Seraphim
Pietroforte: A necrolatria cristã
Em
publicação anterior – especificamente no artigo “Não discutir com fascistas” –,
defende-se a posição de não se desgastar debatendo com a extrema direita,
afinal, eles primam por três características incompatíveis com quaisquer
diálogos:
(i) ignorância por falta de instrução;
(ii) péssimas maneiras quanto ao convívio
social;
(iii) deslealdade.
Os
fascistas, ainda, raramente se assumem ateus; por hábito, tais extremistas se
associam a seitas necrólatras, derivadas, principalmente, do pensamento
cristão. Desse ponto de vista, se não compensa debater com fascistas,
indagam-se, a seguir, quais os danos, não ao debate, mas à própria humanidade,
diante de fascistas mancomunados com o cristianismo; para tanto, insiste-se em
cinco tópicos:
(a) não
debater com cristãos;
(b) a
dessensibilização diante da tortura e do sofrimento;
(c) as
mazelas da caridade;
(d) a
necrolatria cristã e sua incompatibilidade com o ser humano;
(e) o
maldito proselitismo.
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Não debater com cristãos
Retomando
o mote “não discutir com fascistas”, encontra-se no Youtube um canal bastante
sofrível, cuja programação se resume a promover debates entre alguém – em
geral, influenciadores, atuantes em redes sociais – e duas ou três dezenas de
pessoas, caracterizadas por desconhecer o tema enfocado ou dominá-lo
superficialmente. No encontro há, inclusive, equívocos quanto às práticas do
debate; na maioria das vezes, a suposta controversa se transforma em
deseducação, rudeza, agressões verbais as quais, por pouco, não se tornam
físicas.
Pois
bem, entre as discussões encetadas, um caso, oportunamente lembrado, deu-se nos
entreveros do comediante Thiago Santinelli contra vinte crentes. Na atração, o
número e a proporção dos participantes já anunciam algo circense, apto à
comédia… certa vez, reza a lenda, quando os nazistas contrataram número
semelhante de físicos para contradizer a teoria da relatividade, Albert
Einstein teria respondido, caso houvesse erros em suas propostas, que apenas um
cientista bastaria para o contestar.
Em
virtude disso, se tais cristãos possuem tamanha certeza quanto às convicções
defendidas, como se alardeia, cabe indagar por que vinte se, diante da firmeza,
um bastaria… pergunta-se, ainda, por que somente cristãos, em vez de convocar,
entre os religiosos, umbandistas, hinduístas, judeus etc.
O
debate, como não deixaria de ser, é pífio… durante quase duas horas, vinte
fanáticos religiosos, cuja única referência se reduz a leituras mal
interpretadas da Bíblia – um manual supostamente sagrado seguido por eles –,
insistem nos mesmos dogmas extemporâneos e, na maioria, bastante desprezíveis.
Cabe lembrar, o coletivo de “anjo”, em língua portuguesa, é “coro”,
diferentemente do coletivo de “demônio”, ou seja, “legião”; nesse léxico, de
cunho alegórico, os anjos cantam regidos por Deus, enquanto os demônios se
pautam por cadeias de comando relativamente independentes.
No
livro Paraíso perdido, de Milton, essa ideologia se evidencia: no primeiro
canto do poema, os demônios, apôs a queda, uma vez edificado o Inferno,
organizam-se em assembleia para deliberar; no segundo canto, entrementes, os
anjos repetem em uníssono, sem se desviar, as palavras de Deus.
Ora,
tal procedimento não pertence somente à gramática ou à literatura; ele se
presentifica em condutas sociais, haja vista a vocação dos cristãos para
repetir, à exaustão, os mesmos argumentos, calcados nos mesmos dogmas, e a
decorrente aversão devotada por eles ao debate, afinal, quem invariavelmente
reitera, longe de se dispor ao conhecimento, visa à imposição, logo, à
intolerância e à violência.
Não
cabe, a seguir, apontar os erros de palpites obscurantistas colhidos na Bíblia,
feito atacar as demais religiões, deslegitimar o pensamento da antiguidade
clássica, ofender os judeus, diminuir as mulheres, condenar homossexuais etc.;
indaga-se, isto sim, por que insistir nessas contendas, mesmo valendo-se,
ocasionalmente, de contradições da Bíblia – presentes em todas as obras humanas
– para replicar ou, até mesmo, recorrer às supostas palavras de Jesus,
contrapondo, assim, misericórdia a ódio e rigor.
Dessarte,
em vista das contestações, baseadas sistematicamente nas mesmas fontes, tudo
indica que a raiz do problema não reside em maus religiosos, desatentos aos
ensinamentos de Jesus ou demais gurus da seita cristã, mas no próprio Cristo e
em sua doutrina incipiente; deve-se atentar, portanto, não para fanáticos
circunstanciais, armados de bíblias ou de outras cartilhas, mas para os dogmas
do presumido Salvador e suas palavras de ordem, tais quais “dar a outra face
diante dos inimigos”, “pagar impostos a Deus e a políticos desumanos”, “andar
com criancinhas” e outros disparates.
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A dessensibilização diante da tortura e do sofrimento
Uma das
lembranças mais macabras de minha infância se refere a Jesus Cristo e sua
vocação ao calvário. Teria por volta dos quatro anos de idade… educado pela
família na necrolatria cristã, recordo-me da procissão, de uma igreja algo
opressiva repleta de fiéis cabisbaixos e macambúzios, do pavor diante da triste
figura de Jesus, estendido no altar, marcado de feridas medonhas.
O pior
detalhe da imagem surgia em seu olhar vazio diante do martírio… não parecia
tristeza nem misericórdia, nem sequer lástima, mas simplesmente estupor; convém
perguntar, anos depois, qual o propósito de expor crianças a tamanho horror
disfarçado de graça – isso é burla –… qual a pedagogia dessa patranha.
Em
diversos cultos, há morte seguida de esquartejamento – Tiamat, Osíris ou
Dionísio são apenas três ocorrências de um arquétipo mais geral e abstrato –;
Jesus Cristo, todavia, expressa apologias do sofrimento, da dor e do martírio –
haja vista a cruz, um instrumento de tortura, tornar-se o símbolo de variadas
seitas cristãs –.
A seu
modo, pela glorificação da tristeza, da fealdade e do flagelo, reiterados
insistente e obsessivamente pelos cristãos, promove-se, nessa idolatria, a
dessensibilização diante da atrocidade; dessa perspectiva, apontam-se três
referências:
(1) a
Santa Inquisição, evidentemente;
(2) a
valorização do trabalho escravo, seja pela força do açoite seja pela mais
valia; (3) o caso espúrio de cristãos votarem em Jair Messias Bolsonaro, quem,
acompanhado de familiares e correligionários fascistas, ostentou,
descaradamente, em cartazes e camisetas, a efígie macabra do torturador
Brilhante Ustra.
Segundo
a seita, consegue-se a salvação não com meditação e conhecimento, mas com dor e
sofrimento; para os necrólatras, apenas o tormento transcende.
Consequentemente, o cristianismo se torna uma exibição macabra de torturas
medonhas seguidas de morte; para verificar, basta consultar quaisquer
hagiografias… os próprios discípulos do suposto salvador não se salvaram de
suplícios indescritíveis. Em função disso, além de dessensibilizar os fiéis
pela exposição constante à agonia, acostumando-os a cenas, em princípio,
inaceitáveis, estimula-se, nos então fanáticos, a sanha pela dor enquanto
justiça ou corretivo.
Logo,
para quem discorda deles, retribui-se com perseguições e morte; funda-se, em
meio a mania tão doentia, espaço para:
(i) queimar mulheres, homossexuais, judeus e
cientistas;
(ii) escravizar negras e negros com ferros e
açoites;
(iii) glorificar assassinos e torturadores,
membros de polícias políticas, tais quais a Gestapo ou o Dops.
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As mazelas da caridade
Em sua
natureza reacionária, nada pior que a caridade cristã. Obviamente, ninguém, em
sã consciência, privar-se-ia de auxiliar alguém necessitado de comida, abrigo
ou acolhimento; todavia, a caridade, em regimes de trocas desiguais, tais quais
o feudalismo e o capitalismo, não passa de paliativo.
Não se
deve esquecer de que o desemprego pertence às estruturas do capitalismo,
afinal, seu objetivo é manter a mão de obra barata, ameaçando constantemente,
dessa maneira, os trabalhadores; para resolver questões semelhantes, não basta
compensar a baixa remuneração e o desemprego com donativos, sendo necessário,
isto sim, acabar, terminantemente, com o regime capitalista. Contudo, isso
somente se fará mediante a força, pois a burguesia jamais renunciaria a seus
privilégios; enquanto isso, nada como a caridade para esconder os malefícios da
mais-valia.
Nessas
circunstâncias, se os cristãos realmente se importassem com seus supostos
“irmãos e irmãs” desvalidos, empenhar-se-iam em revolucionar o regime e não em
distribuir trocados e roupas velhas. Ademais, lidar com mendigos esconde
perversões sexuais ocultas… não apenas pedófilos se escondem por trás de
batinas e crucifixos, a misofilia também grassa na igreja.
<><> A necrolatria cristã e sua
incompatibilidade com o ser humano
Por
fim, compensa cuidar da incongruência entre a necrolatria cristã e a própria
vida, seja em suas variadas dimensões seja nos estados múltiplos do ser.
Segundo as versões populares e regularmente apregoadas das doutrinas cristãs, o
mundo não passa de um lugar pecaminoso, onde, desde os tempos da queda do
Paraíso, habitam pecadores eternamente em busca de redenção; nessa situação, a
salvação se resume a seguir as palavras de Jesus Cristo, o suposto filho de
Deus, cujos ensinamentos são transmitidos por padres, pastores etc.
Separam-se,
com tais pensamentos, dois mundos inconciliáveis, isto é:
(a) o
mundo da vida, em que tudo se revela corrupto, tornando o prazer e a beleza
tentações falsas e desprezíveis;
(b) o
mundo da morte, hora do julgamento sob ameaça, novamente, de torturas
aterradoras, dignas da Santa Inquisição e dos porões de quaisquer ditaduras
militares.
Em
síntese, nada há para se aprender com o mundo, senão suas falsidades e, na
morte, pouco resta, a não ser, obedecer; em outras palavras, cabe apenas
repetir as palavras de Deus conforme seus anjos, seu Filho, seu Espírito Santo,
seus profetas, freiras, pastores e sacerdotes. Pois bem, observada com as
devidas reservas, tal doutrina não passa de loucura, capaz de justificar, vale
repetir, as piores atrocidades; comparem-se, por exemplo, doutrinas complexas,
como o hinduísmo e a umbanda, para que com as sandices do cristianismo se
explicitem veementemente.
Tanto
na umbanda quanto no hinduísmo, louva-se a beleza e a vida; cuida-se de um
mundo em que, antes de se evitar ilusões, a vitalidade da natureza se expressa
ora feito Indra, Varuna, Agni e Soma ora como Iansã, Iemanjá, Xangô e Oxalá; em
ambas, cada uma a seu modo, não há limites intransponíveis entre a vida e a
morte, mas gradações… ademais, concebem-se outros estados do ser além desses
dois. O cristianismo, em suma, não prepara seus fiéis para vida nem para morte,
servindo para quase nada, a não ser fomentar tristeza e desesperança.
Para
confirmar isso, propõem-se, ainda duas comparações:
(1) do
Sermão da Montanha e sua superficialidade com a profundidade e agudeza dos
versos do Bhagavad Gita, do Mahabharata, atribuído ao poeta Vyasa, em que
Krishna se transfigura diante de Arjuna;
(2) a
vida tacanha dos santos cristãos, tais quais Santa Rita e sua ferida incurável,
lançada por seu Deus, supostamente misericordioso, com a história de Exus tais
quais Exu Caveira e Exu Tranca Ruas ou de Pombagiras como Maria Molambo e Maria
Padilha, ou, ademais, com os sábios conselhos de Maria Navalha e da Cigana Sete
Saias.
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O maldito proselitismo
Para
compreender melhor os cristãos, busco, no livro História da filosofia cristã,
de Etienne Gilson e Philotheus Boehner, algum esclarecimento. A obra merece
certo respeito, entretanto, todo cuidado é pouco diante do detestável
proselitismo dos autores, que insistem, em cada página, a louvar Jesus
independentemente dos temas tratados, buscando, com isso, diminuir a filosofia
pagã – pagã para os cristãos –, sem a qual não haveria filosofia cristã; aliás,
sem judaísmo e sem filosofia grega, a tal filosofia cristã se reduz a bem
pouco.
Sendo
assim, em vez de se limitar às catacumbas, os cristãos, atualmente, insistem
em:
(i) atacar terreiros de Umbanda e Candomblé,
afirmando o mesmo racismo com que se considerou, nos tempos do mercantilismo,
os negros isentos de alma, portanto, escravizáveis;
(ii) defender padres e pastores pedófilos, aos
quais deixaram vir a si as criancinhas;
(iii) insultar as mulheres, feito um certo frei
bolsonarista, quem agrediu verbalmente as brasileiras, defendendo, no dia 8 de
março, a inferioridade delas em relação aos homens.
(iv) Ir de encontro, ainda com racismo, a festas
como o Carnaval e demais manifestações populares, insistindo na milenar
acusação de serem “coisas do demônio”, afinal, para eles, exceto Jesus e sua
triste doutrina, tudo parece diabólico;
(v) hostilizar homossexuais e transsexuais ao
colocar entraves na parada gay, insinuando que crianças se colocariam em risco
na companhia dos manifestantes, esquecendo-se de que, nessa questão, a
pedofilia prolifera, isto sim, entre padres e pastores.
(vi)
Desautorizar professores invocando a Bíblia ou valendo-se da pregação de
políticos corruptos e de pastores vigaristas; (vii) investir contra os judeus,
principalmente na Páscoa, invalidando as tradições judaicas ao chamá-las Velho
Testamento – cabe indagar, velho para quem?.
Seriam
tais atitudes extremamente descabidas e violentas, portanto, exemplos da
filosofia cristã? Ora, isso não é religião; isso se chama racismo, misoginia,
homofobia, transfobia, antissemitismo, assédio moral e, quando impera
violência, terrorismo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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