A
extrema direita enfrentará uma firme e organizada resistência na Colômbia
belardo
de la Espriella, o candidato de extrema direita, foi eleito presidente da
Colômbia pela margem mais apertada das últimas décadas. Segundo a contagem
preliminar, ele obteve 49,66% dos votos, contra 48,70% de seu rival, o
esquerdista Iván Cepeda — uma diferença de apenas 250 mil votos.
A
vitória do líder do Defensores de la Patria — movimento que ele próprio criou
para o atual ciclo eleitoral — é uma notícia desastrosa para a Colômbia, já que
De la Espriella ameaça reverter os avanços sociais do governo de Gustavo Petro
(2022-2026) e renovar uma estratégia militarista que poderia agravar o conflito
armado interno que o país enfrenta há décadas.
De uma
perspectiva regional, a ascensão de De la Espriella à presidência amplia o
controle de Donald Trump sobre a América Latina. O candidato de extrema direita
prometeu submissão a Washington e recebeu o apoio declarado de Trump e de
outros presidentes de extrema direita na região, como Javier Milei, da
Argentina, e Daniel Noboa, do Equador. Brasil e México são agora os únicos
grandes países ainda governados pela esquerda na região, e o presidente
brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta eleições incertas em outubro.
Tradicionalmente,
a Colômbia tem sido uma base fundamental para projetar a dominação dos EUA
sobre seu “quintal”: é o país com a maior presença militar dos EUA (sob o
pretexto da guerra contra as drogas) e, até a chegada de Gustavo Petro ao
poder, era um aliado tão leal que às vezes era chamado de “Israel da América
Latina”. De fato, De la Espriella citou Benjamin Netanyahu como uma inspiração.
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Com a recuperação da Colômbia, Trump está cada vez mais perto de concretizar
sua “Doutrina Donroe”, expressa na Estratégia de Segurança Nacional de 2025,
com um Hemisfério Ocidental sujeito aos seus planos geopolíticos e comerciais.
Um país
dividido
Os
resultados das eleições presidenciais colombianas refletem a extrema
polarização política do país. No primeiro turno, os partidos de centro, juntos,
obtiveram 5% dos votos, e a candidata conservadora Paloma Valencia conquistou
menos de 7% (um número significativamente menor do que os 24% alcançados pelo
centrista Sergio Fajardo nas eleições de 2022). Desta vez, a maioria do
eleitorado se uniu em torno de dois candidatos com plataformas diametralmente
opostas. Para um segmento da sociedade, Cepeda é um comunista perigoso e aliado
da guerrilha. Para outro, De la Espriella é um fascista e aliado dos
paramilitares, que acabará com a democracia na Colômbia, seguindo os passos de
Nayib Bukele em El Salvador.
A
participação eleitoral em ambos os turnos foi muito alta para os padrões
colombianos: 58% no primeiro turno, em 31 de maio, e quase 64% no segundo. Como
a base mobilizada de cada candidato já havia votado, nas últimas semanas antes
do segundo turno, ambos se concentraram em atrair aqueles que haviam favorecido
os candidatos de centro. A ex-prefeita de Bogotá, Claudia López — conhecida por
ser uma política volátil que muda conforme as tendências políticas — esperou
até os últimos dias para expressar seu apoio ao candidato do Pacto Histórico,
Cepeda, o que limitou o impacto de seu apoio, enquanto o candidato de centro da
Terceira Via, Sergio Fajardo, não declarou apoio a nenhum dos candidatos.
Por
outro lado, Paloma Valencia, representante da ala direita liderada por Uribe
(herdeira do ex-presidente Álvaro Uribe), apoiou imediatamente De la Espriella,
o que não surpreende, visto que o candidato de extrema direita se inspira
abertamente na estratégia militarista de Uribe contra guerrilheiros e grupos
armados, que causou milhares de mortes de civis no início dos anos 2000.
Valencia
concorreu às eleições com o apoio de Juan Daniel Oviedo, um político de
centro-direita assumidamente gay. Dado o discurso homofóbico de De la
Espriella, esperava-se que Oviedo apoiasse Cepeda, levando consigo alguns de
seus eleitores. Mas ele não o fez, apesar de De la Espriella ter feito
comentários homofóbicos dirigidos especificamente a ele. Como em outros países,
a radicalização da direita tradicional e a triangulação de centristas foram
fundamentais para a ascensão da extrema direita ao poder.
Geograficamente,
os padrões políticos usuais na Colômbia se repetiram em grande parte, revelando
profundas divisões territoriais. Regiões periféricas empobrecidas, como a costa
do Pacífico e a Amazônia, apoiaram Cepeda com índices que, em alguns casos, ultrapassaram
os 80%, enquanto De la Espriella varreu Antioquia — o berço do uribismo e do
paramilitarismo — e algumas áreas onde a violência de grupos armados aumentou
nos últimos anos, como o Norte de Santander, na fronteira com a Venezuela. Nas
principais cidades, a extrema direita prevaleceu em Medellín, com 64% dos
votos, enquanto Cepeda venceu em Bogotá.
Em
resumo, o candidato do Defensores de la Patria conseguiu conquistar o
eleitorado tradicional de direita e mobilizar novos eleitores com um discurso
demagógico que prometia pulso firme e soluções fáceis para a violência que
assola a Colômbia. A estratégia, embora já comprovadamente ineficaz, atraiu
eleitores desconfiados do plano de “paz total” de Petro, que, apesar de alguns
sucessos, não se concretizou.
Por sua
vez, Cepeda obteve três milhões de votos no primeiro turno, superando o aumento
de 2,5 milhões de De la Espriella e estabelecendo um recorde para o maior
número de votos já obtido pela esquerda colombiana. No último ano, o Pacto
Histórico consolidou-se como a principal força política do país, enquanto o
Defensores de la Patria permanece, por ora, uma figura inexpressiva, com apenas
três senadores e nenhum representante na Câmara dos Deputados. Contudo, o poder
político do Pacto Histórico não foi suficiente para garantir a vitória.
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Emoções versus programa
Oresultado
do primeiro turno, no qual De la Espriella derrotou Cepeda apesar de todas as
pesquisas apontarem para uma vitória tranquila do candidato do Pacto Histórico,
foi uma surpresa para a esquerda. Cepeda, defensor dos direitos humanos com
postura professoral e tom calmo, conduziu uma campanha tradicional baseada em
eventos públicos onde explicou sua plataforma. Inicialmente, focar em propostas
parecia uma boa estratégia, visto que Gustavo Petro encerra seu mandato com um
índice de aprovação relativamente alto. Era lógico prometer continuidade com um
governo que havia alcançado resultados econômicos positivos e progressos
sociais tangíveis, como a redução da fome, da pobreza e da desigualdade.
Essa
campanha tranquila, no entanto, foi perturbada pelas intervenções de Petro,
muitas vezes de caráter histriônico, e por sua insistência em manter propostas
controversas, como a convocação de uma assembleia constituinte (um projeto
questionável, visto que a Constituição colombiana de 1991 é considerada
progressista, e o principal obstáculo à agenda reformista do Pacto Histórico
não era a Constituição, mas a falta de maioria parlamentar e a resistência das
elites políticas, econômicas e midiáticas).
Somente
após o susto do primeiro turno, Cepeda se distanciou do tom agressivo do
presidente, buscando atrair eleitores centristas que seriam essenciais para
diminuir a diferença para De la Espriella. Tanto o candidato quanto o
presidente abandonaram a proposta de uma assembleia constituinte. Iniciativas
populares em apoio ao candidato do Pacto Histórico surgiram nas redes sociais —
como “K-Popers por Cepeda” — e o reservado senador chegou a fazer aparições com
alguns influenciadores. Mas essas foram exceções em uma campanha que, no geral,
pareceu saída diretamente do século XX.
Em
contraste, De la Espriella conduziu uma campanha emocional, inspirada nas de
outros líderes populistas de extrema direita, com forte presença nas redes
sociais, o que amplificou a retórica inflamada do candidato. Além disso, o
milionário De la Espriella vendeu o sonho de alcançar a mesma riqueza que ele,
ostentando sua fortuna pessoal de uma maneira que lembrava Trump, a quem
admira. Entre os dois turnos, ele também suavizou os aspectos mais agressivos
de sua retórica, temendo afastar os eleitores moderados. Mas não abandonou o
discurso disruptivo que lhe permitiu se apresentar como a única alternativa à
política tradicional, mesmo tendo recebido apenas um apoio morno dos principais
partidos já estabelecidos. O desespero da população colombiana diante da
escalada da violência nos últimos anos e o tratamento favorável que De la
Espriella recebeu da mídia conservadora fizeram o resto.
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A resistência que se aproxima
Abelardo
de la Espriella planeja “diminuir o Estado” (ou seja, cortar gastos públicos)
em 40%, o que reverteria o progresso social alcançado durante o governo Petro.
Além disso, pretende suspender todas as negociações com grupos armados ilegais
— que, é preciso reconhecer, estavam paralisadas — e retomar uma estratégia
puramente militar inspirada no Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos
durante a presidência de Álvaro Uribe (2002-2010). Ele também planeja, de forma
controversa, retomar a pulverização aérea de glifosato, um herbicida tóxico,
para destruir plantações de coca.
O
resultado mais provável será um aumento da violência rural e das violações dos
direitos humanos por parte dos militares, como já ocorreu durante o período do
Plano Colômbia. Além disso, uma escalada da violência estatal poderia
fortalecer o apoio popular a certos grupos armados, como o Exército de
Libertação Nacional (ELN) ou dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia (FARC), que efetivamente governam grandes regiões do país e operam sob
uma aparência de legitimidade política. Em outras palavras, a estratégia de De
la Espriella poderia contribuir para o fortalecimento de grupos armados que
aterrorizam a população civil.
Por
outro lado, De la Espriella ameaça expandir a economia extrativista que está na
base da degradação ambiental e do empobrecimento de comunidades camponesas,
indígenas e afro-colombianas em vastas áreas da Colômbia. Essa pobreza, por sua
vez, alimenta o conflito violento persistente no país, já que a falta de
alternativas leva muitos camponeses a se juntarem a grupos armados. O novo
presidente, sem dúvida, enterrará a ambiciosa agenda verde de Petro, que
incluía a proibição de novas explorações de combustíveis fósseis.
A boa
notícia em meio ao desastre que a chegada de Abelardo de la Espriella à
presidência representa é que ele encontrará forte resistência na implementação
de sua agenda, sendo forçado a forjar alianças no Congresso com os partidos
tradicionais contra os quais fez campanha. Embora esses partidos (em sua
maioria conservadores) provavelmente lhe deem mais margem de manobra do que
concederam a Petro, o cabo de guerra com os políticos profissionais será uma
fonte de contradições para um presidente que fez da demagogia antipartidária a
pedra angular de sua vitória eleitoral.
Ao
mesmo tempo, a esquerda está indiscutivelmente mais forte do que nunca na
Colômbia. Desde que o Pacto Histórico, a ampla coalizão que levou Petro ao
poder em 2022, se tornou um partido político, cresceu e se tornou a maior força
no Congresso, permanecendo como a força política mais organizada do país. Iván
Cepeda confirmou que liderará a oposição, onde terá a missão de manter a
esquerda unida e dificultar a implementação da agenda de De la Espriella,
enquanto se prepara para uma possível candidatura em 2030.
Espera-se
também resistência nas ruas. A Greve Nacional de 2021, que levou milhões às
ruas em protesto, conseguiu interromper a reforma tributária regressiva
proposta pelo então presidente Iván Duque e lançou as bases para a vitória do
Pacto em 2022.
Se o
presidente eleito tentar implementar sua agenda extremista de cortes sociais,
militarização e extrativismo irrestrito, apesar de sua limitada legitimidade
eleitoral e social, uma resistência firme poderá frustrar pelo menos alguns de
seus planos.
Fonte:
Por Pablo Castaño - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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