Falência
moral eurocêntrica e o medo do Sul Global
Durante
séculos, a história mundial foi contada a partir de um centro. Esse centro teve
muitos nomes: Europa, civilização ocidental, Atlântico Norte, mundo livre,
comunidade internacional. Mas, por trás das palavras elegantes, havia uma
estrutura concreta de poder. A Europa colonizou territórios, extraiu riquezas,
classificou povos, hierarquizou culturas e impôs ao restante do planeta a ideia
de que sua experiência histórica seria a medida universal da humanidade.
Edward
Said demonstrou que o Oriente foi frequentemente inventado pelo Ocidente como
espaço exótico, atrasado e incapaz de narrar a si mesmo (Said, 2007). Aníbal
Quijano, por sua vez, mostrou que a colonialidade do poder não terminou com o
fim formal do colonialismo, pois continuou operando na economia, no
conhecimento, nas instituições e nas formas de classificação racial e cultural
do mundo (Quijano, 2005). Em outras palavras: a dominação colonial não foi
apenas militar e econômica; foi também epistemológica.
O que
está mudando agora é que essa velha gramática já não funciona com a mesma
força. O Sul Global deixou de ser apenas uma categoria geográfica. Tornou-se
uma categoria política. Não representa um bloco homogêneo, nem um campo puro de
virtudes. Há contradições, disputas internas, desigualdades e projetos
distintos. Ainda assim, a expressão indica algo decisivo: países antes tratados
como periferia começam a reivindicar voz própria na ordem internacional.
A
ampliação dos BRICS simboliza esse deslocamento. O grupo reúne Brasil, Rússia,
Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos,
Etiópia, Indonésia e Irã, sendo apresentado oficialmente como fórum de
coordenação política e diplomática de países do Sul Global . Não se trata
de afirmar que os BRICS substituirão automaticamente a ordem ocidental por uma
ordem justa. Mas sua existência ampliada revela que a arquitetura do poder
mundial já não cabe mais no velho desenho euro-americano.
O
incômodo nasce exatamente daí. O Ocidente não teme apenas perder mercados. Teme
perder a autoridade simbólica de definir o que é democracia, desenvolvimento,
progresso, civilização e racionalidade.
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O luto da onipotência ocidental
A crise
do eurocentrismo não significa que Estados Unidos e Europa tenham deixado de
ser poderosos. Continuam concentrando poder militar, financeiro, tecnológico,
cultural e midiático. O ponto é outro: já não conseguem transformar esse poder
automaticamente em obediência.
Durante
boa parte do século XX, a hegemonia ocidental combinou coerção e sedução. A
coerção vinha das guerras, golpes, bases militares, sanções e organismos
financeiros. A sedução vinha das universidades, do cinema, do consumo, da
promessa liberal de liberdade individual e da ideia de que o Ocidente
representaria o estágio mais avançado da civilização.
Essa
combinação está se desgastando. Quando a sedução enfraquece, a coerção aparece
com menos maquiagem. É nesse contexto que Donald Trump deve ser compreendido
não como acidente, mas como sintoma. Ele explicita, em linguagem brutal, aquilo
que por muito tempo foi administrado com diplomacia: a nostalgia imperial, o
ressentimento diante da ascensão chinesa, a hostilidade contra migrantes, o
desprezo pelo multilateralismo e a tentativa de reorganizar o mundo por meio de
tarifas, ameaças e chantagens.
A
própria Outras Palavras captou esse fenômeno ao publicar a
análise “Trump e a doença do colonizador ressentido”, texto que parte da ideia
de que, pela primeira vez em séculos, o mundo estaria deixando de ser
eurocêntrico, com novas relações e projetos se esboçando no Sul Global .
A expressão “colonizador ressentido” é precisa porque desloca o debate. Não se
trata apenas de comércio internacional. Trata-se da psicologia política de quem
percebe que já não manda como antes.
O
ressentimento imperial nasce da perda de naturalidade do domínio. O império não
sofre apenas porque encontra resistência. Sofre porque a resistência deixou de
parecer exceção.
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A armadilha de Tucídides em versão cultural
Fala-se
muito da “armadilha de Tucídides” para explicar o risco de conflito entre uma
potência estabelecida e uma potência emergente. O exemplo mais citado é a
tensão entre Estados Unidos e China. Mas talvez exista hoje uma armadilha mais
ampla: não apenas militar, mas cultural e civilizatória.
O
Ocidente não teme apenas a ascensão econômica da China. Teme a possibilidade de
que o mundo funcione sem sua tutela moral. Teme que a África negocie seus
recursos em outros termos. Teme que a América Latina recuse o papel de quintal
estratégico. Teme que o Oriente Médio deixe de ser tratado apenas como zona
energética e militar. Teme que moedas, bancos, cabos, satélites, semicondutores
e plataformas digitais escapem de seu controle.
A
metáfora de Josep Borrell, então chefe da diplomacia europeia, é reveladora. Em
2022, ele comparou a Europa a um “jardim” e grande parte do restante do mundo a
uma “selva” que poderia invadir esse jardim. A frase não foi apenas infeliz.
Foi estrutural. Ela condensou uma visão colonial persistente: a Europa como
ordem, beleza e racionalidade; o outro como ameaça, desordem e perigo.
Essa
metáfora ajuda a entender a política contemporânea das fronteiras, dos muros,
dos campos de refugiados, da seletividade humanitária e da militarização
migratória. O mundo que antes era explorado agora é visto como ameaça quando se
move, reivindica, migra, negocia ou resiste.
Achille
Mbembe ajuda a compreender esse mecanismo ao discutir a necropolítica: a
capacidade de certos poderes decidirem quais vidas são protegidas e quais podem
ser expostas à morte, ao abandono ou à indiferença (Mbembe, 2018). O
colonialismo nunca foi apenas ocupação territorial. Foi também uma pedagogia da
desumanização.
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Gaza e a falência moral da ordem ocidental
Nenhum
tema expôs tão brutalmente a crise moral do Ocidente quanto Gaza. A tragédia
palestina tornou visível a contradição entre o discurso universalista dos
direitos humanos e a prática seletiva da geopolítica ocidental.
Quando
a violência atinge aliados estratégicos, fala-se em civilização, democracia,
ordem internacional e defesa da humanidade. Quando recai sobre povos
historicamente colonizados, a linguagem muda: “danos colaterais”, “direito de
defesa”, “complexidade do conflito”, “segurança regional”.
Esse
duplo padrão não passou despercebido pelo Sul Global. Gaza tornou-se espelho. E
o que esse espelho revela é desconfortável: a ordem internacional liberal nunca
foi verdadeiramente universal. Seu universalismo sempre conviveu com exceções
coloniais.
Frantz
Fanon já havia mostrado que o colonialismo divide o mundo em zonas de
humanidade desigual. De um lado, a cidade do colono; de outro, a cidade do
colonizado. De um lado, direitos, proteção e reconhecimento; de outro,
suspeita, violência e despossessão (Fanon, 1968). Gaza atualiza essa ferida
histórica porque revela que certas vidas continuam sendo consideradas
negociáveis.
O que
está em disputa, portanto, não é apenas território. É o direito de existir fora
da tutela imperial. É o direito de narrar a própria dor. É o direito de não ser
reduzido a obstáculo geopolítico.
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A digitalização do colonialismo
O
colonialismo clássico controlava terra, porto, mina, estrada, plantação e
corpo. O colonialismo contemporâneo controla dados, semicondutores, satélites,
inteligência artificial, plataformas digitais, sistemas de pagamento,
infraestrutura de nuvem e cadeias globais de valor.
A
disputa tecnológica entre Estados Unidos e China mostra essa nova fronteira. As
restrições norte-americanas à exportação de equipamentos e tecnologias de
semicondutores têm como objetivo declarado limitar o avanço chinês em chips
avançados, especialmente aqueles relacionados à inteligência artificial .
Análises recentes indicam que os controles de exportação impostos pelos EUA e
aliados desde 2022 buscaram conter o desenvolvimento chinês em IA e
semicondutores de ponta, embora também tenham acelerado a busca chinesa por
autossuficiência tecnológica .
O
argumento oficial costuma ser “segurança nacional”. Mas a pergunta real é mais
profunda: quem terá o direito de calcular o futuro?
A
soberania tecnológica tornou-se uma dimensão central da soberania política. Um
país dependente de chips estrangeiros, nuvens estrangeiras, sistemas
operacionais estrangeiros, plataformas estrangeiras e modelos de inteligência
artificial estrangeiros não controla plenamente sua economia, sua defesa, sua
educação, sua administração pública nem sua memória social.
Por
isso, o bloqueio tecnológico não é detalhe técnico. É estratégia de poder.
O
Ocidente percebeu que a antiga divisão internacional do trabalho está sendo
questionada. Durante décadas, o Sul Global poderia fornecer minério, petróleo,
alimento, biodiversidade, mão de obra barata e mercado consumidor. Mas não
deveria controlar tecnologias críticas. Não deveria disputar satélites,
inteligência artificial, semicondutores, vacinas, bancos de desenvolvimento,
moedas alternativas ou infraestrutura digital.
Quando
começa a disputar, vira ameaça.
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Trump como sintoma de uma crise maior
Trump
não inventou o imperialismo norte-americano. Não inventou as sanções
econômicas, nem a chantagem comercial, nem o militarismo. Sua novidade está em
retirar parte da maquiagem liberal da dominação. Ele fala como império quando o
império se cansa de fingir que é apenas liderança.
O
“America First” não é apenas nacionalismo. É a confissão de que a globalização
organizada pelos Estados Unidos já não garante automaticamente a supremacia
norte-americana. Durante décadas, Washington defendeu abertura econômica, livre
comércio e integração global porque essas regras favoreciam sua posição
dominante. Quando parte dessas regras passou a favorecer também competidores
estratégicos, especialmente a China, o discurso mudou.
A
agressividade tarifária, o protecionismo seletivo, a pressão sobre aliados e a
hostilidade contra instituições multilaterais expressam esse impasse. Menos
hegemonia, mais intimidação. Menos consenso, mais coerção. Menos universalismo,
mais fronteira. Menos diplomacia, mais ameaça.
Giovanni
Arrighi já havia analisado os ciclos sistêmicos de acumulação e a forma como
potências hegemônicas entram em crise quando sua capacidade produtiva e
organizadora se desloca para outros centros (Arrighi, 1996). A crise
norte-americana não significa colapso imediato, mas perda de capacidade de
comandar o sistema mundial com a mesma estabilidade de antes.
É
justamente por isso que o período atual é perigoso. Como observa José Luís
Fiori em análise publicada na Outras Palavras, impérios em declínio
podem apostar na guerra sem fim como tentativa de prolongar sua
centralidade .
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O Sul Global não é pureza: é disputa
É
preciso evitar uma romantização ingênua do Sul Global. Nenhum país é moralmente
superior por sua posição geográfica. Há autoritarismos, desigualdades, elites
predatórias, conflitos internos, nacionalismos agressivos e projetos
contraditórios também fora do Ocidente.
A
questão não é trocar uma idealização por outra. O ponto é reconhecer que a
ordem mundial não pode continuar organizada como se uma pequena parte do
planeta tivesse o direito natural de definir o destino de todas as outras.
Boaventura
de Sousa Santos propõe a ideia de “ecologia de saberes” para enfrentar a
monocultura do conhecimento moderno ocidental (Santos, 2010). Essa noção é
importante porque desloca a crítica do plano meramente geopolítico para o plano
civilizatório. Não basta redistribuir poder entre Estados. É preciso
redistribuir também legitimidade entre formas de conhecimento, experiências
históricas e projetos de futuro.
O Sul
Global, nesse sentido, não deve desejar apenas ocupar o centro. Deve questionar
a própria ideia de centro.
A
verdadeira alternativa ao eurocentrismo não é um novo império com outra
bandeira. É uma ordem plural, na qual diferentes povos possam negociar,
cooperar e divergir sem que uma potência se apresente como professora universal
da humanidade.
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Para além da resistência: construir outra gramática de mundo
A
resistência ao eurocentrismo é necessária, mas insuficiente. O grande desafio é
construir.
Construir
integração regional. Construir soberania alimentar. Construir soberania
energética. Construir infraestrutura digital própria. Construir ciência
pública. Construir cooperação Sul-Sul. Construir bancos de desenvolvimento
capazes de financiar projetos não subordinados à lógica predatória do
endividamento. Construir uma transição ecológica que não transforme o Sul
Global apenas em fornecedor de minerais críticos para o capitalismo verde do
Norte.
Essa
construção exige imaginação política. Não basta denunciar a hipocrisia
ocidental. É preciso produzir instituições, tecnologias, alianças e formas de
vida que não repitam a mesma lógica de dominação.
A crise
do eurocentrismo abre uma fresta histórica. Mas frestas podem se fechar. Podem
gerar emancipação ou barbárie. Podem abrir caminho para uma ordem mais
democrática ou para uma disputa brutal entre potências.
É por
isso que o tema não é apenas geopolítico. É ético.
A
pergunta decisiva não é somente quem mandará no mundo depois do declínio
ocidental. A pergunta mais profunda é se o mundo ainda precisará ser comandado
por alguém.
Conclusão:
o verdadeiro medo do império
O
Ocidente está mais agressivo porque está com medo. Medo de perder mercados.
Medo de perder influência. Medo de perder superioridade tecnológica. Medo de
perder o monopólio da narrativa. Medo de descobrir que sua história universal
era, em grande parte, uma história regional sustentada por força militar,
acumulação colonial e controle financeiro.
Esse
medo pode produzir monstros: guerras, sanções, bloqueios, fascismos, xenofobia,
colonialismo digital, militarização de fronteiras e destruição de instituições
multilaterais. Mas também pode revelar uma oportunidade histórica.
Pela
primeira vez em muito tempo, a humanidade talvez possa discutir o futuro sem
aceitar que uma pequena parte do planeta fale em nome de todas as outras. O Sul
Global não é solução automática, nem bloco puro, nem promessa messiânica. Mas é
hoje o nome político de uma pergunta decisiva: e se o mundo não precisar mais
de um centro?
Esse é
o verdadeiro medo do império acuado. Não é apenas perder o trono. É descobrir
que o trono talvez não seja mais necessário.
Fonte: Por
Eduardo Vasconcelos, em Outras Palavras

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