sábado, 4 de julho de 2026

TariFlávio: Michelle, naufrágio nas pesquisas e O Conto de Aia de Flávio Bolsonaro na carta a Trump

Os estudos da consciência nos mostram que tudo aquilo que expressamos, mesmo que negativamente, povoa nossos pensamentos. Na carta enviada a Donald Trump, tornada pública na última quinta-feira (2), Flávio Bolsonaro (PL) afirma que “não vem suplicar por alívio” — “does not come to plead for relief” —, revelando o desespero dentro da pré-campanha presidencial, que o mostra derretendo nas pesquisas, pela exposição do machismo, da misoginia e de seu projeto autoritário, atrelado aos interesses dos EUA e dos grandes grupos transnacionais, que ganhou força com o vídeo-bomba da própria madrasta, Michelle Bolsonaro (PL).

Ao implorar por alívio a Trump, o filho “01” de Jair Bolsonaro expõe seu viés entreguista ao oferecer o Brasil como quintal de Trump em troca do adiamento — não da suspensão — do chamado Tariflávio até as eleições, que o faria derreter definitivamente nas pesquisas de intenção de voto, que tenta censurar no Brasil.

“As pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do governo em exercício se fortaleceu precisamente nos períodos em que a pressão tarifária dos EUA esteve mais saliente. O levantamento nacional publicado mais recentemente coloca o atual governante com 39% contra 29% do comentador [NR.: como se refere a si na carta] em uma simulação de primeiro turno, com a aprovação do governo subindo desde abril de 2026 e sua vantagem no segundo turno aumentando”, confirma o senador.

A declaração é parte do documento de 86 páginas endereçado ao Representante Comercial dos Estados Unidos, USTR na sigla em inglês. A carta é um exemplo histórico de como age a burguesia entreguista em períodos eleitorais e remete ao golpe de 1964.

Nos antecedentes do golpe militar, o então embaixador Lincoln Gordon enviou um telegrama de Brasília pedindo ao governo dos EUA medidas para fornecer armas clandestinamente e apoio com combustível aos militares golpistas liderados pelo general Castello Branco.

“Tanto eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser dado aos golpistas para ajudar a impedir um grande desastre aqui – que pode transformar o Brasil na China da década de 1960”, dizia a carta, datada de 27 de março de 1964, quatro dias antes do golpe, que levou o Brasil a mais de duas décadas de Ditadura Militar.

A carta de Gordon marca o início da chamada Operação Tio Sam, um plano de contingência militar do governo Lyndon Johnson, que incluía o envio de uma frota naval e apoio logístico para garantir a derrubada do presidente João Goulart caso houvesse resistência militar. Nada diferente dos “bombardeios à Baía de Guanabara”, suplicados por Flávio Bolsonaro a Donald Trump.

<><> Tariflávio, ataque às mulheres e o fator Michelle: O Conto de Aia bolsonarista

Cirurgicamente, a carta de Flávio foi enviada ao governo Trump em meio ao derretimento nas pesquisas, causado primeiramente pelo elo explícito com Daniel Vorcaro, do banco Master.

Na carta, o senador trata o caso como “a maior fraude bancária da história do país” e mente ao dizer que “a investigação expôs uma teia de proximidade entre o controlador do banco e o aparato governamental”, omitindo que ele próprio e seu grupo político seriam os principais alvos da Polícia Federal, que apura ainda a transferência de cerca de 10 milhões de dólares ao fundo Havengate, administrado pelo advogado Paulo Calixto, que seria operador financeiro do clã e uma espécie de tutor da vida de playboy de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

Ao áudio em que cobra Vorcaro e ao Tariflávio somou-se o fator Michelle. Com o vídeo-bomba, a madrasta expôs o lado machista e autoritário do enteado, que agora tenta estancar a sangria interna, com a debandada de cerca de 17% dos bolsonaristas, segundo a pesquisa Atlas Bloomberg, que se colocam ao lado da madrasta.

Após isolar Michelle, Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, deram um golpe no PL Mulher ao extinguir o comando nacional do movimento e impedir que Priscila Costa, pivô da guerra entre madrasta e enteado em torno do apoio a Ciro Gomes (PSDB), assumisse o posto deixado por Michelle.

O Conto de Aia bolsonarista ganhou ares de antecipação de uma realidade futura desejada pelo grupo político com a declaração de Paulo Figueiredo de que mulheres votam mal, especialmente as solteiras, por não terem um marido para serem submissas.

Cerca de 20 pontos atrás de Lula entre as mulheres, Flávio vê os recentes episódios como definitivos para enterrar as aspirações de se criar no Brasil um regime autoritário, religioso, masculinista e neofascista — ao melhor estilo Gilead, a autocracia teocrática descrita pela escritora canadense Margaret Atwood no livro que se tornou série.

Argumento central da carta, o derretimento nas pesquisas mostra que a candidatura ungida pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), da prisão, pode ser inviabilizada antes mesmo de ser oficializada pelo partido.

“Um instrumento destinado a pressionar o governo em exercício está, de forma mensurável, fortalecendo-o. Uma pesquisa mostrando o governo visado ganhando terreno no exato momento em que os Estados Unidos consideram impor tarifas ao Brasil não é uma fraqueza no argumento — é a prova dele”, diz o senador ao implorar a Trump que taxe o Brasil após as eleições.

Aos moldes do embaixador Lincoln Gordon nos antecedentes do golpe de 1964, a carta de Flávio Bolsonaro busca implantar uma nova Operação Tio Sam e é prova de sua submissão aos interesses do sistema, atualmente comandado por Donald Trump, e de um projeto de poder que sempre desejou colocar o Brasil de joelhos. Assim como o senador quer fazer com as mulheres no país.

•        Flávio não anexou o Estadão à carta enviada aos EUA. Por Paulo Henrique Arantes

Ao nominarem os envolvidos – muito, pouco ou nada – com Daniel Vorcaro, os repórteres Daniel Weterman, Lucas Thaynan, Bruno Ponceano e William Brizola, do Estadão, fornecem-nos um quadro didático da rede de propinas, negócios comprometedores e encontros idem da seara do Banco Master. Bastante criativo o termo “vorcarosfera” e, é verdade, ali estão listadas pessoas da direita e da esquerda. Numa clara forçada de barra, Lula está presente, mas relata-se corretamente que, em encontro com o presidente, o mafioso deu com os burros n’água.

A “vorcarosfera” do Estadão é útil pelo didatismo e a abrangência, desde que o leitor possua os filtros necessários. Não foi consultada, certamente, por Flávio Bolsonaro na carta recém-enviada ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), na qual atesta seu entreguismo de várias formas e forja uma estupenda mentira, bem ao estilo dos estrategistas da extrema-direita global: classifica o escândalo do Master como um caso de corrupção do governo Lula. Nem o maior dos imbecis americanos acredita nisso, mas as bobagens da família golpista costumam ser compradas pelo valor de face por trumpistas.

O jornalão “liberal” do Limão deveria anexar-se à carta do filho-candidato, que se encontra assim contemplado pela reportagem: “O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para bancar a produção de um filme sobre o pai. O pedido envolveu uma contribuição de aproximadamente US$ 24 milhões, dos quais US$ 10,6 milhões, o equivalente a R$ 61 milhões na cotação da época, foram pagos até 2025. O parlamentar tinha conversas com Vorcaro pelo celular e visitou o banqueiro em São Paulo após a primeira prisão do empresário, no fim de 2025”.

O “escândalo do governo Lula”, vejam só, também tem como protagonista o senador Ciro Nogueira, bolsonarista de quatro costados, cujas referências na matéria não são muito lisonjeiras: “O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é investigado por receber propina de Daniel Vorcaro em troca de defender interesses do banqueiro no Congresso Nacional. Segundo a Polícia Federal, Nogueira recebia uma mesada de R$ 300 mil de Vorcaro, que pode ter aumentado para R$ 500 mil, totalizando R$ 6 milhões. O banqueiro afirmou, em sua segunda proposta de delação premiada, que pagou propina ao parlamentar ao bancar bensses a ele, como viagens e festas. Ciro Nogueira foi autor de uma emenda que favorecia o Master no Senado. Material da Polícia Federal aponta que Nogueira esteve em viagens, festas e fez negócios com Vorcaro, além de voar em aerovanes do empresário”.

Será que o ex-ministro bolsonarista das Comunicações Fábio Faria é outra figura a comprometer o “governo Lula” no caso Master? Assim ele está referido na reportagem do Estadão: “Uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, fez negócios com o ex-ministro Fábio Faria na área de energia eólica, pagando R$ 67,5 milhões por um projeto. Além disso, Faria atuava como um ‘elo’ político para o empresário e foi responsável por apresentar Vorcaro para outros políticos e autoridades em Brasília”.

Outro que, indubitavelmente, não é figura proeminente do “governo Lula” é Fábio Wajngartem: “O banco de Daniel Vorcaro pagou R$ 3,8 milhões para Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência no governo Bolsonaro. Ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à família Bolsonaro, Wajngarten atuou como assessor direto e também advogado do ex-presidente em algumas ações”.

Por fim, restam evidentes as relações nada republicanas com Daniel Vorcaro de dois governadores que são tudo, menos lulistas: Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro. Assim o Estadão saúda-os:

Ibaneis: “O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) foi o principal fiador político da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), cercada de fraudes, como mostram as investigações da Polícia Federal. Vorcaro confessou à PF que se reuniu pessoalmente com Ibaneis para tratar da venda do Master para o banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. O escritório do ex-governador recebeu dinheiro de fundos ligados ao Master e à Reag. Ibaneis é responsável pela indicação de Paulo Henrique Costa, suspeito de receber propina de Vorcaro, na presidência do BRB. Em relação a Vorcaro, Ibaneis disse: ‘só me pagou dois vinhos’”.

Castro: “O governador do Rio Claudio Castro (PL) é investigado por usar o Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio, para aplicar recursos no Banco Master. As aplicações em fundos de investimentos ligados ao Master chegam a R$ 3 bilhões segundo a Polícia Federal. Os investigadores apontaram que Castro mantinha “vínculo próximo” e “alinhamento político” com o banqueiro. Ele também é investigado por usar a estrutura do estado para beneficiar o Grupo Refit, conglomerado do setor de combustíveis que é considerado o maior sonegador de impostos do País. A investigação também aponta encontros de Castro com Vorcaro”.

As referências a figuras próximas a Lula na reportagem – como Guido Mantega, Jaques Wagner e Ricardo Lewandowski- não são elogiosas. Porém, não se comparam o grau de proximidade e a gravidade de seus atos suspeitos com os praticadas pelos expoentes bolsonaristas, dos quais Daniel Vorcaro é “irmão”. A discussão sobre o matiz político-partidário dos crimes liderados por Vorcaro é indecente, dada sua nítida coloração bolsonarista e sua gênese, lá atrás, em quadros técnicos corrompidos do Banco Central e do Banco de Brasília.

Há ainda, na matéria do Estadão, entre várias outras pessoas / fatos que comporiam a “vorcarosfera”, descrições corretas dos relacionamentos suspeitos entre o mafioso e os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Nunes Marques e Dias Toffoli, campo minado que merece ser cavoucado a fundo no decurso das investigações.

•        Tebet chama neto de ditador e assessor de Flávio Bolsonaro de idiota

Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado por São Paulo, chamou Paulo Figueiredo de “idiota” ao reagir à fala misógina do bolsonarista sobre o voto feminino. Em vídeo publicado nas redes sociais, Tebet disse que a declaração não é apenas grave, mas “gravíssima”.

Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo e aliado de Eduardo Bolsonaro, afirmou que mulheres “votam mal”, especialmente as solteiras. A fala ampliou a crise no entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato da extrema direita à Presidência, e provocou reações de mulheres de diferentes campos políticos.

“Todo mundo questionando e pedindo para que eu fale sobre esse vídeo asqueroso, desse… não tem outro termo, né? Idiota, que é o braço direito do candidato à Presidência da República, do lado de lá, a respeito do papel das mulheres na sociedade”, afirmou Tebet.

<><> Tebet diz que fala de Paulo Figueiredo é “sinal vermelho”

No vídeo, Tebet afirma que o ataque de Paulo Figueiredo ao voto das mulheres revela uma tentativa de importar para o Brasil uma visão da extrema direita dos Estados Unidos, segundo a qual apenas o “chefe de família”, identificado como o marido, deveria ter centralidade política.

“Isso não é grave, isso é gravíssimo! Não tem um sinalzinho amarelo levantado, tem um sinal vermelho gritando”, disse a ex-ministra.

Tebet afirmou que, ao dizer que mulher não sabe votar, Figueiredo tenta colocar as mulheres em posição inferior. A ex-ministra relacionou a fala à defesa de um modelo que pretende reduzir a participação feminina na democracia.

“Quando ele diz que mulher não sabe votar, o que ele quer é trazer o modelo que está crescendo nos Estados Unidos, da extrema direita, de que quem tem que votar, numa democracia, é uma pessoa só, que é o chefe de família e que é a figura do marido”, declarou.

<><> Simone Tebet cita trajetória contra barreiras às mulheres

A pré-candidata ao Senado por São Paulo também citou sua própria trajetória política para mostrar a dificuldade de mulheres ocuparem espaços de poder no Brasil. Tebet lembrou que foi a primeira mulher prefeita de Três Lagoas, a primeira vice-governadora de Mato Grosso do Sul, a primeira presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado e a primeira candidata à Presidência do Senado em 200 anos de história da Casa.

Ela também disse ter sido a primeira mulher de seu antigo partido a disputar a Presidência da República e a primeira liderança da bancada feminina no Senado. Para Tebet, a repetição dessas “primeiras vezes” mostra “o quanto é difícil furar essa bolha”.

“Estão querendo que a gente volte para dentro de casa. Voltar para dentro de casa é uma opção da mulher. Das mais nobres: ser mãe, dona de casa”, afirmou.

 

Fonte: Por Plínio Teodoro, na Fórum

 

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