sábado, 4 de julho de 2026

Como as criptomoedas estão se entrelaçando com a política

Em 2021, o presidente dos EUA, Donald Trump, descrevia as criptomoedas como "um desastre esperando para acontecer" e uma "fraude".

No entanto, em 2025, Trump já tinha abraçado essas moedas digitais. No ano passado, elas lhe renderam mais de 1,4 bilhão de dólares em lucros, segundo documentos divulgados nesta terça-feira (30/06) pelo Gabinete de Ética Governamental (OGE).

A maior parte dos lucros veio da empresa World Liberty Financial (WLF), que vende novos produtos de criptomoedas (quase 800 milhões de dólares), e das vendas das chamadas memecoins (635 milhões).

Isso ocorre num momento em que as políticas do presidente dos Estados Unidos em relação às criptomoedas se tornaram cada vez mais favoráveis, com a redução da regulamentação e a introdução de regras federais para as chamadas stablecoins.

<><> Políticos e criptomoedas

Trump não está sozinho ao defender as criptomoedas como o futuro das finanças. No Reino Unido, o líder populista Nigel Farage enfrenta uma reação pública que ameaça a ascensão aparentemente imparável de seu partido, o Reform UK, devido a um "presente" de 5 milhões de libras que recebeu do bilionário britânico das criptomoedas Christopher Harborne, residente na Tailândia.

O Reform UK também adota uma postura favorável às criptomoedas, e Farage prometeu "tirá-las do isolamento" caso chegue ao poder.

Ainda na Europa, Pavel Blažek renunciou ao cargo de ministro da Justiça da República Tcheca em 2025 após aceitar 468 bitcoins, avaliados em 45 milhões de dólares, do criminoso condenado Tomáš Jiřikovský.

Já o eurodeputado espanhol de direita Luis "Alvise" Pérez Fernández também foi acusado de receber financiamento em criptomoedas de um fraudador condenado.

Na Argentina, o presidente Javier Milei, aliado de Trump, vem sendo criticado por autoridades financeiras e pelo público devido à sua promoção do esquema de criptomoeda $LIBRA, marcado por forte valorização seguida de queda abrupta. O ativo disparou após uma publicação de Milei nas redes sociais, mas entrou em colapso pouco depois. Ele negou qualquer irregularidade, afirmando que fez a publicação de boa-fé.

<><> Influência na política

As criptomoedas estão se tornando uma parte cada vez mais importante da economia mundial, e emconsequência, os governos estão enfrentando o desafio de regulamentá-las.

"Os criptoativos estão se tornando cada vez mais relevantes na política, e não apenas como forma de doação político-partidária, mas também como uma indústria bem financiada que busca influenciar regulamentações, como fonte de riqueza pessoal e de campanhas, e como uma tecnologia financeira capaz de transferir valores rapidamente através das fronteiras", afirma a analista Eliza Lockhart, do Royal United Services Institution (Rusi), um centro de estudos britânico especializado em defesa e segurança.

"A influência política das criptomoedas está crescendo à medida que as empresas do setor se integram mais ao sistema financeiro tradicional e que os governos tomam decisões cada vez mais importantes sobre como regular esse mercado."

O professor de macroeconomia Edoardo Beretta, da Universidade da Suíça Italiana (USI), concorda, mas observa que uma queda recente nas cotações, ocorrida após o período abrangido pelas declarações financeiras de Trump, ajudou a reduzir o entusiasmo em torno das criptomoedas.

O valor do bitcoin caiu pela metade desde seu pico, de mais de 126 mil dólares, em 6 de outubro de 2026, e com a capitalização total do mercado de criptomoedas apresentando comportamento semelhante, o entusiasmo político e econômico em torno das criptomoedas arrefeceu.

"No entanto, isso não significa que os agentes econômicos tenham perdido o interesse nesse mercado; o ambiente ao seu redor apenas se tornou um pouco mais silencioso", comenta Beretta.

<><> Risco da interferência política

O anonimato e a velocidade das carteiras digitais que operam de forma transnacional tornam o rastreamento de doações de campanha muito mais difícil do que nas operações financeiras tradicionais. Isso, por sua vez, facilita a influência ilegal sobre processos eleitorais.

"Uma blockchain registra transações, mas não necessariamente revela a identidade da pessoa que controla uma carteira digital nem a fonte original dos recursos", explica Lockhart. "As criptomoedas criam vulnerabilidades que podem ser exploradas por Estados hostis e outros agentes mal-intencionados."

Um relatório de 2025 da empresa Chainalysis, especializada em monitoramento e análise de atividades em blockchain, concluiu que o uso de criptomoedas por grupos extremistas europeus está se aproximando do nível observado nos Estados Unidos.

"Entre 2022 e 2024, a participação da Europa aumentou de forma drástica, representando quase 50% de todo o volume recebido", afirma o relatório. Isso ocorre, em parte, porque muitas empresas do setor de criptomoedas não estão submetidas a normas que impeçam grupos extremistas de utilizarem seus serviços, ao contrário do que acontece em setores financeiros mais tradicionais.

Essas preocupações levaram o Reino Unido a introduzir, no início deste ano, uma proibição temporária de doações políticas feitas em criptomoedas, alinhando-se a países como Brasil e Irlanda, além de alguns estados dos EUA.

<><> Mais influentes na direita ou na esquerda?

Nos Estados Unidos, o governo Trump foi acompanhado de um aumento do uso de criptomoedas entre os republicanos em comparação com os democratas, segundo uma pesquisa do Pew Research Center.

O levantamento mostrou que 22% dos republicanos haviam investido, negociado ou utilizado criptomoedas, ante 17% dos democratas.

Lockhart diz que as criptomoedas não devem ser vistas como algo inerentemente ou exclusivamente de direita e que esse alinhamento político varia de país para país, mas reconhece que o setor frequentemente se alia a setores da direita.

"Isso reflete a preferência [do setor de criptomoedas] por desregulamentação financeira e descentralização, o que o levou a apoiar estrategicamente políticos que oferecem um ambiente regulatório mais favorável", diz.

<><> Conflito de interesses

As enormes quantias pagas por empresas de criptomoedas a políticos, seja diretamente, seja por meio do financiamento de campanhas, levantam preocupações sobre conflito de interesses.

Diante das críticas de que estaria usando o cargo para enriquecer, Trump respondeu que os seus rendimentos estão em fundos fiduciários sem direito de supervisão, estruturas usadas por dirigentes que ocupam cargos públicos para que os bens privados sejam geridos de forma independente.

"Não me ocupo das minhas finanças pessoais, temos fundos que gerem o meu dinheiro. Ganhei muito dinheiro antes de me tornar presidente. Eles investem o meu dinheiro, e eu não falo com eles", afirmou o presidente.

Lockhart defende que as criptomoedas sejam tratadas como qualquer outra situação de conflito de interesse. "A questão central é saber se um ocupante de cargo público deve ter permissão para manter um interesse financeiro ou comercial substancial em uma empresa cuja lucratividade ou valor de mercado pode ser diretamente afetado por decisões governamentais", afirma. "Quando isso ocorre, apenas tornar público esse conflito de interesses, real ou percebido, pode não ser suficiente para lidar com ele."

¨     Como a família Trump vem enriquecendo com criptomoedas

Desde seu retorno à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua família embolsam bilhões de dólares com empreendimentos em criptomoedas, capitalizando um mercado pouco regulamentado e ativamente moldado pelo próprio Trump.

De memecoins a stablecoins, moedas digitais projetadas para manter um valor fixo, o lucro inesperado é estimado em mais de 5 bilhões de dólares (R$ 25,5 bilhões), gerando acusações de uma especulação sem precedentes por parte de um presidente em exercício.

Duas empresas impulsionam os lucros da família Trump com criptomoedas: a World Liberty Financial (WLF), uma plataforma de finanças descentralizada que permite que usuários com tokens $WLFI ajudem a moldar as regras de empréstimo da plataforma, e a American Bitcoin Corp. (ABTC), uma mineradora de bitcoin listada na Nasdaq.

A WLF arrecadou milhões com a venda de tokens $WLFI vinculados ao nome de Trump, enquanto a ABTC, que conta com o suporte dos filhos do presidente, detém ativos significativos em bitcoin e viu suas ações subirem 110% em sua estreia, antes de fecharem 16,5% acima do preço de abertura de 6,90 dólares.

A agência de notícias Reuters informou que uma entidade comercial de Trump detém 60% da WLF e tem direito a 75% da receita com a venda de moedas.

<><> Preocupações com influência e acesso

Os críticos acreditam que o duplo papel do presidente como beneficiário das criptomoedas e formulador de políticas mina a confiança pública e confunde a linha entre governança e enriquecimento pessoal.

Ross Delston, advogado americano independente e perito, acredita que os empreendimentos com criptomoedas podem oferecer a agentes inescrupulosos a chance de comprar influência com Trump apenas investindo em suas moedas digitais.

"Esta é uma nova maneira de permitir que o presidente receba dinheiro de qualquer pessoa, incluindo indivíduos e estados estrangeiros que seriam proibidos [de enviar dinheiro ao presidente] pelas leis de campanha [eleitoral] dos EUA, ou [a] alguém condenado por um crime ou sob investigação", disse Delston à DW.

Embora Trump e seus filhos estejam por enquanto proibidos de vender seus próprios tokens na WLF, é quase certo que lucrarão muito a médio prazo. A Casa Branca, porém, insiste que não há conflitos de interesse.

<><> Como Trump mudou em relação às criptomoedas

As políticas favoráveis de Trump em relação às criptomoedas após seu retorno ao cargo surpreenderam alguns, depois que ele chamou moedas digitais como o bitcoin de "golpe" e de uma ameaça ao dólar em seu primeiro mandato. Agora, ele quer tornar os Estados Unidos a capital mundial das criptomoedas.

Antes de retornar à Casa Branca, Trump nomeou Paul Atkins, defensor de longa data das criptomoedas, para liderar a Comissão de Valores Mobiliários (SEC), o órgão regulador dos mercados financeiros dos EUA. Ele foi confirmado no cargo em abril.

Uma das primeiras ordens executivas de Trump, assinada em janeiro, proibiu qualquer agência dos EUA de criar ou promover uma moeda digital de banco central (CBDC), uma versão criptografada do dólar emitida pelo governo.

Em março, ele criou a Reserva Estratégica de Bitcoin, financiada por criptomoedas apreendidas pelas autoridades americanas, e o Estoque de Ativos Digitais, que opera com outras moedas. Esses ativos são agora tratados como reservas nacionais.

Há poucos meses, Trump assinou a chamada Lei Genius, a primeira estrutura federal para stablecoins.

<><> Jantares suntuosos e regalias políticas

A adoção das criptomoedas se estendeu além das políticas, chegando a eventos sociais de alto nível, com destaque para os jantares promovidos pela Casa Branca para magnatas dos ativos digitais. Esses encontros, frequentemente com cardápios suntuosos e acesso exclusivo ao presidente, têm sido alvo de críticas por mesclarem poder político com interesses financeiros privados.

Um evento de destaque foi o jantar Crypto Kings, em maio de 2025, no Trump National Golf Club, na Virgínia, para onde os maiores detentores da moeda meme de Trump, $TRUMP, foram convidados após gastarem coletivamente 148 milhões de dólares.

Os 25 maiores investidores receberam acesso privado ao presidente, enquanto os quatro maiores detentores ganharam relógios Trump Tourbillon de luxo. Justin Sun, bilionário do setor de criptomoedas nascido na China e consultor da World Liberty Financial, foi o convidado principal, gastando 18,5 milhões de dólares.

Os críticos argumentam que tais eventos servem menos como fóruns de inovação e mais como vitrines para tráfico de influência, onde a proximidade com a Presidência parece ser um benefício do investimento. "Este é talvez apenas mais um passo que este governo deu para combinar cargos públicos com ganhos privados", disse Richard Briffault, professor da Faculdade de Direito de Columbia, à DW. "Isso inclui tomar decisões regulatórias, mas também usar o prestígio da Casa Branca e da Presidência para impulsionar a fortuna da família Trump."

<><> Como reguladores dos EUA lidam com criptomoedas

Os reguladores federais americanos adotaram uma abordagem claramente passiva em relação à supervisão de criptomoedas, em grande parte devido a uma ordem executiva emitida em janeiro que desmantelou muitas das barreiras da era [do antecessor de Trump, Joe] Biden e as substituiu por uma estrutura projetada para promover a inovação e acelerar a adoção de criptomoedas.

Washington removeu algumas regras confusas sobre como as empresas de criptomoedas deveriam reportar suas finanças, o que dificultava a apresentação de ativos cripto em seus balanços ou o trabalho com bancos. Ao revertê-las, o governo facilita a operação e o crescimento das empresas de criptomoedas.

Anteriormente, a SEC era muito rigorosa, especialmente sob a liderança de Gary Gensler. A Comissão lançou muitas investigações e processos judiciais contra empresas de criptomoedas. Essas ações foram praticamente suspensas deste o retorno de Trump ao poder.

Enquanto a abordagem de Biden era mais de controle e cautela, a de Trump foi descrita por um membro do setor como "capitalismo cripto com esteroides". Embora o setor de criptomoedas esteja em expansão, as políticas mais recentes dos EUA levantam sérias questões sobre ética, transparência e estabilidade a longo prazo.

<><> Expurgo de funcionários gera alarme

Preocupações com a lealdade política dentro das agências federais também se intensificaram, com críticos apontando para um padrão crescente de demissões de funcionários de carreira vistos como fora de sintonia com a agenda do governo Trump.

Entre eles estão a governadora do Federal Reserve [o Banco Centra dos EUA], Lisa Cook, a diretora do Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Susan Monarez, o regulador ferroviário, Robert Primus, e, principalmente, Erika McEntarfer, chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho.

"O governo não teve escrúpulos em demitir pessoas, incluindo servidores públicos comuns que estão apenas fazendo seu trabalho, se estiverem politicamente fora de sintonia com o governo", disse Briffault. "Não há sinal maior do que a demissão do chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho. Se eles estão dispostos a fazer isso, então estão dispostos a demitir qualquer um."

Esse clima de medo e retaliação tornou os reguladores cada vez mais cautelosos em desafiar os empreendimentos de criptomoedas de Trump, mesmo quando surgem preocupações éticas.

Os legisladores americanos agora pressionam o Congresso para trazer de volta uma supervisão mais rigorosa e um controle mais rígido sobre as mais recentes políticas voltadas às criptomoedas. Eles pedem regras mais claras sobre moedas digitais, mais transparência por parte de empresas como a WLF e limites para funcionários que detêm criptomoedas. Críticos alertam que a configuração atual beneficia os insiders e coloca os usuários comuns em risco.

"O resultado mais provável é um enorme aumento nos processos criminais, ações de fiscalização regulatória, bem como uma desorganização econômica após esta presidência", alertou Delston.

 

Fonte: DW Brasil

 

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