Como
CazéTV, influenciadores e bets transformaram o Brasil em laboratório de um novo
modelo de transmissões esportivas
Acostumado
a importar tendências dos Estados Unidos e da Europa, o mercado brasileiro de
mídia esportiva agora vive uma inversão de papéis: passou a exportar para o
mundo o modelo de transmissões lideradas por influenciadores digitais em
plataformas nativas da internet, como YouTube e Twitch, nos moldes da CazéTV e
da Goat.
Os
jogos da Copa do Mundo transmitidos pela CazéTV, criada pelo apresentador
Casimiro Miguel, teriam quebrado recordes de lives no YouTube — a partida entre
Brasil x Japão, por exemplo, teria sido acompanhada por 19 milhões de pessoas.
Enquanto
no Brasil a CazéTV responde a acusações de promoção irregular de bets, a
LiveMode, empresa por trás do canal, expandiu sua operação para Portugal. Ela
reuniu influenciadores, humoristas e jornalistas para lançar sua operação no
país em parceria com o camisa 7 da seleção portuguesa, Cristiano Ronaldo.
O
projeto está no início, mas a empresa diz já considerar a iniciativa
bem-sucedida. Sua primeira grande transmissão, o jogo entre Brasil e Marrocos
na Copa do Mundo, teria alcançado quase um terço dos lares portugueses,
informou à imprensa portuguesa a LiveMode, que não respondeu aos pedidos de
entrevista da BBC.
No
Reino Unido, influenciadores como Mark Goldbridge e o ex-jogador Gary Neville
passaram a transmitir partidas da Bundesliga — a principal liga de futebol da
Alemanha —, e na França o streamer Zack Nani adquiriu direitos da Saudi Pro
League — a liga saudita de futebol — e dos jogos da seleção francesa sub-21.
Isso
sem contar as competições criadas especificamente para o ambiente digital, como
a Kings League, formada pelo ex-zagueiro da Espanha Gerard Piqué em parceria
com o influenciador espanhol Ibai Llanos.
Embora
ainda estejam longe da escala alcançada pela CazéTV, que rivaliza com a maior e
mais tradicional emissora do Brasil, a Globo, essas iniciativas já sacodem a
mídia esportiva internacional.
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Por que o modelo CazéTV fez sucesso primeiro no Brasil e agora inspira
executivos no exterior
Segundo
a consultoria britânica Ampere, especializada nos mercados de mídia e esportes,
a América Latina é a região onde é mais disseminado o consumo de transmissões
em que os chamados criadores de conteúdo reagem e comentam as partidas.
No
México, que lidera o ranking, 73% dos fãs de esportes acompanham esse tipo de
conteúdo; no Brasil, quarto colocado na lista, o índice chega a 62%.
Para
Minal Modha, diretor de pesquisas da Ampere, isso está ligado ao consumo
excepcionalmente alto de redes sociais na região. Não por acaso, países como o
Brasil costumam figurar entre os que mais passam tempo conectados a essas
plataformas.
Nesse
contexto, transmissões como as da CazéTV são capazes de unir duas paixões do
público local. "Assistir a um jogo com um influenciador comentando combina
o prazer do esporte com aquele que vem do uso das redes sociais", explica
Modha.
Sua
visão encontra eco na avaliação de Victor Machado, diretor de TV,
entretenimento e esportes do YouTube no Brasil. Para ele, uma das principais
razões para o sucesso da CazéTV é o senso de comunidade criado pelo canal.
Isso se
deve tanto aos apresentadores, que dizem ser amigos e manter uma relação que
vai além das transmissões, quanto ao próprio Casimiro, que desperta
identificação por não ter o perfil de um narrador consagrado, mas ser o espelho
de um torcedor comum.
Casimiro
começou a comentar partidas esportivas de maneira despretensiosa em
transmissões online. Só depois de viralizar, profissionalizou a atividade e
passou a rentabilizá-la.
Mas
esse engajamento também é reforçado pela interação entre os usuários, que podem
comentar as transmissões em tempo real por meio do chat das plataformas
digitais.
É uma
experiência que as emissoras tradicionais tentam reproduzir por meio de
iniciativas como a chamada TV 3.0, em fase de testes no Brasil. A tecnologia
promete recursos mais interativos e uma experiência de consumo mais
personalizada, mas ainda está distante da escala e da familiaridade que o
YouTube e a Twitch já alcançaram.
Esse
senso de personalização, acrescenta o executivo, também favorece modalidades
esportivas e campeonatos menos populares, muito comuns especialmente na Europa
e que raramente encontrariam espaço nos canais tradicionais.
São
competições que ficavam restritas à TV por assinatura, dependendo de um público
disposto a pagar valores elevados para ter acesso ao conteúdo — no auge da TV a
cabo, há mais de uma década, os pacotes esportivos podiam facilmente superar os
R$ 100 mensais.
Essa
barreira, argumenta Machado, dificulta até a formação de uma base fiel de
torcedores em determinados mercados, um debate que se tornou comum em eventos
de negociação de direitos de transmissão na Europa, ele diz.
"Os
executivos da Bundesliga comentaram que aquilo que testaram no Brasil foi
importante para reproduzir o formato em outros países. O mesmo aconteceu com a
Copa do Rei, na Espanha, que passou a experimentar esse modelo com
influenciadores locais", afirma.
"A
dificuldade dessas entidades [do futebol] é ampliar seu alcance. Quando
priorizam a receita e fecham acordos só com plataformas pagas, como a televisão
por assinatura e os serviços de streaming, elas resolvem um desafio de curto
período, mas, no longo prazo, acabam restringindo aquele esporte a um nicho. É
preciso buscar um equilíbrio entre alcance e receita", acrescenta Machado.
É
justamente com campeonatos e modalidades esportivas menos populares que os
testes deste novo modelo de transmissão, gratuita e associada a
influenciadores, vêm sendo realizados na Europa, em iniciativas que ainda
movimentam pouco dinheiro, segundo Modha, o analista da Ampere.
"O
único acordo cujo valor se tornou conhecido é o do francês Zack Nani com a liga
saudita, mas acredita-se que tenha ficado na casa das centenas de milhares de
libras, não dos milhões", ele conta.
A
comparação ajuda a dimensionar a escala da CazéTV. Segundo estimativas de
mercado citadas pelo analista, o canal brasileiro deve gastar cerca de US$ 200
milhões, ou aproximadamente R$ 1 bilhão, em direitos de transmissão em 2026.
Boa
parte desse valor se explica pela Copa do Mundo: a CazéTV garantiu os direitos
para transmitir os 104 jogos do torneio, enquanto a Globo, por exemplo, vai
exibir 64 partidas.
Com
isso, os brasileiros interessados em acompanhar toda a competição não têm
alternativa senão recorrer ao YouTube para assistir a determinados confrontos,
como a estreia da Argentina, em que Lionel Messi alcançou o recorde de 16 gols
em Copas do Mundo masculinas.
Embora
seja um investimento expressivo, ele parece menos surpreendente diante das
estimativas de que a CazéTV esteja faturando cerca de R$ 2 bilhões em
publicidade.
Para
2027, a previsão é de que os gastos do canal com direitos de transmissão recuem
para cerca de US$ 70 milhões — ainda um valor alto para os padrões europeus
observados nesse mercado.
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Novo modelo causa controvérsia por audiência, bets e regulação
O
sucesso de canais como a CazéTV tem preocupado as emissoras tradicionais, que
enfrentam queda de audiência à medida que o público migra — ou ao menos divide
seu tempo — entre a velha "telinha" da TV e as telas ainda menores
dos celulares.
No
Brasil, a Globo criou um canal no YouTube, o GE TV, apostando em repórteres e
comentaristas que adotam um tom bem mais informal do que o da televisão e se
aproximam desse novo estilo de transmitir esportes.
No
Reino Unido, a Sky Sports tem promovido, por meio do programa Saturday Social,
encontros entre influenciadores de esporte e o próprio público na tentativa de
manter as gerações mais jovens engajadas.
Mas é
difícil competir com esse modelo, afirma Modha, o analista da Ampere.
Embora
canais do porte da CazéTV desembolsem milhões para exibir partidas, muitos
influenciadores atraem grandes audiências apenas reagindo e comentando os
jogos, sem mostrar as imagens nem adquirir os direitos de transmissão — algo
impensável para a TV, observada com mais rigor pelos órgãos regulatórios.
Mesmo a
CazéTV, que paga pelos direitos de exibição, gera controvérsia. Isso porque a
LiveMode, empresa por trás do canal, atua dos dois lados da negociação da Copa:
de um lado, é responsável por comercializar os direitos de transmissão da Fifa;
de outro, também os adquire. Nos bastidores, outras emissoras afirmam que essa
atuação configura um conflito de interesses e consideram a prática injusta.
As
emissoras tradicionais também questionam a forma como a audiência é medida. No
Brasil, por exemplo, o público da TV tradicional é auditado pelo Ibope,
enquanto os números de canais como a CazéTV são informados pelas próprias
plataformas em que estão hospedados, como YouTube e Twitch.
Há
argumentos dos dois lados. O Ibope, por exemplo, não contabiliza a audiência de
quem acompanha uma transmissão de TV fora de casa, pelo celular ou tablet, via
internet ou usando a antena dos aparelhos.
Por
outro lado, os dados divulgados pelas plataformas digitais não passam por
auditoria independente — algo considerado essencial pelo mercado publicitário,
para garantir credibilidade às métricas que orientam investimentos às vezes
bilionários.
Os
anúncios, aliás, estão no centro de outra disputa. Nas emissoras tradicionais,
costuma haver uma separação entre o conteúdo editorial — representado, por
exemplo, pela narração e pelos comentários durante uma partida — e o conteúdo
comercial, exibido nos intervalos. Nos canais da internet, porém, essa
fronteira é mais tênue.
A
controvérsia ganhou força por causa das bets. Elas patrocinam canais esportivos
tanto na TV quanto na internet. A CazéTV está no centro de uma polêmica.
Narradores e comentaristas do canal estariam dando dicas de como apostar em
bets, além de citar probabilidades sobre retorno de apostas e de dar
recomendações sobre resultados prováveis de acontecer.
No
final de junho, a Secretaria Nacional dos Consumidor (Senacon), órgão ligado ao
Ministério da Justiça e Segurança Pública, citou a CazéTV em uma investigação
sobre publicidade irregular de bets.
Esse
tipo de publicidade é proibido pelo Conar, o Conselho Nacional de
Autorregulamentação Publicitária, e levou o Ministério da Fazenda, por meio da
Secretaria de Prêmios e Apostas, a abrir, na terça-feira (30/6), um processo
administrativo contra as empresas que fizeram esses anúncios na CazéTV. As
multas podem chegar a R$ 2 bilhões.
Desde o
último fim de semana, porém, esse tipo de prática deixou de ser observado nas
transmissões da CazéTV. A BBC News Brasil procurou a LiveMode, empresa
responsável pelo canal, mas não recebeu resposta até a publicação desta
reportagem. À Folha de S.Paulo, a empresa afirmou que não comentaria o caso.
Esse
cenário de controvérsias regulatórias também é visto em Portugal. A LiveMode
corre o risco de ser multada no país por não ter apresentado a documentação
necessária para se registrar junto à Entidade Reguladora para a Comunicação
Social (ERC) como prestadora dos chamados serviços audiovisuais a pedido, que
abrangem as plataformas de streaming.
De
qualquer forma, este é um mercado que, na visão dos analistas, só tende a
crescer. Modha, da Ampere, diz que fora do Brasil "esses canais
continuarão a transmitir pacotes secundários ou menores, porque campeonatos
premium como a Copa precisam de investimento financeiro, não só de estratégias
para ampliar seu alcance".
"Mas
iniciativas como o investimento recente de Cristiano Ronaldo na LiveMode em
Portugal provavelmente fornecerão a esses canais os recursos necessários para
investir em mais propriedades premium", ele projeta.
Fonte:
BBC News Brasil

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