Orçamento
secreto: obra com emenda de Elmar Nascimento está paralisada há um ano e meio
Uma
placa instalada no começo da estrada que liga o município de Campo Formoso ao
povoado de Limoeiro, passando pela fazenda da família do deputado federal Elmar
Nascimento (União Brasil/BA), indica a execução da obra de pavimentação da via,
com início em abril de 2024 e término em novembro do mesmo ano. A placa
continua lá. O asfalto, não.
A
reportagem do ICL Notícias percorreu todo o trecho um ano após o prazo
anunciado. No local, há apenas terra batida, poeira e buraco, conforme mostra o
documentário Orçamento Secreto, lançado no dia 28
de junho.
Com
custo previsto de R$ 12,18 milhões, a pavimentação deveria cobrir os oito
quilômetros de estrada, mas os serviços foram interrompidos em dezembro de 2024
por decisão judicial, após indícios de superfaturamento e direcionamento de
licitação no contrato firmado com a empresa Allpha Pavimentações.
A obra
é uma das que colocaram Campo Formoso no centro da Operação Overclean, da
Polícia Federal (PF), que investiga o desvio do orçamento público por meio de
emendas parlamentares. Os recursos para custear o asfalto foram enviados ao
município pela Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São
Francisco), por indicação de Elmar Nascimento.
A
identidade do padrinho da obra só foi revelada, no entanto, após o Supremo
Tribunal Federal (STF) atuar para dar transparência às emendas de relator, que
ganharam o apelido de orçamento secreto por esconder o nome do parlamentar que
escolhia o destino do dinheiro.
Elmar,
porém, nega ter destinado a verba para que a prefeitura executasse a obra por
meio de um convênio (parceria com repasse de recursos federais). Segundo ele, o
dinheiro era para que a própria Codevasf realizasse a obra diretamente. “Todos
esses recursos que foram feitos lá [em Campo Formoso], eu coloquei para obra de
execução direta da Codevasf”, defendeu.
Campo
Formoso é comandado pelo irmão de Elmar Nascimento, Elmo Nascimento
(União Brasil/BA),
que está em seu segundo mandato à frente da prefeitura do município. Parentes
do deputado federal também ocupam cadeiras na Câmara de Vereadores: Murilo
Nascimento, que preside a Casa, e Francisquinho Nascimento, que também já foi
secretário municipal.
Duas
vezes alvo da Operação Overclean, Francisquinho foi flagrado pela PF jogando
sacola cheia de notas de dinheiro pela janela e escondidas dentro do par de
sapatos.
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“Abafaram o caso”
No
povoado de Limoeiro, o que se sabe sobre a paralisação da obra de pavimentação
foi o que saiu nos jornais. O prefeito que esteve na comunidade para o
lançamento não voltou para dar satisfação quando a obra parou, segundo os
moradores.
“Teve
muito escândalo, só que abafaram o caso. Não falam mais nada sobre recomeçar as
obras”, contou o mecânico David Anderson Ferreira, 30 anos. “Até então, a gente
está sem informação”, acrescentou o encarregado de mecânica industrial, Raul
Pereira Reis, de 50 anos.
“A
situação da estrada está muito ruim e a gente tem até medo de adoecer, ter que
sair às pressas e levar para Campo Formoso. O cara gasta mais de 40 minutos; se
fosse pista, não gastava 10 minutos. O que a gente espera é que eles façam a
promessa que eles disseram que iam fazer, então vamos esperar”, ressaltou o
montador, José Venâncio, de 57 anos.
Entre
os moradores de Limoeiro, a frustração se acumulou ao longo dos anos. A
pavimentação da estrada é uma promessa antiga, renovada a cada eleição, mas
nunca concretizada.
“Já tem
tempo que só é promessa. Entra um partido e sai outro, e a promessa é a mesma.
E a expectativa nossa era que realmente viesse essa pavimentação para
transformar a vida de muitas pessoas que precisam”, afirmou a artesã Lidiane
dos Reis de Oliveira, 36 anos.
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‘Asfalto farofa’: população comemora obra pronta, mas até quando?
A
pavimentação da estrada que liga outras duas comunidades de Campo Formoso —
Lage dos Negros a Lagoa do Porco – também entrou na mira da Operação Overclean, da Polícia Federal.
Assim como o trecho que dá acesso a Limoeiro, o projeto recebeu recursos da
Codevasf indicados por Elmar Nascimento.
Em
2023, a empreiteira Allpha Pavimentações venceu a licitação das duas estradas,
hoje sob investigação de superfaturamento e direcionamento de licitação.
Juntos, os dois contratos com a empresa somam R$ 63,2 milhões.
Segundo
a Codevasf, eventuais irregularidades ou inconformidades na execução das obras
ainda estão sob avaliação. A companhia informou ao ICL Notícias que constituiu
comissão técnica e determinou a realização de auditoria especial para analisar
os serviços executados. “Os trabalhos serão submetidos à Diretoria Executiva
para adoção das medidas legais cabíveis”. Procurada, a Allpha Pavimentações não
retornou.
Diferentemente
do trecho entre Campo Formoso e Limoeiro, cuja pavimentação sequer foi
concluída, a estrada até Lage dos Negros foi entregue à população. A conclusão
da obra, no entanto, não encerrou os questionamentos sobre a aplicação dos
recursos públicos.
Reportagem
do Portal UOL revelou que técnicos da Codevasf constataram que o contrato foi
executado em padrão inferior ao previsto ao longo dos 42 quilômetros da via. O
prejuízo estimado é de R$ 28 milhões.
A
equipe do ICL Notícias percorreu todo o trecho da estrada no dia 10 de dezembro
de 2025 e constatou o que já havia sido apontado pelos servidores da
Codevasf: um asfalto fino e esfarelento, apesar da maquiagem de novo.
Ao ICL
Notícias, o prefeito Elmo Nascimento informou ter contratado uma auditoria
independente para avaliar o asfalto. Segundo ele, o laudo aponta que “pelos
estudos feitos até o momento não se tem condições de afirmar que a estrada está
com boa qualidade e nem com péssima qualidade”. Ele disse que também contratou
auditoria independente para analisar as licitações: “não foi apontado nenhum
indício de irregularidade”.
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A investigação que atingiu Elmar e seus parentes
No dia
10 de dezembro de 2024, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Overclean. A
ofensiva resultou na prisão de quinze pessoas nos estados de São Paulo, Goiás e
Bahia. Entre os presos estava Francisquinho
Nascimento,
o primo do deputado Elmar Nascimento.
Francisquinho
foi secretário-executivo do município de Campo Formoso entre janeiro de 2021 e
março de 2024. Quando os agentes chegaram à sua casa, ele jogou pela janela uma
sacola com R$ 220 mil em dinheiro vivo.
A
reportagem do ICL Notícias procurou o vereador pela primeira vez em 9 de
dezembro de 2025, durante visita à Câmara Municipal de Campo Formoso, mas ele
não quis se manifestar. Na semana passada, a defesa foi novamente acionada e
reiterou que não comentaria o caso. “A investigação está tramitando sob sigilo
máximo. Ainda não há inquérito concluído nem denúncia formalizada. Por ora, não
vamos comentar”, afirmou o advogado Vitor Santana.
De
acordo com a PF, Francisquinho Nascimento exercia o papel de “facilitador
administrativo” dentro da Prefeitura de Campo Formoso, “manipulando os
processos licitatórios para beneficiar as empresas do grupo criminoso”.
As
suspeitas dos investigadores é de que ele teria direcionado o certame para que
a Allpha Pavimentações ganhasse os contratos das estradas de Campo Formoso a
Limoeiro e Lage dos Negros e Lagoa do Porco.
“Ele
ajusta editais, inabilita concorrentes e negocia propinas, além de fornecer
informações privilegiadas sobre as licitações para a organização”, destaca a
PF, que também identificou trocas de mensagens entre Francisquinho e os demais
investigados.
Em
julho de 2025, numa nova fase da Operação Overclean, a PF voltou à casa do
vereador. Desta vez encontrou um par de sapatos com R$ 10 mil em notas de R$
20.
Nesta
mesma fase da operação, a PF também bateu na porta da casa do prefeito Elmo
Nascimento e do ex-assessor de Elmar Nascimento, Amaury Nascimento. O caso foi
enviado ao STF, depois de surgirem indícios de participação do político no
esquema.
Procurado,
Elmar Nascimento afirmou que a PGR e o STF negaram medidas contra ele, após a
PF levantar suspeitas sobre seu envolvimento no caso, e reforçou que as suas
emendas foram enviadas para que as obras fossem realizadas pela Codevasf. “O
que eu posso te dizer com relação a mim — não só para Campo Famoso, para lugar
nenhum — eu nunca mandei um centavo de emenda para nenhum município, seja
emenda minha individual, seja emenda de bancada, seja por meio de articular
orçamento, de emenda de relator, o nome que quiser dar, nunca coloquei recurso
nenhum para convênio de obra”, afirmou.
Na
mesma linha, Elmo Nascimento afirmou que os recursos destinados às obras de
pavimentação seriam executados diretamente pela Codevasf, e não por meio de
convênio com o município. Em entrevista ao ICL Notícias, ele disse que o
convênio só foi firmado porque a estatal não teria tido “capacidade de executar
a obra”.
Segundo
o prefeito, como os recursos já estavam empenhados, a prefeitura assumiu a
execução para evitar a perda da verba. “O município assumiu o convênio porque,
ou perde o recurso, ou o convênio”, afirmou.
Elmo
também relatou ter recebido um ofício da Superintendência Regional da Codevasf
comunicando a liberação de recursos do orçamento da União. De acordo com ele, o
documento não informava que o dinheiro tinha origem em emenda parlamentar. O
prefeito acrescentou que a Codevasf acompanhou todo o processo de execução da
obra.
A
Codevasf informou que realiza o acompanhamento de convênios por meio de visitas
às obras, com o objetivo de verificar a aplicação dos recursos orçamentários.
“Após tomar conhecimento de possíveis inconformidades no caso específico, a
Companhia solicitou a realização de ensaios com amostragem de campo, que
revelaram incompatibilidades com o projeto elaborado pela prefeitura. A
Codevasf também constituiu comissão técnica e determinou a realização de
auditoria especial para avaliação do tema”.
Segundo
a estatal, “as informações sobre a origem dos recursos são registradas em nota
de empenho — que é pública e pode ser consultada por qualquer interessado —,
assim como em outros documentos que compõem o processo de formalização do
convênio”.
Fonte:
ICL Notícias

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