'Gastei
US$ 6 mil em viagem para a Copa, mas acabei do lado de fora do estádio'
Quando
Sergio Enrique Alvarado Montalvo pagou US$ 1,7 mil (cerca de R$ 9,2 mil) por
ingressos na plataforma de revenda online StubHub para surpreender o pai com
uma ida à Copa do Mundo de 2026, imaginava que os dois viveriam um Dia dos Pais
inesquecível assistindo ao jogador argentino Lionel Messi em campo.
Em vez
disso, depois de levar seus pais do México para Dallas, no sul dos Estados
Unidos, para assistir à partida Argentina x Áustria, e gastar quase US$ 6 mil
(cerca de R$ 32,5 mil) com passagens e hospedagem, a família não conseguiu
entrar no estádio.
Apenas
um dia antes da viagem para Dallas, o StubHub informou de forma repentina que o
vendedor não conseguiria entregar os ingressos. A plataforma também se recusou
a fornecer bilhetes equivalentes, alegando que os preços haviam disparado (ou
seja, o valor estava muito mais alto do que aquele pago anteriormente por
Montalvo).
Mesmo
assim, eles foram ao estádio na esperança de que ainda conseguissem os
ingressos. Montalvo permaneceu ao telefone com o StubHub até uma hora antes do
início da partida.
"Eu
fiquei muito triste, muito frustrado e tomado pela raiva. Foi uma mistura de
sentimentos difícil de explicar", disse Montalvo, de 45 anos, em
entrevista à BBC.
O
pesadelo vivido por Montalvo faz parte do que especialistas do setor estão
chamando de uma das maiores crises da história da venda de ingressos. Enquanto
a Copa do Mundo de 2026 passa por 16 cidades dos EUA, Canadá e México, muitos
torcedores estão vendo o sonho de acompanhar a Copa acabar por causa de
cancelamentos de última hora em plataformas de revenda.
O
principal motivo é uma prática conhecida como speculative ticketing (venda
especulativa de ingressos, em tradução livre). Nela, vendedores sem ingressos
garantidos oferecem ingressos que ainda não possuem, na expectativa de
conseguir comprá-los mais baratos perto da data do evento.
Quando
os preços dos ingressos sobem, esses vendedores simplesmente cancelam a venda
negociada inicialmente para conseguir revender o ingresso por um preço bem
maior, aumentando a margem de lucro. Compradores como Montalvo acabam ficando
apenas com o reembolso do valor pago pelos ingressos, insuficiente para
compensar os altos gastos com viagem e hospedagem.
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'Meu filho ficou arrasado'
Eben
Pingree, de 44 anos, morador de Boston, nos EUA, viveu situação semelhante. Sua
mulher, Caitlin, pagou US$ 2,8 mil (cerca de R$ 15,2 mil) no StubHub por
ingressos para a partida entre Escócia e Haiti como surpresa para o filho do
casal, Cole, de 11 anos.
Eles
haviam organizado uma viagem com antecedência, junto de outro pai e seu filho,
mas os ingressos não foram entregues no dia da partida. "Eles basicamente
nos deixaram para trás, e meu filho ficou arrasado", disse Pingree em
entrevista à BBC.
De
volta a Dallas, Montalvo e sua família passaram a noite da partida em um
festival local para torcedores, em vez de assistir ao jogo das arquibancadas.
"Foi um fim de semana muito triste... por dentro e por fora... [mas]
aproveitamos o tempo juntos", acrescentou Montalvo.
Em um
outro caso, dois torcedores da Copa do Mundo entraram com uma ação contra o
StubHub na terça-feira (30/6), em um processo que busca o status de ação
coletiva, acusando a plataforma de revenda de não entregar ingressos pelos
quais eles haviam pagado.
A ação
foi apresentada por Julie Reeker Moghal e Reuben Renteria, que afirmaram em
documentos judiciais atuar em nome próprio e em nome de outras pessoas em
situação semelhante.
A dupla
disse ter pago ao StubHub ao menos US$ 1,9 mil (cerca de R$ 10,3 mil) cada um
por ingressos da Copa do Mundo que nunca foram entregues.
"[Os
torcedores] foram enganados e compraram ingressos da Copa do Mundo por grandes
quantias — apenas para sofrer enormes prejuízos financeiros", diz a ação.
Segundo
o documento, o caso marcou um "novo ponto baixo" para um setor
"tomado por problemas de proteção ao consumidor".
O
StubHub não quis comentar o caso. A Fifa não comentou diretamente a ação quando
procurada pela BBC.
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Empresas trocam acusações
A crise
deu início a uma disputa de versões entre as empresas.
Todos
os ingressos da Copa do Mundo só podem ser acessados pelo site ou pelo
aplicativo da Fifa, organizadora do torneio. Por isso, qualquer ingresso
comprado em sites de revenda, como o StubHub, precisa ser transferido dentro do
site ou do aplicativo da Fifa.
O
StubHub atribuiu a responsabilidade à Fifa, afirmando que o novo aplicativo de
ingressos lançado pela entidade pouco antes do evento apresentou
"problemas significativos de desempenho que afetaram transferências em
todas as plataformas de revenda".
A Fifa
rebateu afirmando que sua plataforma oficial é o único canal de venda garantido
e que não pode assegurar a validade de ingressos comprados por meio de
terceiros. A entidade disse que "rejeita qualquer sugestão" de que os
problemas técnicos que atingem plataformas secundárias sejam culpa do sistema
da própria Fifa.
Acrescentou
ainda que a sua plataforma de ingressos estava "operando de forma
confiável" e disse que mais de 5 milhões de pessoas haviam assistido a
partidas até então.
Mas
especialistas afirmam que as plataformas não podem atribuir a responsabilidade
apenas a falhas de software.
"A
culpa é 100% do StubHub", disse Scott Friedman, cofundador da Ticket Talk
Network, que já reuniu mais de 600 reclamações de consumidores apenas durante
esta Copa do Mundo.
"A
Fifa também não é nenhuma santa. O sistema de venda de ingressos deles é
péssimo. Parece um software de 1999", acrescentou Friedman.
Embora
o StubHub afirme proibir rigorosamente a venda especulativa de ingressos em sua
plataforma, entidades que monitoram o setor e consumidores insatisfeitos
acreditam que a prática continua sendo comum.
Alguns
vendedores também dizem ter sido prejudicados. Um vendedor de Austin, nos EUA,
contou à BBC que perdeu US$ 2,6 mil (cerca de R$ 14 mil) depois de anunciar no
StubHub um ingresso comprado legalmente no Marketplace da Fifa. Ele afirmou ter
vendido o ingresso por US$ 1,2 mil (cerca de R$ 6,5 mil) e enviado o bilhete
para o endereço de e-mail gerado automaticamente pela plataforma. Ainda assim,
o StubHub cancelou a venda por "não cumprimento", reteve o pagamento
e ainda lhe cobrou uma multa de US$ 1,4 mil (cerca de R$ 7,6 mil).
Para o
consumidor comum, enfrentar uma grande empresa pode parecer uma batalha
impossível de vencer.
Bradford
Clements, advogado que atualmente representa clientes com mais de US$ 2,4
milhões (cerca de R$ 13 milhões) em ações contra o StubHub, a maioria sem
relação com a Copa do Mundo, afirma que o complexo processo de contestação da
empresa frequentemente leva torcedores comuns a desistirem de buscar
indenização.
"As
pessoas não entendem que a estratégia do StubHub é intimidar, enrolar e
negar", disse Clements à BBC. O advogado também afirmou que notificações
judiciais enviadas à empresa foram devolvidas.
O
StubHub não comentou a acusação de Clements.
Ainda
não está claro quantas pessoas enfrentaram problemas com ingressos comprados no
StubHub ou em outras plataformas de revenda. Centenas de torcedores relataram
dificuldades nas redes sociais, enquanto um relatório sugeriu que milhares de
ingressos foram cancelados.
Um
porta-voz do StubHub disse que a empresa está ampliando a sua capacidade de
conseguir ingressos de substituição para clientes afetados e destacou que todas
as compras são cobertas pela garantia FanProtect. Segundo a empresa, caso o
cliente não receba os ingressos adquiridos nem outros equivalentes ou
superiores, terá direito ao reembolso.
Mas na
prática, essa garantia pouco adianta para torcedores que já perderam milhares
de dólares em despesas de viagem que não podem ser reembolsadas.
À
medida que a Copa do Mundo entra em sua fase decisiva, entidades que acompanham
o setor alertam que a crise dos cancelamentos pode se agravar, deixando mais
famílias do lado de fora dos estádios, sem nada que compense uma experiência
que deveria durar para a vida toda.
Fonte:
Por Francisco Velasquez, repórter de Negócios da BBC

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