Revolta
de Vila Rica: os mineiros desafiam a Coroa Portuguesa
em 28
de junho de 1720, tinha início em Minas Gerais a Revolta de Vila Rica (ou
Revolta de Filipe dos Santos), um dos mais importantes movimentos nativistas do
Brasil Colônia.
ovimento
contestou o aumento da carga tributária, as Casas de Fundição e o maior
controle da Coroa Portuguesa sobre a exploração do ouro
O
levante foi motivado pela insatisfação de mineiros, comerciantes e populares
com o aumento dos impostos e com as novas políticas fiscais e administrativas
impostas pela Coroa Portuguesa, que visavam reforçar o controle sobre a
exploração do ouro.
Sob o
comando de Filipe dos Santos, os moradores de Vila Rica se insurgiram contra as
autoridades coloniais e tomaram os prédios públicos. Eles exigiam a redução dos
tributos, o fim das Casas de Fundição e a abolição dos monopólios comerciais. O
levante se prolongou até 19 de julho de 1720, quando foi duramente reprimido
pelas tropas coloniais.
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O ouro de Minas Gerais
A
descoberta de grandes jazidas de ouro no interior de Minas Gerais, no fim do
século 17, provocou grandes mudanças na economia do Brasil Colônia. A produção
açucareira do Nordeste era a principal atividade até então, mas a corrida pelo
ouro deslocou o centro econômico da colônia para o Sudeste.
Dezenas
de milhares de pessoas, vindas das várias partes do Brasil e de Portugal,
migraram para Minas Gerais. A região também se tornou um dos principais
destinos do comércio transatlântico de escravizados.
Em
poucas décadas surgiram importantes centros urbanos, como Vila Rica (atual Ouro
Preto), Mariana, Sabará e São João del-Rei. Minas Gerais chegou a concentrar
metade da produção mundial do minério. O ouro brasileiro se tornaria a
principal fonte de riqueza do Império Português.
A
exploração aurífera em Minas Gerais, no entanto, também gerou disputas intensas
pelo direito de exploração das jazidas. A maior delas foi a Guerra dos
Emboabas, ocorrida entre 1707 e 1709. A disputa opôs os bandeirantes paulistas
aos chamados “emboabas” (portugueses recém-chegados e brasileiros oriundos de
outras regiões, sobretudo do Nordeste). O conflito levou Lisboa a criar a
Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, em uma tentativa de reforçar sua
presença na região.
Além
das disputas pelas jazidas, Portugal também se preocupava com a questão da
arrecadação. A produção de ouro em Minas Gerais crescia aceleradamente, mas a
arrecadação da metrópole permanecia estagnada. Isso ocorria porque parte
substancial da produção era contrabandeada — e até mesmo funcionários da Coroa
e clérigos atuavam no mercado paralelo sem nenhum constrangimento.
As
autoridades metropolitanas responderam com medidas rigorosas de controle sobre
a produção aurífera e aumento da tributação. Em 1719, os portugueses
intensificaram a cobrança do quinto, o imposto que incidia sobre 20% do volume
total de ouro extraído nas minas. Portugal também impôs a criação das Casas de
Fundição — estabelecimentos onde o ouro era fundido em barras e marcado com o
sinete da Coroa, com o objetivo de evitar o contrabando.
Lisboa
instituiu punições mais severas para contrabandistas e funcionários coniventes
e baniu a circulação do ouro em pó. Somente o “ouro quintado” tinha autorização
para circular na colônia. Os portugueses também reforçaram o monopólio de
vários produtos e impuseram uma rígida vigilância sobre as atividades
comerciais.
Para
garantir a aplicação das medidas, o rei Dom João V ampliou as prerrogativas do
governo local. A administração da capitania foi entregue a Pedro Miguel de
Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar. O monarca também ordenou a
instituição de um bispado, visando “moralizar” o clero local, e enviou um
contingente de soldados, já cogitando que as novas normas poderiam gerar
agitação popular.
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Cresce o descontentamento
O
reforço da fiscalização e as medidas de controle do comércio causaram profundo
descontentamento na população de Minas Gerais. Além da cobrança de tributos e
da perda da margem de lucro com o contrabando, a obrigatoriedade de fundir o
ouro nas casas régias gerava mais burocracia e aumentava os custos com
transporte e hospedagem.
O
autoritarismo do Conde de Assumar e a rigidez na fiscalização das atividades
comerciais geraram crescentes tensões, agravadas após o envio das tropas
coloniais. A proibição da circulação do ouro em pó, até então um dos principais
meios de pagamento da capitania, também gerou grande transtorno.
As
mudanças incomodaram sobretudo os comerciantes, os donos de lavras e os
fazendeiros, mas também desagradaram uma parcela das camadas mais populares,
como os ambulantes e pequenos garimpeiros, diretamente prejudicados por tais
medidas.
Ainda
em 1719, a indignação com o monopólio sobre a cachaça gerou a chamada Revolta
de Pitangui. Liderados pelo bandeirante paulista Domingos Rodrigues do Prado,
os revoltosos expulsaram os funcionários da Coroa e assassinaram o presidente
da Câmara.
O
Império Português reprimiu duramente a revolta, resultando em várias mortes,
mas os motins, protestos e rebeliões continuariam se espalhando pela região. O
governador Pedro Miguel definiu dramaticamente o estado de espírito dos
habitantes de Minas Gerais: “a terra parece que evapora tumultos; a água exalta
motins; o ouro troca desaforos; destilam liberdade os ares; vomitam insolências
as nuvens; influem desordem os astros; o clima é tumba da paz e berço da
rebelião; a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como
no inferno”.
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A conspiração
Vila
Rica se converteu no principal centro da mobilização contra as reformas fiscais
e administrativas impostas pela metrópole. Diversos grupos passaram a organizar
reuniões e manifestações contra as medidas, incluindo mineradores, comerciantes
e proprietários de terras.
O
mestre de campo Pascoal da Silva Guimarães foi um dos principais articuladores
e financiadores da revolta. De origem portuguesa, ele era um dos homens mais
ricos de Minas Gerais, acumulando lavras, fazendas e mais de 2.000
escravizados. Pascoal possuía uma vultosa dívida com a Coroa, estimada em cerca
de 30 arrobas de ouro, o que tornava o fortalecimento da fiscalização
especialmente desfavorável para seus interesses.
Outros
nomes proeminentes de Vila Rica aderiram à conspiração, incluindo o
sargento-mor Sebastião da Veiga Cabral e o ex-ouvidor Manoel Mosqueira da Rosa.
O principal rosto do movimento, entretanto, era Filipe dos Santos, um tropeiro
de origem portuguesa que trabalhava como comerciante e possuía algumas pequenas
lavras.
Embora
não pertencesse à elite mineira, Filipe dos Santos era o orador mais influente
de Vila Rica. Ele era muito popular entre os moradores e possuía grande
capacidade de mobilização. Seus discursos inflamados contra as medidas fiscais
tiveram papel central para viabilizar o levante.
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A Revolta de Vila Rica
A
rebelião teve início na noite de 28 de junho de 1720. Aproveitando-se da
distração proporcionada pelos festejos do Dia de São Pedro, um grupo armado se
dirigiu à casa do ouvidor Martinho Vieira. O oficial, entretanto, fora alertado
previamente da ação e já havia se evadido. João da Silva, filho de Pascoal da
Silva, havia escrito uma carta ao governador informando sobre o plano dos
rebeldes.
Os
revoltosos decidiram então rumar até a Câmara Municipal. Filipe dos Santos
conclamou a multidão a se juntar aos rebeldes e liderou o levante. Os moradores
se dividiram em grupos armados, compostos por militares, religiosos,
camaristas, comerciantes e escravizados, e iniciaram a ocupação dos edifícios
públicos da cidade.
Após
invadirem os prédios da administração e rasgarem documentos e papéis oficiais,
os insurgentes elaboraram um memorial com suas reivindicações, a ser entregue
ao governador. A redação ficou a cargo de José Peixoto da Silva. No documento,
os rebeldes exigiam a redução dos tributos, a extinção das casas de fundição, a
nomeação de novos gestores e a abolição dos monopólios comerciais de produtos
como fumo, aguardente e sal.
O
governador também não estava em Vila Rica, mas em seu palácio na cidade vizinha
de Ribeirão do Carmo (atual Mariana), para onde milhares de rebeldes se
dirigiram no dia 2 de julho. Já ciente sobre a sedição, o Conde de Assumar
recebeu os revoltosos e buscou acalmá-los, afirmando que tentaria atender as
reivindicações que fossem justas e que convocaria uma Junta Geral para resolver
os problemas, desde que a sublevação cessasse.
A
atitude conciliadora do governador agradou a multidão, que acreditava ter
obtido uma vitória. Após aclamarem o Conde de Assumar, os rebeldes se
dispersaram e retornaram para Vila Rica. O governador, entretanto, apenas
queria ganhar tempo até que as tropas militares estacionadas nas localidades
vizinhas chegassem à cidade para reprimir a revolta.
Com a
chegada de 1500 soldados, o levante foi rapidamente esmagado. O Conde de
Assumar ordenou a prisão dos líderes da sedição e, como represália, mandou
incendiar as casas dos rebelados. O incêndio se alastrou por várias casas,
destruindo ruas inteiras do arraial que hoje leva o nome de “Morro da
Queimada”.
Entre
os dias 19 e 20 de julho, Filipe dos Santos foi julgado e condenado à morte por
enforcamento. Após a execução, seu corpo foi esquartejado. A cabeça foi fincada
em um poste no centro da cidade e as partes do corpo expostas ao longo das
estradas como advertência e intimidação aos moradores.
O
levante resultou no aumento da repressão e da vigilância da Coroa Portuguesa e
também levou à emancipação da Capitania de Minas Gerais, que se desmembrou da
Capitania de São Paulo.
O
descontentamento popular com o autoritarismo e com a exploração exercida por
Portugal ainda inspiraria uma série de revoltas em Minas Gerais ao longo do
período colonial, incluindo os levantes de Brejo do Salgado (1736) e de Montes
Claros (1736), a Conspiração do Curvelo (1775) e a mais famosa de todas, a
Inconfidência Mineira de 1789.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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