Duas
ou três coisas sobre o simbolismo no Brasil
A
saturação da poesia parnasiana e de seu exacerbado culto de perfeição formal
alastra-se esporadicamente em fins da década de 1880. Raimundo Correia, arcano
da escola, mostra-se desencantado com a esterilidade de sua prática. “Dessa
literatura que importamos de Paris, diretamente ou com escala por Lisboa,
literatura tão falsa, postiça e alheia de nossa índole, o que breve resultará,
pressinto-o, é uma triste e lamentável esterilidade. Eu sou talvez uma das
vítimas desse mal, que vai grassando entre nós. Não me atrevo, pois, a censurar
ninguém: lastimo profundamente a todos”.
Atribuir
a Medeiros e Albuquerque (1867-1934) a palma por haver introduzido entre nós a
poesia simbolista, “com a qual não tinha a menor afinidade, seja através dos
volumes que trouxe consigo da Europa, seja, (…), com a publicação das Canções
da decadência, em 1887”, segundo Wilson Martins, constitui um dado cronológico
acertado, mas polêmico, contraditório.
Talvez
o autor fique melhor situado, e mais à vontade, no jardim parnasiano do que no
simbolista. Trata-se de um intelectual de atividade multifacetada, atuante em
diversas áreas, da política, das artes e do direito: foi presidente da ABL,
parlamentar, propôs leis de acidente de trabalho, abordou temas variados e
esotéricos (hipnotismo, psicanálise) como jornalista, poeta, crítico literário,
ficcionista.
Wilson
Martins credita-lhe um elogio pela obra Marta (1920) – “excelente novela que
aborda o tema da atração erótica entre pai e filho”. Tais circunstâncias restam
melhor entendidas se adicionadas à dinâmica do surgimento de seus livros. Mais
associado à estética simbolista, o livro Pecados, de 1889, do próprio Medeiros
e Albuquerque, traz um poema, “Proclamação Decadente”, em que se observam
alguns vetores do que viria a ser a poesia simbolista, como nestas estrofes:
“Pode a Música somente/ do Verso nas finas teias/ conservar no tom fluente/
tênue fantasma de ideias; //(…) creiam achar no que apenas/ é tom incerto e
indeciso/ dos seus sorrisos e penas/ o anseio exato e preciso”.
Forçoso
reconhecer, em algumas posturas estéticas do fim do milênio, a presença de
forte contaminação de cariz nacionalista. Subjaz, nos momentos de afirmação
política, um espesso manto de pertença nacionalista. Mas este não é o assunto.
No longo prefácio de Finalidade do mundo (1895), o filósofo Farias Brito,
posiciona-se: “… estamos francamente em oposição a esta chamada poesia realista
ou científica, que alguns dos nossos críticos têm procurado introduzir entre
nós como a verdadeira forma da poesia moderna”.
Feito o
preâmbulo, voltamos a focar a poesia. A literatura brasileira do final do
século XIX apresenta um alargado rol de poetas, alguns dotados de raros dons de
coloristas de paisagens e escafandristas do mundo interior. Os recursos
técnicos alternam-se, sequestrados das correntes parnasiano-simbolista vigente.
O talento individual sobressai dentre os cultores do verso, com destaque para
Bernardino Lopes, Perneta, Oscar Rosas, Emiliano Perneta e Cruz e Sousa, do
grupo Folha popular, do Rio de Janeiro.
Araripe
Júnior relata: “Foi aí que os novos, tomando por insígnia um fauno, tentaram as
suas primeiras exibições. A este grupo prendiam-se por motivo de convivência e
por aproximações de idade Bernardino Lopes, Perneta, Oscar Rosas e Cruz e
Sousa”. O fauno explica-se como homenagem a Mallarmé. Cabe referir o caráter
restritivo da escolha: o quarteto insere-se numa legião de vates, acometidos
pelo vírus da expressão melancólica e fluida. O levantamento efetuado por
Andrade Murici, no seu abrangente Panorama do movimento simbolista brasileiro
(1965), engloba 77 autores.
Cromos
(1881), de B. Lopes; Ilusão (1911), de Emiliano Perneta; Broquéis (1893), de
Cruz e Sousa eram obras de expressiva relevância no contexto. Sobretudo, de
acordo com Péricles E. S. Ramos, “o aparecimento de Broquéis demarcou uma
mutação climática radical na poesia brasileira” em 1893. Oscar Rosas preferiu
não publicar uma obra, militava como jornalista, defendia a Abolição e a
República e se dizia “simbolista radical”, rótulo justificado pelos poemas
esparsos publicados em jornais e revistas. A impregnação satânica, acrescida do
apelo ao vício, perversão sexual e rebeldia, acompanha a estética decadentista.
Deste matiz emana um soneto de Oscar Rosas, “Terra prometida”:
Tremo
pela suspeita doutra vida
. – a certeza da Terra Prometida
. Do Além, desse terrível Amanhã…
E ali
chegar, por atração funesta,
. Aos sabás em função, em grande
festa,
. Um júri presidido por Satã.
Para
Péricles da S. Ramos, “B. Lopes, apesar de seu desequilíbrio de gosto, tem
poderoso senso de colorido e sonoridade, o qual não permite fique obscurecido
em nossa poesia da época, quer parnasiana, quer simbolista”.
A B.
Lopes pertencem as quadras que se seguem, extraídas de “D. Carmen III”:
. Uma erradia falena,
. Um beija-flor que adejasse
. Procurava a tua face,
. A tua boca pequena.
. Eras a rosa normanda
. No eirado dos camponeses;
. E lá, num sótão, às vezes,
. Uma tulipa da Holanda.
. Via-te nisto e naquilo:
. Eras meu sonho remoto:
. A concha ebúrnea de um loto
Na água
sagrada do Nilo!
Nem
tudo, no entanto, são vultos femininos idealizados, ou paisagens idílicas. A
estética da decadência, germinada nas sarjetas de metrópoles da Europa,
espalhava-se como vírus contagioso, através de poemas assinados por Charles
Baudelaire, erigindo novo conceito de beleza, murada pelo tédio, calcada na
ideia de crueldade e deformação.
De
acordo com Sérgio Peixoto, a matriz de além-mar exibe outros teóricos e
líderes. “Mas não só Baudelaire e Mallarmé prepararam o rompimento dos cânones
da poesia oficial. O próprio Verlaine, após o grande sucesso de seus
parnasianos Poèmes saturniens (1866), procura o vago, o indeciso da música
interior, e o ‘iluminado’ Rimbaud escandaliza a métrica e a moral com uma
liberdade inadmissível e violentamente posta em prática no verso e na vida
pessoal”.
Como
registro da poesia de Emiliano Perneta, “a mais desconcertante e variada que o
simbolismo produziu entre nós” segue um excerto do soneto “Gata”:
Tens
uma morbidez lânguida de sonata,
Teu
sorriso é polido, é fino e é muito frio…
Se as
tuas mãos acaso eu beijo e acaricio,
Sinto
uma sensação esquisita, que mata.
Quando
eu tomo esse teu cabelo ondeado e louro
E o
cheiro, e palpo o teu corpo branco e felino,
Como te
torces, pois, minha serpente de ouro!
O teu
corpo se enrola em meu corpo amoroso,
E o teu
beijo me aquece e vibra como um hino,
Animal
de voz rouca e gesto silencioso!
A
diversificada e fulgurante poesia de Cruz e Sousa indicia, num consenso entre
os críticos, “a crença numa realidade transcendente superior à do mundo
sensível, impregnado de dor. Essa crença, em Cruz e Sousa, vai-se acentuando
com o tempo, e chega a ser o leitmotiv em Últimos sonetos. A mostra recupera o
conhecido soneto “O Assinalado”, no qual se indicia que o ofício do poeta
consiste em povoar o mundo de belezas perpétuas:
Tu és o
Poeta, o grande Assinalado
Que
povoas o mundo despovoado,
De
belezas eternas pouco a pouco.
Na
natureza prodigiosa e rica
Toda a
audácia dos nervos justifica
Os teus
espasmos imortais de louco.
(Últimos
Sonetos)
“Para
Cruz e Sousa, o poeta é essencialmente um assinalado, um iniciado, um ser
superior que tira sua superioridade do perfeito conhecimento da dor do mundo,
de si mesmo e de sua arte. É próprio da condição do poeta retirar beleza da
desventura, numa audácia justificada por essa mesma condição de artista”.
Cronologicamente,
no Brasil, as duas correntes, parnasianismo e simbolismo, manifestam-se com
intensidade simultaneamente nas décadas de 1880 a 1910. Para Wilson Martins:
“No caso brasileiro, há historicamente uma dialética ou um diálogo
parnasiano-simbolista (como, no século XX, um diálogo simbolista-modernista)
que resiste às polarizações doutrinárias, pode-se afirmar que o nosso
simbolismo não foi mais do que um parnasianismo romântico, da mesma forma por
que é evidente no Parnasianismo a busca de musicalidade, processo tipicamente
simbolista”.
Fonte:
Por Edgard Pereira, em A Terra é Redonda

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