A
mulher que comanda a 'CBF da Noruega', enfrentou a Fifa e revolucionou o
futebol do país
A
Noruega — adversário do Brasil às 17h no domingo pelas oitavas de final da Copa
do Mundo — tem seu futebol comandado hoje por uma mulher.
Lise
Klaveness é presidente da Federação Norueguesa de Futebol (NFF) — a primeira
mulher em 120 anos a comandar a entidade.
A
ex-jogadora de futebol, advogada e hoje dirigente esportiva ganhou fama entre
os dirigentes de futebol do mundo por posições políticas e por discursos
críticos às decisões da Fifa.
Na Copa
do Catar de 2022, Klaveness fez duras críticas ao tratamento dado a
trabalhadores imigrantes antes do torneio e também às leis que restringem
direitos LGBTQ+ no país. Ao longo das eliminatórias para a Copa deste ano, a
NFF, sob seu comando, criticou Israel pelas operações militares que resultaram
na morte de civis em Gaza.
Sob seu
comando, o futebol norueguês vive uma boa fase. A seleção feminina chegou às
quartas de final da Eurocopa de 2025. E a masculina — do astro Erling Haaland —
disputa a sua primeira Copa do Mundo em 28 anos.
<><>
Críticas à Copa no Catar
Em
março de 2022, poucos meses depois de ser eleita presidente da Federação,
Klaveness provocou desconforto geral em um congresso da Fifa em Doha, no Catar.
O país estava prestes a sediar a Copa do Mundo daquele ano.
No
Congresso, Klaveness fez um discurso com duras — e raras — críticas ao
país-sede pelo tratamento duro dado a trabalhadores imigrantes que construíram
os estádios da Copa e pela falta de garantia a homossexuais no país.
"A
Copa do Mundo foi concedida pela Fifa de maneira inaceitável e com
consequências inaceitáveis", disse ela em um discurso que ganhou as
manchetes em todo o mundo.
"Os
trabalhadores migrantes feridos e os familiares daqueles que morreram durante
os preparativos para a Copa do Mundo precisam receber assistência. A FIFA — e
todos nós — deve adotar as medidas necessárias para realmente implementar
mudanças."
"Não
há espaço para empregadores que não garantam a segurança dos trabalhadores da
Copa do Mundo, nem para líderes incapazes de sediar o futebol feminino, nem
para anfitriões que não possam assegurar legalmente o respeito e a segurança
das pessoas LGBTQ+ que vêm a este 'teatro dos sonhos'."
Não
foram apenas as declarações que ganharam destaque. Klaveness é casada com outra
mulher — e sua mera presença no Catar poderia ser considerada um crime pelas
leis locais, onde a homossexualidade é criminalizada.
No
mesmo discurso, ela também fez críticas à decisão da Fifa de sediar a Copa de
2018 na Rússia — algo que, segundo ela, vai contra "os interesses centrais
do futebol" ao não seguir princípios de direitos humanos, igualdade e
democracia.
Na
época, o secretário do comitê organizador da Fifa para a Copa de 2022, Hassan
Al Thawadi, se disse decepcionado com as declarações públicas de Klaveness e
por ela não ter levantado suas preocupações de forma privada com os dirigentes,
antes de vir a público.
Um ano
após a Copa no Catar, ela voltou ao país para verificar se houve melhorias na
situação dos direitos humanos no país do Golfo. A Fifa havia prometido criar
fundos educacionais e avaliar como lidar com acusações de abusos de direitos
humanos — sobretudo contra trabalhadores imigrantes nas obras da Copa.
No
Catar, Klaveness se reuniu com trabalhadores, autoridades e representantes de
ONGs. Na época, ela disse à BBC em Doha que a Copa do Mundo "realmente
impulsionou algumas mudanças bastante progressistas" no tratamento de
trabalhadores migrantes, mas também afirmou ter identificado "dificuldades
na implementação" de algumas reformas prometidas.
Quanto
à questão dos direitos de homossexuais no Catar, Klaveness disse que "as
questões continuam tão sensíveis e controversas quanto antes, e não houve
qualquer avanço".
<><>
Uma pioneira em ambientes dominados por homens
A
paixão de Klaveness por futebol começou cedo. Na infância em Bergen, cidade de
cerca de 290 mil habitantes no oeste da Noruega, ela jogava nos clubes locais e
treinava até sete horas por dia com seu pai.
Como
jogadora, ela se destacou como meia atacante em times da Noruega, com uma breve
passagem pela Suécia. Teve passagem também pela seleção feminina da Noruega. Em
73 jogos, marcou nove gols — e participou de duas Copas do Mundo, nos EUA em
2003 e na China em 2007, quando a Noruega ficou em quarto lugar. Em 2005, foi
vice-campeã da Eurocopa.
Ao
pendurar as chuteiras, seguiu carreira como advogada e depois juíza em Oslo e
assessora jurídica do Banco Central norueguês. Mas continuou ligada ao mundo do
futebol, se tornando a primeira comentarista mulher da televisão norueguesa —
uma função onde precisou enfrentar preconceitos.
"As
pessoas comentavam sobre a minha aparência e diziam que eu era feia. Acho que
encontrei motivação nisso — a capacidade de dizer 'não ligo', embora, na
verdade, eu ligasse", contou Klaveness em entrevista ao jornal Financial
Times em 2023.
"Acho
interessante me sentir vulnerável, me sentir ridícula e feia. Eu queria mudar
isso e fiquei furiosa. Para mim, é sempre bom passar do medo e da tristeza para
a raiva; eu transformo tudo isso em uma expressão de guerra."
O
trabalho como comentarista abriu portas para um outro mundo: o de dirigente de
futebol. Nesse universo dominado por homens, Klaveness foi novamente pioneira:
a primeira mulher diretora técnica das seleções feminina e masculina e em
seguida a primeira mulher presidente da federação norueguesa.
Ela
conta que apesar de enfrentar muitos desafios e preconceitos, nem sempre sofreu
resistência de todos.
"Eu
lembro do meu primeiro dia no emprego [como diretora técnica da federação], eu
sabia que eu seria chefe dos técnicos das seleções masculinas. Eu sentia no meu
corpo que isso seria uma guerra e uma briga. Mas nunca foi. Eu fui recebida
muito calorosamente. Naquela época eu senti que estava com medo de algo que não
existia ali. Acho que o mundo está pronto para ter uma mulher líder no
futebol."
Em
2023, ela tentou se eleger para uma vaga no comitê executivo da Uefa. Na
eleição, 11 pessoas disputavam sete vagas, e Klaveness era a única mulher. Ela
poderia ter disputado uma vaga no comitê exclusiva para mulheres — para o qual
ela teria apenas uma rival em uma eleição.
Mas
Klaveness não aceitou disputar a vaga pela cota feminina.
"Eu
não gosto da estrutura de se ter uma vaga para mulheres. É uma estrutura que eu
acho que é bem intencionada, mas tem o perigo de colocar mulheres capazes umas
contra as outras. E assim uma consegue a vaga e a outra é eliminada",
disse ela em entrevista à BBC em 2023.
Na
eleição, ela acabou recebendo a segunda pior votação e não conseguiu uma vaga.
"Entrar
no comitê não é um fim em si só, se isso não ajudar a causa. Eu quero um
sistema onde as pessoas são eleitas por mérito. Esse é o posto de liderança
máxima do futebol europeu. Eu sou qualificada. Eu liderei a seleção masculina e
a feminina."
Mas em
2025, a Uefa criou mais uma vaga feminina e ela decidiu concorrer, sendo
eleita.
"Há
agora uma segunda vaga destinada a mulheres, e minha opinião era de que não
tentar conquistá-la desta vez seria contraproducente", disse.
<><>
Posições políticas
Uma de
suas marcas à frente da Federação Norueguesa de Futebol (NFF) foi a coragem em
manifestar posições políticas — em um ambiente que frequentemente evita.
Em
dezembro de 2024, quando a Fifa realizou um congresso virtual para confirmar as
sedes das Copas do Mundo masculinas de 2030 e 2034, as federações de futebol da
Noruega e da Suíça foram as duas únicas — entre 211 associações — a manifestar
preocupação com o processo de escolha, dizendo que os valores do futebol não
estavam sendo considerados. A Arábia Saudita foi escolhida como sede da Copa de
2034.
Sob o
comando de Klaveness, a federação norueguesa foi a única no mundo ocidental a
se manifestar sobre a guerra em Gaza. A Noruega não chegou a boicotar partidas
contra Israel, mas a federação fez um apelo por uma "interrupção imediata
dos ataques desproporcionais contra civis inocentes em Gaza" e uma
investigação contra Israel.
Em
março deste ano, ela foi reeleita presidente da Federação Norueguesa de
Futebol.
A UEFA
afirma que, sob o comando de Klaveness, o futebol norueguês vive uma
"forte ascensão".
A
seleção feminina chegou às quartas de final da Eurocopa Feminina de 2025, na
Suíça, e a seleção masculina se classificou para a Copa do Mundo pela primeira
vez desde 1998.
"Lise
Klaveness lidera a NFF em um período marcado por resultados positivos, tanto no
futebol de base quanto no de elite", afirmou Jan Petter Hagen, presidente
do comitê eleitoral da NFF.
"Ela
é uma líder de destaque e com atuação clara, tanto nacional quanto
internacionalmente, em consonância com as expectativas estabelecidas pelos
órgãos democráticos do futebol norueguês".
Fonte:
BBC Sport

Nenhum comentário:
Postar um comentário