Blindagem
ao cidadão ou arma eleitoral? O que está por trás de projeto para proibir bets
“Se
depender de mim, a gente fecha as bets”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), em entrevista ao portal ICL Notícias no dia 8 de abril deste ano.
Ali foi dada a largada para uma articulação nos bastidores do Congresso que
visa desde congressistas a favor das bets até empresários e associações ligadas
ao setor, recém-regulado pelo próprio governo federal.
Em 22
de maio, em entrevista ao programa Sem Censura, Lula fez uma ressalva: “eu
proibiria todas [as bets], mas não depende de mim, eu não sou o dono do
Brasil”, e jogou ainda mais foco sobre o Congresso, tornando a pauta das bets
praticamente radioativa antes das eleições.
Entre
as duas declarações de Lula, sua base na Câmara embarcou na ideia ao protocolar
dois novos projetos para proibir bets esportivas, o ‘jogo do tigrinho’ e seus
similares no país. Mas, segundo apurou a Pública, não há qualquer expectativa,
nem mesmo na base do governo, de que os projetos sejam aprovados. Afinal, qual
aposta está em jogo?
Os PLs
1808/26 e 2258/26 estão parados na Câmara, à espera do presidente, deputado
Hugo Motta (Republicanos-PB), designar relatores para ambas as proposições e
determinar sua tramitação. Na prática, os dois projetos teriam sido propostos
apenas para desgastar membros do Centrão, da direita e da extrema direita ao
forçá-los a se manifestar quanto às bets em ano eleitoral.
Para
expor os parlamentares pró-bets, deputados do PT entraram com pedidos de
audiências públicas em 10 das 30 comissões permanentes da Câmara para debater
efeitos danosos da legalização de bets e jogos online: de problemas de saúde
pública a impactos no Sistema Único de Saúde (SUS) e na economia, passando pela
fiscalização das bets, sua possível relação com crimes como lavagem de dinheiro
e até mesmo quais são os impactos psicológicos das bets sobre a população idosa
e sobre crianças e adolescentes nas escolas.
A base
do governo alega que o movimento forçaria titulares das comissões a
participarem dos debates, revelando quem seria a favor das apostas online.
Segundo líderes partidários e integrantes do PT ouvidos pela Pública,
parlamentares da oposição seriam expostos como “inimigos do povo”. Mas para um
dos deputados mais críticos a jogos e apostas, o deputado Otoni de Paula
(PSD-RJ), o movimento governista não deve gerar resultados práticos. “Quem
hoje, aqui, nesta Casa, trabalha pelas bets? O Centrão e a direita
bolsonarista”, afirmou.
“Quem
diz o que vai ser pautado ou não na Câmara estava no avião de um dos donos das
grandes bets do Brasil, que é o [jogo do] ‘tigrinho’. Eu não tenho esperança
nenhuma de que isso seja [sequer] pautado”, disse de Paula, em referência à
revelação da Folha de S. Paulo sobre a entrada ilegal no país de bagagens de um
voo de Fernando Oliveira Lima, o ‘Fernandin OIG’, dono da One Internet Group
(OIG) – apontado como o grupo por trás do ‘jogo do tigrinho’ – num voo em que
estava acompanhado de Motta e do senador e presidente do PP, Ciro Nogueira,
além dos deputados Dr. Luizinho e Isnaldo Bulhões – líderes de PP e MDB na
Câmara, respectivamente.
Segundo
apurado pela Pública, proibir bets e jogos nos moldes do ‘tigrinho’ não seria
prioridade do Congresso em 2026 – e as diferenças nas movimentações ao redor do
tema nas duas casas legislativas revelariam os limites da pauta. Até o momento,
não houve qualquer gesto do Senado para pautar mais discussões sobre danos
causados pelas bets, nem para sugerir novos projetos de lei que proíbam ou
restrinjam a operação do setor no país.
A única
audiência pública relacionada ao tema no Senado ocorreu em 14 de abril passado,
sem abordar ou discutir a proibição da atividade. Realizada a pedido da
senadora Leila Barros (PDT-DF), a audiência na Comissão de Esporte focou na
importância do repasse de parte do lucro das casas de apostas para o fomento ao
esporte. Até o último dia 19 de maio, o único projeto contrário ao setor
protocolado em 2026 veio da oposição – o senador Eduardo Girão (Novo-CE), da
bancada evangélica, cuja proposta pretende “vedar mecanismos de incentivo e
retenção de apostadores”, mas o projeto ainda não teve relator designado ou
encaminhamento às comissões pelo presidente Davi Alcolumbre (União-AP).
À
Pública, Girão avaliou que projetos contra jogos e apostas em geral não avançam
graças à presidência do Senado. “As bets têm muita, mas muita influência mesmo
no Senado, a começar pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que é um dos
cabeças, um defensor da jogatina”, disse o senador do Novo à reportagem.
Mais
recentemente, uma proposta de 2024 assinada pelo vice-líder do governo no
Senado, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), avançou timidamente na Casa. No
início de fevereiro, a Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado aprovou
o projeto, que também visa proibir publicidade de bets, sob a relatoria da
senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Uma das
líderes da bancada evangélica no Senado, Damares contou à Pública que foi
procurada por “representantes de emissoras de TV contrárias ao texto”, graças à
“possibilidade de perda de patrocínios” de bets. Após passar na CCT, o projeto
foi para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) de modo terminativo – ou
seja, se aprovado, não precisa de votação no plenário, sendo enviado
diretamente para análise na Câmara.
“Eu vou
ficar brigando com todo mundo na CCJ, vou me inscrever para debater, vou
conversar com o próximo relator, vou ficar gritando enquanto eu puder berrar
pelas crianças… eu vou berrar”, afirmou à Pública a senadora. Desde o dia 29 de
abril, o projeto está na CCJ sob a relatoria de um dos integrantes da base do
governo, o senador Omar Aziz (PSD-AM), que ainda não concluiu seu relatório.
Damares
também faz parte de uma iniciativa que une deputados e senadores, tanto da base
governista quanto da oposição, que protocolou dois novos projetos de lei – um
na Câmara e outro no Senado – para proibir anúncios, propagandas e patrocínios
de casas de apostas em todo o país. Encabeçada pela Frente Parlamentar Mista
para a Promoção da Saúde Mental no Congresso, a ofensiva ganhou o nome de
“Brasil Contra as Bets” e define bets e jogos como o “tigrinho” como um
“produto de risco à saúde pública”.
Um
detalhe aproxima Otoni de Paula e Damares Alves como integrantes de um núcleo
não organizado, mas que tem se posicionado de forma mais acentuada contra as
apostas online: ambos são evangélicos. À Pública, o líder do PL na Câmara e um
dos líderes evangélicos na Casa, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), que é
pastor da Assembleia de Deus, relatou também ter atuado para mudar a posição de
seus correligionários que, antes, se colocavam a favor das bets.
“Evitam
falar comigo de bet, porque sabem do meu posicionamento, evitam muito [o tema]
quando eu chego e, se tem conversa de bet, eles mudam de conversa”, disse
Cavalcante. Ainda segundo o líder do PL na Câmara, o tema “fica muito mais
concentrado na ‘galerinha’ do Centrão, muito mais concentrado… e nós tínhamos
gente dentro do PL que eu tive de trabalhar com alguns, que inclusive votaram a
favor [da regulamentação do setor em 2023]”.
Enquanto
o Congresso não avança quanto à proibição de todas as bets, o governo federal
vai fechando o cerco quanto às casas de apostas ilegais – que, além dos danos à
população, não representam qualquer arrecadação fiscal. Em 19 de junho, por
exemplo, Lula assinou decreto para que instituições financeiras bloqueiem
recursos das bets ilegais. Em outra frente, a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), em parceria com a Secretaria de Prêmios e Apostas
(SPA), retirou do ar quase 45 mil plataformas ilegais de apostas.
Na
prática, se houver interesse do governo em promover, de fato, a proibição de
bets, a esquerda pode ter um improvável grupo ao lado: a oposição evangélica,
que, além de ter seus próprios interesses no assunto, também vai à disputa nas
urnas em outubro deste ano.
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Além do lucro: o que querem as bets?
Mesmo
com os investimentos milionários em publicidade, incluindo patrocínios a clubes
de futebol, as bets estão em maus lençóis diante da opinião pública. “Nós
estamos em 2026, a crítica pública contra as bets está em total ebulição, nós
estamos numa crise de imagem fundada em dados que não encontram relevância com
a realidade prática”, declarou o diretor jurídico da Associação Nacional de
Jogos e Loterias (ANJL), Pietro Lorenzoni, filho do ex-ministro da
Secretaria-geral do governo Bolsonaro Onyx Lorenzoni, durante o Fórum de Lisboa
(popularmente conhecido como “Gilmarpalooza”) em junho deste ano. A declaração
sintetiza uma das principais missões das casas de apostas desde que foram
regulamentadas.
Nos
últimos meses, sucessivas pesquisas concluíram que o mercado de apostas está
relacionado à alta taxa de endividamento dos brasileiros, o que o levou a uma
derrota frente ao governo federal: no novo Desenrola Brasil, quem renegociar
dívidas por meio do programa fica proibido de fazer apostas durante um ano.
Ainda
em maio, um discurso semelhante ao de Lorenzoni foi ouvido na Câmara dos
Deputados, em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação, mas na
voz do presidente da Associação Brasileira de Jogos Online (Abrajogo), Witoldo
Hendrich. “A gente se comunica mal com o público, a gente se comunica mal com
as autoridades, a gente se comunica mal com o parlamento”, disse Hendrich antes
de questionar as conclusões de pesquisas recentes.
“Eu
tenho aqui na minha frente um recorte do Serasa que diz o seguinte: ‘42% dos
brasileiros são inadimplentes’. Eu vou arredondar o número para 100 milhões,
isto é, 100 milhões de brasileiros estão inadimplentes. A gente sabe que o
universo de apostadores das bets é de 30 milhões. É sério que o endividamento
tem alguma correlação com bets?”, provocou.
Em
entrevista à Pública, o fundador do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável
(IBJR), André Gelfi, também excluiu as bets desse cenário atual e defendeu que
o endividamento vem ocorrendo devido a “uma dinâmica de acesso a crédito com
falta de consciência, juros altos e salários que não acompanharam o crescimento
da inflação”.
No
setor, existe uma visão de que os problemas enfrentados atualmente são fruto do
período de seis anos em que as empresas operaram sem qualquer tipo de regra e
fiscalização. As casas de apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018,
durante a presidência de Michel Temer, mas somente em 2024, já no governo Lula,
elas passaram a ser reguladas.
Para
solucionar a crise de imagem, segundo representantes das operadoras de apostas,
o remédio está em combater o mercado de bets ilegais e fortalecer a
regulamentação do setor – mas, claro, sem elevar a margem cobrada de impostos
progressivamente, como propõe o governo. “Não é preciso aumentar a carga
tributária, é preciso facilitar a vida do operador para que os apostadores
possam migrar do ambiente ilegal para o legal. […] Quanto mais empresa
legalizada, mais controle e informação nós temos no país”, argumentou Hendrich
na audiência pública na Câmara.
Em
dezembro de 2025, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado aprovou o
projeto de lei 5.473/2025, de autoria do senador Renan Calheiros, que prevê o
aumento gradual da taxação das bets, indo dos atuais 12% para 15%, em 2026 e
2027, e para 18% em 2028.
A
contrariedade ao imposto progressivo é uma das duas principais bandeiras
defendidas pelas bets, ao lado do argumento central de que a tributação e o
valor da outorga compensariam os efeitos nocivos provocados pelas casas de
apostas. Na avaliação do IBJR, que representa cerca de 70% das bets de capital
externo que operam no país, a tributação no patamar atual seria “mais do que
suficiente” para consolidar o mercado, arrecadar recursos para a União e
“tratar das externalidades”.
“A
gente sabe que se aumentar muito o imposto, você vai jogar o mercado para a
clandestinidade. Se você tivesse um mercado clandestino zerado, você poderia
colocar o tributo em 60%, mas não é o caso”, afirmou Gelfi, presidente do
instituto.
A
consolidação do setor segue em disputa, com o presidente Lula tendo
recentemente criticado o funcionamento das casas de apostas. De acordo com o
presidente, a situação é caracterizada por ser uma “jogatina desenfreada”. Na
Câmara, tramita ainda o projeto apresentado pelo líder do PT na Casa, o
deputado Pedro Uczai, que visa proibir o mercado de apostas. Apesar de ainda
não ter sido colocado em pauta pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, o projeto
tem causado alvoroço nas empresas.
Não à
toa, Hendrich, da Abrajogo, ao encerrar sua declaração à Comissão de Finanças e
Tributação da Câmara, fez um apelo: “Eu queria pedir que a Casa [em referência
à Câmara dos Deputados] e o Poder Executivo fizessem o possível para tornar o
nosso ambiente mais amigável. É enorme a quantidade de empresas que eu atendo e
que não vieram para o Brasil porque não conseguem ter uma previsão mínima do
que vai acontecer nos próximos seis meses”.
Fonte:
Por Caio de Freitas, Dyepeson Martins, Duda Sousa, Maira Escardovelli e Thiago
Domenici, Agência Pública

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