Venezuela:
O risco de ocupação sutil após o terremoto
A
Venezuela declarou estado de emergência após os fortes terremotos do último dia
24 de junho, que provocaram o colapso de inúmeros edifícios em diferentes
regiões do país, deixando um trágico saldo de pelo menos 1.943 mortos e cerca
de 10 mil feridos (até a data de publicação deste artigo).
Diante
da magnitude da tragédia, vários países manifestaram solidariedade ao povo
venezuelano e começaram a coordenar, com a maior rapidez possível, o envio de
suprimentos e equipamentos de resgate para as áreas mais afetadas. Sem perder
tempo, o governo venezuelano organizou as operações de busca e salvamento,
contando com a participação de contingentes internacionais.
<><>
Uma década de sanções dificulta a resposta ao desastre
O
vice-ministro de Política Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, informou
em maio que o país foi alvo de 1.088 medidas coercitivas unilaterais nos
últimos 11 anos, das quais 1.040 permanecem ativas. Desde 2015, Washington
impôs mais de mil sanções econômicas que dificultam severamente a aquisição de
medicamentos — situação que se torna crítica, uma vez que vários hospitais
estão lotados devido ao grande número de feridos.
Essas
sanções norte-americanas, somadas à crise econômica decorrente, atrapalham os
trabalhos de resgate. As equipes de emergência precisam remover escombros e
procurar sobreviventes com recursos bastante limitados, o que reduz
drasticamente o tempo disponível para encontrá-los com vida. A situação se
agravou ainda mais devido aos apagões em massa em grande parte do país, que
também interromperam as telecomunicações, deixando milhares de venezuelanos no
exterior sem possibilidade de se comunicar com suas famílias.
Essa
realidade vulnerável foi propiciada pelas sanções e pela política agressiva de
Washington. Durante anos, o governo venezuelano operou sob um asfixiante
bloqueio que diminuiu sua capacidade de fornecer ou produzir os materiais
necessários para enfrentar desastres naturais dessa magnitude. Washington
estava ciente da escassez de insumos médicos no país; por isso, um dos
primeiros envios dos EUA após o sequestro de Nicolás Maduro consistiu em 65
toneladas de suprimentos médicos, o que representa um reconhecimento não
oficial do impacto de suas próprias sanções. Esse impacto direto também se
evidencia nas estações de monitoramento e pesquisa sísmica da Venezuela, cujas
restrições financeiras impediram sua atualização tecnológica, forçando o
governo a fechá-las parcialmente.
<><>
Washington tenta limpar sua reputação
Após os
terremotos de 24 de junho, os Estados Unidos afirmaram estar em contato com as
autoridades venezuelanas e mobilizando assistência para a nação sul-americana,
historicamente afetada pelo embargo de Washington. Donald Trump foi um dos
primeiros líderes a prometer apoio: “Os EUA estão prontos, dispostos e aptos a
ajudar. Estaremos lá para nossos novos e grandes amigos”.
Da
mesma forma, o governo estadunidense emitiu a Licença Geral 60 do OFAC, uma
autorização temporária válida até 23 de outubro de 2026 que permite processar
transações vinculadas à assistência humanitária para os desabrigados. Embora
pareça uma medida positiva, ela não resolve o obstáculo de fundo. O economista
Francisco Rodríguez explica que essas licenças limitadas são insuficientes para
que os recursos fluam com rapidez, já que muitas instituições financeiras
internacionais continuam bloqueando ou atrasando as operações por receio de
violar o regime geral de sanções.
Por
outro lado, os Estados Unidos enviaram um contingente considerável de
socorristas para se somar às tarefas de salvamento, e diversos veículos de
imprensa divulgaram imagens dessas equipes trabalhando lado a lado com o
pessoal venezuelano.
Ao
mesmo tempo, Trump gerou polêmica ao declarar que os venezuelanos estão felizes
e continuam dançando nas ruas após os terremotos. Isso sugere que, fiel à linha
geopolítica tradicional de Washington, o desastre pode ser instrumentalizado
para expandir sua influência na Venezuela e melhorar sua imagem junto a certos
setores do chavismo.
Os
venezuelanos devemos lembrar sempre que qualquer desastre ou tragédia é
passageiro. Uma pequena ajuda por parte de um inimigo que só busca se apoderar
de nossos recursos naturais não pode apagar o duro passado de sanções e guerra
política. Além disso, nunca esqueceremos que os próprios norte-americanos
invadiram a Venezuela em 3 de janeiro de 2026 para sequestrar o presidente
legítimo, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O resultado foi a morte
de 32 militares cubanos e 47 militares venezuelanos.
Na
história contemporânea do país existe um precedente: em 1999, após os
deslizamentos de terra no estado de Vargas (hoje La Guaira), o então presidente
Hugo Chávez recusou a ajuda norte-americana e o país conseguiu se recuperar por
meios próprios. Atualmente, os terremotos podem abrir a porta para um maior
investimento direto dos EUA em infraestruturas-chave, como água potável e a
reconstrução geral; no entanto, sob essa perspectiva, isso poderia acarretar
graves perdas de soberania nacional.
<><>
Ameaça percebida pela presença militar norte-americana na Venezuela
Washington
já deslocou mais de 900 efetivos em território venezuelano. O curioso é que os
“socorristas” norte-americanos contam com equipamentos típicos das forças
especiais, como óculos de visão noturna. Embora se possa supor que esses
visores incluam tecnologia térmica para facilitar o resgate, ainda não foi
divulgado nenhum vídeo que comprove seu uso por parte dos militares
norte-americanos. Isso é o que se conhece como uma “invasão silenciosa”, um
campo no qual Washington se move como um jogador profissional.
Qual
seria sua possível estratégia? Na verdade, é bastante simples. Limpar os
escombros e reconstruir o país por completo pode levar meses ou até anos;
durante todo esse tempo, Washington se encarregaria de divulgar vídeos que
mostrem o trabalho humanitário de seus socorristas. Paralelamente,
pressionariam o governo venezuelano para que convidasse sismólogos e
engenheiros sísmicos norte-americanos para os centros científicos locais, sob o
pretexto de organizar uma colaboração conjunta.
O passo
final seria estabelecer na Venezuela um centro conjunto de estudos sísmicos,
integrado por membros do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE). Dado
que o USACE é responsável por gerenciar e projetar infraestrutura crítica —
como vias navegáveis, portos, barragens e projetos de mitigação de desastres —,
a justificativa estaria pronta. É claro que a segurança dessas instalações
ficaria a cargo de militares das forças especiais. Dessa forma, Washington
conseguiria fundar, de maneira sutil, uma base militar em território
venezuelano.
Ao
demonstrar a vantagem da presença norte-americana no país, a Casa Branca
proporia a Caracas o deslocamento de seus militares no âmbito da iniciativa
Escudo das Américas. Uma presença militar permanente não só permitiria
monitorar melhor a situação interna, mas também prevenir ameaças contra os
interesses nacionais de Washington. Em última instância, o objetivo geral da
Casa Branca é desmantelar a ideologia do chavismo para consolidar um aliado sob
seu controle.
Por sua
vez, a oposição venezuelana já deixou um exemplo eloquente de como funcionam os
vínculos amistosos com Washington. Isso ficou evidente quando a líder
opositora, María Corina Machado, viu-se obrigada a solicitar permissão da Casa
Branca para retornar à Venezuela após os terremotos; um pedido que frustrou os
altos funcionários estadunidenses, que finalmente não autorizaram seu regresso.
Os
terremotos eventualmente passarão, mas suas repercussões políticas ameaçam
perdurar. A assistência internacional, especialmente a dos Estados Unidos, não
deveria se transformar, sob nenhuma hipótese, em uma ocupação militar, seja de
caráter temporário ou permanente.
¨
3 razões para tantos prédios desabarem nos terremotos da
Venezuela
Famílias
inteiras ficaram soterradas sob escombros.
A
devastação provocada pelos dois terremotos, de magnitude 7,2 e
7,5, que atingiram a Venezuela em 24/6 foi tão grande
que muitos passaram a se perguntar por que tantos prédios desabaram, deixando
milhares de mortos e feridos.
O
deslocamento da placa tectônica Sul-Americana em relação à placa do Caribe
provocou uma enorme liberação de energia nas profundezas da Terra que foi mais
intensa em frente ao litoral norte da Venezuela, na região que passou a ser
chamada de "marco zero" da tragédia: o estado de La Guaira.
Embora
os epicentros dos dois terremotos tenham sido registrados no estado de Yaracuy,
o primeiro perto de San Felipe e o segundo nas proximidades de Yumare, a
ruptura na crosta terrestre foi tão extensa que as ondas sísmicas se propagaram
até o litoral de La Guaira, onde passa a falha de San Sebastián, localizada no
ponto de atrito entre as duas placas tectônicas.
Quantos
prédios desabaram em La Guaira e por quê? A resposta ainda está sendo estudada,
mas os cientistas já têm algumas pistas.
"Pode
haver mais de 50 razões para um prédio desabar", afirma Feliciano de
Santis, presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, em entrevista à BBC
News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Entre
elas estão o impacto das ondas sísmicas dos dois terremotos, um terremoto duplo
registrado no país apenas uma vez antes, em 1812, e a proximidade de La Guaira
da área onde houve uma enorme liberação de energia sísmica.
Também
contribuíram o tipo de solo, a ressonância nos prédios e irregularidades nas
construções, afirma De Santis.
O
governo, que declarou La Guaira zona de desastre, informou nesta semana que
mais de 800 prédios sofreram danos em todo o país, a maioria deles em La
Guaira. Já estimativas independentes, como a do Instituto de Pesquisa de
Sistemas Ambientais (ESRI), apontam cerca de 900 construções danificadas.
A Nasa
(agência espacial americana), por sua vez, fez uma estimativa preliminar
indicando que cerca de 59 mil edificações em toda a Venezuela podem ter sofrido
algum tipo de dano. Mas a projeção é apenas indicativa e não inclui
verificações em campo.
O que
pode ter provocado o desabamento de tantas construções no litoral norte da
Venezuela?
>>>>
1. O impacto direto das ondas sísmicas em La Guaira
O
litoral do estado de La Guaira recebeu o impacto direto das ondas sísmicas por
estar localizado exatamente em frente à falha de San Sebastián, onde se
encontram as placas tectônicas do Caribe e Sul-Americana, que se deslocam
lentamente em direções opostas.
A falha
se estende pelo fundo do mar, de oeste a leste, quase paralelamente ao litoral.
Foi
justamente nessa região, muito próxima da costa, que a ruptura do sistema de
falhas provocada pelo terremoto duplo causou os maiores danos."O terremoto
duplo reuniu todas as características para provocar uma grande tragédia em
qualquer parte do mundo", afirma Rafael Abreu, geofísico do Serviço
Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), em entrevista à BBC
News Mundo.
Segundo
Abreu, o terremoto teve alta magnitude, longa duração, pouca profundidade e uma
ruptura, ou deslizamento horizontal, com características que tornaram o
terremoto ainda mais destrutivo.
José
María de Viana, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés
Bello, na Venezuela, explica que o maior impacto do segundo terremoto ocorreu
em frente ao litoral de La Guaira, segundo estudos técnicos do Instituto
Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália e do USGS. "Isso nos ajuda
a entender por que a devastação foi tão excepcional ali", afirma. "O
impacto foi direto e certeiro."
Segundo
Viana, o estudo italiano concluiu que o deslizamento da falha atingiu um
deslocamento máximo de 3,6 metros no leito marinho, imediatamente ao norte da
cidade de Catia La Mar, em La Guaira, uma das localidades mais afetadas pela
tragédia.
Em
outras áreas, o deslocamento da falha foi de apenas alguns centímetros, explica
Sergio Barrientos, diretor do Centro Sismológico Nacional da Universidade do
Chile. "A falha não se desloca da mesma forma em toda a sua
extensão", afirma, se referindo ao fenômeno que explica por que os efeitos
do terremoto variam de uma região para outra.
Nas
áreas onde a ruptura é maior, diz Barrientos, "as ondas sísmicas são mais
intensas e têm maior amplitude, mesmo que o epicentro tenha sido em outro
lugar".
>>>>
2. Características do solo
Além do
poder destrutivo do terremoto duplo, os prédios desabaram por causa do tipo de
solo ou por falhas na construção? Essa é a principal pergunta feita por muitos
especialistas e, como costuma acontecer, não há uma única resposta.
"Nem
todos os solos de La Guaira são iguais", afirma Michael Schmitz, professor
de geofísica da Universidade Simón Bolívar e da Universidade Central da
Venezuela.
Segundo
Schmitz, há áreas específicas do estado, como a cidade de Caraballeda, onde
existe uma bacia sedimentar com cerca de 400 metros de profundidade e onde o
solo mais macio contribuiu para os desabamentos.
Em
outras áreas, como Catia La Mar, cidade turística que hoje lembra uma zona de
guerra, o solo é predominantemente formado por rochas de dureza intermediária.
Há
regiões de La Guaira assentadas sobre leques aluviais que acumularam camadas
pouco espessas de sedimentos mais macios, afirma Viana. Segundo ele, esses
solos sedimentares "funcionaram como um filtro que amplificou de forma
brutal o movimento do terreno".
Ruth
Quereguán, pesquisadora da Escola de Geologia, Minas e Geofísica da
Universidade Central da Venezuela, percorreu Catia La Mar e a região no entorno
do Aeroporto Internacional de Maiquetía, em La Guaira.
"Vi
tanta ou mais devastação do que nos deslizamentos", afirma Quereguán,
referindo-se à tragédia provocada pelos deslizamentos de terra na serra de El
Ávila, em dezembro de 1999.
Esses
deslizamentos atingiram diretamente La Guaira, que na época se chamava estado
de Vargas. Quase três décadas depois, a mesma região voltou a ser palco de um
terremoto duplo. Segundo a pesquisadora, "são dois fenômenos que se
sobrepõem".
Em La
Guaira há muitos terrenos parcialmente consolidados em consequência dos
deslizamentos, ou seja, áreas formadas por sedimentos de resistência
intermediária. Segundo Quereguán, esses solos sedimentares podem ter
contribuído para o colapso dos prédios. "Muitas respostas só virão quando
tivermos mais dados disponíveis."
Os
pesquisadores também investigam a possibilidade de que o terremoto duplo tenha
sido, na verdade, um terremoto triplo.
>>>>
3. A qualidade das construções
Sobre a
qualidade das edificações, Quereguán afirma que, após os deslizamentos de terra
de 1999 em El Ávila, parte dos imóveis que havia sido parcialmente danificada
foi reconstruída. O problema, segundo ela, é que os especialistas não sabem se
foram verificadas as autorizações de ocupação, as licenças de construção ou os
materiais utilizados nas obras. "Em alguns casos, certamente houve
negligência", afirma.
Também
há dúvidas sobre os prédios construídos depois dos deslizamentos. Segundo a
pesquisadora, não há certeza de que tenham sido realizados, por exemplo, os
estudos de solo exigidos para as novas construções. "Não sabemos se a
norma adotada depois do terremoto de 1967 foi cumprida", acrescenta
Quereguán. A norma que regulamenta as construções resistentes a terremotos,
atualizada diversas vezes ao longo dos anos, entrou em vigor no início da
década de 1970.
É
provável que parte das construções em La Guaira não tenha seguido essas normas,
afirma a pesquisadora. "É aí que entram a negligência e a corrupção. E,
nesse sentido, não dá para esconder o problema." Ainda assim, ela ressalta
que é preciso esperar as conclusões dos especialistas.
Por
enquanto, integrantes de equipes de emergência que viajaram de outros países
para ajudar nos trabalhos de resgate e remoção de escombros afirmam ter se
surpreendido com o uso de materiais de construção que consideram
"inadequados".
Um
deles, que pediu para não ser identificado, relatou que encontrou, em um prédio
de La Guaira, vigas feitas de um material leve que pode ser quebrado com as
mãos (tecnicamente, poliestireno expandido) recobertas por uma camada de
concreto de apenas alguns centímetros. Ele também encontrou pilares sem barras
de aço em seu interior.
Os
estudos técnicos que vierem a ser publicados após a tragédia em La Guaira
provavelmente trarão evidências que ajudarão a esclarecer, com maior precisão,
o que aconteceu com o solo e as edificações.
Fonte: Por
David Fonseca, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/BBC
News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário