sexta-feira, 3 de julho de 2026

Paulo Henrique Arantes: País que tem Michelle Bolsonaro também tem Padre Júlio Lancellotti

No âmbito da direita brasileira, Michelle Bolsonaro é quem capta — e exerce — com mais desenvoltura o discurso falso-moralista, predominante entre evangélicos, porém presente em fiéis de todas as religiões. Daí sua relevância político-eleitoral. Autoatribuir-se missão evangelizadora, exaltar valores conservadores que orientam as famílias ditas tradicionais — pai provedor, mãe submissa e filhos encurralados — atrai eleitores desprovidos de percepção crítica, seguidores cegos de tudo que lhes foi vendido por gerações anteriores como inquestionável. São soldados da perpetuação de preconceitos.

O mais interessante no “fenômeno” Michelle é que a família a que ela pertence constitui um exemplo de desestruturação e desamor, como não poderia deixar de ser qualquer grupo encabeçado por Jair Bolsonaro. Até vídeo em rede social confrontando um enteado ela posta, se isso atender à sua estratégia eleitoral. No lar bolsonarista, ninguém respeita ninguém, ninguém confia em ninguém, ninguém suporta ninguém, como resta público, evidente e notório. Não há escrutínio moral que avalize a família Bolsonaro.

A explicação para o potencial eleitoral da ex-primeira-dama talvez seja a absoluta suscetibilidade de milhões de brasileiros ao charlatanismo religioso — ela não é uma sacerdotisa, mas porta-se como tal. Os charlatães da religião, eis a chave, revelam-se mestres da politicalha, e Michelle lhes serve como instrumento ideal, tanto mais para aqueles que interpretam o sucesso material como bênção de Deus. O foco na prosperidade gera uma ética elástica na qual ostentação e métodos financeiros agressivos de lideranças são justificados como sinais de unção, blindando figuras públicas de críticas morais sobre a origem de suas fortunas — vide Eduardo Cunha, Milton Ribeiro, Pastor Everaldo e outros.

Historicamente, o protestantismo europeu e norte-americano teve alas fortemente engajadas em reformas sociais, direitos civis e combate à pobreza. No Brasil, a identidade evangélica majoritária — não toda — canalizou sua energia para a moralidade sexual e familiar, numa verdadeira cruzada contra o aborto e o casamento homoafetivo, entre outros temas. Ao reduzir o conceito de pecado a comportamentos sexuais, os evangélicos criaram uma blindagem: políticos e líderes podem cometer crimes de corrupção, lavagem de dinheiro ou improbidade administrativa sem perder o apoio da base, desde que mantenham um discurso público inflamado em defesa da “família tradicional”.

De outra parte, é assustador que pessoas que se dizem aferradas à palavra de Deus nutram tanto ódio por cristãos sensíveis ao sofrimento humano, como é o Padre Júlio Lancellotti, alguém que se ocupa de levar uma dose de conforto aos desafortunados.

O episódio mais recente de perseguição ao Padre Júlio foi a criação de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo para investigar ONGs que, ao lado dele, realizam serviços sociais na capital. O autor do pedido foi o vereador Rubinho Nunes, do União Brasil, integrante do bloco conservador ligado ao bolsonarismo. A lista original de vereadores paulistanos que assinaram o requerimento para abrir a investigação contou com forte apoio de parlamentares declaradamente bolsonaristas, de PL, Republicanos e PP. Diante da enorme repercussão negativa e da pressão da Igreja Católica, diversos parlamentares recuaram e retiraram suas assinaturas. A CPI não emplacou.

Embora Michelle Bolsonaro não tenha assinado diretamente ações locais na capital paulista, os atores políticos envolvidos na perseguição ao Padre Júlio pertencem ao mesmo ecossistema político dela, defendem a mesma agenda conservadora e, para amenizar o sofrimento dos miseráveis, nada fazem nem jamais fizeram.

As perseguições e as fake news sobre o Padre Júlio Lancellotti não vêm de hoje. Em 2020 e, novamente, no início de 2024, criminosos de falsa-fé tentaram emplacar um vídeo gravado de uma tela de computador no qual um homem, supostamente o sacerdote católico, realizava atos sexuais. Políticos ligados ao MBL e parlamentares municipais paulistas tentaram utilizar o material para impulsionar denúncias e criar uma CPI. Tratava-se de uma gravação fraudulenta e manipulada, sem qualquer comprovação de materialidade ou autenticidade. A Arquidiocese de São Paulo arquivou formalmente as investigações internas após o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Justiça paulista atestarem a falsidade da acusação.

Circulam de forma recorrente, em grupos de mensagens, postagens afirmando que a Pastoral de Rua do Padre Júlio distribui seringas novas, cachimbos e fomento financeiro para que dependentes químicos permaneçam consumindo drogas pelas ruas de São Paulo. Na verdade, projeto coordenado pelo padre realiza ações de redução de danos à saúde, fornecimento de alimentos, roupas, cobertores e assessoria jurídica. Campanhas de desinformação deturpam os preceitos científicos da redução de danos — como a prevenção de infecções graves por HIV e hepatites — para acusar o pároco de colaborar intencionalmente com o tráfico de drogas.

Vale recordar: em 2017, o deputado Jair Bolsonaro processou Lancellotti após o religioso tê-lo chamado de “racista, machista e homofóbico” em um sermão. A Justiça do Rio de Janeiro julgou a ação improcedente, garantindo o direito à liberdade de expressão e crítica do sacerdote. No fim do seu mandato presidencial, em dezembro de 2022, Bolsonaro vetou integralmente o projeto de lei batizado com o nome do padre, que proibia o uso de “arquitetura hostil” — como espetos e pedras sob viadutos — contra pessoas em situação de rua. O veto foi posteriormente derrubado pelo Congresso.

A figura do Padre Júlio Lancellotti emerge quando se fala de Michelle Bolsonaro porque o contraste entre ambos é demonstrativo da verdadeira polarização em voga no Brasil. Ela, pré-candidata ao Senado ou a outro cargo qualquer, possui as qualidades que inspiram aqueles que, historicamente, semeiam e perpetuam nossas desigualdades, nossos preconceitos e nossa hipocrisia. Ele, livre de aspirações eleitorais, representa um país que pratica uma religiosidade proativa pelos excluídos, por sua dignidade na Terra antes da salvação nos céus.

•        Michelle e o Quarteto Fantástico da extrema direita, Por Marconi Moura de Lima

Quem são os personagens “anti-heroicos” desta tosca novela da extrema direita brasileira que desejamos estudar para a conjuntura? Silas Malafaia, o pastor; Nikolas Ferreira, o golden boy das Big Techs no Brasil; André Mendonça, o juiz [poderosíssimo juiz do STF]; e Michelle Bolsonaro, a perigosa atriz política do momento.

Primeiramente, o vídeo devastador de Michelle implodindo a campanha de Flávio Bolsonaro por dentro da bolha deles não vem na coincidência dos tempos. É planejamento com método muito bem articulado, inclusive na suspeita de se ter a intervenção de outro “Steve Bannon” da pós-ultracontemporaneidade extremista no mundo (vide eleições vencidas pelo campo na América Latina nos últimos dias).

O filme “dark” da Mi foi milimetricamente calculado para sua divulgação após Flávio se embrenhar na fossa fétida do dinheiro do Banco Master/Vorcaro para meia dúzia de crimes que a Polícia Federal ainda apresentará à nação.

O vídeo dela surge exatamente no instante dos acréscimos do jogo do ministro André Mendonça [STF] que, mesmo sabendo das sujeiras dos senadores Alcolumbre, Ciro Nogueira e do próprio Flávio junto ao escândalo do Master/Vorcaro, preferiu cirurgicamente impor uma busca e apreensão nos endereços de apenas um senador, e não foi qualquer destes apontados acima, todavia, de um dos melhores amigos do Lula, Jaques Wagner (PT-BA).

A película carregada das falácias de Michelle ocorre quando o todo-poderoso, estridente e crente pastor Silas Malafaia resolve partir com tudo para cima de Flávio, a exigir coerência junto à política e à sociedade evangélica (os cristãos e os fariseus), afirmando — em paráfrase — que o Zero Um não tem moral para ser representante da direita por se enveredar na mesma corrupção que, segundo o barulhento, deveria combater [a esquerda].

O vídeo da ex-primeira-dama de tantos Bolsonaros e Costas Netos se conecta às interlocuções de Nikolas Ferreira, o maior disseminador de fake news do Brasil e que tem a mais potente ressonância por força de deliberação dos prepostos no País de Mark Zuckerberg (Facebook, WhatsApp), Elon Musk (antigo Twitter/X, Starlink), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google) e outros magnatas das Big Techs, as novas “donas do mundo”. (Lembremos que um vídeo do deputado mentindo sobre o Pix e relacionando a crise ao presidente Lula chegou a mais de 300 milhões de visualizações. Ora, a população brasileira é de 212 milhões de pessoas. Portanto, este vídeo jamais chegaria a tantos “views” não fossem os “anabolizantes” das Big Techs nos algoritmos ao esforço de derrubar um governo, ou os governos progressistas no planeta).

Feitas as constatações, vamos às especulações (por ora, somente isto é possível interpretar, do ou de fato).

Ao que parece, uma ala do bolsonarismo (epíteto para desqualificar a extrema direita destes tempos sombrios) resolveu se insurgir contra os filhos de Bolsonaro. E esta ala ou está sendo liderada ou usando a esposa de Bolsonaro, Michelle, para dividir os blocos do carnaval macabro dessa gente.

Um parêntese necessário: será que Jair já morreu? Não fisicamente. Ele está bem vivo. Mas, por depressão ou por alguma outra punição da vida, desistiu o sujeito de viver e intervir na política? Será que ele opina em casa com a esposa sobre os “videozinhos” dela e os “videozinhos” dos filhos deste zumbi político, ambos se enfrentando no “Coliseu” das redes sociais? De que lado este moribundo está, afinal: dos seus “Zeros” isso/aquilo, ou da ex-atual esposa?

Retomando a espetacularização. A sorte do campo progressista é que mafiosos são como hienas que disputam território como predadores ensandecidos. A extrema direita, lugar de seres monstruosos que brigam entre si pelo poder e pela luxúria, não para de brigar (por mais território). E nós, claro, torcemos pela briga.

Contudo, tem algo sujo que ainda não está evidente nesta briga de Michelle com os membros da familícia. Ou os marqueteiros da terceira-dama realmente sabem que Lula tem chances de levar a eleição deste ano já no primeiro turno e vão se “guardar” para a eleição de 2030 — preservando uma parcela dos quase 30% de fanáticos que não largam o sobrenome “Bolsonaro” —, ou Michelle está trabalhando — exatamente pelo contrário — para se desgrudar deste clã falido (se falindo) do espólio eleitoral, e opera para se aproximar da direita tradicional, dos “sapatênis-ruralistas” como Eduardo Leite, Caiado, Ratinho Junior etc., a fim de viabilizar outro projeto de poder.

Michelle não está bancando esta briga extremamente perigosa (para seu projeto político) por pudor ou dignidade. Não! Estes valores a líder do PL Mulher quase nunca teve na vida conhecida do público lúcido. Não seria agora que primaria por estes fatores. É um jogo estranho, mas um mover de peças no tabuleiro da política. E vamos compreender tão logo qual é a estratégia que coincide com a amarração de pontas complexas, a saber, ter na esposa de Bolsonaro (o “dono” dos votos neoconservadores), no pastor evangélico mais ressonante da política, no jovem deputado que caiu nas graças do poder do Vale do Silício e no ministro mais poderoso desta quadra temporal na Suprema Corte, a formação de um Quarteto Fantástico botando fogo no cabaré fascista que pode — sem querer — “salvar” a República de sofrer com outra pornochanchada eleitoral “dark horse”…

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Notas de consideração

[1] Apesar de citar os quatro personagens principais acima, há dezenas, talvez centenas de outros líderes importantes na política e de outras instâncias das elites seguindo Michelle e “abandonando” Flávio na segunda via eleitoral.

[2] Esta perspectiva semiótica que utilizamos de ter quatro pontas representadas (cristãos extremistas; sistema de justiça elitista; políticos ideológicos fascistas; e magnatas do novo capitalismo) ainda merece atenção, no caso do Brasil, de que os pleitos eleitorais em solo pátrio não se desvestem da plutocracia tradicional, qual seja, dos poderosos da Faria Lima (banqueiros, latifundiários, industriais, além de outros) como compradores de políticos para arrematar seus interesses, sangrando o Estado e a classe trabalhadora ao limite.

Para Michelle se viabilizar como candidata a presidenta da República — se esta for sua intenção —, ainda lhe falta convencer os “Faria Limers”.

 

Fonte: Brasil 247

 

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