sábado, 4 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro vê nova onda de repúdio após defender cartões de crédito dos EUA

O vazamento da íntegra de um calhamaço de 86 páginas enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) disparou um violento revés sobre a pré-candidatura do extremista, que agora enfrenta a pior tempestade de sua trajetória pública. No documento oficial, que ostenta o timbre do Senado Federal, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) assumiu uma postura classificada pela maior parte dos cidadãos e por analistas como de explícita vassalagem internacional: postou-se como ferrenho defensor dos interesses comerciais de bilionárias bandeiras norte-americanas de cartão de crédito, como Visa e MasterCard, propondo em contrapartida o cerceamento da expansão global do PIX, a bem-sucedida e gratuita ferramenta de pagamentos instantâneos desenvolvida pelo Banco Central do Brasil.

A reação nas redes sociais foi imediata e violenta. Rótulos como “traidor da pátria”, “Judas” e “traíra” espalharam-se de forma viral pelas pelas plataformas digitais, unindo diferentes setores da sociedade civil indignados com o uso de um fórum estrangeiro para desidratar um patrimônio tecnológico e financeiro nacional. Encurralado pelo bombardeio, Flávio Bolsonaro deu sinais públicos de desespero, cancelando compromissos em agendas tradicionais no Nordeste para anunciar uma viagem intempestiva a Washington, sob a alegação de estar “cansado e estressado” com o “nível de cobrança” do eleitorado brasileiro, quando na verdade seus concidadãos apenas exigem que ele se comporte como um brasileiro. O episódio desencadeou o que analistas já apontam como o pior inferno astral de sua pré-candidatura à Presidência da República, expondo uma profunda desconexão com a realidade econômica do país e as aspirações de soberania nacional.

<><> PIX como moeda de troca: A lógica do lucro estrangeiro

O cerne do documento protocolado por Flávio Bolsonaro junto ao USTR na última quarta-feira (1º) revela uma inversão de prioridades que chocou o mercado e a opinião pública. Atendendo a uma investigação abraçada pelo governo norte-americano (sob a chamada Section 301), que classifica o avanço do PIX como uma “competição prejudicial” às empresas dos EUA, o senador brasileiro apressou-se em oferecer garantias políticas a Washington. O parlamentar argumentou textualmente que o PIX, por ser uma infraestrutura pública e gratuita, não funciona como uma empresa e, portanto, não gera lucro. Sob essa justificativa, defendeu a necessidade de salvaguardar as margens de lucro das operadoras privadas estrangeiras, que dominam o mercado de cartões de crédito e débito no Brasil.

Para aplacar as preocupações da gestão de Donald Trump e garantir a hegemonia do dólar nas transações comerciais globais, Flávio ofereceu o que chamou de “compromisso legislativo” de remediação: uma trava política para isolar o PIX do sistema financeiro global. A proposta prevê proibir por lei qualquer interconexão do arranjo de pagamentos brasileiro a sistemas transfronteiriços de liquidação considerados “não ocidentais”, uma clara blindagem contra a aproximação de mercados asiáticos, notadamente a China, e uma tentativa de minar os esforços de construção de uma ordem financeira multipolar promovida pelo bloco do BRICS.

Adicionalmente, o pré-candidato defendeu um alívio tributário e regulatório agressivo para as empresas norte-americanas de cartão, alegando que tais mecanismos oferecem serviços que o PIX não seria capaz de suprir, como a contestação de compras e o financiamento de crédito. O argumento ignora os sucessivos avanços promovidos pelo Banco Central do Brasil que já mimetizam essas funções em solo nacional a custos infinitamente menores. A tese de que um presidenciável brasileiro deva priorizar a rentabilidade de multinacionais sediadas em Nova York, em detrimento de uma ferramenta pública essencial para pequenos comerciantes, trabalhadores informais e milhões de cidadãos, consolidou a narrativa de submissão que agora asfixia sua imagem pública.

<><> O cálculo eleitoral do adiamento e a contradição tarifária

O pânico eleitoral é o fio condutor que costura as dezenas de páginas da petição enviada por Flávio Bolsonaro. Ao se apresentar formalmente ao USTR como o principal nome da oposição para a disputa presidencial, o senador implorou para que o governo norte-americano adie por 180 dias (com possibilidade de extensão por mais 90) a aplicação da barreira alfandegária de 25% proposta contra as exportações do Brasil. A justificativa apresentada pelo parlamentar a uma potência estrangeira carrega o peso de uma confissão explícita: ele admite que o tarifaço está destruindo suas chances eleitorais e inflando sua rejeição junto ao eleitorado produtivo.

Essa postura expõe uma contradição flagrante na retórica do clã Bolsonaro. Durante meses, Flávio e seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), aplaudiram publicamente e incentivaram o endurecimento da política comercial norte-americana contra o Brasil, utilizando as sanções econômicas como arma de desgaste político contra a gestão do presidente Lula (PT). Em episódios anteriores, Eduardo chegou a comemorar nas redes sociais a imposição de sobretaxas ao setor exportador brasileiro, agradecendo nominalmente a Donald Trump e referindo-se ao mandatário estrangeiro com reverência devida a um chefe de Estado próprio.

Agora, diante de pesquisas internas que apontam o colapso de sua popularidade, Flávio recorre ao pragmatismo cosmético. Na carta, ele adverte as autoridades norte-americanas de que a pressão tarifária imediata surtiu o efeito oposto ao desejado, fortalecendo a retórica de soberania nacional do presidente Lula e empurrando a opinião pública brasileira para o apoio ao atual governo. “As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando”, confessa no documento. A solução proposta pelo senador não visa proteger os produtores agrícolas ou a indústria nacional do prejuízo bilionário, mas tão somente empurrar o início do desastre econômico para depois do pleito eleitoral, numa manobra que coloca o interesse de sua facção partidária acima da estabilidade financeira do país.

<><> Dossiê Master: Omissões de R$ 61 milhões e uso político das instituições

Na tentativa de robustecer sua interlocução com Washington e desviar o foco de sua agenda entreguista, Flávio Bolsonaro transformou a petição de comércio internacional em uma peça de acusação política interna. O senador anexou ao documento enviado ao USTR un detalhado dossiê sobre as investigações que cercam o Banco Master, classificando o episódio aos norte-americanos como a “maior fraude bancária da história do Brasil”, apropriando-se, ironicamente, de uma expressão cunhada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, meses antes.

No texto enviado a Washington, o parlamentar desenhou uma narrativa que vincula o escândalo financeiro à cúpula do governo federal e ao Judiciário brasileiro. Flávio citou nominalmente ex-ministros como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e do próprio presidente Lula, acusando-os de manter uma rede de proximidade com o controlador da instituição financeira. O senador também atacou o Supremo Tribunal Federal, mencionando contratos do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com a banca investigada, numa clara tentativa de capitalizar as pautas da extrema direita norte-americana sobre supostos abusos e censura institucional no Brasil.

O que confere ao documento o caráter de profunda dissimulação, no entanto, são as omissões cirúrgicas praticadas pelo senador. Enquanto utilizava uma repartição estrangeira como balcão de queixas partidárias para alvejar o governo e o STF, Flávio Bolsonaro sonegou das autoridades dos EUA suas próprias e profundas conexões financeiras com o pivô do escândalo: o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito da Operação Compliance Zero.

Interceptações telefônicas e documentos revelados pelo veículo The Intercept Brasil provam que o senador articulou diretamente com Vorcaro o repasse de cifras milionárias. Entre fevereiro e maio de 2025, empresas parceiras do banqueiro criminoso transferiram pelo menos R$ 61 milhões, de um montante total negociado de R$ 134 milhões, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e gerido por operadores ligados a Eduardo Bolsonaro. O destino do dinheiro era o financiamento do projeto político-midiático Dark Horse, um filme biográfico grotesco destinado a exaltar a figura de Jair Bolsonaro. Em áudios gravados em setembro do ano passado, o próprio Flávio aparece cobrando Vorcaro de forma incisiva por atrasos nos repasses, alegando que a produção estava em “momento muito decisivo” e que “está todo mundo tenso”.

O silêncio do senador sobre os R$ 61 milhões que irrigaram os negócios de sua própria família, somado à ocultação de buscas e apreensões sofridas por aliados íntimos de seu grupo político, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), despiu a carta de qualquer verniz de denúncia legítima. A peça foi convertida, aos olhos da opinião pública nacional, em uma operação de imagem seletiva e desesperada. Ao tentar entregar o patrimônio do PIX em troca de uma trégua eleitoral e usar o Banco Master como cortina de fumaça, Flávio Bolsonaro acabou por carimbar na própria testa a insensatez política, selando o isolamento que agora amarga diante do eleitorado brasileiro.

•        Rejeição a Flávio Bolsonaro dispara e chega a 60%, diz Atlas

A imagem negativa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a 60%, segundo levantamento Latam Pulse Brasil, da AtlasIntel/Bloomberg, divulgado nesta semana. O índice coloca o filho de Jair Bolsonaro em situação de forte desgaste: apenas 38% dos entrevistados dizem ter imagem positiva dele, enquanto 2% não souberam responder.

Na prática, Flávio aparece com saldo negativo de 22 pontos percentuais entre imagem positiva e negativa. O dado reforça o derretimento político do senador em um momento em que vê seu nome desidratar nas pesquisas eleitorais para a presidência, ao passo que observa o crescimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição.

A pesquisa ouviu 4.999 pessoas entre os dias 26 e 30 de junho de 2026, com margem de erro de 1 ponto percentual e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-04582/2026.

<><> Bolsonaristas acumulam alta rejeição

Flávio não está sozinho no bloco de lideranças da extrema direita com imagem majoritariamente negativa. O levantamento mostra que vários nomes associados ao bolsonarismo aparecem com rejeição elevada.

O pior desempenho entre os bolsonaristas listados é de Eduardo Bolsonaro, que tem 62% de imagem negativa e apenas 33% de imagem positiva, com saldo de -29 pontos.

Na sequência aparecem:

•        Flávio Bolsonaro: 38% positiva, 60% negativa, saldo de -22 pontos;

•        Nikolas Ferreira: 39% positiva, 59% negativa, saldo de -20 pontos;

•        Michelle Bolsonaro: 35% positiva, 59% negativa, saldo de -24 pontos;

•        Jair Bolsonaro: 42% positiva, 58% negativa, saldo de -16 pontos;

•        Romeu Zema: 32% positiva, 59% negativa, saldo de -27 pontos;

•        Ronaldo Caiado: 32% positiva, 54% negativa, saldo de -22 pontos.

O dado mais incômodo para o bolsonarismo é que nem mesmo Jair Bolsonaro, principal liderança da extrema direita, consegue inverter a curva de rejeição: sua imagem negativa é de 58%, contra 42% de imagem positiva.

<><> Lula lidera em imagem positiva entre os nomes testados

Na outra ponta, Lula aparece com a maior imagem positiva entre todos os líderes políticos avaliados: 46%. O presidente tem 54% de imagem negativa, com saldo de -8 pontos, desempenho melhor que o de todos os bolsonaristas citados no levantamento.

O vice-presidente Geraldo Alckmin aparece logo atrás, com 45% de imagem positiva e 50% de imagem negativa, saldo de -5 pontos, o melhor resultado líquido entre os nomes listados.

Também aparecem à frente dos principais nomes bolsonaristas em imagem positiva:

•        Tarcísio de Freitas: 44% positiva, 48% negativa;

•        Fernando Haddad: 43% positiva, 54% negativa;

•        Jair Bolsonaro: 42% positiva, 58% negativa.

No caso de Haddad, o índice positivo de 43% supera o de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Romeu Zema e Ronaldo Caiado.

<><> Hugo Motta, Alcolumbre e Aécio têm os piores saldos

Além dos bolsonaristas, a pesquisa aponta rejeição altíssima a lideranças do Congresso e a nomes tradicionais da direita.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem o pior saldo do levantamento: apenas 2% de imagem positiva, 90% de imagem negativa e 8% de “não sei”. O saldo é de -88 pontos.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, também aparece em situação crítica: 3% de imagem positiva, 88% de imagem negativa e 10% de “não sei”, saldo de -85 pontos.

Aécio Neves registra o mesmo saldo negativo de Hugo Motta: 3% de imagem positiva, 88% de imagem negativa e 9%de “não sei”.

Entre os demais nomes avaliados, Renan Santos tem 18% de imagem positiva, 54% negativa e 28% de “não sei”. Já Joaquim Barbosa aparece com 30% de imagem positiva, 41% negativa e 29% de “não sei”.

Medidas do governo Lula têm aprovação majoritária

A pesquisa também mediu a percepção sobre decisões do governo Lula. As medidas mais bem avaliadas são de forte apelo social e econômico.

A gratuidade para todos os medicamentos e itens do Farmácia Popular é considerada acerto por 84% dos entrevistados, contra 11% que veem erro. A isenção de Imposto de Renda para pessoas com renda mensal abaixo de R$ 5 mil aparece com 80% de aprovação e 16% de reprovação.

Também são vistas como acertos:

•        Revogação da “taxa das blusinhas”: 65% consideram acerto;

•        Fim da obrigatoriedade de aulas em autoescola para tirar CNH: 65%;

•        Acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia: 63%;

•        Desenrola: 58%;

•        Pé-de-Meia: 56%;

•        Gás do Povo: 55%;

•        Reforma Tributária: 51%.

As duas medidas com avaliação negativa no levantamento são a retirada de empresas públicas, como os Correios, do programa de privatização, vista como erro por 48%, e a adoção do arcabouço fiscal, considerada erro por 46%.

Criminalidade e corrupção lideram preocupações

Entre os maiores problemas do Brasil, a pesquisa aponta criminalidade e tráfico de drogas em primeiro lugar, com 66,8% das menções. Em seguida aparece corrupção, com 57,9%.

A economia e inflação aparecem em terceiro lugar, com 22,5%. Depois vêm extremismo e polarização política e situação da educação, ambas com 15,5%.

A pesquisa Latam Pulse Brasil é uma iniciativa conjunta da AtlasIntel e da Bloomberg e acompanha indicadores políticos, sociais e econômicos em países da América Latina.

 

Fonte: Fórum

 

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