TariFlávio:
Michelle, naufrágio nas pesquisas e O Conto de Aia de Flávio Bolsonaro na carta
a Trump
Os
estudos da consciência nos mostram que tudo aquilo que expressamos, mesmo que
negativamente, povoa nossos pensamentos. Na carta enviada a Donald Trump,
tornada pública na última quinta-feira (2), Flávio Bolsonaro (PL) afirma que
“não vem suplicar por alívio” — “does not come to plead for relief” —,
revelando o desespero dentro da pré-campanha presidencial, que o mostra
derretendo nas pesquisas, pela exposição do machismo, da misoginia e de seu
projeto autoritário, atrelado aos interesses dos EUA e dos grandes grupos
transnacionais, que ganhou força com o vídeo-bomba da própria madrasta,
Michelle Bolsonaro (PL).
Ao
implorar por alívio a Trump, o filho “01” de Jair Bolsonaro expõe seu viés
entreguista ao oferecer o Brasil como quintal de Trump em troca do adiamento —
não da suspensão — do chamado Tariflávio até as eleições, que o faria derreter
definitivamente nas pesquisas de intenção de voto, que tenta censurar no
Brasil.
“As
pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do
governo em exercício se fortaleceu precisamente nos períodos em que a pressão
tarifária dos EUA esteve mais saliente. O levantamento nacional publicado mais
recentemente coloca o atual governante com 39% contra 29% do comentador [NR.:
como se refere a si na carta] em uma simulação de primeiro turno, com a
aprovação do governo subindo desde abril de 2026 e sua vantagem no segundo
turno aumentando”, confirma o senador.
A
declaração é parte do documento de 86 páginas endereçado ao Representante
Comercial dos Estados Unidos, USTR na sigla em inglês. A carta é um exemplo
histórico de como age a burguesia entreguista em períodos eleitorais e remete
ao golpe de 1964.
Nos
antecedentes do golpe militar, o então embaixador Lincoln Gordon enviou um
telegrama de Brasília pedindo ao governo dos EUA medidas para fornecer armas
clandestinamente e apoio com combustível aos militares golpistas liderados pelo
general Castello Branco.
“Tanto
eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser dado aos
golpistas para ajudar a impedir um grande desastre aqui – que pode transformar
o Brasil na China da década de 1960”, dizia a carta, datada de 27 de março de
1964, quatro dias antes do golpe, que levou o Brasil a mais de duas décadas de
Ditadura Militar.
A carta
de Gordon marca o início da chamada Operação Tio Sam, um plano de contingência
militar do governo Lyndon Johnson, que incluía o envio de uma frota naval e
apoio logístico para garantir a derrubada do presidente João Goulart caso
houvesse resistência militar. Nada diferente dos “bombardeios à Baía de
Guanabara”, suplicados por Flávio Bolsonaro a Donald Trump.
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Tariflávio, ataque às mulheres e o fator Michelle: O Conto de Aia bolsonarista
Cirurgicamente,
a carta de Flávio foi enviada ao governo Trump em meio ao derretimento nas
pesquisas, causado primeiramente pelo elo explícito com Daniel Vorcaro, do
banco Master.
Na
carta, o senador trata o caso como “a maior fraude bancária da história do
país” e mente ao dizer que “a investigação expôs uma teia de proximidade entre
o controlador do banco e o aparato governamental”, omitindo que ele próprio e
seu grupo político seriam os principais alvos da Polícia Federal, que apura
ainda a transferência de cerca de 10 milhões de dólares ao fundo Havengate,
administrado pelo advogado Paulo Calixto, que seria operador financeiro do clã
e uma espécie de tutor da vida de playboy de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Ao
áudio em que cobra Vorcaro e ao Tariflávio somou-se o fator Michelle. Com o
vídeo-bomba, a madrasta expôs o lado machista e autoritário do enteado, que
agora tenta estancar a sangria interna, com a debandada de cerca de 17% dos
bolsonaristas, segundo a pesquisa Atlas Bloomberg, que se colocam ao lado da
madrasta.
Após
isolar Michelle, Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto, presidente do PL,
deram um golpe no PL Mulher ao extinguir o comando nacional do movimento e
impedir que Priscila Costa, pivô da guerra entre madrasta e enteado em torno do
apoio a Ciro Gomes (PSDB), assumisse o posto deixado por Michelle.
O Conto
de Aia bolsonarista ganhou ares de antecipação de uma realidade futura desejada
pelo grupo político com a declaração de Paulo Figueiredo de que mulheres votam
mal, especialmente as solteiras, por não terem um marido para serem submissas.
Cerca
de 20 pontos atrás de Lula entre as mulheres, Flávio vê os recentes episódios
como definitivos para enterrar as aspirações de se criar no Brasil um regime
autoritário, religioso, masculinista e neofascista — ao melhor estilo Gilead, a
autocracia teocrática descrita pela escritora canadense Margaret Atwood no
livro que se tornou série.
Argumento
central da carta, o derretimento nas pesquisas mostra que a candidatura ungida
pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), da prisão, pode ser inviabilizada antes mesmo de
ser oficializada pelo partido.
“Um
instrumento destinado a pressionar o governo em exercício está, de forma
mensurável, fortalecendo-o. Uma pesquisa mostrando o governo visado ganhando
terreno no exato momento em que os Estados Unidos consideram impor tarifas ao
Brasil não é uma fraqueza no argumento — é a prova dele”, diz o senador ao
implorar a Trump que taxe o Brasil após as eleições.
Aos
moldes do embaixador Lincoln Gordon nos antecedentes do golpe de 1964, a carta
de Flávio Bolsonaro busca implantar uma nova Operação Tio Sam e é prova de sua
submissão aos interesses do sistema, atualmente comandado por Donald Trump, e
de um projeto de poder que sempre desejou colocar o Brasil de joelhos. Assim
como o senador quer fazer com as mulheres no país.
• Flávio não anexou o Estadão à carta
enviada aos EUA. Por Paulo Henrique Arantes
Ao
nominarem os envolvidos – muito, pouco ou nada – com Daniel Vorcaro, os
repórteres Daniel Weterman, Lucas Thaynan, Bruno Ponceano e William Brizola, do
Estadão, fornecem-nos um quadro didático da rede de propinas, negócios
comprometedores e encontros idem da seara do Banco Master. Bastante criativo o
termo “vorcarosfera” e, é verdade, ali estão listadas pessoas da direita e da
esquerda. Numa clara forçada de barra, Lula está presente, mas relata-se
corretamente que, em encontro com o presidente, o mafioso deu com os burros
n’água.
A
“vorcarosfera” do Estadão é útil pelo didatismo e a abrangência, desde que o
leitor possua os filtros necessários. Não foi consultada, certamente, por
Flávio Bolsonaro na carta recém-enviada ao Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR), na qual atesta seu entreguismo de várias
formas e forja uma estupenda mentira, bem ao estilo dos estrategistas da
extrema-direita global: classifica o escândalo do Master como um caso de
corrupção do governo Lula. Nem o maior dos imbecis americanos acredita nisso,
mas as bobagens da família golpista costumam ser compradas pelo valor de face
por trumpistas.
O
jornalão “liberal” do Limão deveria anexar-se à carta do filho-candidato, que
se encontra assim contemplado pela reportagem: “O senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, pediu dinheiro ao banqueiro
Daniel Vorcaro para bancar a produção de um filme sobre o pai. O pedido
envolveu uma contribuição de aproximadamente US$ 24 milhões, dos quais US$ 10,6
milhões, o equivalente a R$ 61 milhões na cotação da época, foram pagos até
2025. O parlamentar tinha conversas com Vorcaro pelo celular e visitou o
banqueiro em São Paulo após a primeira prisão do empresário, no fim de 2025”.
O
“escândalo do governo Lula”, vejam só, também tem como protagonista o senador
Ciro Nogueira, bolsonarista de quatro costados, cujas referências na matéria
não são muito lisonjeiras: “O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é investigado por
receber propina de Daniel Vorcaro em troca de defender interesses do banqueiro
no Congresso Nacional. Segundo a Polícia Federal, Nogueira recebia uma mesada
de R$ 300 mil de Vorcaro, que pode ter aumentado para R$ 500 mil, totalizando
R$ 6 milhões. O banqueiro afirmou, em sua segunda proposta de delação premiada,
que pagou propina ao parlamentar ao bancar bensses a ele, como viagens e
festas. Ciro Nogueira foi autor de uma emenda que favorecia o Master no Senado.
Material da Polícia Federal aponta que Nogueira esteve em viagens, festas e fez
negócios com Vorcaro, além de voar em aerovanes do empresário”.
Será
que o ex-ministro bolsonarista das Comunicações Fábio Faria é outra figura a
comprometer o “governo Lula” no caso Master? Assim ele está referido na
reportagem do Estadão: “Uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono
do Banco Master, fez negócios com o ex-ministro Fábio Faria na área de energia
eólica, pagando R$ 67,5 milhões por um projeto. Além disso, Faria atuava como
um ‘elo’ político para o empresário e foi responsável por apresentar Vorcaro
para outros políticos e autoridades em Brasília”.
Outro
que, indubitavelmente, não é figura proeminente do “governo Lula” é Fábio
Wajngartem: “O banco de Daniel Vorcaro pagou R$ 3,8 milhões para Fabio
Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência no governo
Bolsonaro. Ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à família Bolsonaro,
Wajngarten atuou como assessor direto e também advogado do ex-presidente em
algumas ações”.
Por
fim, restam evidentes as relações nada republicanas com Daniel Vorcaro de dois
governadores que são tudo, menos lulistas: Ibaneis Rocha, do Distrito Federal,
e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro. Assim o Estadão saúda-os:
Ibaneis:
“O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) foi o principal fiador
político da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), cercada
de fraudes, como mostram as investigações da Polícia Federal. Vorcaro confessou
à PF que se reuniu pessoalmente com Ibaneis para tratar da venda do Master para
o banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. O escritório do
ex-governador recebeu dinheiro de fundos ligados ao Master e à Reag. Ibaneis é
responsável pela indicação de Paulo Henrique Costa, suspeito de receber propina
de Vorcaro, na presidência do BRB. Em relação a Vorcaro, Ibaneis disse: ‘só me
pagou dois vinhos’”.
Castro:
“O governador do Rio Claudio Castro (PL) é investigado por usar o
Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio, para aplicar
recursos no Banco Master. As aplicações em fundos de investimentos ligados ao
Master chegam a R$ 3 bilhões segundo a Polícia Federal. Os investigadores
apontaram que Castro mantinha “vínculo próximo” e “alinhamento político” com o
banqueiro. Ele também é investigado por usar a estrutura do estado para
beneficiar o Grupo Refit, conglomerado do setor de combustíveis que é
considerado o maior sonegador de impostos do País. A investigação também aponta
encontros de Castro com Vorcaro”.
As
referências a figuras próximas a Lula na reportagem – como Guido Mantega,
Jaques Wagner e Ricardo Lewandowski- não são elogiosas. Porém, não se comparam
o grau de proximidade e a gravidade de seus atos suspeitos com os praticadas
pelos expoentes bolsonaristas, dos quais Daniel Vorcaro é “irmão”. A discussão
sobre o matiz político-partidário dos crimes liderados por Vorcaro é indecente,
dada sua nítida coloração bolsonarista e sua gênese, lá atrás, em quadros
técnicos corrompidos do Banco Central e do Banco de Brasília.
Há
ainda, na matéria do Estadão, entre várias outras pessoas / fatos que comporiam
a “vorcarosfera”, descrições corretas dos relacionamentos suspeitos entre o
mafioso e os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Nunes
Marques e Dias Toffoli, campo minado que merece ser cavoucado a fundo no
decurso das investigações.
• Tebet chama neto de ditador e assessor
de Flávio Bolsonaro de idiota
Simone
Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado por São
Paulo, chamou Paulo Figueiredo de “idiota” ao reagir à fala misógina do
bolsonarista sobre o voto feminino. Em vídeo publicado nas redes sociais, Tebet
disse que a declaração não é apenas grave, mas “gravíssima”.
Figueiredo,
neto do ditador João Figueiredo e aliado de Eduardo Bolsonaro, afirmou que
mulheres “votam mal”, especialmente as solteiras. A fala ampliou a crise no
entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato da extrema direita à
Presidência, e provocou reações de mulheres de diferentes campos políticos.
“Todo
mundo questionando e pedindo para que eu fale sobre esse vídeo asqueroso,
desse… não tem outro termo, né? Idiota, que é o braço direito do candidato à
Presidência da República, do lado de lá, a respeito do papel das mulheres na
sociedade”, afirmou Tebet.
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Tebet diz que fala de Paulo Figueiredo é “sinal vermelho”
No
vídeo, Tebet afirma que o ataque de Paulo Figueiredo ao voto das mulheres
revela uma tentativa de importar para o Brasil uma visão da extrema direita dos
Estados Unidos, segundo a qual apenas o “chefe de família”, identificado como o
marido, deveria ter centralidade política.
“Isso
não é grave, isso é gravíssimo! Não tem um sinalzinho amarelo levantado, tem um
sinal vermelho gritando”, disse a ex-ministra.
Tebet
afirmou que, ao dizer que mulher não sabe votar, Figueiredo tenta colocar as
mulheres em posição inferior. A ex-ministra relacionou a fala à defesa de um
modelo que pretende reduzir a participação feminina na democracia.
“Quando
ele diz que mulher não sabe votar, o que ele quer é trazer o modelo que está
crescendo nos Estados Unidos, da extrema direita, de que quem tem que votar,
numa democracia, é uma pessoa só, que é o chefe de família e que é a figura do
marido”, declarou.
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Simone Tebet cita trajetória contra barreiras às mulheres
A
pré-candidata ao Senado por São Paulo também citou sua própria trajetória
política para mostrar a dificuldade de mulheres ocuparem espaços de poder no
Brasil. Tebet lembrou que foi a primeira mulher prefeita de Três Lagoas, a
primeira vice-governadora de Mato Grosso do Sul, a primeira presidente da
Comissão de Constituição e Justiça do Senado e a primeira candidata à
Presidência do Senado em 200 anos de história da Casa.
Ela
também disse ter sido a primeira mulher de seu antigo partido a disputar a
Presidência da República e a primeira liderança da bancada feminina no Senado.
Para Tebet, a repetição dessas “primeiras vezes” mostra “o quanto é difícil
furar essa bolha”.
“Estão
querendo que a gente volte para dentro de casa. Voltar para dentro de casa é
uma opção da mulher. Das mais nobres: ser mãe, dona de casa”, afirmou.
Fonte:
Por Plínio Teodoro, na Fórum

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