.
Flávio
promete, caso eleito, "nomear imediatamente um negociador para conduzir as
negociações de boa-fé" e indica ações do seu governo para resolver as
acusações de comércio desleal contra o Brasil.
Entre
as medidas prometidas estão não conectar o PIX a meios de pagamento
instantâneos internacionais não ocidentais, desonerar o setor de cartões de
crédito (beneficiando grandes empresas americanas) e buscar acordos bilaterais
de comércio com os EUA, libertando o Brasil das "amarras do
Mercosul".
Ele
também diz que, caso a atual oposição ganhe mais cadeiras no Senado em outubro,
será possível cassar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que têm tomado
decisões contra plataformas americanas de redes sociais, uma das questões que
irritam a gestão Trump — e que o campo bolsonarista chama de censura.
A
manifestação de Flávio Bolsonaro foi enviada ao Escritório do Representante de
Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão que iniciou uma investigação
comercial contra o Brasil em julho passado, após o ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL) articular junto à Casa Branca retaliações ao país para tentar
evitar a condenação do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pelo STF —
ele acabou condenado em setembro por tentativa de Golpe de Estado.
A
investigação foi concluída no início de junho, recomendando tarifas
retaliatórias de 25% a produtos brasileiros, com o argumento de que certas
práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou
restringem o comércio dos EUA".
Depois
disso, foi aberto prazo até 1º de julho para que partes interessadas se
manifestassem sobre o tema, contexto em que Flávio Bolsonaro enviou suas
considerações. Ele também está inscrito para participar de uma audiência
pública nos EUA no dia 6 de julho.
Já o
governo Lula contesta as acusações dos EUA contra o Brasil e tem feito rodadas
de negociações com autoridades americanas para tentar convencer a Casa Branca a
não impor as novas tarifas.
Além
disso, também enviou uma manifestação a USTR, assinada pelo ministro das
Relações Exteriores, Mauro Vieira, argumentando que "amplas tarifas sobre
produtos brasileiros imporiam custos reais à economia dos EUA".
As
supostas práticas brasileiras condenadas na investigação americana incluem o
PIX, visto como um concorrente desleal a outros meios de pagamento, e tarifas
de importação mais benéficas para outros países com os quais o Brasil tem
acordos, como México e Índia.
A
investigação apontou ainda como problemáticas supostas falhas no combate à
corrupção e à proteção da propriedade intelectual no país, assim como a atuação
do Judiciário brasileiro no controle de plataformas digitais.
Entenda
a seguir o que Flávio prometeu ao governo Trump em quatro pontos.
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Pix: o que dizem os EUA e o que promete Flávio
A
gestão Trump diz que o governo brasileiro "tem prejudicado injustamente as
empresas americanas" ao favorecer o Pix e acusa o Banco Central brasileiro
de exercer papel duplo "como regulador e proprietário/operador" do
meio de pagamento instantâneo.
"O
banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central
exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e
requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições
participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de
pagamento ou transferência."
Além
disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado
sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades
brasileiras obrigam empresas americanas a promover o sistema brasileiro sem
compensações às instituições americanas.
"Os
atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial
dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os
concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e
limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão
nacional do Brasil."
Em sua
manifestação, Flávio Bolsonaro defende o Pix como uma das principais inovações
do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, embora o então presidente tenha indicado
não conhecer a ferramenta quando ela foi implementada, ao ser questionado por
apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.
A
ferramenta começou a ser desenvolvida no governo anterior, de Michel Temer, por
técnicos do Banco Central e foi lançada em 2020.
O
senador também rebate críticas sobre possível conflito de interesses ao
comparar o Pix ao sistema norte-americano FedNow, sustentando que ambos cumprem
funções semelhantes como plataformas operadas por bancos centrais.
O
parlamentar também argumenta que o crescimento do Pix não prejudica empresas
dos Estados Unidos no Brasil, já que ampliou a inclusão financeira e o mercado
consumidor, beneficiando companhias norte-americanas de comércio eletrônico,
tecnologia e fintech.
Apesar
de contestar as queixas americanas, Flávio promete que "o Pix não será
interconectado a arranjos de liquidação transfronteiriça não ocidentais",
numa aparente sinalização de que, caso eleito, não avançará em acordos com a
China nesse campo — a potência asiática já manifestou interesse nesse sentido,
mas as discussões são iniciais.
Além
desse compromisso, Flávio disse que há margem significativa para tornar mais
leve a regulamentação e a tributação do setor, destacando que outros meios de
pagamento, como cartões de crédito, oferecem funções que o Pix não substitui,
incluindo crédito ao consumidor e financiamento parcelado.
"Esses
instrumentos hoje suportam uma carga regulatória e tributária que suprime a
concorrência em vez de promovê-la. Reduzir essa carga não privilegiaria nenhuma
empresa; ampliaria a escolha do consumidor, reduziria o custo das trocas
voluntárias e apoiaria o crescimento econômico — resultados que beneficiam o
consumidor brasileiro e a economia em geral de forma tão direta quanto o
próprio setor", defendeu, na manifestação ao USTR.
Já a
Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix em nota divulgada em
junho e disse que a conclusão da investigação dos EUA decorre de
"informações incompletas acerca dos seus objetivos e funcionamento".
"O
Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece
a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e,
consequentemente, da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não
discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras
nacionais e estrangeiras", afirmou a entidade.
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Flávio e EUA contra supostas interferências nas redes socias
Segundo
o governo americano, "tribunais brasileiros emitiram decisões sigilosas
determinando que empresas americanas de redes sociais removam determinados
conteúdos políticos e suspendam perfis de residentes nos Estados Unidos — em
alguns casos, com alcance global —, além de proibirem as plataformas de
informar os usuários sobre essas ordens".
O
documento com a conclusão da investigação do USTR fala em imposição de multas
elevadas, restrições ao acesso a ativos, contas e sistemas de pagamento no
Brasil e, em pelo menos um caso, o bloqueio total de um site.
O
pré-candidato do PL concorda, em sua manifestação, com as queixas americanas
sobre atuação de instituições brasileiras que interferem no funcionamento das
redes sociais, criticando decisões do STF e do governo Lula nessa área. O campo
bolsonarista tem se posicionado contra o endurecimento da regulamentação e das
obrigações dessas empresas e se coloca como vítima de decisões do Judiciário
que, nos últimos anos, tem derrubado postagens e contas que envolveriam
conteúdo criminoso.
Flávio
Bolsonaro argumenta, porém, que a imposição de tarifas contra o Brasil não vai
alterar esse cenário. Ele diz que a solução está no Legislativo e que ministros
do STF poderão ser cassados caso a oposição a Lula ganhe espaço no Congresso
após as eleições de outubro.
"O
Senado recebeu dezenas de pedidos de impeachment contra membros da Corte
ligados a esse suposto abuso de autoridade — pedidos que estão parados, mas
poderiam avançar caso a oposição ganhe força em outubro", escreveu ao
governo dos EUA.
Além
disso, o senador argumenta que "uma abordagem mais adequada" à
implementação de tarifas amplas contra o Brasil é a adoção de "medidas
direcionadas", como "sanções financeiras e restrições de visto contra
autoridades responsáveis, retaliações que já foram usadas contra ministros do
STF.
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Acordo bilateral e libertação das "amarras do Mercosul"
O USTR
acusa o Brasil de privilegiar alguns países no comércio internacional.
"Por
meio de acordos comerciais preferenciais de escopo limitado com México e Índia
— que abrangem setores nos quais esses países são produtores avançados e
competitivos globalmente —, o Brasil concede tarifas mais baixas e tratamento
preferencial a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos
setores", disse o órgão, na conclusão da investigação.
Ao
comentar esse tópico, Flávio Bolsonaro prometeu negociar condições melhores
paras a trocas entre Brasil e EUA. Ele disse que vai "buscar de forma mais
agressiva formas de estabelecer acordos bilaterais que promovam comércio e
investimento entre ambos os países".
"O
Brasil busca maneiras de se desvincular das amarras do Mercosul que impediram
administrações anteriores de negociar com os Estados Unidos. O caminho adotado
pela Argentina de Javier Milei oferece um precedente útil que o autor afirma
estar disposto a examinar e seguir", disse ainda.
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Corrupção: Flávio cita Master, mas ignora dinheiro de Vorcaro para filme sobre
Bolsonaro
O
governo dos EUA também diz que empresas americanas seriam prejudicadas porque
"o Brasil não adota medidas de fiscalização suficientes para enfrentar
práticas de suborno e corrupção".
Sobre
essa queixa, Flávio Bolsonaro reconhece que há grandes escândalos de corrupção
no Brasil, mas diz que isso não é um problema estrutural do país, mas um
problema relacionado a governos do PT, citando os escândalos do Mensalão e da
Lava Jato, e, mais recentemente, as fraudes bilionárias envolvendo o INSS e o
Banco Master.
Em sua
carta, o senador não cita que ele próprio sofreu desgaste ao ser revelado que
solicitou ao banqueiro Daniel Vorcaro aportes de dezenas de milhões de reais do
Master para a gravação de um filme em homenagem ao seu pai — R$ 61milhões foram
liberados até a liquidação do banco, em novembro.
Ele
também ignorou em sua manifestação que, segundo as investigações da Polícia
Federal, as fraudes no INSS começaram antes do atual governo, incluindo a
gestão de Jair Bolsonaro.
Apesar
disso, Flávio diz que o governo de seu pai não teve escândalos de corrupção.
"A
gestão do presidente Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, transcorreu sem qualquer
esquema de corrupção sistêmica de escala comparável [aos escândalos do PT]. O
objetivo é tornar isso uma característica estável do Estado, e não um traço de
uma administração específica", prometeu na manifestação ao governo Trump.
Fonte:
BBC News Brasil

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