sexta-feira, 3 de julho de 2026

China reaparece na agenda do Mercosul, mas obstáculos permanecem, afirmam especialistas

Ao assumir a presidência do Mercosul, o Uruguai busca retomar as negociações com a China, que mantém seu interesse em um acordo comercial com a região. Especialistas consultados pela Sputnik indicaram que Pequim pode não querer perder terreno para a União Europeia (UE), embora a resistência do Brasil continue a dificultar um acordo.

Embora a possibilidade de um acordo comercial entre o Mercosul e a China venha se arrastando, com altos e baixos, há uma década, o retorno do Uruguai à presidência pro tempore do bloco regional até o início de 2027 promete recolocar o comércio com o gigante asiático na agenda.

Durante a reunião dos ministros das Relações Exteriores do bloco, o ministro uruguaio, Mario Lubetkin, reafirmou o compromisso de Montevidéu em continuar as negociações com Pequim. "Promoveremos o Diálogo Mercosul-República Popular da China, como temos feito em outras ocasiões", declarou.

De fato, o fórum anunciado pelo ministro das Relações Exteriores do Uruguai é uma iniciativa que surgiu em 1997 para centralizar as negociações entre a China e o bloco sul-americano. Embora os encontros tenham começado como eventos anuais, passaram-se 14 anos entre a quinta e a sexta rodada de diálogo, e seis anos entre essa rodada e a mais recente, realizada em 2024. Assim como a planejada para 2026, as duas últimas edições ocorreram em Montevidéu, reafirmando o papel do Uruguai como vanguarda das negociações entre o Mercosul e a China.

Contudo, o governo uruguaio não estava sozinho em suas intenções durante a última cúpula. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva aceitou o desafio e expressou seu desejo de que Pequim se junte aos acordos comerciais que o bloco sul-americano está negociando atualmente.

"O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nessa cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta", declarou o presidente brasileiro.

A possibilidade de negociar com a China chegou a ser levantada pela imprensa junto ao ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, que reconheceu que seu país "não se opõe ao estabelecimento de relações comerciais com a China", mas esclareceu que só participará se Pequim não se opuser à relação diplomática que Assunção mantém com Taiwan.

<><> O interesse chinês ainda persiste?

Em entrevista à Sputnik, o analista internacional uruguaio Nicolás Pose destacou que o interesse em negociar com o Mercosul permanece na agenda do governo chinês e pode aumentar à medida que o bloco sul-americano avança em outros acordos comerciais com outros mercados.

"À medida que outras economias começam a negociar acesso livre de tarifas ao Mercosul, como a União Europeia, o Canadá e, em breve, o Japão, a pressão certamente aumentará na China para evitar perder terreno em termos de acesso relativo", explicou o analista.

Pose enfatizou que, embora o Mercosul possa não ser o principal parceiro comercial da China, a nação asiática desejará "manter condições de acesso que, no mínimo, se igualem às de seus concorrentes".

De fato, apesar da resistência do Brasil e da Argentina, que em diferentes momentos bloquearam o avanço de um acordo com a China dentro do bloco, os últimos sinais recebidos pelo Uruguai de Pequim indicam que o governo de Xi Jinping permanece otimista quanto ao avanço das negociações.

Em fevereiro de 2026, o presidente uruguaio Yamandú Orsi reuniu-se com Xi Jinping em Pequim e assinou uma declaração na qual os líderes "destacaram sua aspiração pelo início iminente de negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a China". Esse interesse foi reafirmado em junho pelo embaixador chinês em Montevidéu, Huang Yazhong, que, após uma reunião com líderes empresariais uruguaios, elogiou o "enorme potencial" do comércio entre as duas regiões e declarou em sua conta nas redes sociais: "Aguardamos com expectativa o progresso no diálogo entre a China e o Mercosul".

Segundo Pose, o papel proativo do Uruguai no fomento das relações com a China dentro do Mercosul decorre do fato de que, diferentemente do Brasil ou da Argentina, o país não sofre com "a sensibilidade associada à abertura à importação de bens industriais", sensibilidade essa que existe nos setores industriais das economias brasileira e argentina.

"É bastante lógico que, para um país como o Uruguai, a China seja uma opção atraente, porque existem ganhos potenciais em termos de acesso ao mercado, e os custos de abertura são muito menores do que em economias com estruturas de produção diferentes, como a do Brasil", afirmou.

Obstáculos não resolvidos

Mas, apesar disso, Pose permanece pessimista quanto à possibilidade de um acordo de livre comércio prosperar em um futuro próximo.

"Há elementos de economia política que nos levam a crer que a prioridade do Mercosul estará em outro lugar", afirmou o especialista, observando que "avançar nas negociações com o Japão parece muito mais viável em termos políticos do que progredir com a China".

Embora reconheça que a China é inegavelmente o principal parceiro comercial da região, principalmente para exportações, o bloco sul-americano continua a ser assolado pela ameaça de "abertura dos mercados manufatureiros do Mercosul à entrada de produtos industriais chineses sem tarifas".

Nesse sentido, Pose reconheceu que "o ritmo do que é politicamente possível para a agenda externa do Mercosul é ditado pela evolução das preferências da indústria manufatureira brasileira", portanto, apesar das palavras do presidente Lula na cúpula do Mercosul, a China continua sendo o principal alvo da "resistência" do setor industrial brasileiro.

Consultado também pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Mario Paz Castaing explicou que persistem significativas "contradições" no Brasil entre o setor de exportação agrícola, que exige acordos que permitam a comercialização de seus produtos na China sem tarifas ou cotas de mercado, e "outros setores produtivos mais alinhados à direita, que se opõem a isso".

Diante desse cenário, o especialista apontou que as eleições presidenciais brasileiras em novembro — com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principais candidatos — podem determinar a futura posição de Brasília em relação à liberalização comercial do Mercosul.

"A geopolítica e a geoeconomia também estão em jogo dentro do Mercosul. A geopolítica influencia e afeta as ações dos países-membros e, embora a maioria dos governos que atualmente dominam a região mantenha uma relação fluida com os EUA, a relação da China com os líderes mais importantes da região é inegável", afirmou Paz Castaing.

Segundo o analista, o Mercosul não está imune a essas tensões internacionais entre Washington e Pequim, sendo possível que os membros do bloco encontrem parceiros comerciais com menor custo político em outros mercados asiáticos, como Japão, Vietnã ou Cingapura, entre outros.

"Acredito que, dado o atual momento geopolítico e considerando que a Ásia precisa do que o Mercosul produz e exporta para o mundo, essa seja a forma de buscar mercados alternativos e se posicionar", acrescentou.

¨      Dependência europeia da China cresce apesar da pressão por autonomia estratégica, diz autoridade

A Europa tenta reduzir a dependência da China, mas empresas do bloco aprofundam sua integração às cadeias chinesas, impulsionadas por custos menores e competitividade, enquanto Bruxelas pressiona por resultados contra desequilíbrios comerciais até outubro.

A Câmara de Comércio da União Europeia na China alerta que, apesar do discurso político em Bruxelas sobre "reduzir dependências", empresas europeias estão cada vez mais integradas às cadeias de suprimentos chinesas.

De acordo com o South China Morning Post, o presidente da entidade, Jens Eskelund, acredita que manter competitividade hoje significa aprofundar essa inserção, mesmo quando governos defendem o movimento oposto.

Segundo a apuração, Eskelund afirma que a Europa interpretou mal o papel da China. Segundo ele, Pequim não é apenas um mercado lucrativo, mas tornou‑se parte estrutural das cadeias globais das quais as empresas europeias dependem. A pressão por autonomia estratégica, portanto, colide com a realidade industrial.

Uma pesquisa recente com quase 300 membros da câmara reforça essa tendência. Mais da metade das empresas afirmou estar ampliando a produção local na China, enquanto apenas uma minoria está aumentando a terceirização para outros países. O custo é o principal motor dessa escolha, já que as cadeias chinesas se tornaram altamente competitivas.

O executivo falou durante uma conferência econômica em Berlim, logo após negociações comerciais entre o ministro do Comércio da China, Wang Wentao, e o comissário europeu responsável por Comércio, Maros Sefcovic, em Bruxelas. O contexto é de crescente tensão, com a União Europeia (UE) cobrando avanços concretos até outubro para corrigir desequilíbrios comerciais persistentes.

Eskelund destacou ainda que parte da vantagem chinesa vem da taxa de câmbio, já que, segundo estimativas do Instituto Econômico Alemão, o yuan estaria subvalorizado entre 20% e 30% frente ao euro, garantindo aos exportadores chineses uma vantagem estrutural de preços.

Ele afirmou também que Pequim demonstra crescente confiança ao impor sua agenda, recorrendo ao conceito de "dominância da escalada", pelo qual a China seria capaz de elevar os custos de um confronto a níveis que o outro lado não está disposto a suportar.

Diante desse cenário, Eskelund defende que a Europa identifique e proteja capacidades industriais essenciais à sua autonomia estratégica, inclusive por meio de instrumentos como a proposta de Lei do Acelerador Industrial (IAA, na sigla em inglês) — uma tentativa de equilibrar competitividade, segurança econômica e dependência das cadeias chinesas.

<><> Governo do Brasil critica novas medidas da União Europeia para a importação de aço

Os Ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços emitiram uma nota nesta quarta-feira (1º) criticando as novas medidas da União Europeia contra importações siderúrgicas, incluindo o aço brasileiro.

A Comissão Europeia anunciou que a quantidade de aço sem taxa que pode entrar no bloco será reduzida para 18,3 milhões de toneladas por ano, uma queda de 47%. Caso este número seja ultrapassado, a tarifa sobre o valor excedente será de 50% em 26 categorias de produtos siderúrgicos.

Para o governo do Brasil, as restrições quantitativas estabelecidas pela União Europeia impactam parceiros comerciais do bloco, ampliam as barreiras exportadoras e não resolvem o excesso de produção mundial de aço.

Ainda de acordo com os ministérios que assinam a nota, a medida unilateral do bloco obriga, segundo o Artigo XXVIII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio, que a União Europeia ofereça compensações ao Brasil.

A Comissão Europeia justifica que as alterações na política de importação de aço são necessárias para proteger a produção local contra o aumento de oferta do material a nível mundial, o que derruba os preços.

Segundo dados da União Europeia, o mercado internacional siderúrgico sofre com práticas de dumping — quando produtos são comercializados abaixo do preço de custo.

O governo do Brasil afirmou que, mesmo com as críticas à ação da União Europeia, o país continuará negociando com o bloco em busca de uma solução favorável às duas partes.

¨      China amplia controle de exportações para conter avanço do 'neomilitarismo' japonês, diz mídia

De acordo com um editorial da mídia asiática, a nova rodada de medidas anunciada pela China ampliou significativamente o alcance das restrições impostas ao Japão. O movimento de Pequim visa impor custos econômicos e estratégicos ao que considera uma remilitarização de Tóquio.

O Ministério do Comércio da China incluiu 20 entidades japonesas na lista de controle de exportações e outras 20 na lista de vigilância, mirando institutos estratégicos como o Instituto Nacional de Estudos de Defesa e empresas como a MITSUI E&S. Para Pequim, trata-se de uma resposta direta ao que classifica como "neomilitarismo" japonês, com o objetivo de impor custos concretos a qualquer avanço considerado provocativo, afirmou um editorial do Global Times nesta terça-feira (30).

Diferentemente da primeira rodada, focada no setor manufatureiro, esta nova medida atinge o núcleo intelectual e tecnológico do complexo militar japonês. Ao mirar pesquisa, desenvolvimento e inovação, a China busca conter a modernização de armamentos ofensivos desde a origem.

O editorial afirma que, dependendo das ações de Tóquio, novas entidades ligadas às forças armadas poderão ser adicionadas às listas, criando um mecanismo de controle contínuo e de longo prazo.

Relatos da imprensa japonesa indicam que exportações chinesas de materiais essenciais, como disprósio e térbio, foram zeradas, e o fornecimento de produtos relacionados ao tungstênio também foi interrompido. Instituições japonesas estimam que um ano de interrupção nas importações de terras raras poderia reduzir o produto interno bruto (PIB) real em 1,3%, cerca de 7 trilhões de ienes (aproximadamente R$ 252 bilhões).

Para o editorial, esses números evidenciam a dependência estrutural do Japão das cadeias de suprimentos chinesas, uma dependência que, ao ser reinterpretada por Tóquio como "ameaça", não pode continuar sendo sustentada pela China.

A mídia sustenta que o objetivo das duas rodadas de controle é conter a "remilitarização" japonesa e suas ambições nucleares. Desde fevereiro, quando Pequim divulgou a primeira lista, o governo de Sanae Takaichi teria reagido intensificando o impulso militar, enviando armas ofensivas ao exterior e lançando mísseis além de suas fronteiras.

Paralelamente, o Japão estaria tentando moldar uma narrativa internacional de "coerção chinesa", buscando apoio ocidental e promovendo cadeias de suprimentos alternativas que excluam a China.

O texto recorda que o militarismo japonês histórico subordinou toda a sociedade à lógica da guerra, causando devastação na Ásia. A questão central, segundo o editorial, não é o retorno de símbolos como a bandeira do Sol Nascente, mas sim a mobilização estatal para fins militares.

O "neomilitarismo" atual, afirma, reformula a lógica pré-guerra em linguagem moderada: em vez de "expansão militar e preparativos para a guerra", fala-se em "fortalecimento das capacidades de autodefesa"; em vez de "projeção de poder militar no estrangeiro", enfatiza-se a "aliança Japão-EUA"; e em vez de "expansão externa", cita-se a necessidade de "enfrentar ameaças comuns", reforça o artigo.

Esse caráter gradual e institucionalizado torna o fenômeno mais perigoso, já que o fortalecimento militar japonês seria hoje mais abrangente, mais discreto e mais destrutivo do que no passado.

Contudo, as medidas chinesas são apresentadas como legais, específicas e proporcionais. Ao combinar listas de controle e vigilância, Pequim afirma incentivar empresas japonesas a se afastarem de atividades ligadas ao militarismo, preservando ao mesmo tempo relações comerciais legítimas.

As restrições atingem apenas itens de dupla utilização e um número limitado de entidades, sem afetar o comércio normal entre os dois países. Quanto mais o "neomilitarismo" for contido, diz o editorial, mais protegidas estarão as trocas econômicas e interpessoais.

A estabilidade da Ásia-Pacífico, construída ao longo de décadas, não deveria ser colocada em risco por gestos aventureiros. Se o Japão reconsiderar sua postura, haverá espaço para melhorar as relações bilaterais, concluiu o Global Times.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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