Fungicida
fluazinam pode afetar desenvolvimento cerebral
Cientistas
afirmaram, em reportagens divulgadas nesta quinta-feira (02/07) na Europa, que
o fungicida fluazinam, amplamente usado para o controle de doenças em diversas
culturas, tanto na União Europeia (UE) como no Brasil, jamais deveria ter sido
aprovado para uso devido aos elevados riscos à saúde de quem o utiliza.
Num
estudo recente, dois cientistas da Universidade de Estocolmo acusaram a
indústria química e as autoridades regulatórias da UE de avaliarem erroneamente
a natureza perigosa da substância ativa, colocando em risco a saúde de
agricultores e de qualquer pessoa que viva nas proximidades de lavouras onde o
fungicida tenha sido usado.
Ao
revisarem os dados de um estudo anterior, feito em 2005, os químicos Axel Mie e
Christina Rudén descobriram que camundongos expostos ao fluazinam tinham
cérebros menores e regiões cerebrais alteradas num grau estatisticamente
significativo.
Além
disso, um método de análise mais refinado revelou que mesmo doses mais baixas
poderiam prejudicar o desenvolvimento cerebral de forma mais severa do que se
supunha anteriormente.
O
estudo realizado pelos cientistas de Estocolmo foi disponibilizado à emissora
pública alemã BR, à emissora sueca SVT, ao jornal britânico The Guardian e à
revista italiana FF Südtirol, que o tornaram público nesta quinta-feira.
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Revisão dos mesmos dados
A
segurança do pesticida, aprovado em toda a Europa em 2008, está agora sendo
questionada por Mie e Rudén, que examinaram o processo de aprovação da
substância ativa.
Eles se
referem a um estudo que a fabricante do fluazinam, a ISK Biosciences,
encomendou antes da aprovação e que examinou se a substância poderia prejudicar
o desenvolvimento cerebral de fetos e crianças. No teste, o fungicida foi
administrado a camundongas grávidas para examinar se ele alterava o cérebro dos
filhotes.
O
laboratório que fez o estudo de 2005, Huntingdon Life Sciences, não chegou a
uma conclusão clara: efeitos negativos foram observados num grupo de ratos, mas
não em outro, segundo Mie.
Com
isso, a fabricante não apresentou o estudo durante o processo de autorização da
UE, já que não havia uma exigência legal para isso nesse caso.
Mie e
Rudén revisaram o estudo e recalcularam os seus resultados utilizando os mesmos
dados e métodos originalmente empregados pelo laboratório e chegaram a uma
conclusão bem diferente: efeitos negativos foram constatados em ambos os grupos
sob doses elevadas do pesticida.
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Erro sempre a favor da fabricante
Os
cientistas constataram que o estudo de 2005 apresentava falhas em seis
aspectos. "Na minha opinião, o fluazinam não deveria ter sido autorizada
em 2008", diz Mie. Chama a atenção que todos os erros foram favoráveis à
fabricante do fluazinam. "É difícil imaginar que um erro parecido, em
situações parecidas, tenha ocorrido seis vezes e sempre com viés na mesma
direção", observou Mie.
Embora
os resultados ainda não tenham passado por uma revisão por pares, especialistas
independentes avaliaram-nos como plausíveis. O laboratório que fez o estudo em
2005 não comentou os supostos erros ou suas origens. A ISK Biosciences declarou
que não teve acesso ao estudo da Universidade de Estocolmo e, portanto, não
pode comentá-lo. "A substância ativa foi avaliada pelas autoridades
competentes em conformidade com os procedimentos estabelecidos", afirmou.
Rudén,
que leciona toxicologia regulatória e ecotoxicologia na Universidade de
Estocolmo, afirmou ao Guardian que o atual sistema da UE para a aprovação de
pesticidas "baseia-se num conflito de interesses”, uma vez que a empresa
fabricante do pesticida é responsável por produzir os dados sobre a sua
segurança.
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Amplo uso no Brasil e na UE
O
fluazinam é amplamente usado na UE e também no Brasil, com destaque para a soja
(mofo-branco) e batata (requeima). Só na Alemanha, cerca de 340 toneladas do
produto foram vendidas em 2024.
A
Associação dos Agricultores Alemães (DBV) afirmou que uma proibição do
fluazinam poderia, sob certas circunstâncias, levar a "perdas
significativas de produtividade e qualidade", mas observou que as questões
levantadas por Mie merecem um "esclarecimento cuidadoso".
Os
maiores riscos correm aqueles que entram em contato direto com a substância. Em
testes realizados em toda a Europa envolvendo 39 mil amostras de produtos,
foram detectados resíduos de fluazinam em apenas seis casos.
Fonte:
DW Brasil

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