sábado, 4 de julho de 2026

Ayoub Khan: A gazaficação do Líbano

Desde que Israel retomou seu ataque ao Líbano em 2 de março, mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas e mais de 2.500 acabaram mortas. Comunidades inteiras foram expulsas de suas casas. Vilarejos foram arrasados. Famílias ficaram sem nada, sem ter para onde voltar. Ao longo da chamada “linha amarela” — a zona militarizada que corta o sul do Líbano — moradores descrevem-se como abandonados, presos entre bombardeios contínuos e sem qualquer proteção significativa. Enquanto isso, os perpetradores documentam tudo para o mundo ver.

O que estamos testemunhando agora é a “gazificação” do Líbano: destruição em larga escala da infraestrutura civil, deslocamento em massa e operações militares contínuas em áreas povoadas, juntamente com o uso indiscriminado de fósforo branco. As Nações Unidas alertaram que os ataques de Israel no Líbano podem já constituir graves violações do direito internacional humanitário. No entanto, até o momento, não houve nenhum esforço internacional sério para deter essa onda de destruição, assim como não houve nenhuma tentativa coordenada significativa para impedir o genocídio em Gaza. O governo do Reino Unido não fez nada para acabar com o delírio de Israel de que pode agir impunemente.

Este é precisamente o tipo de situação que a Carta da ONU foi concebida para evitar — impondo limites ao uso da força e tornando a proteção da paz e da segurança internacionais uma obrigação fundamental. O direito internacional humanitário existe para garantir que, mesmo em tempos de guerra, haja certos limites que não podem ser ultrapassados. É impossível observar o que está acontecendo no sul do Líbano e concluir que esses princípios estão sendo respeitados.

O Reino Unido é signatário das Convenções de Genebra e está vinculado pelo Artigo 1º Comum, que exige não apenas que os Estados cumpram o direito internacional, mas também que tomem medidas para garantir que outras nações o façam. O direito internacional não se impõe sozinho. Ele depende da disposição dos Estados em defendê-lo quando suas normas estão ameaçadas. No entanto, em vez de tomar medidas significativas, o governo trabalhista se limita a emitir declarações tímidas de “preocupação”, apelos à “moderação” e pedidos de “desescalada”, como se tudo isso fosse uma questão de imagem, e não de direito — ou mesmo de princípios morais básicos.

Uma resposta juridicamente coerente ao ataque de Israel ao Líbano exigiria uma abordagem completamente diferente: a imposição de sanções eficazes; a suspensão das exportações de armas; o apoio a investigações internacionais sobre potenciais crimes de guerra; e a tomada de medidas concretas para garantir um cessar-fogo real, em oposição a um cessar-fogo ilusório que permite aos israelenses continuarem seus bombardeios e o deslocamento em massa de civis. Exigiria também o cumprimento das fronteiras internacionalmente reconhecidas, que as Forças de Defesa de Israel (IDF) transgridem repetidamente.

O Líbano não pode ser tratado como uma crise isolada. Reflete um colapso mais amplo nas estruturas do direito internacional. Os princípios jurídicos são agora invocados retoricamente, mesmo quando os Estados devastam populações civis sem qualquer responsabilização. Se isso continuar, as consequências irão muito além do Líbano, corroendo as proteções legais das quais os civis em todo o mundo dependem em tempos de guerra.

O governo do Reino Unido não sofre de falta de conhecimento. Sabe perfeitamente o que está acontecendo. Sua falha reside na falta de coragem política básica.

¨     A guerra contra o Irã deixou os ricos ainda mais ricos. Por Ben Balint-Kurti

recente guerra no Irã desencadeou um enorme choque global no preço do petróleo. Praticamente todos no planeta dependem do petróleo, ou de produtos que o requerem, o que significa que praticamente todos estão pagando mais pelos itens básicos da vida cotidiana. Parece ser uma daquelas raras crises que afetam a todos igualmente.

Mas não. Uma nova pesquisa dos economistas Gregor Semieniuk, Isabella Weber e seus colegas utiliza análises financeiras para mostrar exatamente como os choques de oferta canalizam o dinheiro para o andar de cima: mais de 50% dos lucros provenientes dos choques de oferta relacionados à COVID e à Ucrânia em 2021 e 2022 foram para o 1% mais rico da população dos EUA. Os 50% mais pobres receberam apenas 1%. Há todos os motivos para acreditar que o mesmo padrão está se repetindo agora.

O mecanismo é simples. Suponha que uma guerra destrua os estoques de petróleo de alguma empresa — mas não os seus. O preço global do petróleo sobe porque a oferta total diminuiu, mesmo que sua empresa não tenha sofrido nenhuma perda. Agora você vende a mesma quantidade de petróleo de antes a preços dramaticamente mais altos, sem ter feito nada para melhorar seu produto ou sua eficiência. É um lucro inesperado.

Quando isso aconteceu durante as crises de 2021 e 2022, empresas como a ExxonMobil e a Chevron registraram lucros recordes. Houve, compreensivelmente, apelos para tributar esses lucros e devolver parte do dinheiro ao público que arcou com o custo dos preços mais altos nos postos de gasolina.

Como observou Darren Woods, CEO da ExxonMobil: “Nos Estados Unidos, tem havido discussões sobre a nossa indústria devolver parte dos lucros diretamente ao povo estadunidense. Na verdade, é exatamente isso que estamos fazendo — na forma de dividendos trimestrais.”

É evidente que, provavelmente, não é você quem vai receber esse dividendo.

<><> Quem fica com o dinheiro?

Para rastrear o destino real dos lucros dos combustíveis fósseis, os pesquisadores acompanharam a cadeia de propriedade desde as empresas petrolíferas até os acionistas individuais — incluindo pessoas que possuem ações de empresas petrolíferas indiretamente por meio de fundos de hedge, fundos de investimento ou outras empresas. A descoberta é surpreendente.

O 1% mais rico da população concentrou mais da metade de todos os lucros dos combustíveis fósseis durante os choques de oferta de 2021-2022. A metade mais pobre da população estadunidense recebeu apenas 1%. Isso muda fundamentalmente a forma como entendemos a inflação impulsionada por choques de oferta. Se considerarmos apenas o aumento dos preços ao consumidor, essa inflação afeta a todos de forma praticamente igual — cerca de 6,5% em 2022, em todas as faixas de renda. Mas, ao levarmos em conta os lucros que retornam aos acionistas, surge um cenário bem diferente.

Para o 1% mais rico, a inflação efetiva em 2022 foi de cerca de 3%, porque seus dividendos e rendimentos de ações compensaram grande parte dos aumentos de preços. Para os 50% mais pobres, não houve essa compensação. Eles foram obrigados a absorver o impacto total.

<><> O que está acontecendo agora?

As empresas já divulgaram individualmente os resultados. A Shell e a BP anunciaram aumentos expressivos nos lucros. Os spreads de refino nos EUA — a medida padrão das margens de lucro das refinarias — mostram que grande parte do aumento nos custos de combustível reflete margens de lucro maiores, e não custos de insumos mais elevados. E como as principais companhias petrolíferas são verticalmente integradas, elas lucram em ambas as pontas: com o aumento dos preços pelos quais vendem seu excedente de petróleo bruto e com o aumento de suas próprias margens de refino.

Os mercados, ao que parece, anteciparam-se ao público. As ações de empresas de combustíveis fósseis começaram a subir em janeiro e fevereiro deste ano, quando as tensões com o Irã aumentaram e a invasão da Venezuela pelos EUA gerou temores (ou, para os acionistas, talvez esperanças) de novas interrupções no fornecimento.

Choques de oferta não geram desigualdade espontaneamente, mas sim amplificam a desigualdade já existente. A guerra no Irã não escolheu seus vencedores e perdedores no âmbito econômico; a estrutura de propriedade da indústria global de combustíveis fósseis fez isso. Quando descrevemos o que se segue simplesmente como “inflação” ou “dinâmica de mercado”, estamos usando uma linguagem neutra para descrever algo que é, em sua essência, uma transferência de recursos de pessoas que estão sofrendo para pessoas que não estão.

¨      EUA temiam que Israel possa atacar negociadores iranianos para sabotar acordo de paz, diz mídia

O governo dos Estados Unidos acreditava que Israel poderia matar os principais negociadores iranianos para comprometer as negociações de paz entre Washington e Teerã, informou nesta quinta-feira (2) o jornal The New York Times, citando autoridades e ex-autoridades norte-americanas.

Segundo a publicação, a preocupação se concentrava especialmente no ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e no presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf.

De acordo com o jornal, Washington pediu a diversos países da região que alertassem Teerã sobre a possibilidade de Israel atacar essas duas autoridades.

O jornal revelou ainda que os temores envolviam outras figuras de alto escalão do governo iraniano, entre elas o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, e Kamal Kharazi, assessor do então líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. Os dois, no entanto, acabaram mortos em ataques israelenses.

Impactos da guerra no Irã

Mais cedo, a mídia britânica publicou uma pesquisa que aponta que seis em cada dez norte-americanos acreditam que os Estados Unidos serão menos influentes até 2050, refletindo o crescente pessimismo de que o poder global do país está diminuindo.

"O domínio [de Washington] parece estar se desgastando, com decisões sendo tomadas que podem aumentar algumas formas de poder e privar outras", ressalta a publicação.

Segundo o jornal, a guerra contra o Irã mostrou que, apesar de seu poderio militar, os Estados Unidos não conseguem assegurar vantagem estratégica apenas com plataformas militares de alto custo e estratégias de pressão econômica.

Em fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha conjunta de ataques contra alvos iranianos, incluindo instalações em Teerã. Em resposta, o país persa lançou ataques contra o território israelense e alvos militares norte-americanos no Oriente Médio.

<><> Israelenses vão às ruas protestar no marco de 1.000 dias do ataque de 7 de outubro

Centenas de pessoas foram às ruas de Tel Aviv participar de uma marcha de protesto nesta quinta-feira (2), marcando os mil dias do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, informou um correspondente da Sputnik.

Conforme relatou o correspondente, os manifestantes entoaram gritos contra o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e marcharam de uma estação ferroviária central até a Praça dos Reféns, no centro de Tel Aviv. Os ativistas agitaram bandeiras, tocaram tambores e exigiram que o governo criasse uma comissão estatal para investigar a falha em prevenir o ataque.

Protestos semelhantes ocorreram em diversas cidades israelenses na quinta-feira. Além dos protestos, homenagens às vítimas foram prestadas durante o ato.

A manifestação marcou o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel, disparado da Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023. Ao todo, 250 foram feitos reféns e cerca de 1.200 pessoas foram mortas naquele dia.

O ataque desencadeou uma operação terrestre israelense em Gaza, que deixou o enclave quase totalmente destruído. Mais de 70 mil palestinos foram mortos, segundo autoridades de saúde locais. A escalada do conflito se transformou em um confronto regional com ataques também implementados por Tel Aviv contra o movimento libanês Hezbollah, os houthis do Iêmen e o Irã.

¨      Israel integra laser à Cúpula de Ferro em meio à tensão com Hezbollah, revela mídia

Israel concluiu testes de uma versão atualizada da Cúpula de Ferro, validando sua integração operacional com o Feixe de Ferro, sistema a laser que passa a atuar de forma coordenada com os interceptores tradicionais.

De acordo com um portal especializado em equipamentos militares, o Ministério da Defesa de Israel divulgou a mais recente integração tecnológica de sua Cúpula de Ferro, sem, no entanto, detalhar tais modificações, mas afirmou que elas ampliam a capacidade de enfrentar salvas de saturação com maior volume e ritmo de disparos.

Segundo a publicação, a integração permite que comandantes alternem, em tempo real, entre interceptações por mísseis ou laser, conforme o tipo de ameaça, disponibilidade dos sistemas e custo operacional. Os testes incluíram cenários conjuntos geridos diretamente pelo centro de batalha da Cúpula de Ferro, etapa considerada essencial para futuros desdobramentos.

O anúncio ocorre em meio ao cessar‑fogo entre EUA e Irã, um contexto que mantém Israel em alerta na fronteira com o Líbano, onde ataques de drones do Hezbollah surgem em resposta à agressão israelense. A modernização busca reforçar a rede de defesa antiaérea diante desse ambiente de tensão.

Operacional desde 2011, a Cúpula de Ferro é a espinha dorsal da defesa multicamadas israelense, com baterias compostas por radar, centro de comando e lançadores de interceptores Tamir, capazes de neutralizar ameaças entre quatro e 70 quilômetros.

A Rafael, desenvolvedora da Cúpula de Ferro, também lidera o desenvolvimento do Feixe de Ferro, projetado para destruir alvos em até cinco segundos e em alcances de cerca de dez quilômetros, oferecendo uma alternativa de baixo custo por disparo.

Enquanto um míssil Tamir custa cerca de US$ 50.000 (R$ 258.000), cada pulso de laser do Feixe de Ferro custa apenas alguns dólares, tornando a combinação dos dois sistemas estratégica para enfrentar ataques intensos sem elevar drasticamente os gastos.

A atualização, segundo o governo israelense, prepara o país para um cenário em que defesas mais flexíveis, rápidas e economicamente sustentáveis serão decisivas diante de ameaças aéreas cada vez mais numerosas e diversificadas.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil/Sputnik Brasil

 

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