No
aniversário de 250 anos, Trump reacende o debate: quais os limites do poder nos
EUA?
O
presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump,
parece apreciar suas notórias exibições de poder pessoal.
Ele se
rodeou de um gabinete e outras autoridades que o elogiam em público. Ele ataca líderes
mundiais que perderam sua aprovação. E pressiona algumas das
maiores empresas americanas a fazer o que ele deseja.
Ao se
aproximar da metade do seu segundo mandato na Casa Branca, Trump declarou em
entrevista que "não há limites" para o seu poder.
Este
sentimento parece ser a antítese do chamado experimento americano, iniciado 250
anos atrás, quando o país declarou
independência do poderio monárquico britânico.
O que
pensariam aqueles revolucionários sobre o atual chefe de Estado americano? Não
muita coisa, segundo os críticos.
Milhões
de pessoas marcharam em
protestos contra Trump nos Estados Unidos e em outros países,
portando cartazes com os dizeres "sem reis", "democracia, não
monarquia" e "temos uma Constituição, não um rei".
Eles
afirmam que Trump está forçando seu poder além do que ousaram fazer os
antecessores dele.
Ele,
por exemplo, não pediu autorização do Congresso para iniciar a guerra no Irã.
E manteve a maior parte dos legisladores no escuro sobre a operação militar na
Venezuela, que levou à
captura do então presidente Nicolás Maduro.
Trump
também usou poderes de emergência para contornar a necessidade de legislação
para impor tarifas comerciais a todo o mundo. A Suprema Corte, posteriormente,
determinou que a medida era inconstitucional.
Ao usar
o Departamento de Justiça dos Estados Unidos para investigar e processar
pessoas consideradas seus adversários, como o ex-diretor do
FBI James Comey, Trump é acusado de ignorar a tradicional separação
entre a Casa Branca e os promotores federais, que existe desde o escândalo de Watergate nos
anos 1970, no governo Richard Nixon (1913-1994).
"Não
me sinto um rei", declarou Trump recentemente, ao ser questionado sobre os
protestos. "Preciso enfrentar o inferno para que as medidas sejam
aprovadas."
É claro
que Trump foi eleito com a promessa de criar mudanças profundas e fundamentais
em quase todas as áreas da política e do governo dos Estados Unidos.
Muitos
eleitores que votaram em Trump em 2024 contra o ex-presidente Joe Biden, sem
dúvida esperavam mudanças radicais em relação à imigração, ao comércio e às
relações com aliados americanos históricos.
Quatro
em cada cinco republicanos apoiam o trabalho desenvolvido por Trump, segundo as
pesquisas mais recentes do instituto YouGov.
Mas,
entre a totalidade dos eleitores americanos, sua aprovação caiu abaixo de 40%,
patamar significativamente inferior à do início do segundo mandato do atual
presidente.
Donald
Trump não é o primeiro presidente americano a tentar ampliar seus poderes,
segundo o professor de História e assuntos públicos Julian Zelizer, da
Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Mas ele
destaca que não consegue se lembrar de "outro presidente que tenha ido tão
longe e que fosse tão apaixonado pelo poder".
Joshua
Treviño, diretor do centro de estudos conservador America First Policy
Institute, alerta para não confundirmos a imagem cuidadosamente elaborada de
Trump com a expansão dos poderes da presidência.
"É
fácil confundir a estética com a substância do presidente Trump", segundo
ele.
Treviño
cita Franklin D. Roosevelt (1882-1945) e Richard Nixon como presidentes do
passado que tentaram ampliar os poderes do Executivo.
"Eu
rejeitaria veementemente a ideia de que Donald Trump estaria fazendo algo
qualitativamente único na história americana", destaca ele.
Os
limites exatos do poder de um único político geram debates acalorados há muito
tempo nos Estados Unidos.
Já no
século 18, os pais fundadores do país se preocuparam muito com a excessiva
concentração de poder nas mãos de um único chefe de Estado. Tanto que alguns
deles queriam um comitê executivo para governar o país, em vez de um
presidente.
Já
outros defendiam a concessão de mais poderes.
"Você
tem medo do único e eu, dos poucos", escreveu o segundo presidente
americano, John Adams (1735-1826), ao terceiro mandatário, Thomas Jefferson
(1743-1826).
"Estamos
em perfeito acordo de que os muitos devem ter representação completa, justa e
perfeita. Você está apreensivo com a monarquia; eu, com a aristocracia. Por
isso, eu teria concedido mais poder ao presidente e menos ao Senado",
explicou Adams em 1787.
Em um
dado momento, os pais fundadores chegaram a considerar alguns títulos com
aparência distintamente monárquica.
Eles
discutiram a possibilidade de se referir ao presidente como "Sua
Alteza", "Sua Excelência" ou "Sua Majestade Eleita".
Eles até pensaram em chamá-lo de "Sua Grandeza".
George
Washington (1732-1799), Benjamin Franklin (1706-1790) e Thomas Jefferson podem
ter debatido amplamente estas questões constitucionais na Taverna Middleton, um
bar mais velho que o próprio país no litoral de Annapolis, hoje no Estado
americano de Maryland.
O local
se orgulha de dizer que todos eles bebiam ali nos primeiros dias da nova
república.
É ali
que encontro Lorraine Ross, comemorando seu 60° aniversário. Ela conta que
também deseja celebrar o aniversário dos Estados Unidos, mas está preocupada
com o futuro do país.
"Não
vou sair por aí, correndo e dizendo 'viva, EUA, estamos livres'", diz ela.
Ross
afirma estar particularmente preocupada com os cortes da assistência financeira
às famílias carentes e crianças com necessidades especiais.
Ela
demonstra sua irritação com o Congresso, por "simplesmente deixar [Trump]
fora de controle, ignorando todas as leis" que restringiram o
comportamento dos presidentes americanos no passado.
Outros
americanos com quem conversei na taverna simplesmente aguardam as festividades
do Dia da Independência (4 de julho). O governo Trump prometeu que elas serão
as maiores e melhores comemorações já realizadas.
John
Knox conta que não quer ficar preso à política em torno do atual presidente.
Ele veio de Atlanta, no Estado da Georgia, para visitar o local.
Para
ele, se as pessoas discordarem de Trump, o momento para expressar sua
insatisfação são as eleições de meio de mandato, em novembro, não durante as
comemorações do dia 4 de julho.
Em
outro ponto do país, aviões militares voam sobre uma paisagem cênica em
Keystone, no Estado da Dakota do Sul, enquanto funcionários do Serviço Secreto
americano se preparam para a visita do presidente ao local na sexta-feira
(3/7).
Foi ali
que Donald Trump passou a véspera das comemorações dos 250 anos da
independência americana, em visita ao Monte Rushmore, onde os rostos de quatro
presidentes foram esculpidos em granito.
Trump
foi objeto de memes que o colocaram na montanha, ao lado dos ex-presidentes
George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln (1809-1865) e Theodore
Roosevelt (1858-1918).
Muitos
dos seus apoiadores aprovam esta ideia. E existe até um projeto de lei no
Congresso americano, para que Trump seja acrescentado àquele monumento icônico.
Terry
Davis e Tim Burke fazem parte de um grupo de velhos amigos que atravessam a
região central dos Estados Unidos, viajando entre um parque nacional e outro.
Eles tentaram conseguir ingressos para assistir aos fogos de artifício do
presidente na noite de sexta-feira (3/7), sem sucesso.
Pergunto
se eles conseguem imaginar o rosto de Trump acrescentado ao monumento nacional
do Monte Rushmore. Davis, de 72 anos, responde que Trump deveria ser o maior
rosto, no centro e na frente do monumento.
"Nunca
fiquei tão entusiasmado com nenhum outro presidente no passado, até que ele
tomou as rédeas deste país", afirma ele.
Os
motociclistas destacam o que eles ainda consideram como status de outsider,
de fora da política, de Donald Trump. E estão felizes por verem o presidente
usar seus poderes para enfrentar os democratas e um governo federal que eles
consideram muito invasivo.
"Muito
tempo depois que ele deixar a presidência, daqui a 20 ou 30 anos, acredito que
os historiadores irão dizer que ele foi um dos maiores presidentes da história
do nosso país, por tudo o que ele fez pela nação", afirma Burke.
O que o
presidente americano faz com seus poderes não traz impactos apenas para os
cidadãos atuais do país. Ele pode definir também como os futuros presidentes
farão uso do mesmo poder.
Para
Julian Zelizer, "cada capítulo da expansão do poder presidencial traz
consequências a longo prazo".
"Ele
cria precedentes reais até então inexistentes, que os futuros presidentes
poderão utilizar. E também alimenta um processo de normalização, que faz com
que tudo simplesmente passe a fazer parte daquilo que esperamos que os
presidentes façam."
O
modelo do presidente americano foi estabelecido em 1789, quando o país deu
posse a George Washington como o primeiro mandatário do país.
No seu
discurso de posse, Washington pareceu contido em relação ao poder que recebeu.
Ele afirmou que um líder "deve ser particularmente consciente das suas
próprias deficiências".
É
difícil imaginar Trump, que se autodeclarou "o maior presidente da
história", expressando um sentimento similar.
Fonte:
BBC News

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