Sanção
dos EUA que associou brasileiro foragido ao PCC, 'prejudicou operação', acusa a
PF
A
Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (3/7) a Operação Exchange,
que apura lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas.
Victor
Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira estão
entre os 11 alvos de prisão temporária da PF. A BBC News Brasil apurou que
Stella Stefanie foi presa e Shimada está foragido.
Na
quarta-feira (1/7), ambos foram sancionados pelo governo de Donald Trump por
suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Além deles, as
empresas de Shimada também foram sancionadas.
A
Justiça autorizou a realização da operação no dia 2 de junho, mas houve
dificuldade em localizar todos os alvos. Ainda assim, segundo a PF, a sanção
americana causou prejuízo à operação, que teve de ser adiantada.
A
avaliação é que a decisão americana prejudicou a investigação brasileira,
porque soou como um alerta aos investigados.
"Não
houvesse essa designação, o desfecho seria outro… não localizamos (Shimada).
Houve um prejuízo à investigação", respondeu o diretor da PF, Andrei
Rodrigues, questionado pela BBC News Brasil durante um café com jornalistas na
sede da PF, em Brasília.
As
apurações da PF indicam que os investigados utilizavam um sistema estruturado
para a movimentação de recursos, por meio de transferências ilícitas de
criptomoedas, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas
e jurídicas e outras atividades financeiras.
Investigações
preliminares identificaram movimentações superiores a R$ 10 bilhões, de acordo
com a PF.
Shimada
foi condenado pela Justiça Federal no ano passado por lavagem de dinheiro e
furto qualificado mediante fraude eletrônica.
Ele foi
investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo em um
inquérito que apurou irregularidades no contrato de patrocínio entre o
Corinthians e a casa de apostas VaideBet.
As
investigações levaram à denúncia oferecida à Justiça no ano passado contra
Augusto Melo, ex-presidente do Corinthians, expulso do quadro associativo do
clube por suposta tentativa de golpe com o patrocínio da VaideBet ao time.
Melo
sempre negou as acusações.
Na
época, Victor Shimada foi incluído na denúncia e chegou a ser detido
provisoriamente por lavagem de dinheiro e furto qualificado. Segundo o
Ministério Público de São Paulo, ele teria lavado R$ 35 milhões por meio de
diversas contas em forma de criptomoeda.
No
inquérito policial, os investigadores destacaram a rotina de voos de Shimada,
que comprava bilhetes para diferentes destinos no mesmo dia da viagem.
Além
disso, os investigadores destacam que, durante a apuração, foi constatado que
Shimada possuía dois veículos, um Audi Q8 e um Porsche Taycan, valendo R$ 465
mil e R$ 593 mil, respectivamente. E que, em 2017, ele era dono de "dois
veículos de baixo valor de mercado": um Fiat Palio e um Ford Del Rey,
"indicando uma ascensão social acentuada entre os anos de 2017 e
2020".
A BBC
News Brasil entrou em contato com a defesa de Shimada, que afirmou, por meio de
nota, que tomou conhecimento, há instantes, da operação realizada pela Polícia
Federal. "Neste momento, entretanto, ainda não dispomos de acesso às
decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas
adotadas."
A
defesa também afirmou que "nesse contexto, qualquer manifestação sobre os
fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada. Tão logo tenha
acesso aos autos e às informações oficiais, a defesa realizará a análise
técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis."
A
defesa de Stella Stefanie não foi localizada.
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Suposto elo com o PCC
Todas
as empresas sancionadas pelos EUA na quarta-feira pertencem a Victor Shimada:
Victory Trading Intermediacão De Negocios Cobrancas E Tecnologia Ltda; Pixwave
Solucoes De Pagamentos Ltda; Wave Construcoes Inteligentes Ltda; Avenidas
Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal).
O
Departamento do Tesouro americano afirmou em nota que Shimada atuava "como
elo central" entre operadores do PCC na Flórida e traficantes
internacionais de drogas. E que ele teria lavado mais de US$ 30 milhões em
recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando
criptomoedas para remeter valores ao Brasil em nome do PCC.
Segundo
a nota, a rede de lavagem de dinheiro do PCC alvo da ação operava
principalmente na Flórida e em São Paulo.
O
Tesouro americano afirma que uma das empresas de Shimada, a Victory Trading
Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., "foi utilizada
para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de
fraude publicitária."
Já
Stella é apontada como "parente próxima e associada" de Shimada pelo
governo americano. Em seu nome, consta apenas uma empresa: a GP8 Pay.
Segundo
o Tesouro, Stella teria trabalhado como secretária de Shimada e atuado como
intermediária na coleta "de grandes quantias em dinheiro vivo, prestando
serviços logísticos fundamentais para as operações de lavagem de dinheiro
conduzidas pela rede."
Na
investigação realizada pelo MP e pela Polícia Civil, a fintech de Stella, a GP8
Pay, havia sido apontada pelos policiais brasileiros como sendo 98% de
propriedade de Shimada.
Ela não
aparece nas investigações brasileiras, que também não fazem relação com o PCC.
O
promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, que
investiga o PCC há décadas, afirmou à BBC News Brasil desconhecer essa suposta
relação dos sancionados com a facção criminosa.
"Desconheço
que esse casal ou essas empresas tenham envolvimento com o PCC, mas não tenho
conhecimento das investigações que o FBI e o DOJ [Departamento de Justiça dos
EUA] fizeram a partir de alvos ligados ao PCC em Miami. Aqui ele respondeu por
outros crimes, inclusive pelo caso da VaideBet e do Augusto do Corinthians. Mas
não consta que Victor ou a a Stella sejam ligados ao PCC."
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O que acontece com os sancionados pelo governo Trump?
As
sanções bloqueiam todos os bens e interesses em bens das pessoas e empresas que
estejam nos Estados Unidos ou sob posse ou controle de cidadãos ou empresas
americanas.
Além
disso, quaisquer entidades pertencentes, direta ou indiretamente, em 50% ou
mais, individualmente ou em conjunto, a uma ou mais pessoas bloqueadas também
ficam sujeitas a bloqueio.
As
regulamentações americanas geralmente proíbem qualquer transação realizada por
cidadãos ou empresas dos EUA — ou dentro do território americano — que envolva
bens ou interesses pertencentes a pessoas sancionadas.
O
Tesouro americano afirma que violações às sanções dos Estados Unidos podem
resultar em penalidades civis ou criminais para pessoas físicas e jurídicas,
tanto americanas quanto estrangeiras.
Pessoas
nos Estados Unidos ou no exterior que forneçam informações sobre violações de
sanções ao programa de denúncias da Rede de Combate a Crimes Financeiros
(FinCEN, na sigla em inglês) podem ser elegíveis a recompensas financeiras caso
as informações resultem em ações de fiscalização bem-sucedidas com multas
superiores a US$ 1 milhão.
No fim
de maio, os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas, medida que, para alguns analistas, pode trazer
consequências para empresas de diversos segmentos.
Pouco
depois, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla
em inglês) afirmou que prendeu o brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell
Aquilla e o apontou como comandante tanto do Primeiro Comando da Capital (PCC)
quanto do Comando Vermelho (CV).
No
entanto, investigadores da Polícia Federal (PF) que atuam no combate ao crime
organizado disseram à BBC News Brasil, em caráter reservado, que a indicação de
que Dell Aquila teria exercido cargos de liderança no PCC e no CV é considerada
inusitada.
Fonte:
BBC News Brasil

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