Paulo
Henrique Arantes: País que tem Michelle Bolsonaro também tem Padre Júlio
Lancellotti
No
âmbito da direita brasileira, Michelle Bolsonaro é quem capta — e exerce — com
mais desenvoltura o discurso falso-moralista, predominante entre evangélicos,
porém presente em fiéis de todas as religiões. Daí sua relevância
político-eleitoral. Autoatribuir-se missão evangelizadora, exaltar valores
conservadores que orientam as famílias ditas tradicionais — pai provedor, mãe
submissa e filhos encurralados — atrai eleitores desprovidos de percepção
crítica, seguidores cegos de tudo que lhes foi vendido por gerações anteriores
como inquestionável. São soldados da perpetuação de preconceitos.
O mais
interessante no “fenômeno” Michelle é que a família a que ela pertence
constitui um exemplo de desestruturação e desamor, como não poderia deixar de
ser qualquer grupo encabeçado por Jair Bolsonaro. Até vídeo em rede social
confrontando um enteado ela posta, se isso atender à sua estratégia eleitoral.
No lar bolsonarista, ninguém respeita ninguém, ninguém confia em ninguém,
ninguém suporta ninguém, como resta público, evidente e notório. Não há
escrutínio moral que avalize a família Bolsonaro.
A
explicação para o potencial eleitoral da ex-primeira-dama talvez seja a
absoluta suscetibilidade de milhões de brasileiros ao charlatanismo religioso —
ela não é uma sacerdotisa, mas porta-se como tal. Os charlatães da religião,
eis a chave, revelam-se mestres da politicalha, e Michelle lhes serve como
instrumento ideal, tanto mais para aqueles que interpretam o sucesso material
como bênção de Deus. O foco na prosperidade gera uma ética elástica na qual
ostentação e métodos financeiros agressivos de lideranças são justificados como
sinais de unção, blindando figuras públicas de críticas morais sobre a origem
de suas fortunas — vide Eduardo Cunha, Milton Ribeiro, Pastor Everaldo e
outros.
Historicamente,
o protestantismo europeu e norte-americano teve alas fortemente engajadas em
reformas sociais, direitos civis e combate à pobreza. No Brasil, a identidade
evangélica majoritária — não toda — canalizou sua energia para a moralidade
sexual e familiar, numa verdadeira cruzada contra o aborto e o casamento
homoafetivo, entre outros temas. Ao reduzir o conceito de pecado a
comportamentos sexuais, os evangélicos criaram uma blindagem: políticos e
líderes podem cometer crimes de corrupção, lavagem de dinheiro ou improbidade
administrativa sem perder o apoio da base, desde que mantenham um discurso
público inflamado em defesa da “família tradicional”.
De
outra parte, é assustador que pessoas que se dizem aferradas à palavra de Deus
nutram tanto ódio por cristãos sensíveis ao sofrimento humano, como é o Padre
Júlio Lancellotti, alguém que se ocupa de levar uma dose de conforto aos
desafortunados.
O
episódio mais recente de perseguição ao Padre Júlio foi a criação de uma CPI na
Câmara Municipal de São Paulo para investigar ONGs que, ao lado dele, realizam
serviços sociais na capital. O autor do pedido foi o vereador Rubinho Nunes, do
União Brasil, integrante do bloco conservador ligado ao bolsonarismo. A lista
original de vereadores paulistanos que assinaram o requerimento para abrir a
investigação contou com forte apoio de parlamentares declaradamente
bolsonaristas, de PL, Republicanos e PP. Diante da enorme repercussão negativa
e da pressão da Igreja Católica, diversos parlamentares recuaram e retiraram
suas assinaturas. A CPI não emplacou.
Embora
Michelle Bolsonaro não tenha assinado diretamente ações locais na capital
paulista, os atores políticos envolvidos na perseguição ao Padre Júlio
pertencem ao mesmo ecossistema político dela, defendem a mesma agenda
conservadora e, para amenizar o sofrimento dos miseráveis, nada fazem nem
jamais fizeram.
As
perseguições e as fake news sobre o Padre Júlio Lancellotti não vêm de hoje. Em
2020 e, novamente, no início de 2024, criminosos de falsa-fé tentaram emplacar
um vídeo gravado de uma tela de computador no qual um homem, supostamente o
sacerdote católico, realizava atos sexuais. Políticos ligados ao MBL e
parlamentares municipais paulistas tentaram utilizar o material para
impulsionar denúncias e criar uma CPI. Tratava-se de uma gravação fraudulenta e
manipulada, sem qualquer comprovação de materialidade ou autenticidade. A
Arquidiocese de São Paulo arquivou formalmente as investigações internas após o
Ministério Público do Estado de São Paulo e a Justiça paulista atestarem a
falsidade da acusação.
Circulam
de forma recorrente, em grupos de mensagens, postagens afirmando que a Pastoral
de Rua do Padre Júlio distribui seringas novas, cachimbos e fomento financeiro
para que dependentes químicos permaneçam consumindo drogas pelas ruas de São
Paulo. Na verdade, projeto coordenado pelo padre realiza ações de redução de
danos à saúde, fornecimento de alimentos, roupas, cobertores e assessoria
jurídica. Campanhas de desinformação deturpam os preceitos científicos da
redução de danos — como a prevenção de infecções graves por HIV e hepatites —
para acusar o pároco de colaborar intencionalmente com o tráfico de drogas.
Vale
recordar: em 2017, o deputado Jair Bolsonaro processou Lancellotti após o
religioso tê-lo chamado de “racista, machista e homofóbico” em um sermão. A
Justiça do Rio de Janeiro julgou a ação improcedente, garantindo o direito à
liberdade de expressão e crítica do sacerdote. No fim do seu mandato
presidencial, em dezembro de 2022, Bolsonaro vetou integralmente o projeto de
lei batizado com o nome do padre, que proibia o uso de “arquitetura hostil” —
como espetos e pedras sob viadutos — contra pessoas em situação de rua. O veto
foi posteriormente derrubado pelo Congresso.
A
figura do Padre Júlio Lancellotti emerge quando se fala de Michelle Bolsonaro
porque o contraste entre ambos é demonstrativo da verdadeira polarização em
voga no Brasil. Ela, pré-candidata ao Senado ou a outro cargo qualquer, possui
as qualidades que inspiram aqueles que, historicamente, semeiam e perpetuam
nossas desigualdades, nossos preconceitos e nossa hipocrisia. Ele, livre de
aspirações eleitorais, representa um país que pratica uma religiosidade
proativa pelos excluídos, por sua dignidade na Terra antes da salvação nos
céus.
• Michelle e o Quarteto Fantástico da
extrema direita, Por Marconi Moura de Lima
Quem
são os personagens “anti-heroicos” desta tosca novela da extrema direita
brasileira que desejamos estudar para a conjuntura? Silas Malafaia, o pastor;
Nikolas Ferreira, o golden boy das Big Techs no Brasil; André Mendonça, o juiz
[poderosíssimo juiz do STF]; e Michelle Bolsonaro, a perigosa atriz política do
momento.
Primeiramente,
o vídeo devastador de Michelle implodindo a campanha de Flávio Bolsonaro por
dentro da bolha deles não vem na coincidência dos tempos. É planejamento com
método muito bem articulado, inclusive na suspeita de se ter a intervenção de
outro “Steve Bannon” da pós-ultracontemporaneidade extremista no mundo (vide
eleições vencidas pelo campo na América Latina nos últimos dias).
O filme
“dark” da Mi foi milimetricamente calculado para sua divulgação após Flávio se
embrenhar na fossa fétida do dinheiro do Banco Master/Vorcaro para meia dúzia
de crimes que a Polícia Federal ainda apresentará à nação.
O vídeo
dela surge exatamente no instante dos acréscimos do jogo do ministro André
Mendonça [STF] que, mesmo sabendo das sujeiras dos senadores Alcolumbre, Ciro
Nogueira e do próprio Flávio junto ao escândalo do Master/Vorcaro, preferiu
cirurgicamente impor uma busca e apreensão nos endereços de apenas um senador,
e não foi qualquer destes apontados acima, todavia, de um dos melhores amigos
do Lula, Jaques Wagner (PT-BA).
A
película carregada das falácias de Michelle ocorre quando o todo-poderoso,
estridente e crente pastor Silas Malafaia resolve partir com tudo para cima de
Flávio, a exigir coerência junto à política e à sociedade evangélica (os
cristãos e os fariseus), afirmando — em paráfrase — que o Zero Um não tem moral
para ser representante da direita por se enveredar na mesma corrupção que,
segundo o barulhento, deveria combater [a esquerda].
O vídeo
da ex-primeira-dama de tantos Bolsonaros e Costas Netos se conecta às
interlocuções de Nikolas Ferreira, o maior disseminador de fake news do Brasil
e que tem a mais potente ressonância por força de deliberação dos prepostos no
País de Mark Zuckerberg (Facebook, WhatsApp), Elon Musk (antigo Twitter/X,
Starlink), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google) e outros magnatas das
Big Techs, as novas “donas do mundo”. (Lembremos que um vídeo do deputado
mentindo sobre o Pix e relacionando a crise ao presidente Lula chegou a mais de
300 milhões de visualizações. Ora, a população brasileira é de 212 milhões de
pessoas. Portanto, este vídeo jamais chegaria a tantos “views” não fossem os
“anabolizantes” das Big Techs nos algoritmos ao esforço de derrubar um governo,
ou os governos progressistas no planeta).
Feitas
as constatações, vamos às especulações (por ora, somente isto é possível
interpretar, do ou de fato).
Ao que
parece, uma ala do bolsonarismo (epíteto para desqualificar a extrema direita
destes tempos sombrios) resolveu se insurgir contra os filhos de Bolsonaro. E
esta ala ou está sendo liderada ou usando a esposa de Bolsonaro, Michelle, para
dividir os blocos do carnaval macabro dessa gente.
Um
parêntese necessário: será que Jair já morreu? Não fisicamente. Ele está bem
vivo. Mas, por depressão ou por alguma outra punição da vida, desistiu o
sujeito de viver e intervir na política? Será que ele opina em casa com a
esposa sobre os “videozinhos” dela e os “videozinhos” dos filhos deste zumbi
político, ambos se enfrentando no “Coliseu” das redes sociais? De que lado este
moribundo está, afinal: dos seus “Zeros” isso/aquilo, ou da ex-atual esposa?
Retomando
a espetacularização. A sorte do campo progressista é que mafiosos são como
hienas que disputam território como predadores ensandecidos. A extrema direita,
lugar de seres monstruosos que brigam entre si pelo poder e pela luxúria, não
para de brigar (por mais território). E nós, claro, torcemos pela briga.
Contudo,
tem algo sujo que ainda não está evidente nesta briga de Michelle com os
membros da familícia. Ou os marqueteiros da terceira-dama realmente sabem que
Lula tem chances de levar a eleição deste ano já no primeiro turno e vão se
“guardar” para a eleição de 2030 — preservando uma parcela dos quase 30% de
fanáticos que não largam o sobrenome “Bolsonaro” —, ou Michelle está
trabalhando — exatamente pelo contrário — para se desgrudar deste clã falido
(se falindo) do espólio eleitoral, e opera para se aproximar da direita
tradicional, dos “sapatênis-ruralistas” como Eduardo Leite, Caiado, Ratinho
Junior etc., a fim de viabilizar outro projeto de poder.
Michelle
não está bancando esta briga extremamente perigosa (para seu projeto político)
por pudor ou dignidade. Não! Estes valores a líder do PL Mulher quase nunca
teve na vida conhecida do público lúcido. Não seria agora que primaria por
estes fatores. É um jogo estranho, mas um mover de peças no tabuleiro da
política. E vamos compreender tão logo qual é a estratégia que coincide com a
amarração de pontas complexas, a saber, ter na esposa de Bolsonaro (o “dono”
dos votos neoconservadores), no pastor evangélico mais ressonante da política,
no jovem deputado que caiu nas graças do poder do Vale do Silício e no ministro
mais poderoso desta quadra temporal na Suprema Corte, a formação de um Quarteto
Fantástico botando fogo no cabaré fascista que pode — sem querer — “salvar” a
República de sofrer com outra pornochanchada eleitoral “dark horse”…
……………………….
Notas
de consideração
[1]
Apesar de citar os quatro personagens principais acima, há dezenas, talvez
centenas de outros líderes importantes na política e de outras instâncias das
elites seguindo Michelle e “abandonando” Flávio na segunda via eleitoral.
[2]
Esta perspectiva semiótica que utilizamos de ter quatro pontas representadas
(cristãos extremistas; sistema de justiça elitista; políticos ideológicos
fascistas; e magnatas do novo capitalismo) ainda merece atenção, no caso do
Brasil, de que os pleitos eleitorais em solo pátrio não se desvestem da
plutocracia tradicional, qual seja, dos poderosos da Faria Lima (banqueiros,
latifundiários, industriais, além de outros) como compradores de políticos para
arrematar seus interesses, sangrando o Estado e a classe trabalhadora ao
limite.
Para
Michelle se viabilizar como candidata a presidenta da República — se esta for
sua intenção —, ainda lhe falta convencer os “Faria Limers”.
Fonte:
Brasil 247

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