O mais explícito episódio de entreguismo da
história
A carta
de Mark Rubio, confirmando que Flávio Bolsonaro colocou uma futura equipe de
transição “à disposição” das autoridades americanas, não é uma mera formalidade
política. A Lei 10.609/2002, que regulamenta a equipe de transição, não dá
acesso apenas a dados públicos. Ela garante à equipe de transição acesso a
“segredos de Estado”, contas públicas, programas e projetos
de todos os 29 ministérios, mais de 60 agências/autarquias e às 16
estatais federais, incluindo documentos sigilosos dos quatro anos anteriores de
gestão — e os servidores do governo em exercício são obrigados por lei a
entregar o que for pedido pelo coordenador da equipe.
Ou
seja: não é uma fresta, é a “casa toda aberta” por até ~120 dias, formalmente,
e por dois meses até a posse. As categorias mais sensíveis que cairiam nesse
perímetro, dado o quadro atual (guerra tarifária, sanções Magnitsky contra
Moraes, disputa OMC):
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Política monetária e cambial
- Composição e
estratégia de uso das reservas internacionais do BC
- Operações de
swap cambial, calendário de rolagem da dívida pública, vulnerabilidades de
curto prazo no balanço de pagamentos
- Arquitetura
técnica e governança de dados do Pix/SPB
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Estratégia de negociação comercial e jurídica contra os EUA
- Posição
negociadora completa do Brasil no contencioso tarifário (o que a Câmara de
Comércio Exterior já decidiu sobre a Lei de Reciprocidade, limites de
retaliação, estratégia no caso da OMC)
- Estratégia
jurídica do governo (inclusive a contratada via Arnold & Porter) para
reverter sanções e tarifas
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Segurança, defesa e inteligência
- Planos de
aquisição e cooperação da base industrial de defesa
- Protocolos de
compartilhamento de inteligência, estrutura de comando das Forças Armadas
- Inquéritos em
andamento na PF, especialmente os que tocam Moraes, Bolsonaro e a
articulação com autoridades estrangeiras já mencionada por Gilmar Mendes
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Minerais críticos e terras raras
- Estágio interno
das negociações do PL 2780, detalhes da operação Serra Verde/USA Rare
Earth, inventário estratégico de reservas — exatamente o ponto fraco de
soberania
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Energia e Petrobras
- Dados de
exploração do pré-sal e planejamento estratégico da estatal
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Judiciário e sanções
- Estratégia
interna de resposta às sanções pessoais contra ministros do STF
O
precedente institucional (caso Moro/Temer-Bolsonaro) mostra que quem coordena
uma área técnica na transição costuma virar ministro da mesma pasta — então não
é só acesso temporário à informação, é controle direto do fluxo de informação
estratégica para dentro do próprio governo seguinte, caso o indicado de fato
assuma.
¨
Como poderá ser a interferência de Trump nas eleições
Quais
as armas de que dispõe Donald Trump para interferir nas eleições brasileiras?
Em
outros tempos, quando a atuação do Departamento de Justiça era mais discreta,
houve articulação mortal contra a democracia brasileira. Redes sociais
estimularam as manifestações de desagrado para com o governo Dilma Rousseff.
Aliados incondicionais dos EUA, a mídia encetou uma campanha de desgaste
inclemente.
A Lava
Jato não foi um caso de um Estado estrangeiro impondo sua jurisdição sobre o
Brasil de fora para dentro. Foi algo mais sofisticado e mais eficaz: um vetor
de influência que penetrava o território nacional através de uma facção
doméstica disposta, a força-tarefa de Curitiba.
Havia
os mesmos interesses entre os dois grupos, e um gancho jurisdicional nítido — a
Foreign Corrupt Practices Act, acionável porque a Petrobras tinha ações
listadas em Nova York e a Odebrecht movimentava o sistema financeiro dos
Estados Unidos.
Agora
não há contraparte brasileira disposta. O Estado brasileiro está defendendo
Moraes, não cooperando contra ele. A Advocacia-Geral da União ingressou na ação
que tramita na Flórida para sustentar a imunidade de jurisdição do magistrado,
e a Justiça americana aceitou o Brasil como parte interessada, suspendendo a
possibilidade de julgamento à revelia.
O
modelo de “parceria através de facção doméstica” não está morto, está à espera
de mudança na correlação de forças interna. O próprio relatório do Judiciary
Committee não esconde o vetor eleitoral: registra que Flávio Bolsonaro aparece
tecnicamente empatado com Lula às vésperas de outubro de 2026. Em caso de
vitória do bolsonarismo, haveria a montagem de uma facção alinhada a
Washington, dentro da PF, do Congresso (os pedidos de impeachment de Moraes),
ou de um futuro Executivo bolsonarista — é o que recriaria a engrenagem Lava
Jato, agora apontada para o outro lado. O DoJ não inicia uma operação dessas;
ele se acopla a uma demanda interna quando ela surge.
O
pacote — tarifa, sanção, litígio privado, relatório parlamentar — é pressão de
Estado a Estado. E é uma pressão que vem se revelando juridicamente instável e
economicamente cara para quem a aplica. A tarifa original de 50% foi derrubada
pela própria Suprema Corte americana por abuso de poderes de emergência; a nova
investida, de 25% via Seção 301, já nasce reformatada para poupar o
abastecimento alimentar — confissão tácita de que a reação dos compradores
americanos, no episódio do café, saiu caro demais.
Enquanto
o Estado brasileiro permanecer institucionalmente coeso e Lula governar, a
pressão de Trump fica contida no plano da intimidação com custo real, mas
mordida limitada. A variável que reabre a possibilidade de uma Lava Jato ao
contrário não é uma decisão tomada em Washington. É uma decisão tomada nas
urnas brasileiras, em outubro.
O risco
maior está na cooperação CIA-força tarefa do Master. A lógica do enquadramento
das organizações criminosas brasileiras como terroristas tem, por trás, abrir
espaço para a troca de informações entre CIA e ala lavajatista da Polícia
Federal.
Na Lava
Jato, informações críticas foram levantadas pelo DoJ e pela CIA, como foi o
caso do Almirante Othon e dos arquivos da Odebrecht.
Ficam
em aberto as intervenções das redes sociais, alavancando o bolsonarismo e
restringindo a visibilidade dos demais atores.
Fonte: Por
Luís Nassif, no Jornal GGN

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