Dois
caminhos para o Brasil, na nova transição global
A ideia
de que o Brasil pode viver um novo superciclo de riqueza é sedutora. O mundo
ingressa em uma era de transformações estruturais marcada pela transição
energética, pela inteligência artificial, pela emergência climática, pela
reconfiguração geopolítica e pela reorganização das cadeias globais de
produção.
Em
quase todas essas frentes, o Brasil aparece como potência possível. Reúne,
simultaneamente, abundância de água, biodiversidade, energia renovável,
capacidade agroalimentar, minerais estratégicos, território continental e uma
base científica capaz de transformar recursos naturais em conhecimento,
tecnologia e desenvolvimento. Poucos países dispõem de tantas condições
objetivas para ocupar lugar central na nova economia mundial.
Mas a
história brasileira recomenda prudência diante do entusiasmo fácil. O país já
foi apresentado, muitas vezes, como território do futuro. E, quase sempre, esse
futuro foi sequestrado por elites internas associadas a interesses externos. A
promessa de riqueza nacional converteu-se, repetidamente, em prosperidade
privada para poucos e dependência estrutural para muitos.
A
América Latina talvez seja a maior evidência histórica de que riqueza e
desenvolvimento não são sinônimos. Como demonstrou Eduardo Galeano em As
Veias Abertas da América Latina, o continente foi construído pelo sistema
colonial europeu sobre um paradoxo brutal: produzir riquezas extraordinárias
para o mundo e conservar pobreza, exclusão e dependência para grande parte de
seu próprio povo.
O ouro
brasileiro ajudou a financiar a expansão europeia. O açúcar, o café, a borracha
e os minérios alimentaram sucessivos ciclos de acumulação de capital nos países
do Norte Global. Mais recentemente, as commodities agrícolas e
minerais voltaram a sustentar parte importante do crescimento mundial, agora
cada vez mais demandado também pelo Oriente.
Em
troca, a América Latina recebeu uma herança marcada pela concentração extrema
da propriedade, pela exclusão social, pela dependência tecnológica, pela baixa
capacidade de inovação, pela desigualdade territorial e pela fragilidade das
instituições de planejamento. A lógica colonial não desapareceu com a
independência política. Ela se reorganizou sob novas formas, enquanto enclaves
exportadores, elites rentistas, subordinação financeira e Estados nacionais
impedidos de comandar plenamente seus próprios destinos.
No
Brasil, essa estrutura foi apenas parcialmente enfrentada durante o projeto
nacional-desenvolvimentista das décadas de 1930 a 1970. Naquele período, a
industrialização, o planejamento estatal, a infraestrutura, a formação de
empresas públicas estratégicas e a ampliação do mercado interno permitiram ao
país ensaiar uma ruptura com a condição primário-exportadora. Mesmo de forma
desigual, autoritária em alguns momentos e socialmente incompleta, havia uma
aposta de nação.
Ainda
assim, as ilhas de prosperidade permaneceram cercadas por vastos oceanos de
desigualdade. O Brasil industrializou-se, mas não democratizou plenamente a
propriedade, a renda, o conhecimento e o poder. Construiu fábricas,
universidades, empresas estatais e infraestrutura, mas não completou a
revolução social capaz de transformar crescimento econômico em cidadania
substantiva para todos.
Neste
primeiro terço do século XXI, a demanda crescente por minerais estratégicos,
energia limpa, alimentos, biodiversidade e dados recoloca, em novas bases, o
velho risco histórico do Brasil retornar ao papel de grande fazendão, grande
mina, grande reserva ambiental e grande plataforma de extração para o
capitalismo global.
No
passado, exportavam-se ouro, prata, açúcar, café, borracha e minério. Hoje,
pode crescer a exportação de lítio, nióbio, terras raras, hidrogênio verde,
energia renovável, créditos de carbono, biodiversidade, conhecimento genético e
dados. Mudam os produtos. Muda a tecnologia. Mudam os compradores. Mas pode
permanecer a mesma lógica do Brasil fornecer a base material da riqueza
mundial, enquanto importa tecnologia, plataformas, patentes, máquinas,
algoritmos, financiamento e decisões estratégicas.
As
antigas metrópoles não desapareceram. Foram substituídas, em parte, por fundos
globais, plataformas digitais, gigantes tecnológicos, bancos transnacionais,
cadeias produtivas comandadas de fora e novos impérios corporativos. As novas
veias abertas da América Latina podem não ser apenas minas, florestas,
plantações ou poços de petróleo. Podem ser também os dados, a biodiversidade, o
conhecimento genético, a capacidade de produzir energia limpa, os recursos
minerais estratégicos e até o comportamento cotidiano da população convertido
em ativo econômico.
A nova
dependência é mais sofisticada. Não chega apenas com navios, tropas ou
administradores coloniais. Chega por contratos, algoritmos, patentes,
plataformas, acordos financeiros, regimes de propriedade intelectual,
mecanismos de arbitragem internacional e narrativas aparentemente neutras sobre
eficiência, competitividade e modernização. O velho saque tornou-se mais limpo,
mais jurídico, mais digital e mais elegante. Mas continua sendo saque quando
impede a maioria de se apropriar da riqueza que ajuda a produzir.
A
encruzilhada histórica está novamente diante dos brasileiros e
latino-americanos. O Brasil possui condições excepcionais para protagonizar um
novo ciclo de prosperidade. Mas a riqueza, por si só, não garante
desenvolvimento. Sem projeto nacional, ela pode apenas renovar a dependência.
Sem Estado forte, pode virar enclave. Sem indústria, pode virar exportação
bruta. Sem ciência, pode virar patente estrangeira. Sem democracia social, pode
virar concentração de renda. Sem soberania, pode virar mais uma rodada de
subordinação.
O
grande desafio deste início do século XXI não é apenas produzir riqueza sob
novas bases. É decidir quem vai comandar essa riqueza, quem vai se apropriar
dela e a serviço de qual projeto histórico ela será colocada.
A
transição energética, por exemplo, não pode significar apenas transformar o
Brasil em fornecedor barato de minerais e energia limpa para a descarbonização
dos países ricos. Não basta exportar lítio, nióbio, terras raras ou hidrogênio
verde. É preciso dominar as cadeias tecnológicas, produzir baterias,
equipamentos, softwares, máquinas, semicondutores, sistemas de armazenamento,
inteligência embarcada e conhecimento aplicado. Sem isso, a economia verde será
apenas uma nova cor para a velha dependência.
O mesmo
vale para a biodiversidade. A Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a
Mata Atlântica e os demais biomas brasileiros não podem ser tratados como
almoxarifado biológico do capitalismo global. A biodiversidade deve ser base de
uma bioeconomia soberana, com ciência nacional, indústria nacional, proteção
dos povos originários, valorização dos saberes tradicionais e repartição justa
dos benefícios. Transformar a natureza em ativo financeiro controlado de fora
seria apenas uma forma renovada de colonialismo verde.
Também
os dados se tornaram território de disputa. Na economia digital, quem controla
dados controla mercados, comportamentos, inteligência artificial, consumo,
comunicação e poder político. Um país que entrega seus dados, suas
infraestruturas digitais e sua inteligência informacional a plataformas
estrangeiras abdica de parte decisiva de sua soberania. No século XXI,
soberania nacional não se mede apenas por fronteiras físicas, mas também por
nuvens computacionais, cabos submarinos, centros de dados, algoritmos,
semicondutores e capacidade própria de produzir inteligência.
Por
isso, o Brasil precisa superar a ilusão neoliberal de que o mercado, sozinho,
conduzirá o país ao desenvolvimento. O neoliberalismo foi vendido como
modernização, mas produziu regressão produtiva, desindustrialização precoce,
privatização de capacidades estratégicas, fragilização do Estado, precarização
do trabalho e dependência tecnológica. Prometeu eficiência e entregou
vulnerabilidade. Prometeu integração ao mundo e entregou subordinação. Prometeu
liberdade econômica e entregou captura do futuro por interesses privados e
financeiros.
Romper
com essa herança não significa voltar ao passado. Significa recuperar a
capacidade de planejar o futuro. O Estado brasileiro precisa ser reformulado
para a era digital, ecológica e do conhecimento. Não um Estado mínimo,
ajoelhado diante do rentismo. Tampouco um Estado burocrático incapaz de inovar.
Mas um Estado planejador, indutor, tecnológico, democrático e comprometido com
a soberania nacional e o bem-estar coletivo.
A
riqueza decorrente da nova economia somente se converterá em desenvolvimento se
estiver integrada a um projeto nacional capaz de articular industrialização
verde, soberania tecnológica, ciência e inovação, infraestrutura digital
pública, educação de qualidade, trabalho decente, redução das desigualdades e
fortalecimento das capacidades estatais. O país precisa decidir se quer ser
apenas exportador de recursos ou produtor de conhecimento. Se quer ser mercado
consumidor de plataformas estrangeiras ou criador de tecnologias próprias. Se
quer ser reserva de valor para fundos globais ou nação soberana.
Pela
primeira vez em muitas décadas, o Brasil reúne condições materiais, ambientais,
energéticas e científicas para realizar uma transição histórica. Pode deixar de
ser apenas fornecedor de recursos naturais e tornar-se potência do
conhecimento, da bioeconomia, da inteligência artificial, da energia limpa e da
sustentabilidade. Mas essa passagem não ocorrerá espontaneamente. Ela exigirá
conflito político, decisão estratégica e enfrentamento dos interesses que
lucram com o país subordinado.
Porque
o subdesenvolvimento não é uma fatalidade. É uma construção histórica. E, como
toda construção histórica, pode ser desmontado. O que não se pode é continuar
aceitando como destino nacional aquilo que interessa apenas a uma minoria
rentista, associada e colonial em sua mentalidade. O Brasil não é pobre. Foi
empobrecido por formas sucessivas de apropriação privada de sua riqueza
coletiva.
Em
síntese, o novo superciclo poderá representar o fechamento definitivo das veias
abertas da América Latina. Mas também poderá abrir novas feridas, agora mais
sofisticadas, anestesiadas por discursos tecnológicos, ambientais e digitais. A
dependência do futuro talvez não tenha a aparência brutal do passado. Poderá
vir embalada em contratos verdes, plataformas inteligentes, finanças
sustentáveis e promessas de inovação sem soberania.
Essa é
a grande disputa histórica do nosso tempo. O Brasil pode escolher entre ser
objeto ou sujeito da nova ordem mundial. Pode aceitar a condição de fornecedor
periférico da transição energética e digital ou construir um projeto nacional
capaz de comandar sua própria riqueza. Pode repetir o ciclo colonial, agora com
linguagem moderna, ou inaugurar uma etapa soberana de desenvolvimento.
A
oportunidade histórica está posta. Mas oportunidade não é destino. Para que ela
se realize, será necessário romper com anos de domínio neoliberal, reconstruir
a capacidade de planejamento, reindustrializar o país em novas bases,
democratizar o acesso ao conhecimento e colocar a riqueza nacional a serviço da
maioria.
O
desafio não é apenas crescer. É decidir para quem, por quem e com que projeto o
Brasil crescerá. É transformar uma nação extraordinariamente rica em uma
sociedade efetivamente próspera, democrática, soberana e menos desigual. É
fechar as veias abertas não pela resignação, mas pela construção combativa de
uma Nação Soberana.
¨
Ganhar as eleições e vencer Trump. Por Ronaldo Lima Lins
Desta
vez, dizem, é para valer. Donald Trump se cansou da monotonia na Casa Branca e
resolveu partir para feitos mais extraordinários. Quer competir com Lula na
conquista do seu quarto mandato. Qualifica-o para tanto as vitórias no Chile,
no Peru e na Colômbia. Além disso, considera nosso metalúrgico perigoso com o
prestígio que alcançou na política internacional, onde o ouvem e o cercam de
gentilezas. Acrescente-se a semelhantes argumentos o detalhe de que o “Júnior”,
como chama o Flávio Bolsonaro, não está dando para o recado. E alguém que
dispõe do peso da maior economia do mundo, afeito a guerras e imposições de
Norte a Sul, com agências de espionagem para intimidar qualquer um, só pode
demonstrar que não brinca em serviço. É certo que seus exércitos saíram
corridos do Vietnã, do Afeganistão e, agora, do Irã. Continua, no entanto,
contando com os melhores e mais sofisticados armamentos, o bastante para
admirar os fãs sobretudo na América Latina.
Realmente,
na condição de quadro político, com chances de chegar lá, o 01 decepciona. De
uma hora para outra, depois de se envolver com o Daniel Vorcaro, de quem
extorquiu milhões de dólares, arrumou confusão com a madrasta. Esta apareceu na
TV queixando-se de maus tratos por parte do enteado e prometendo represálias.
Se em casa a coisa não anda bem, imagine-se em Brasília? Claro que um dirigente
da estatura de Trump não vê como engolir a choradeira com que o Júnior e seu
irmão Dudu o enchem de cuidados. A química que julgara ter obtido com nosso
ocupante do Planalto se dissipou em dois segundos. Bastou supor-se vitorioso e
namorar com a ideia de quebrar a espinhal dos Brics para se deixar contaminar
com um estado de euforia de fazer inveja a democratas e republicanos!
Cumpre
reconhecer que Paulo Figueiredo, através do Marco Rubio ultrapassa as medidas
com as intrigas que, uma vez por semana, o cercam no Salão Oval. Sansões,
afinal, não geram os efeitos desejados. A Lei Magnitiski funciona com
dificuldades com quem não tem propriedades em território americano. Daí a
necessidade de ir adiante, empenhar-se nas eleições locais e impor os
interesses da maior economia do mundo. É verdade que a tática não resultou
eficaz no Canadá e na Austrália. A pretendida posse da Groenlândia causou
pesadelos na Dinamarca e na União Europeia. Foi melhor adiar. Só que a América
do Sul com tantos apaixonados por Washington, talvez constitua o palco ideal
para uma nova empreitada.
Brasileiros
que prezam a nossa soberania têm de se acautelar. Nem sempre contamos com o
apoio da imprensa corporativa em defesa da nacionalidade. Já assistimos um
ex-presidente prestando continência à bandeira norte-americanas. Felizmente,
cumpre pena na cadeia.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras/Brasil 247

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