sábado, 4 de julho de 2026

Duas ou três coisas sobre o simbolismo no Brasil

A saturação da poesia parnasiana e de seu exacerbado culto de perfeição formal alastra-se esporadicamente em fins da década de 1880. Raimundo Correia, arcano da escola, mostra-se desencantado com a esterilidade de sua prática. “Dessa literatura que importamos de Paris, diretamente ou com escala por Lisboa, literatura tão falsa, postiça e alheia de nossa índole, o que breve resultará, pressinto-o, é uma triste e lamentável esterilidade. Eu sou talvez uma das vítimas desse mal, que vai grassando entre nós. Não me atrevo, pois, a censurar ninguém: lastimo profundamente a todos”.

Atribuir a Medeiros e Albuquerque (1867-1934) a palma por haver introduzido entre nós a poesia simbolista, “com a qual não tinha a menor afinidade, seja através dos volumes que trouxe consigo da Europa, seja, (…), com a publicação das Canções da decadência, em 1887”, segundo Wilson Martins, constitui um dado cronológico acertado, mas polêmico, contraditório.

Talvez o autor fique melhor situado, e mais à vontade, no jardim parnasiano do que no simbolista. Trata-se de um intelectual de atividade multifacetada, atuante em diversas áreas, da política, das artes e do direito: foi presidente da ABL, parlamentar, propôs leis de acidente de trabalho, abordou temas variados e esotéricos (hipnotismo, psicanálise) como jornalista, poeta, crítico literário, ficcionista.

Wilson Martins credita-lhe um elogio pela obra Marta (1920) – “excelente novela que aborda o tema da atração erótica entre pai e filho”. Tais circunstâncias restam melhor entendidas se adicionadas à dinâmica do surgimento de seus livros. Mais associado à estética simbolista, o livro Pecados, de 1889, do próprio Medeiros e Albuquerque, traz um poema, “Proclamação Decadente”, em que se observam alguns vetores do que viria a ser a poesia simbolista, como nestas estrofes: “Pode a Música somente/ do Verso nas finas teias/ conservar no tom fluente/ tênue fantasma de ideias; //(…) creiam achar no que apenas/ é tom incerto e indeciso/ dos seus sorrisos e penas/ o anseio exato e preciso”.

Forçoso reconhecer, em algumas posturas estéticas do fim do milênio, a presença de forte contaminação de cariz nacionalista. Subjaz, nos momentos de afirmação política, um espesso manto de pertença nacionalista. Mas este não é o assunto. No longo prefácio de Finalidade do mundo (1895), o filósofo Farias Brito, posiciona-se: “… estamos francamente em oposição a esta chamada poesia realista ou científica, que alguns dos nossos críticos têm procurado introduzir entre nós como a verdadeira forma da poesia moderna”.

Feito o preâmbulo, voltamos a focar a poesia. A literatura brasileira do final do século XIX apresenta um alargado rol de poetas, alguns dotados de raros dons de coloristas de paisagens e escafandristas do mundo interior. Os recursos técnicos alternam-se, sequestrados das correntes parnasiano-simbolista vigente. O talento individual sobressai dentre os cultores do verso, com destaque para Bernardino Lopes, Perneta, Oscar Rosas, Emiliano Perneta e Cruz e Sousa, do grupo Folha popular, do Rio de Janeiro.

Araripe Júnior relata: “Foi aí que os novos, tomando por insígnia um fauno, tentaram as suas primeiras exibições. A este grupo prendiam-se por motivo de convivência e por aproximações de idade Bernardino Lopes, Perneta, Oscar Rosas e Cruz e Sousa”. O fauno explica-se como homenagem a Mallarmé. Cabe referir o caráter restritivo da escolha: o quarteto insere-se numa legião de vates, acometidos pelo vírus da expressão melancólica e fluida. O levantamento efetuado por Andrade Murici, no seu abrangente Panorama do movimento simbolista brasileiro (1965), engloba 77 autores.

Cromos (1881), de B. Lopes; Ilusão (1911), de Emiliano Perneta; Broquéis (1893), de Cruz e Sousa eram obras de expressiva relevância no contexto. Sobretudo, de acordo com Péricles E. S. Ramos, “o aparecimento de Broquéis demarcou uma mutação climática radical na poesia brasileira” em 1893. Oscar Rosas preferiu não publicar uma obra, militava como jornalista, defendia a Abolição e a República e se dizia “simbolista radical”, rótulo justificado pelos poemas esparsos publicados em jornais e revistas. A impregnação satânica, acrescida do apelo ao vício, perversão sexual e rebeldia, acompanha a estética decadentista. Deste matiz emana um soneto de Oscar Rosas, “Terra prometida”:

Tremo pela suspeita doutra vida

.           – a certeza da Terra Prometida

.           Do Além, desse terrível Amanhã…

E ali chegar, por atração funesta,

.           Aos sabás em função, em grande festa,

.           Um júri presidido por Satã.

Para Péricles da S. Ramos, “B. Lopes, apesar de seu desequilíbrio de gosto, tem poderoso senso de colorido e sonoridade, o qual não permite fique obscurecido em nossa poesia da época, quer parnasiana, quer simbolista”.

A B. Lopes pertencem as quadras que se seguem, extraídas de “D. Carmen III”:

.           Uma erradia falena,

.           Um beija-flor que adejasse

.           Procurava a tua face,

.           A tua boca pequena.

.           Eras a rosa normanda

.           No eirado dos camponeses;

.           E lá, num sótão, às vezes,

.           Uma tulipa da Holanda.

.           Via-te nisto e naquilo:

.           Eras meu sonho remoto:

.           A concha ebúrnea de um loto

Na água sagrada do Nilo!

Nem tudo, no entanto, são vultos femininos idealizados, ou paisagens idílicas. A estética da decadência, germinada nas sarjetas de metrópoles da Europa, espalhava-se como vírus contagioso, através de poemas assinados por Charles Baudelaire, erigindo novo conceito de beleza, murada pelo tédio, calcada na ideia de crueldade e deformação.

De acordo com Sérgio Peixoto, a matriz de além-mar exibe outros teóricos e líderes. “Mas não só Baudelaire e Mallarmé prepararam o rompimento dos cânones da poesia oficial. O próprio Verlaine, após o grande sucesso de seus parnasianos Poèmes saturniens (1866), procura o vago, o indeciso da música interior, e o ‘iluminado’ Rimbaud escandaliza a métrica e a moral com uma liberdade inadmissível e violentamente posta em prática no verso e na vida pessoal”.

Como registro da poesia de Emiliano Perneta, “a mais desconcertante e variada que o simbolismo produziu entre nós” segue um excerto do soneto “Gata”:

Tens uma morbidez lânguida de sonata,

Teu sorriso é polido, é fino e é muito frio…

Se as tuas mãos acaso eu beijo e acaricio,

Sinto uma sensação esquisita, que mata.

Quando eu tomo esse teu cabelo ondeado e louro

E o cheiro, e palpo o teu corpo branco e felino,

Como te torces, pois, minha serpente de ouro!

O teu corpo se enrola em meu corpo amoroso,

E o teu beijo me aquece e vibra como um hino,

Animal de voz rouca e gesto silencioso!

A diversificada e fulgurante poesia de Cruz e Sousa indicia, num consenso entre os críticos, “a crença numa realidade transcendente superior à do mundo sensível, impregnado de dor. Essa crença, em Cruz e Sousa, vai-se acentuando com o tempo, e chega a ser o leitmotiv em Últimos sonetos. A mostra recupera o conhecido soneto “O Assinalado”, no qual se indicia que o ofício do poeta consiste em povoar o mundo de belezas perpétuas:

Tu és o Poeta, o grande Assinalado

Que povoas o mundo despovoado,

De belezas eternas pouco a pouco.

Na natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica

Os teus espasmos imortais de louco.

(Últimos Sonetos)

“Para Cruz e Sousa, o poeta é essencialmente um assinalado, um iniciado, um ser superior que tira sua superioridade do perfeito conhecimento da dor do mundo, de si mesmo e de sua arte. É próprio da condição do poeta retirar beleza da desventura, numa audácia justificada por essa mesma condição de artista”.

Cronologicamente, no Brasil, as duas correntes, parnasianismo e simbolismo, manifestam-se com intensidade simultaneamente nas décadas de 1880 a 1910. Para Wilson Martins: “No caso brasileiro, há historicamente uma dialética ou um diálogo parnasiano-simbolista (como, no século XX, um diálogo simbolista-modernista) que resiste às polarizações doutrinárias, pode-se afirmar que o nosso simbolismo não foi mais do que um parnasianismo romântico, da mesma forma por que é evidente no Parnasianismo a busca de musicalidade, processo tipicamente simbolista”.

 

Fonte: Por Edgard Pereira, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: