sexta-feira, 3 de julho de 2026

Bolsonaro Digital, empresa de Flávio e do clã, entra na mira da Receita Federal

Justo no momento em que Flávio Bolsonaro tenta se viabilizar como o herdeiro eleitoral do pai na corrida ao Planalto, a engrenagem financeira familiar que ajudou a erguer a máquina digital do bolsonarismo sofreu um revés na Receita Federal.

A Bolsonaro Digital Ltda, empresa que tem como sócios Jair, Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, além de Rogéria Nantes, mãe dos três políticos, foi declarada inapta pelo Fisco a partir de 1º de junho de 2026. A sanção consta no Ato Declaratório Executivo nº 036219421 e atinge o centro das operações financeiras da família na internet.

O motivo da punição é direto: a empresa parou de prestar contas ao governo. Conforme a legislação, o CNPJ é enquadrado nessa situação de inaptidão quando há omissão de declarações obrigatórias por um período superior a 90 dias. Na prática, a empresa do clã Bolsonaro deixou de informar à Receita o quanto faturava no Simples Nacional, ocultando a entrada de recursos no caixa da firma.

A sanção traz implicações legais diretas. Além de suspender o CNPJ, o ato declarou inidôneos os documentos emitidos pela Bolsonaro Digital. No rigor da lei tributária, isso significa que notas fiscais e recibos gerados pela empresa deixam de produzir efeitos fiscais em favor de terceiros. Quem eventualmente contratar a empresa não poderá usar essas notas para comprovar despesas regulares, compensar ou abater impostos, tornando a firma um passivo contábil para seus clientes.

<><> O relatório do Coaf

A omissão contábil esbarra no histórico de contradições financeiras da Bolsonaro Digital. Fundada em abril de 2017 com um capital social de apenas R$ 1 mil e sede em um apartamento em Vila Isabel (RJ), a empresa tinha uma missão declarada pelo próprio Flávio Bolsonaro: monetizar os vídeos da família no YouTube.

A tese de que o negócio operava em pequena escala foi confrontada em 2023. Como revelado pela Agência Pública, um relatório do Coaf enviado à CPMI do 8 de Janeiro identificou um “faturamento presumido” de R$ 460 mil da empresa apenas em maio daquele ano.

Na época, Flávio Bolsonaro negou os valores. Afirmou que a receita da empresa não passava de R$ 3 mil mensais e classificou o documento do órgão de inteligência financeira como “político”. A defesa de Jair Bolsonaro endossou a versão, alegando que, apesar de a sociedade ser dividida em exatos 24,9% para cada homem do clã, apenas Flávio usava a firma.

A punição atual imposta pela Receita, no entanto, reabre a questão: se a empresa faturava R$ 3 mil mensais e operava regularmente, por que a família Bolsonaro ocultou justamente a declaração que atesta o faturamento ao Fisco por mais de três meses?

<><> Omissões no TSE

Ocultar a Bolsonaro Digital dos órgãos de controle é uma prática que se repete na família. Em 2018, Flávio Bolsonaro não incluiu a empresa em sua declaração oficial de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao disputar o Senado, mesmo constando nos registros oficiais da Receita e da Junta Comercial do RJ.

Nas eleições de 2022, Eduardo Bolsonaro repetiu a manobra, deixando a firma de fora de sua prestação de contas. Apenas Jair Bolsonaro a declarou, registrando seus 24,9% de participação no valor de R$ 249.

Agora, a omissão chega ao Fisco. Ao escalar nomes como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer para sua recém-formada “tropa digital” visando o Planalto, Flávio Bolsonaro tenta projetar força na internet. Nos bastidores contábeis, porém, a empresa que nasceu justamente para lucrar com a militância virtual cai na malha da Receita Federal por falta de transparência sobre suas próprias receitas.

•        Fundo Havengate, usado por Vorcaro para mandar dinheiro aos Bolsonaro nos EUA, era projeto fantasma, revela The Intercept

Polícia Federal investiga Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, por supostos repasses de R$ 61 milhões ao fundo norte-americano Havengate Development Fund LP para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O fundo, na verdade, foi criado como um projeto imobiliário fantasma, revelado nesta quinta-feira (2) pelo site The Intercept Brasil.

O dinheiro teria sido encaminhado ao fundo por Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro e administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA, por meio da empresa Entre Investimentos e Participações. A PF avalia que as operações podem configurar crime de evasão de divisas e identificou que a mesma empresa intermediária tem ligações com um fundo investigado por movimentar recursos de esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital.

<><> O Fundo Havengate: Um Projeto Imobiliário Fantasma

O Havengate Development Fund LP nasceu com uma promessa sedutora: vender a investidores, inclusive brasileiros, a Havengate Community, um empreendimento imobiliário avaliado em US$ 21,1 milhões na cidade de Melissa, no Texas. O projeto previa 300 lotes residenciais, 58 townhomes e 29 mil metros quadrados de área comercial distribuídos em 95 acres, com a promessa adicional de obtenção de green card para quem aportasse recursos acima de determinado valor. O material publicitário, produzido em 2020 pela Calixsan Capital Management LLC, empresa registrada na Flórida, pintava um estilo de vida que nunca chegou a existir.

Segundo investigação do Intercept Brasil, o empreendimento nunca saiu do papel. Registros oficiais do estado do Texas, do condado de Collin e da cidade de Melissa não mostram nenhum terreno registrado em nome do fundo ou de qualquer dos personagens ligados ao projeto, e a prefeitura não emitiu alvará de construção. Em junho de 2026, uma equipe do Intercept percorreu toda a área delimitada no material publicitário e constatou que o local prometido para a área comercial permanece intocado: um terreno coberto por árvores, sem placas de obra, licenças ou identificação de construtora. Obras residenciais vizinhas pertencem ao empreendimento Meadow Park, da incorporadora Ashton Woods, sem qualquer relação com a Havengate Community. Apesar do fracasso do projeto original, o fundo continuou ativo e, anos depois, serviu como veículo para receber ao menos US$ 10,6 milhões de empresas ligadas a Daniel Vorcaro para o financiamento de Dark Horse.

<>< A Investigação da PF e o Financiamento do Dark Horse

Segundo apurações da Revista Fórum, a Polícia Federal investiga Daniel Vorcaro por supostos repasses de R$ 61 milhões ao fundo Havengate para custear a produção de Dark Horse. Os valores teriam sido movimentados por meio da empresa Entre Investimentos e Participações e encaminhados a pedido do senador Flávio Bolsonaro, com a administração dos recursos a cargo de Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro nos EUA. A avaliação preliminar da corporação, ainda segundo a Revista Fórum, é que as operações podem configurar crime de evasão de divisas, embora os investigadores avaliem que o caso precisa ser mais bem apurado antes de qualquer conclusão definitiva.

Documentos bancários obtidos pelo Intercept Brasil, via Revista Fórum, detalham a escala do esquema: um cronograma de quase US$ 24 milhões em 14 desembolsos previstos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, com US$ 10,6 milhões já recebidos pelo fundo Havengate. Entre os documentos está um comprovante de transferência internacional SWIFT datado de 13 de fevereiro de 2025, que registra uma remessa de US$ 2 milhões. A combinação entre um fundo sem objeto real e um fluxo financeiro dessa magnitude é o que sustenta, segundo as apurações, a suspeita de que os recursos saíram do Brasil de forma irregular.

<><> Conexões Perigosas: Havengate e o Esquema do PCC

A teia em torno do financiamento de Dark Horse não se limita ao fundo Havengate. Segundo a Revista Fórum, com base em informações da Folha de S.Paulo, a Entre Investimentos e Participações, empresa intermediária nos repasses para o filme, também movimentou R$ 20 milhões com o FIDC Gold Style, fundo administrado pela Reag Trust. O FIDC Gold Style é investigado por ter recebido R$ 1 bilhão de empresas identificadas como parte do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital, segundo a mesma fonte.

O elo entre o financiamento do filme e esse universo de investigações passa ainda pelos controladores do próprio Havengate Development Fund LP. Paulo Calixto e Altieris Santana, sócios da Calixsan Capital Management LLC, são os responsáveis pelo fundo. Calixto acumula a função de advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro nos EUA e, segundo as apurações, foi o administrador dos recursos repassados por Vorcaro. A sobreposição de papéis, o histórico do fundo como projeto imobiliário sem execução e a conexão da empresa intermediária com um veículo investigado por movimentar dinheiro do PCC compõem o quadro que a Polícia Federal agora tenta destrinchar.

•        Flávio e Eduardo Bolsonaro juntos nos EUA: a esperança para conter crise

viagem do senador e pré-candidato ao Palácio do Planalto Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, prevista para a próxima semana, ganhou um significado político adicional dentro de sua equipe. Mais do que participar de uma audiência comercial em Washington, aliados avaliam que o deslocamento pode representar uma oportunidade para conter desgastes recentes e reordenar a estratégia de comunicação da campanha, especialmente após a crise pública envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

A expectativa é que Flávio aproveite a estadia na capital americana para se reunir com o irmão, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, que permanece nos Estados Unidos. Integrantes da pré-campanha defendem que haja maior coordenação entre o senador e o grupo político e de influenciadores que orbitam Eduardo, considerado uma das principais referências da militância bolsonarista nas redes sociais.

O senador participará, em 6 de julho, de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que discutirá a proposta americana de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Nos bastidores, porém, a pauta política doméstica tem ocupado espaço tão relevante quanto a agenda oficial.

Segundo interlocutores da campanha, a recente crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro expôs a dificuldade de controlar manifestações de aliados e influenciadores que, embora não integrem formalmente a coordenação da campanha, acabam associando suas declarações à candidatura do senador. A avaliação é que episódios dessa natureza têm potencial para comprometer esforços de expansão eleitoral, sobretudo entre mulheres.

<><> Paulo Figueiredo

Um dos casos que mais geraram preocupação dentro do grupo político foi a repercussão das declarações do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que mulheres “votam muito mal” e sugeriu que eleitoras casadas costumam seguir a orientação política dos maridos. A fala provocou reação negativa inclusive entre dirigentes e parlamentares do Partido Liberal.

Assessores de Flávio relatam que pesquisas internas e monitoramentos digitais identificaram forte rejeição às declarações. Levantamentos compartilhados com a campanha apontaram que mais de 80% das manifestações sobre o tema apresentaram percepção negativa, extrapolando o ambiente tradicional da militância política e alcançando setores mais amplos do eleitorado.

O episódio ocorreu justamente quando a campanha buscava intensificar a aproximação com o eleitorado feminino. Nos últimos dias, Flávio passou a dedicar parte significativa de sua agenda a encontros com lideranças conservadoras e parlamentares para discutir propostas voltadas às mulheres e formas de reduzir a resistência identificada por pesquisas qualitativas.

A repercussão das declarações de Paulo Figueiredo também ampliou o desconforto entre aliados de Michelle Bolsonaro. Integrantes desse grupo avaliam que o desgaste não decorreu apenas da fala do influenciador, mas também da demora do senador em repudiar publicamente os ataques dirigidos à ex-primeira-dama e a outras mulheres ligadas ao bolsonarismo.

<><> Damares

A senadora Damares Alves foi uma das vozes que se manifestaram sobre o tema. Sem mencionar nominalmente Flávio, ela afirmou que aqueles que se omitem diante de ataques contra mulheres acabam se tornando “coniventes” com esse tipo de comportamento.

Na quarta-feira, durante encontro com parlamentares e lideranças femininas conservadoras em Brasília, Flávio Bolsonaro decidiu abordar diretamente a polêmica e rejeitou qualquer associação entre sua campanha e as declarações de Paulo Figueiredo.

“Quero repudiar a fala do Paulo Figueiredo. Não concordo com o que ele falou. Ele trabalha e ajuda dos Estados Unidos, e é por isso que colocam no meu colo uma fala que não é minha. Tenho obrigação de dizer que me senti ofendido. Nunca ele poderia dizer que é culpa das mulheres. Se as pesquisas mostram que elas não estão votando conosco, é falta de competência minha. Temos que melhorar a nossa comunicação e mostrar que as nossas pautas são as que elas defendem.”

<><> Encontro com o irmão

Aliados do senador consideram que o encontro com Eduardo Bolsonaro poderá ser decisivo para estabelecer uma estratégia de comunicação mais coordenada. A preocupação é evitar que novos episódios envolvendo apoiadores, influenciadores ou integrantes do núcleo bolsonarista produzam desgastes adicionais em um momento considerado crucial para a consolidação da candidatura.

Nos bastidores, o próprio Eduardo Bolsonaro passou a ser alvo de críticas reservadas após compartilhar conteúdos relacionados ao conflito com Michelle Bolsonaro. Uma das publicações reproduzidas pelo deputado atribuía à ex-primeira-dama a responsabilidade por prejudicar seu próprio grupo político, gesto interpretado por integrantes da campanha como mais um fator de tensão interna.

 

Fonte: Fórum

 

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