sábado, 4 de julho de 2026

 O mais explícito episódio de entreguismo da história

A carta de Mark Rubio, confirmando que Flávio Bolsonaro colocou uma futura equipe de transição “à disposição” das autoridades americanas, não é uma mera formalidade política. A Lei 10.609/2002, que regulamenta a equipe de transição, não dá acesso apenas a dados públicos. Ela garante à equipe de transição acesso a “segredos de Estado”, contas públicas, programas e projetos de todos os 29 ministérios, mais de 60 agências/autarquias e às 16 estatais federais, incluindo documentos sigilosos dos quatro anos anteriores de gestão — e os servidores do governo em exercício são obrigados por lei a entregar o que for pedido pelo coordenador da equipe.

Ou seja: não é uma fresta, é a “casa toda aberta” por até ~120 dias, formalmente, e por dois meses até a posse. As categorias mais sensíveis que cairiam nesse perímetro, dado o quadro atual (guerra tarifária, sanções Magnitsky contra Moraes, disputa OMC):

>>> Política monetária e cambial

  • Composição e estratégia de uso das reservas internacionais do BC
  • Operações de swap cambial, calendário de rolagem da dívida pública, vulnerabilidades de curto prazo no balanço de pagamentos
  • Arquitetura técnica e governança de dados do Pix/SPB

>>> Estratégia de negociação comercial e jurídica contra os EUA

  • Posição negociadora completa do Brasil no contencioso tarifário (o que a Câmara de Comércio Exterior já decidiu sobre a Lei de Reciprocidade, limites de retaliação, estratégia no caso da OMC)
  • Estratégia jurídica do governo (inclusive a contratada via Arnold & Porter) para reverter sanções e tarifas

>>> Segurança, defesa e inteligência

  • Planos de aquisição e cooperação da base industrial de defesa
  • Protocolos de compartilhamento de inteligência, estrutura de comando das Forças Armadas
  • Inquéritos em andamento na PF, especialmente os que tocam Moraes, Bolsonaro e a articulação com autoridades estrangeiras já mencionada por Gilmar Mendes

>>> Minerais críticos e terras raras

  • Estágio interno das negociações do PL 2780, detalhes da operação Serra Verde/USA Rare Earth, inventário estratégico de reservas — exatamente o ponto fraco de soberania

>>> Energia e Petrobras

  • Dados de exploração do pré-sal e planejamento estratégico da estatal

>>> Judiciário e sanções

  • Estratégia interna de resposta às sanções pessoais contra ministros do STF

O precedente institucional (caso Moro/Temer-Bolsonaro) mostra que quem coordena uma área técnica na transição costuma virar ministro da mesma pasta — então não é só acesso temporário à informação, é controle direto do fluxo de informação estratégica para dentro do próprio governo seguinte, caso o indicado de fato assuma.

¨      Como poderá ser a interferência de Trump nas eleições

Quais as armas de que dispõe Donald Trump para interferir nas eleições brasileiras?

Em outros tempos, quando a atuação do Departamento de Justiça era mais discreta, houve articulação mortal contra a democracia brasileira. Redes sociais estimularam as manifestações de desagrado para com o governo Dilma Rousseff. Aliados incondicionais dos EUA, a mídia encetou uma campanha de desgaste inclemente. 

A Lava Jato não foi um caso de um Estado estrangeiro impondo sua jurisdição sobre o Brasil de fora para dentro. Foi algo mais sofisticado e mais eficaz: um vetor de influência que penetrava o território nacional através de uma facção doméstica disposta, a força-tarefa de Curitiba.

Havia os mesmos interesses entre os dois grupos, e um gancho jurisdicional nítido — a Foreign Corrupt Practices Act, acionável porque a Petrobras tinha ações listadas em Nova York e a Odebrecht movimentava o sistema financeiro dos Estados Unidos.

Agora não há contraparte brasileira disposta. O Estado brasileiro está defendendo Moraes, não cooperando contra ele. A Advocacia-Geral da União ingressou na ação que tramita na Flórida para sustentar a imunidade de jurisdição do magistrado, e a Justiça americana aceitou o Brasil como parte interessada, suspendendo a possibilidade de julgamento à revelia.

O modelo de “parceria através de facção doméstica” não está morto, está à espera de mudança na correlação de forças interna. O próprio relatório do Judiciary Committee não esconde o vetor eleitoral: registra que Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com Lula às vésperas de outubro de 2026. Em caso de vitória do bolsonarismo, haveria a montagem de uma facção alinhada a Washington, dentro da PF, do Congresso (os pedidos de impeachment de Moraes), ou de um futuro Executivo bolsonarista — é o que recriaria a engrenagem Lava Jato, agora apontada para o outro lado. O DoJ não inicia uma operação dessas; ele se acopla a uma demanda interna quando ela surge.

O pacote — tarifa, sanção, litígio privado, relatório parlamentar — é pressão de Estado a Estado. E é uma pressão que vem se revelando juridicamente instável e economicamente cara para quem a aplica. A tarifa original de 50% foi derrubada pela própria Suprema Corte americana por abuso de poderes de emergência; a nova investida, de 25% via Seção 301, já nasce reformatada para poupar o abastecimento alimentar — confissão tácita de que a reação dos compradores americanos, no episódio do café, saiu caro demais. 

Enquanto o Estado brasileiro permanecer institucionalmente coeso e Lula governar, a pressão de Trump fica contida no plano da intimidação com custo real, mas mordida limitada. A variável que reabre a possibilidade de uma Lava Jato ao contrário não é uma decisão tomada em Washington. É uma decisão tomada nas urnas brasileiras, em outubro.

O risco maior está na cooperação CIA-força tarefa do Master. A lógica do enquadramento das organizações criminosas brasileiras como terroristas tem, por trás, abrir espaço para a troca de informações entre CIA e ala lavajatista da Polícia Federal.

Na Lava Jato, informações críticas foram levantadas pelo DoJ e pela CIA, como foi o caso do Almirante Othon e dos arquivos da Odebrecht.

Ficam em aberto as intervenções das redes sociais, alavancando o bolsonarismo e restringindo a visibilidade dos demais atores.

 

Fonte: Por Luís Nassif, no Jornal GGN

 

Nenhum comentário: