Os
porquês de uma campanha pela Terrabrás
No
imaginário retratado por Stefan Zweig no livro “Brasil, um país do futuro”
(1941), publicado em meio à Segunda Guerra Mundial, o Brasil surgia como um
contraponto à barbárie que devastava a Europa. O escritor austríaco destacava,
em uma época em que o país dava seus primeiros passos rumo à modernidade
ocidental, aquilo que considerava o traço distintivo da identidade nacional: o
“espírito de conciliação” do povo, a harmonia entre pessoas de diferentes
origens e a “(…) convivência pacífica (…), apesar da diversidade de raças,
classes, cores, religiões e convicções”. Décadas depois, ao prefaciar a obra em
2006, o jornalista Alberto Dines especulava de forma provocadora: “Zweig errou
ou foi o Brasil que escolheu o modelo errado?”
A
trajetória da história sugere que a realidade brasileira se mostrou menos
benevolente que a imaginada pelo autor. No que diz respeito às relações raciais
ou de cor, por exemplo, Mário Theodoro em “A sociedade desigual. Racismo e
branquitude na formação do Brasil” (2022) desmonta em definitivo qualquer
interpretação baseada na ideia de uma harmonia a presidir as relações sociais
no país. A desigualdade social, das mais profundas e resistentes no mundo,
pagava e paga tributo aos extensos anos de escravidão legal e velada que
acompanharam a transição do Brasil colonial ao moderno. Apenas recentemente
políticas públicas afirmativas vêm tentando reverter essa chaga entranhada na
formação social brasileira.
Como em
outras ocasiões da história, o Brasil mostrou dificuldades para ligar períodos
de prosperidade dos ciclos de crescimento à inclusão e transformação social
sustentada. De fato, a ordem global neoliberal teve impacto severo no país.
Resistimos na “década perdida” para, pouco à frente, aderir a seus preceitos
liberalizantes. Ainda hoje tentamos nos livrar das garras e artimanhas dos que
defendem tais preceitos na política quotidiana do país.
No seu
percurso idílico pelas virtudes daquele Brasil hoje distante, Zweig assinalava
também as riquezas do rico e diverso subsolo nacional, exposto ao mundo desde o
ciclo do ouro. De lá para cá, o padrão de exploração pouco mudou. Assistimos ao
trânsito intenso de produtos minerais enviados em bruto ou quase para diversas
partes do planeta, com o país participando marginalmente das etapas de maior
valor agregado das cadeias produtivas globais. Mais importante, o país não tem
aproveitado essa riqueza e a especialização herdada em produtos naturais para
alavancar novos patamares de inserção econômica e tecnológica no mundo.
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A contribuição destacada dos produtos minerais na pauta de exportações
Os
números das exportações minerais refletem ainda uma produção extensiva, com
baixa agregação de valor aos bens produzidos. Os óleos brutos de petróleo
representam mais de 50% dos valores da produção mineral (US$ 45 bilhões no
período recente). Entre 2023 e 2025, as exportações totais do país oscilaram
entre US$ 337 e US$ 348 bilhões por ano e os produtos da indústria extrativa
mineral representaram 23% do total, ou seja, quase um quarto da pauta de
exportações brasileiras (US$ 80,0 bilhões anuais).
Sob
outro ângulo, os vinte principais produtos da pauta de exportações, naqueles
mesmos anos, atestam o amplo predomínio dos produtos agropecuários e minerais.
Os três produtos mais importantes, a soja, o petróleo bruto e o minério de
ferro, responderam juntos por mais de um terço do valor total das exportações
(entre 37% e 38%). Com exceção da soja, os outros dois produtos, petróleo e
minério de ferro, responderam juntos por 92, 95 e 87% dos produtos minerais
nesses anos, ou seja, dominaram amplamente as exportações. Para além desses
dois produtos, dentre os vinte mais exportados, estão o minério de cobre e o
ouro (cerca de 0,9% a 1%).
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Brasil – 20 principais produtos de exportação 2023 a 2025 (FOB, US$ Bilhões)
Os
dados das exportações por produto, porém, trazem à lembrança outra questão. Os
dois produtos minerais mais importantes – minério de ferro e petróleo bruto –
possuem uma história marcada por décadas de investimentos públicos que atestam
o esforço nacional para dotar esses segmentos de infraestrutura, bases de
produção, quadros técnicos e capacidade de pesquisa, tecnologia e inovação,
requisitos para alavancar posições destacadas no mercado global. Tanto o
minério de ferro quanto o petróleo bruto contaram, em momentos específicos, com
expressivos aparatos estatais de suporte, sobretudo a partir de duas empresas
originariamente públicas, a Companhia Vale do Rio Doce – atualmente Vale – e a
Petrobras.
Até que
ponto o sucesso alcançado nesses setores pode ser atribuído à existência dessas
empresas? Fatores como a existência de jazidas de peso, a descoberta de grandes
reservas e a demanda internacional ascendente representam, naturalmente,
aspectos importantes. Mas não resta dúvida de que a existência das empresas
estatais, instituições e políticas públicas de suporte possibilitaram destinar
recursos e mobilizar meios e insumos necessários para apoiar voos estratégicos
ousados e assegurar objetivos atrelados ao interesse nacional.
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O papel das empresas estatais no sucesso de setores específicos no país
A
trajetória das duas principais empresas associadas aos dois maiores produtos
mineraisna pauta exportadora brasileira ilustra, de forma cabal, a importância
do Estado na construção de vantagens competitivas.
A
antiga estatal Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997 no governo
FHC. Nos vinte anos seguintes, o controle acionário esteve com representantes
dos fundos de pensão públicos – Previ, Petros, Funcef e Funcesp – através da
Valepar. Só em 2017, no governo Temer, a Valepar foi incorporada pela Vale, o
que ajudou a dispersar em definitivo o capital da empresa. Atualmente, o
capital ordinário está distribuído entre a Litel (ligada à Previ, com 8,0%), a
BlackRock (6,7%), a Mitsui & Co. (6,4%) e a Capital World Investors (5,1%);
os demais 70% ficam dispersos por um conjunto amplo de investidores. A Vale é
hoje uma corporation, uma empresa internacionalizada com interesses que
transcendem o país, embora o governo detenha ações especiais que asseguram certos
poderes e prerrogativas em alguns temas estratégicos.
A
Petrobras, criada por lei como empresa estatal estratégica e concebida para
operar sob monopólio público, é atualmente uma sociedade de economia mista, com
ações negociadas em bolsa. O monopólio estatal foi relaxado nos tempos do
governo FHC, que eliminou a distinção constitucional entre capital nacional e
capital estrangeiro, obrigando a Petrobras a competir em pé de igualdade com as
empresas internacionais que atuam no país (chegou-se mesmo a cogitar a troca de
seu nome para Petrobrax). O controle da empresa permanece com a União, que
detém mais de 50% do capital votante, o que assegura a orientação dos
investimentos e a torna instrumento de coordenação da política energética, com
influência nos preços e no abastecimento dos derivados em geral; “serviço” que
recentemente traduziu-se na ação do governo para reter a escalada dos preços
dos combustíveis em função dos desdobramentos da Guerra dos EUA e Israel contra
o Irã.
A
experiência dessas empresas suscita uma reflexão mais ampla sobre o papel do
Estado na economia contemporânea. Por um longo período, difundiu-se a ideia de
que a globalização e o neoliberalismo teriam estreitado os espaços das empresas
estatais e da intervenção pública na economia. Aos mercados competiria
coordenar os investimentos e as inovações, assegurando a alocação eficiente dos
recursos. A experiência brasileira, ao contrário, oferece evidências que, no
mínimo, relativizam essa interpretação. Petrobras e Vale, e mesmo a Embraer e
outras empresas e instituições associadas ao esforço nacional de
desenvolvimento demonstram que a presença estatal pode coexistir com elevados
níveis de eficiência, competitividade internacional e capacidade de inovação. Indicam,
ademais, que determinados investimentos estratégicos dificilmente alcançariam a
mesma escala sem mecanismos públicos de coordenação e fomento.
Tais
empresas são efetivamente líderes ou quase líderes nos mercados globais,
detendo expertises ambicionadas por vários concorrentes. São eficientes nos
seus respectivos mercados. Vendem serviços, geram lucros e organizam fundings
expressivos para a consecução de suas atividades estratégicas, dentre outras
funções de relevo. A presença estatal deixou marcas indeléveis no sucesso dos
empreendimentos.
Em
outro campo, o Brasil tornou-se uma potência agropecuária; um produtor e
exportador de petróleo de respeito; um tradicional fornecedor de minério de
ferro e produtos associados e mesmo um fabricante de aeronaves no estado da
arte tecnológica global. Por mais que se esforce, é difícil associar tais
créditos à iniciativa privada, mesmo que seja essa a classificação atual de
algumas das empresas. Os resultados alcançados não podem ser compreendidos
apenas como produto espontâneo das forças de mercado.
A
Embrapa, que mais se assemelha a um instituto público, está na base mesma do
enorme volume de lucros apropriado sem maiores contrapartidas pelos
empreendimentos privados do agronegócio brasileiro, como sobejamente
demonstrado pela pauta de exportações do país. A Petrobras explora o mercado de
petróleo, derivados e variantes de energia limpa com a destreza de quem sabe o
lugar que ocupa no cenário nacional e global – ah! que falta faz a BR
distribuidora privatizada nos governos Temer e Bolsonaro! – e estimula a
pesquisa e a ciência e tecnologia. A Vale atua há anos no mercado mundial de
commodities minerais, tendo sido esteio da organização de corredores logísticos
que articulam minérios, ferrovias e portos pelo país. E a Embraer, por fim,
incomoda os principais fabricantes concorrentes à medida que avança com
habilidade sobre nichos de mercado que redesenham custos e possibilitam
atendimento eficiente a demandas do setor, seja em segmentos da aviação
comercial ou militar.
O fato
é que as visões neoliberais se mostraram, no mínimo, ineptas. Por isso, vêm
sendo abandonadas nos países centrais, em especial nos setores de alta
repercussão socioeconômica, como na infraestrutura. É o caso, por exemplo, do
emblemático setor de ferrovias no Reino Unido, cuja reestatização paulatina foi
definida por lei em 2024.
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Os muitos significados de uma Terrabrás para o desenvolvimento do país
Há dois
projetos de lei em tramitação na Câmara dos Deputados O PL 1754/2026 do
Deputado Pedro Uczai (PT/SC), assinado por toda a bancada do PT na Câmara,
propõe a renomeação ou substituição da atual CPRM (Serviço Geológico do Brasil)
pela Terrabrás que, assim, estaria tanto envolvida na prestação do serviço como
na atividade mineradora direta. Além disso, trata de minerais críticos e
estratégicos e cria um regime de partilha para os bens minerais, a exemplo do
que foi adotado para o pré-sal. O PL 1733/2026 do deputado Rodrigo Rolemberg
(PSB/DF), autoriza o poder executivo a criar empresa estatal, a Terrabrás, sem
atropelar os marcos institucionais existentes. Amplia o mandato da nova empresa
para tratar da pesquisa mineral, exploração, produção, beneficiamento,
industrialização, comercialização e desenvolvimento tecnológico associado ao
segmento das terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos, avançando
para além do campo da produção mineral propriamente dita.
Há
razões de sobra para se propor uma nova empresa estatal com esse fim: a)
exercer a soberania sobre nossos recursos naturais; b) estimular a agregação de
valor aos produtos e desenvolver a produção nacional; c) buscar a segurança
geopolítica, com proteção contra a dependência externa; d) promover habilidades
de coordenação estratégica de políticas; e) estimular o desenvolvimento
regional inteligente, apoiando a formação de capacidades coletivas nos
territórios; f) desenvolver competências tecnológicas em áreas emergentes
capazes de se espraiar pela estrutura produtiva. O qualificativo “estratégico”
justifica-se pelo peso que tais minerais – terras raras e outros, como o
nióbio, níquel, lítio, cobalto e tungstênio- podem ter no desenho da trilha de
futuro para a sociedade e a economia brasileiras.
Há
menos razões, a maioria de orientação neoliberal, para se opor à criação da
estatal: a) são de outra ordem os problemas do setor e a estatal não os
resolveria; b) amplia-se o risco de avanço da burocracia, elevando custos
públicos; c) a intervenção estatal se tornaria excessiva; d) a insegurança
jurídica se ampliaria; e) correr-se-ia o risco de duplicação de esforços, pois
já temos instituições capazes de apoiar o setor (Nuclebras – hoje Eletronuclear
– e seu mandato antigo sobre as areias monazíticas). Todos os argumentos
parecem assentados nos velhos jargões da ineficiência e do custo fiscal como
motivo para se impedir a criação da nova estatal.
Uma
Terrabrás, como nas experiências concretas das estatais no Brasil, pode assumir
diferentes feições, a começar pela maneira como se combinam a estrutura do
capital com os seus fundings principais ou ainda sua relação com a política
mineral constituída e o respectivo aparato institucional existente no País.
Pode haver, sim, vários modelos, desde estatais exclusivas até sociedades de
economias mistas. O ideal, diante das indefinições do percurso, salvo melhor
juízo, seria ter o Estado no controle do capital votante, porém usando das
ações preferenciais para compor o capital acionário para acomodar interessados
em associar-se. Redesenhar o aparato que funciona até aqui não parece mesmo uma
decisão sensata.
Há que
se criar uma empresa para atuar no desenvolvimento da atividade mineradora e
nos aproveitamentos dos minerais estratégicos. Para isso, não se modificam os
arranjos dos segmentos do ferro e do petróleo ou mesmo dos minerais radioativos
da Eletronuclear. A razão é clara: esses outros minerais não têm contado com a
atenção necessária e demonstram potencial inexplorado para alavancar nova etapa
da industrialização brasileira.
A União
deve preferencialmente destacar recursos para integralizar o capital inicial da
empresa. Mas o redesenho da distribuição dos recursos arrecadados pela
Compensação financeira pela exploração de recursos minerais – CFEM – e seu
componente menor destinado à Ciência, Tecnologia e Inovação – CT-Mineral – pode
criar bases adicionais para apoiar tanto a Terrabrás como outras instituições
desse segmento emergente do setor mineral. Os recursos da CFEM são originados
de contribuições variáveis das empresas da atividade de acordo com o setor em
que atuam: até 3,5% das de minério de ferro, 3% das que extraem bauxita, 1,5%
das que exploram o ouro, 1% das produtoras de rochas ornamentais e percentuais
específicos para outros ramos. Destinam-se a municípios (60%) e estados
produtores (15%), à União (10%) e aos municípios afetados indiretamente pela
atividade (15%). São poucos os beneficiários, o que se reflete em grande
concentração estadual (Pará e Minas Gerais) e municipal (Parauapebas, Canaã dos
Carajás, Itabira, Mariana e Congonhas). Os recursos do CT-Mineral provêm de 2%
da arrecadação da CFEM e se direcionam a projetos de P&D onde se localiza a
maior parte da infraestrutura técnico-científica do país, especialmente no
Sudeste e no Sul, também com alta concentração.
A CFEM,
em seu ano de pico, 2021, arrecadou R$ 10 bilhões, cabendo ao CT-Mineral R$ 205
milhões. Uma redistribuição desses recursos poderia contemplar a Terrabrás e
abrir espaço para uma solidariedade inter-regional, com um rateio que não
apenas “compense” os estados e municípios produtores ou afetados, mas que possa
priorizar, a partir de um planejamento estratégico, ações nos territórios
associados a futuros desenvolvimentos no campo. A criação da Terrabrás pode
suscitar um debate propositivo sobre a destinação desses recursos. Ademais, em
apoio a essa reorientação dos fundings, poder-se-ia pensar na criação de um
fundo para o “fechamento” de minas, como os existentes em vários países. Dessa
forma, na decaída de empreendimentos mineradores se daria amparo às populações
de localidades que enfrentassem tais situações, evitando-se eventos como o do
declínio e fechamento da Caraíba Metais em Jaguari, na Bahia.
Dois
aspectos ajudam a situar questões para além do setor mineral propriamente dito.
O primeiro é o significado que ações encabeçadas pelo Estado tiveram e têm na
história do setor mineral e de outros setores estratégicos bem-sucedidos. O
Estado pode operar como catalisador de esforços, reduzindo custos de captação
de capitais, provendo incentivos e subsídios, regulando atividades
estratégicas, estimulando a formação de quadros técnicos e contribuindo para os
esforços científicos e tecnológicos necessários, dentro de critérios mínimos de
eficiência e economicidade. O Estado é dos poucos agentes capazes de fazer
frente aos movimentos das grandes empresas internacionais que dominaram o
cenário da globalização.
A
criação da estatal Terrabrás pode conclamar a população a assumir a opção de
uma “política orientada por missões” (Mazzucato e Penna, 2016), como sugerido
pela Nova Indústria Brasil, buscando uma trajetória ascendente de aquisição de
competências e capacidades para alimentar outras posturas e caminhos para o
desenvolvimento brasileiro. Uma empresa estatal pode superar a visão
predominante de lucro fácil que permeia a atividade econômica nessa era de
financeirização a todo custo e focar objetivos nacionais estruturais de longo
prazo. Na luta para reduzir desigualdades, minorar a violência, retomar valores
e definir atitudes e padrões de sociabilidade, uma iniciativa estatal como essa
pode constituir um elemento decisivo.
O
segundo ponto é a agregação de valor aos bens minerais e o apoio a aplicações
de maior conteúdo tecnológico. O Brasil – e a América Latina – nunca souberam
tirar proveito pleno de sua pujança e vantagens comparativas na produção de
recursos naturais, direcionando as economias para nichos de ponta, capazes de
alavancar uma transformação sociotécnica e cultural de peso. Explorar as
indústrias de recursos naturais seria o caminho para aprofundar competências em
campos associados promissores, como a biotecnologia e a ciência dos materiais,
e para alcançar setores que produzem serviços para as indústrias de processo –
como a mineração – ou mesmo nichos de alto valor e baixo volume de produção,
baseados na hiper segmentação dos mercados, das cadeias de valor e das
tecnologias. A estratégia seria criar especializações diferenciadas, amparadas
na inovação permanente e na flexibilidade para um ajuste aos contextos
mutantes, levando à aquisição crescente de competências.
A
Terrabrás pode representar um símbolo para uma nova etapa do desenvolvimento
brasileiro, a exemplo da criação da CSN e, mais tarde, da CVRD, Petrobras e
outras estatais. Temos orgulho dos resultados da Embraer ou mesmo da
agricultura brasileira (Embrapa). Quebrar a lógica de entrega pura e simples de
nossas riquezas minerais construindo um aparato para aproveitamento de seus
produtos pode dar lugar a uma guinada importante, com mudança de atitudes da
população e, em especial, da juventude brasileira.
A
Terrabrás, com mandato abrangente, pode amparar a exploração consistente dos
territórios no desenho de estratégias de desenvolvimento regional, pois a
mineração é, por definição, territorializada e espalhada por diversos rincões
do país. Sua melhor articulação a projetos políticos territoriais geraria
efeitos sinérgicos, de retroalimentação, tanto para a atividade mineral em si
como para as populações locais.
Os
desafios são imensos. O Brasil, que o digam os últimos anos de
desindustrialização, reprimarização e empregos desqualificados, precisa
desvelar outros rumos para seu desenvolvimento, intensificando a inclusão
social, radicalizando as opções pela sustentabilidade e encontrando novos
esteios para a retomada de uma dinâmica econômica sustentada. De fato, a
perspectiva de agregar valor aos bens minerais produzidos, bem como assegurar a
soberania do país na exploração das terras raras e outros minérios estratégicos,
habilitando desdobramentos à jusante da extração, bastaria como mote para
justificar a criação da Terrabrás. Mas não se trata apenas disso. No movimento
de corrida às jazidas de terras raras e demais minérios, como o Lítio e o
Níquel, o que se coloca alternativamente como risco é a hipótese de que o país
termine enredado por países “amigos” e deixe de construir, mais uma vez, uma
competência tecnológica e uma capacidade de fabricação autóctones. Refugará de
novo de uma trilha ascendente de desenvolvimento sustentável, inclusivo e
inovador; um caminho que, muitas vezes, vimos repetir-se no curso da
industrialização brasileira, afastando-nos de um futuro como o imaginado por
Zweig, que nunca parece se avizinhar.
Fonte:
Por Antonio Carlos F. Galvão, em Outras Palavras

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