Clima:
A necessária reparação aos povos negros
A
disputa global sobre financiamento climático entrou em uma nova fase após a
realização da COP30, em Belém. Em meio ao agravamento da crise ambiental, ao
avanço das desigualdades raciais e às limitações dos atuais mecanismos
multilaterais, organizações negras passaram a defender mudanças estruturais na
forma como os recursos internacionais são distribuídos.
Construída
pela Coalizão Internacional para a Defesa, Conservação e Proteção dos
Territórios, Meio Ambiente, Uso da Terra e Mudanças Climáticas dos Povos e
Comunidades Afrodescendentes da América Latina e do Caribe (CITAFRO) a proposta
reivindica acesso direto ao financiamento climático, reconhecimento territorial
e participação efetiva das comunidades negras na governança global sobre clima
e biodiversidade.
A
abordagem foi consolidada no documento “Estratégia de Financiamento Climático
sob a Perspectiva Afrodescendente na América Latina e no Caribe”, elaborado por
organizações afrodescendentes que participaram das articulações internacionais
em torno da 30ª Conferência do clima e dos debates vinculados à
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC). O texto
propõe a criação de um “Mecanismo Afrodescendente de Financiamento Direto”
(MAFD), estrutura voltada a garantir acesso direto, simplificado e permanente
aos recursos climáticos internacionais para comunidades negras e quilombolas da
região.
A
proposta parte do reconhecimento de que as populações afrodescendentes são
sujeitos coletivos de direitos e desempenham papel estratégico na preservação
ambiental do continente. Atualmente, representam cerca de 153,7 milhões de
pessoas – aproximadamente 23,7% da população latino-americana e caribenha –
ocupando mais de 205 milhões de hectares distribuídos em 16 países. Esses
territórios concentram florestas, manguezais, maretórios, áreas úmidas, zonas
agrícolas e ecossistemas fundamentais para a manutenção da biodiversidade
global.
Apesar
disso, apenas cerca de 5% dessas áreas possuem titulação coletiva formalizada.
A ausência de segurança jurídica amplia a vulnerabilidade das comunidades
diante do avanço do desmatamento, dos grandes empreendimentos econômicos, da
mineração, da exploração petrolífera e dos impactos extremos das mudanças
climáticas.
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Justiça climática e reparação histórica
A
estratégia construída pelas organizações afrodescendentes denuncia que não
existe justiça climática sem justiça racial e reparação histórica,
especialmente diante do fato de que as comunidades negras seguem entre as
populações mais afetadas por enchentes, erosão costeira, secas prolongadas,
perda da biodiversidade e insegurança alimentar, mesmo sendo responsáveis
historicamente pela preservação de alguns dos territórios mais conservados da
América Latina e Caribe.
O
documento também critica a lógica atual do financiamento climático
internacional, marcada por barreiras burocráticas, baixa participação
comunitária e concentração de recursos em grandes instituições internacionais,
o que dificulta o acesso direto das comunidades afrodescendentes aos fundos
multilaterais.
Segundo
o documento, os mecanismos globais ainda falham em reconhecer os conhecimentos
ancestrais, os modos de vida tradicionais e as formas próprias de governança
construídas historicamente pelos povos negros da região.
Por
isso, a estratégia defende que o financiamento climático passe a considerar
salvaguardas étnico-raciais, segurança territorial e reconhecimento dos
direitos coletivos como elementos centrais das políticas internacionais de
mitigação e adaptação climática.
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Financiamento direto para territórios afrodescendentes
O
principal eixo da proposta trata-se da criação do Mecanismo Afrodescendente de
Financiamento Direto (MAFD), pensado como uma estrutura internacional
específica para canalizar recursos diretamente às comunidades afrodescendentes.
A
estratégia estabelece como meta mobilizar ao menos 50 milhões de dólares entre
2026 e 2030, incluindo recursos provenientes de pledges internacionais,
cooperação bilateral, bancos regionais e fundos globais de clima.
O
documento afirma que os recursos precisam fluir de forma “direta, expedita e
coerente” para os territórios afrodescendentes, reconhecendo que essas
comunidades estão entre as mais impactadas pela crise climática e,
simultaneamente, entre as que mais contribuem para a conservação ambiental.
Também
é proposto que a maior parte do financiamento seja destinada à titulação
coletiva e à segurança jurídica dos territórios, compreendidas como bases
fundamentais da resiliência climática afrodescendente.
Além
disso, as informações reunidas reivindicam a inclusão obrigatória dos povos
afrodescendentes nos pledges e compromissos financeiros internacionais firmados
no âmbito climático global.
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Governança afrodescendente e protagonismo comunitário
É
necessário enfatizar que o ponto central da proposta é a criação do Conselho
Afrodescendente de Governança Climática, estrutura que deverá garantir
participação direta das comunidades na definição das prioridades políticas e
financeiras.
Há a
previsão de paridade de gênero e participação significativa das juventudes
negras nos processos de governança, formulação e execução dos projetos
climáticos.
Entre
as metas estabelecidas para 2030 estão:
• implementação de 200 projetos climáticos
em territórios afrodescendentes;
• fortalecimento de 100 organizações
negras;
• proteção, restauração ou titulação de
150 mil hectares;
• alcance direto de cerca de 300 mil
beneficiários;
• garantia de participação de mulheres em
pelo menos 50% das iniciativas;
• presença das juventudes em 40% dos
processos de gestão e execução.
Além
disso, prevê que pelo menos 80% dos projetos contem com mecanismos documentados
de “Consulta Prévia, Livre e Informada” (CLPI), reforçando o direito das
comunidades de participarem das decisões que impactem seus territórios.
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Titulação coletiva como estratégia climática
A
regularização fundiária deve ser reconhecida internacionalmente como medida
prioritária de enfrentamento à crise climática. Isso porque ao dispor de
segurança jurídica os territórios apresentam melhores indicadores de
preservação ambiental, proteção hídrica e conservação da biodiversidade.
Defender
a titulação coletiva não apenas garante direitos territoriais, mas também à
proteção dos modos de vida tradicionais, das economias comunitárias e dos
conhecimentos ancestrais afrodescendentes.
Ela
prevê linhas específicas de financiamento voltadas para:
• adaptação climática comunitária;
• restauração ambiental;
• transição energética justa;
• saúde climática;
• fortalecimento da sociobioeconomia;
• bioempreendimentos comunitários;
• recuperação de perdas e danos.
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Saberes ancestrais e transição justa
Os
povos afrodescendentes não devem ser tratados apenas como beneficiários das
políticas ambientais, mas como protagonistas da ação climática global,
reivindicando o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais afrodescendentes
como parte fundamental das soluções internacionais de mitigação e adaptação
climática.
Práticas
ancestrais de manejo territorial, agricultura tradicional, proteção dos
maretórios, preservação hídrica e formas coletivas de organização comunitária
são apontadas como contribuições históricas fundamentais para a manutenção dos
ecossistemas latino-americanos.
Nesse
sentido, a proposta defende que os planos nacionais de adaptação e mitigação
dos países da região incorporem os saberes afrodescendentes em suas políticas
climáticas.
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Indicadores, monitoramento e compromissos internacionais
Ao
longo dos anos, as populações afrodescendentes rurais da América Latina e
Caribe não receberam acompanhamento adequado por parte das instituições
responsáveis pela implementação e monitoramento das políticas climáticas e
territoriais. Diante desse cenário, torna-se fundamental a criação de
mecanismos de monitoramento e indicadores de acompanhamento que garantam
transparência, controle social e efetividade na execução das ações financiadas.
Entre
os indicadores previstos estão:
• volume de recursos mobilizados;
• percentual de acesso direto
afrodescendente aos fundos;
• redução de emissões de carbono;
• hectares restaurados;
• número de empregos verdes criados;
• participação de mulheres e juventudes;
• quantidade de títulos coletivos
emitidos;
• implementação da CLPI.
O
documento dialoga diretamente com os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”
(ODS) da ONU, especialmente aqueles relacionados à erradicação da pobreza,
igualdade de gênero, redução das desigualdades, ação climática, proteção da
biodiversidade, fortalecimento institucional e construção de alianças globais.
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Uma nova disputa política sobre o clima
Por
fim, a estratégia construída representa também um debate estratégico sobre quem
participa da governança climática internacional. Ao reivindicar financiamento
direto, segurança territorial e reconhecimento dos direitos coletivos, as
organizações negras denunciam o racismo estrutural presente nos mecanismos
globais de distribuição de recursos climáticos.
Em
outras palavras, não haverá enfrentamento efetivo da crise climática sem
participação ativa das populações historicamente responsáveis pela proteção dos
ecossistemas do continente.
Mais do
que reivindicar recursos financeiros, os povos afrodescendentes defendem uma
transformação profunda da lógica internacional de governança climática, baseada
em reparação histórica, justiça racial, autonomia territorial e valorização dos
conhecimentos ancestrais.
Após a
realização da COP30, seguimos pressionando governos, organismos multilaterais e
instituições financeiras internacionais para que os compromissos discutidos
durante a conferência sejam convertidos em mecanismos concretos, permanentes e
vinculantes de financiamento direto para os territórios negros da América
Latina e Caribe.
Fonte:
Por CITAFRO

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