sábado, 4 de julho de 2026


 

Venezuela: O risco de ocupação sutil após o terremoto

A Venezuela declarou estado de emergência após os fortes terremotos do último dia 24 de junho, que provocaram o colapso de inúmeros edifícios em diferentes regiões do país, deixando um trágico saldo de pelo menos 1.943 mortos e cerca de 10 mil feridos (até a data de publicação deste artigo).

Diante da magnitude da tragédia, vários países manifestaram solidariedade ao povo venezuelano e começaram a coordenar, com a maior rapidez possível, o envio de suprimentos e equipamentos de resgate para as áreas mais afetadas. Sem perder tempo, o governo venezuelano organizou as operações de busca e salvamento, contando com a participação de contingentes internacionais.

<><> Uma década de sanções dificulta a resposta ao desastre

O vice-ministro de Política Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, informou em maio que o país foi alvo de 1.088 medidas coercitivas unilaterais nos últimos 11 anos, das quais 1.040 permanecem ativas. Desde 2015, Washington impôs mais de mil sanções econômicas que dificultam severamente a aquisição de medicamentos — situação que se torna crítica, uma vez que vários hospitais estão lotados devido ao grande número de feridos.

Essas sanções norte-americanas, somadas à crise econômica decorrente, atrapalham os trabalhos de resgate. As equipes de emergência precisam remover escombros e procurar sobreviventes com recursos bastante limitados, o que reduz drasticamente o tempo disponível para encontrá-los com vida. A situação se agravou ainda mais devido aos apagões em massa em grande parte do país, que também interromperam as telecomunicações, deixando milhares de venezuelanos no exterior sem possibilidade de se comunicar com suas famílias.

Essa realidade vulnerável foi propiciada pelas sanções e pela política agressiva de Washington. Durante anos, o governo venezuelano operou sob um asfixiante bloqueio que diminuiu sua capacidade de fornecer ou produzir os materiais necessários para enfrentar desastres naturais dessa magnitude. Washington estava ciente da escassez de insumos médicos no país; por isso, um dos primeiros envios dos EUA após o sequestro de Nicolás Maduro consistiu em 65 toneladas de suprimentos médicos, o que representa um reconhecimento não oficial do impacto de suas próprias sanções. Esse impacto direto também se evidencia nas estações de monitoramento e pesquisa sísmica da Venezuela, cujas restrições financeiras impediram sua atualização tecnológica, forçando o governo a fechá-las parcialmente.

<><> Washington tenta limpar sua reputação

Após os terremotos de 24 de junho, os Estados Unidos afirmaram estar em contato com as autoridades venezuelanas e mobilizando assistência para a nação sul-americana, historicamente afetada pelo embargo de Washington. Donald Trump foi um dos primeiros líderes a prometer apoio: “Os EUA estão prontos, dispostos e aptos a ajudar. Estaremos lá para nossos novos e grandes amigos”.

Da mesma forma, o governo estadunidense emitiu a Licença Geral 60 do OFAC, uma autorização temporária válida até 23 de outubro de 2026 que permite processar transações vinculadas à assistência humanitária para os desabrigados. Embora pareça uma medida positiva, ela não resolve o obstáculo de fundo. O economista Francisco Rodríguez explica que essas licenças limitadas são insuficientes para que os recursos fluam com rapidez, já que muitas instituições financeiras internacionais continuam bloqueando ou atrasando as operações por receio de violar o regime geral de sanções.

Por outro lado, os Estados Unidos enviaram um contingente considerável de socorristas para se somar às tarefas de salvamento, e diversos veículos de imprensa divulgaram imagens dessas equipes trabalhando lado a lado com o pessoal venezuelano.

Ao mesmo tempo, Trump gerou polêmica ao declarar que os venezuelanos estão felizes e continuam dançando nas ruas após os terremotos. Isso sugere que, fiel à linha geopolítica tradicional de Washington, o desastre pode ser instrumentalizado para expandir sua influência na Venezuela e melhorar sua imagem junto a certos setores do chavismo.

Os venezuelanos devemos lembrar sempre que qualquer desastre ou tragédia é passageiro. Uma pequena ajuda por parte de um inimigo que só busca se apoderar de nossos recursos naturais não pode apagar o duro passado de sanções e guerra política. Além disso, nunca esqueceremos que os próprios norte-americanos invadiram a Venezuela em 3 de janeiro de 2026 para sequestrar o presidente legítimo, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O resultado foi a morte de 32 militares cubanos e 47 militares venezuelanos.

Na história contemporânea do país existe um precedente: em 1999, após os deslizamentos de terra no estado de Vargas (hoje La Guaira), o então presidente Hugo Chávez recusou a ajuda norte-americana e o país conseguiu se recuperar por meios próprios. Atualmente, os terremotos podem abrir a porta para um maior investimento direto dos EUA em infraestruturas-chave, como água potável e a reconstrução geral; no entanto, sob essa perspectiva, isso poderia acarretar graves perdas de soberania nacional.

<><> Ameaça percebida pela presença militar norte-americana na Venezuela

Washington já deslocou mais de 900 efetivos em território venezuelano. O curioso é que os “socorristas” norte-americanos contam com equipamentos típicos das forças especiais, como óculos de visão noturna. Embora se possa supor que esses visores incluam tecnologia térmica para facilitar o resgate, ainda não foi divulgado nenhum vídeo que comprove seu uso por parte dos militares norte-americanos. Isso é o que se conhece como uma “invasão silenciosa”, um campo no qual Washington se move como um jogador profissional.

Qual seria sua possível estratégia? Na verdade, é bastante simples. Limpar os escombros e reconstruir o país por completo pode levar meses ou até anos; durante todo esse tempo, Washington se encarregaria de divulgar vídeos que mostrem o trabalho humanitário de seus socorristas. Paralelamente, pressionariam o governo venezuelano para que convidasse sismólogos e engenheiros sísmicos norte-americanos para os centros científicos locais, sob o pretexto de organizar uma colaboração conjunta.

O passo final seria estabelecer na Venezuela um centro conjunto de estudos sísmicos, integrado por membros do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE). Dado que o USACE é responsável por gerenciar e projetar infraestrutura crítica — como vias navegáveis, portos, barragens e projetos de mitigação de desastres —, a justificativa estaria pronta. É claro que a segurança dessas instalações ficaria a cargo de militares das forças especiais. Dessa forma, Washington conseguiria fundar, de maneira sutil, uma base militar em território venezuelano.

Ao demonstrar a vantagem da presença norte-americana no país, a Casa Branca proporia a Caracas o deslocamento de seus militares no âmbito da iniciativa Escudo das Américas. Uma presença militar permanente não só permitiria monitorar melhor a situação interna, mas também prevenir ameaças contra os interesses nacionais de Washington. Em última instância, o objetivo geral da Casa Branca é desmantelar a ideologia do chavismo para consolidar um aliado sob seu controle.

Por sua vez, a oposição venezuelana já deixou um exemplo eloquente de como funcionam os vínculos amistosos com Washington. Isso ficou evidente quando a líder opositora, María Corina Machado, viu-se obrigada a solicitar permissão da Casa Branca para retornar à Venezuela após os terremotos; um pedido que frustrou os altos funcionários estadunidenses, que finalmente não autorizaram seu regresso.

Os terremotos eventualmente passarão, mas suas repercussões políticas ameaçam perdurar. A assistência internacional, especialmente a dos Estados Unidos, não deveria se transformar, sob nenhuma hipótese, em uma ocupação militar, seja de caráter temporário ou permanente.

¨      3 razões para tantos prédios desabarem nos terremotos da Venezuela

Famílias inteiras ficaram soterradas sob escombros.

A devastação provocada pelos dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, que atingiram a Venezuela em 24/6 foi tão grande que muitos passaram a se perguntar por que tantos prédios desabaram, deixando milhares de mortos e feridos.

O deslocamento da placa tectônica Sul-Americana em relação à placa do Caribe provocou uma enorme liberação de energia nas profundezas da Terra que foi mais intensa em frente ao litoral norte da Venezuela, na região que passou a ser chamada de "marco zero" da tragédia: o estado de La Guaira.

Embora os epicentros dos dois terremotos tenham sido registrados no estado de Yaracuy, o primeiro perto de San Felipe e o segundo nas proximidades de Yumare, a ruptura na crosta terrestre foi tão extensa que as ondas sísmicas se propagaram até o litoral de La Guaira, onde passa a falha de San Sebastián, localizada no ponto de atrito entre as duas placas tectônicas.

Quantos prédios desabaram em La Guaira e por quê? A resposta ainda está sendo estudada, mas os cientistas já têm algumas pistas.

"Pode haver mais de 50 razões para um prédio desabar", afirma Feliciano de Santis, presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Entre elas estão o impacto das ondas sísmicas dos dois terremotos, um terremoto duplo registrado no país apenas uma vez antes, em 1812, e a proximidade de La Guaira da área onde houve uma enorme liberação de energia sísmica.

Também contribuíram o tipo de solo, a ressonância nos prédios e irregularidades nas construções, afirma De Santis.

O governo, que declarou La Guaira zona de desastre, informou nesta semana que mais de 800 prédios sofreram danos em todo o país, a maioria deles em La Guaira. Já estimativas independentes, como a do Instituto de Pesquisa de Sistemas Ambientais (ESRI), apontam cerca de 900 construções danificadas.

A Nasa (agência espacial americana), por sua vez, fez uma estimativa preliminar indicando que cerca de 59 mil edificações em toda a Venezuela podem ter sofrido algum tipo de dano. Mas a projeção é apenas indicativa e não inclui verificações em campo.

O que pode ter provocado o desabamento de tantas construções no litoral norte da Venezuela?

>>>> 1. O impacto direto das ondas sísmicas em La Guaira

O litoral do estado de La Guaira recebeu o impacto direto das ondas sísmicas por estar localizado exatamente em frente à falha de San Sebastián, onde se encontram as placas tectônicas do Caribe e Sul-Americana, que se deslocam lentamente em direções opostas.

A falha se estende pelo fundo do mar, de oeste a leste, quase paralelamente ao litoral.

Foi justamente nessa região, muito próxima da costa, que a ruptura do sistema de falhas provocada pelo terremoto duplo causou os maiores danos."O terremoto duplo reuniu todas as características para provocar uma grande tragédia em qualquer parte do mundo", afirma Rafael Abreu, geofísico do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Mundo.

Segundo Abreu, o terremoto teve alta magnitude, longa duração, pouca profundidade e uma ruptura, ou deslizamento horizontal, com características que tornaram o terremoto ainda mais destrutivo.

José María de Viana, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, explica que o maior impacto do segundo terremoto ocorreu em frente ao litoral de La Guaira, segundo estudos técnicos do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália e do USGS. "Isso nos ajuda a entender por que a devastação foi tão excepcional ali", afirma. "O impacto foi direto e certeiro."

Segundo Viana, o estudo italiano concluiu que o deslizamento da falha atingiu um deslocamento máximo de 3,6 metros no leito marinho, imediatamente ao norte da cidade de Catia La Mar, em La Guaira, uma das localidades mais afetadas pela tragédia.

Em outras áreas, o deslocamento da falha foi de apenas alguns centímetros, explica Sergio Barrientos, diretor do Centro Sismológico Nacional da Universidade do Chile. "A falha não se desloca da mesma forma em toda a sua extensão", afirma, se referindo ao fenômeno que explica por que os efeitos do terremoto variam de uma região para outra.

Nas áreas onde a ruptura é maior, diz Barrientos, "as ondas sísmicas são mais intensas e têm maior amplitude, mesmo que o epicentro tenha sido em outro lugar".

>>>> 2. Características do solo

Além do poder destrutivo do terremoto duplo, os prédios desabaram por causa do tipo de solo ou por falhas na construção? Essa é a principal pergunta feita por muitos especialistas e, como costuma acontecer, não há uma única resposta.

"Nem todos os solos de La Guaira são iguais", afirma Michael Schmitz, professor de geofísica da Universidade Simón Bolívar e da Universidade Central da Venezuela.

Segundo Schmitz, há áreas específicas do estado, como a cidade de Caraballeda, onde existe uma bacia sedimentar com cerca de 400 metros de profundidade e onde o solo mais macio contribuiu para os desabamentos.

Em outras áreas, como Catia La Mar, cidade turística que hoje lembra uma zona de guerra, o solo é predominantemente formado por rochas de dureza intermediária.

Há regiões de La Guaira assentadas sobre leques aluviais que acumularam camadas pouco espessas de sedimentos mais macios, afirma Viana. Segundo ele, esses solos sedimentares "funcionaram como um filtro que amplificou de forma brutal o movimento do terreno".

Ruth Quereguán, pesquisadora da Escola de Geologia, Minas e Geofísica da Universidade Central da Venezuela, percorreu Catia La Mar e a região no entorno do Aeroporto Internacional de Maiquetía, em La Guaira.

"Vi tanta ou mais devastação do que nos deslizamentos", afirma Quereguán, referindo-se à tragédia provocada pelos deslizamentos de terra na serra de El Ávila, em dezembro de 1999.

Esses deslizamentos atingiram diretamente La Guaira, que na época se chamava estado de Vargas. Quase três décadas depois, a mesma região voltou a ser palco de um terremoto duplo. Segundo a pesquisadora, "são dois fenômenos que se sobrepõem".

Em La Guaira há muitos terrenos parcialmente consolidados em consequência dos deslizamentos, ou seja, áreas formadas por sedimentos de resistência intermediária. Segundo Quereguán, esses solos sedimentares podem ter contribuído para o colapso dos prédios. "Muitas respostas só virão quando tivermos mais dados disponíveis."

Os pesquisadores também investigam a possibilidade de que o terremoto duplo tenha sido, na verdade, um terremoto triplo.

>>>> 3. A qualidade das construções

Sobre a qualidade das edificações, Quereguán afirma que, após os deslizamentos de terra de 1999 em El Ávila, parte dos imóveis que havia sido parcialmente danificada foi reconstruída. O problema, segundo ela, é que os especialistas não sabem se foram verificadas as autorizações de ocupação, as licenças de construção ou os materiais utilizados nas obras. "Em alguns casos, certamente houve negligência", afirma.

Também há dúvidas sobre os prédios construídos depois dos deslizamentos. Segundo a pesquisadora, não há certeza de que tenham sido realizados, por exemplo, os estudos de solo exigidos para as novas construções. "Não sabemos se a norma adotada depois do terremoto de 1967 foi cumprida", acrescenta Quereguán. A norma que regulamenta as construções resistentes a terremotos, atualizada diversas vezes ao longo dos anos, entrou em vigor no início da década de 1970.

É provável que parte das construções em La Guaira não tenha seguido essas normas, afirma a pesquisadora. "É aí que entram a negligência e a corrupção. E, nesse sentido, não dá para esconder o problema." Ainda assim, ela ressalta que é preciso esperar as conclusões dos especialistas.

Por enquanto, integrantes de equipes de emergência que viajaram de outros países para ajudar nos trabalhos de resgate e remoção de escombros afirmam ter se surpreendido com o uso de materiais de construção que consideram "inadequados".

Um deles, que pediu para não ser identificado, relatou que encontrou, em um prédio de La Guaira, vigas feitas de um material leve que pode ser quebrado com as mãos (tecnicamente, poliestireno expandido) recobertas por uma camada de concreto de apenas alguns centímetros. Ele também encontrou pilares sem barras de aço em seu interior.

Os estudos técnicos que vierem a ser publicados após a tragédia em La Guaira provavelmente trarão evidências que ajudarão a esclarecer, com maior precisão, o que aconteceu com o solo e as edificações.

 

Fonte: Por David Fonseca, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/BBC News Mundo


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